Dias atrás, minha amiga Adriana Chebabi me pediu para escrever um texto para o site Belas Urbanas: das outras vezes, disse que não tinha tempo, dessa vez, em plena quarentena, seria impossível dar essa resposta, porém informei que estava triste e até com raiva de tudo que estava acontecendo, da falta de consciência do povo em relação ao Covid e pedi para ela esperar um pouco, pois senão o texto sairia meio ácido. Ontem, no entanto, aconteceu algo que acho que deveria ser contato para vocês, leitores do Belas.
Comecei a quarentena sozinho, mas no 9º dia liguei para os meus pais e vi que, por alguns motivos não legais de lembrar e nem de falar por aqui, eles não estariam seguros no sítio deles. Eu os trouxe então para cá e, a partir disso, redobrei o cuidado com tudo, pois eles são idosos (meu pai tem 80 e minha mãe, 78). Antes de ontem, vimos que estavam já faltando alguns itens de alimentação. Tenho evitado ao máximo sair, mas pensei: dessa vez, não vai ter jeito. Comecei a pensar em mercados que me expusessem menos ao risco: hipermercado nem pensar, o mercadinho aqui perto de casa tinha fechado às 13h, lembrei-me, então, de um de médio porte a 3 km da minha casa. Liguei para lá e vi que funcionaria até as 22h. Ótimo: vou às 21h30 e não vai ter ninguém. À tarde, começou a chover: PERFEITO! Não vai parar de chover e vai ter menos gente ainda, e tudo deu certo, principalmente porque a chuva foi até as 21h15, comemorei de alegria! Desci na garagem acompanhado de minha fiel escudeira, a cachorra Lau: sempre que saio de carro, eu a levo, pois ela fica “P” da vida se não for junto passear.
Chegamos ao mercado, estava do jeito que eu queria, pois não tinha vivalma, fora os funcionários. Parece loucura, né, mas para entrar e sair bem rápido, eu mal escolhia os itens ou pesquisava preços: quanto menos ficasse ali, menos exposto ao vírus estaria. Na hora de pagar, foi a consagração: tinha dois caixas e ambos vazios, corri no mais perto, passei as compras (me espantei com o total hahaha) e corri em direção ao carro. Quando me aproximava dele, ouvi ao longe uma voz muito dissonante e não entendi o que era: com a visão de canto de olho, vi que tinha alguém parado num poste, deve ser um mendigo ou casqueiro (usuário de crack) – nesse mercado geralmente tem alguém assim. Nem dei atenção porque sabia o que ele queria. Na verdade, a minha pressa de ir embora e as medidas de proteção que pedem para seguirmos me impediram de ser mais atencioso com ele.
Abri o porta malas, a Lau pulou lá de dentro para seu rolezinho costumeiro e comecei a colocar as compras rapidamente. Quando vi, a mesma voz dissonante estava bem mais perto, não entendia nada e me mantive de cabeça baixa e velozmente guardando as compras. Quando terminei, tinha que levar o carrinho de volta e aí não teria escapatória: teria que encarar o dono da voz. Quando o fiz, me deparei com um sujeito maltrapilho com uma cicatriz de cirurgia de lábio leporino bem pronunciada e com uma deformação severa em uma de suas narinas. Quando eu era criança, minha mãe me falava: “Toda vez que você vir alguém com algum defeito físico, não encare, não aponte e principalmente não pergunte o que foi”. Entendi porque sua voz era tão incompreensível e aí me desarmei. Putz, como deve estar difícil a vida desse cidadão! Perguntei o que ele queria e ele, mais devagar e com mímicas, deu a entender que queria apenas uma moeda. Fui para o console do carro, onde ficam as moedas, e vi que tinha algumas, mas a frase da minha mãe e a atual situação me fizeram pensar: Poxa, o que custa dar algo a mais para esse cidadão? Eu costumo dar moedas a quem me pede, não me importa o que a pessoa fará, eu sei que sempre recebo em troca um sorriso e um agradecimento sincero, sem falar que antes de dar as moedas, eu brinco um pouco com a pessoa, acho que é o fato de ser artista, palhaço, brincalhão por natureza, então peguei minha carteira e vi que tinham, separadinhas, várias notas de R$ 2,00. Eu me virei orgulhoso e entreguei: quando ele viu aquele montinho de dinheiro, me olhou bem nos olhos e, em fração de segundos, me deu UM ENORME E CALOROSO abraço. No meio do abraço, pensei : “Affff Maria”, lá se foram todas as precauções que tive! Ele terminou o abraço pegou minha mão direita com as suas duas mãos e fez um discurso de agradecimento. E eu, “Afff Maria” de novo, tá piorando! Terminando seu discurso, ele foi saindo todo feliz com seu dinheirinho e eu fiquei meio petrificado com tudo aquilo. Para aumentar meu desespero, ele viu a Lau, aí brincou com ela e perguntou se era minha. Quando eu disse que sim, lá vem ele de novo me contar do seu amor por cachorros, com toda a sua dificuldade de fonação e bem pertinho de mim. Coloquei a Lau para dentro do carro, ele aproveitou que tinha se aproximado para conversar sobre a cachorra e tascou-me mais um abração. E de novo fez uma loa de agradecimentos.
Muitas vezes, ajudei pessoas que pedem. Como disse, nem ligo o que elas farão com o dinheiro e, por vezes, fiz compras para esse pessoal. O que querem é só alguém que as olhe nos olhos, que converse com elas sem temor, querem ser ouvidas e isso eu sei que às vezes vale muito mais do que qualquer donativo material ou financeiro. Caridade nem sempre deve ser material.
Entrei no carro, olhei para a Lau que com a linguona de fora e olhar de: Ah! Relaxa! falei :

– Tá nas mãos de Deus! Dei uma buzinadinha e um sorriso para ele. Só fiquei chateado porque, ante o susto e o temor por essa situação do corona vírus, não fiz as costumeiras brincadeiras que faço com essas pessoas que tanto necessitam de atenção.

Hugo Vidal – Belo Urbano, é jornalista, ator e diretor há 29 anos, gosta muito de descobrir novas paisagens rodando com sua moto, aliás uma de suas paixões é o motociclimo. 

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