Desde o Natal do ano anterior vínhamos ouvindo no noticiário, sem dar muita importância, sobre uma estranha doença, que matava pessoas de pneumonia, em uma remota província da China. Ainda estava claro em nossas lembranças, aquela síndrome estranha que tinha vitimado
consumidores de cerveja, em Minas Gerais, então, a doença da China, acabaria se resolvendo por lá. O desenrolar da história todos já sabem.
No final de janeiro, eu e meu marido fizemos um cruzeiro maravilhoso, que passou pelo litoral brasileiro até Salvador e voltou. Foram sete dias encantados e nós comemorávamos nosso aniversário de casamento. A chegada foi tranquila, mesmo com o estranhamento daquelas pessoas usando máscaras, no porto de Santos.
Dois dias se passaram e eu dei entrada num hospital, não com gripe, mas com um nada glamouroso nó nas tripas, ou um mais elegante volvo intestinal. Cirurgia de emergência. No hospital, nenhum movimento que indicasse a preocupação com o tal vírus da China, que já se alastrava pela Itália e chegava a outras partes da Europa. Enquanto eu me recuperava em casa, as notícias passaram a se tornar mais preocupantes.
Logo eu estava bem para voltar ao meu atelier e às aulas de arte. Depois do Carnaval, minhas meninas de aquarela tiveram sua primeira aula do ano. Já nos preocupávamos em nos cumprimentar à distância. Na semana seguinte, todas as aulas foram canceladas e o atelier foi fechado por tempo indeterminado.
Eu já estava, há mais de um mês, em “confinamento”, para me recuperar da cirurgia, quando tudo foi fechado e o tempo parou. Parou para nós, os confinados. Para o Coronavírus, houve uma crescente a galope. Chamado de COVID-19, para distingui-la de outros coronavírus, essa doença trouxe uma aura de Surrealismo ao nosso cotidiano. Que cotidiano?
O isolamento social, voluntário para a maioria, tornou-se obrigatório em meados de março. O comércio fechou, incluindo os grandes Shopping Centers, as escolas fecharam, as academias de ginástica, os clubes e os restaurantes fecharam. As pessoas passaram a trabalhar em casa, ou melhor, os que podiam. Só ficaram em funcionamento, os serviços essenciais. Para uma crise econômica que já estava ruim, tudo piorou. Porém, um mal necessário, já que a opção era imensamente pior.
As ruas ficaram desertas enquanto os dias comuns, nos centros urbanos, lembravam domingos.
Agora estamos no começo de abril, ler jornais e assistir noticiários na televisão tornaram-se tortura. O número de contaminados aumenta, assim como o de vítimas fatais. Para piorar, estamos em um país em que um ser desprezível ocupa a presidência e faz tudo para sabotar as medidas de contenção do vírus. Parece que virou até chacota internacional. Será que a história irá perdoá-lo?
Estamos longe dos filhos e netos, a saudade dói. Meus sogros têm mais de oitenta anos e estão isolados. Nós estamos autoconfinados, pois optamos por poder assessorá-los. A cada dia que passa, uma sensação nublada desce sobre nós, por mais que o sol brilhe.
Por nós, por nossos filhos, por nossos netos e nossos avós e pais, por você, estamos confinados. Criamos uma rotina para lidarmos com o isolamento e seguiremos firmes no nosso propósito. Pelo bem comum.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

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