“A criança cala por medo. A criança cala por vergonha. A criança cala por não ter voz…”

Difícil pensar em tudo que uma menina de dez anos, submetida a estupros desde os seis pelas pessoas que deveriam cuidar dela, grávida e julgada pela hipocrisia da sociedade sofreu e ainda vai sofrer como consequência disso tudo. Mas uma questão que foi levantada por muitos “cidadãos de bem” tem me incomodado: Por que a criança não falou para ninguém?

Aos 10 anos de idade mais ou menos eu era uma menina muito curiosa. Os meninos da escola estavam naquela fase de começar a descobrir a sexualidade, sabe? Viviam desenhando “pintos” para tudo que é lado e eu achava aquilo bem engraçado, mas não entendia muito o que era aquele desenho feito a exaustão e sempre seguido de um risonho pelos amigos do sexo oposto. Dito isso, saibam que eu era a artista da turma.

Bom, para contextualizar deixa eu contar um pouquinho da minha minha infância. Meu pai (meu herói e ídolo) morreu quando eu tinha cinco anos e meio de idade. Minha mãe nunca mais se casou, mas eu bem que gostaria. Tinha sede por uma figura masculina na minha vida. Embora ela não tenha casado, tinha amigos de infância que frequentavam nossa casa e que também frequentávamos.

Um deles, que vou chamar de João, era tapeceiro de mão cheia e eu, a artistinha da casa tinha verdadeiro fascínio por tudo que tinha a ver com trabalhos manuais. Nem preciso dizer que ele era meu ser humano, do sexo oposto, de preferência! Ele era casado com a Rosa, uma moça aparentemente mais velha e muito doce que eu amava de paixão também.

Não nos víamos muito, porque a oficina ficava num bairro mais afastado, mas sempre que possível estávamos um na casa dos outros para um café, para mim era um Nescau mesmo, um bolo… os adultos conversavam e eu ficava maravilhada por orbitar esse universo. O João sempre me encantou mais porque era o que me dava atenção, me tratava quase como uma igual.

Pois bem, a oficina mudou para perto da minha casa. Na verdade no caminho entre minha casa e a escola e imagine minha felicidade porque agora eu podia parar para “tomar um café” sempre que estivesse passando por lá.

João estava prosperando e tinha uns três funcionários no seu pequeno paraíso (paraíso é por minha conta, porque era assim que eu enxergava aquela portinha cheia de tecidos, móveis desmontados e fedendo a curtume… coisas de criança) e todos eles me tratavam como uma mascote.

Um dia, eu passei por lá e João estava só. Entrei para nosso café com bolo usual e nossas conversas que até então era pra que serve essas taxinhas?, o que é um capitonê?, etc e tal...mas como eu disse, ele estava sozinho e, como eu disse lá em cima, eu andava sendo bombardeada pelos desenhos de “pinto” sem saber muito bem o que eram. A gente sentou nas banquetas em frente a bancada de trabalho. Eles tinham o hábito de rabiscar os projetos nas grandes pranchas de madeira e sempre tinha um lápis por ali. Eu, curiosa, perguntei por que aquele lápis tinha um formato diferente dos meus da escola (ele era quadrado, bem maior e escuro), João explicou e me deu o lápis na mão apontando a prancha de madeira e dizendo que eu podia testar. Lógico que desenhei um “pinto”! Na verdade algo bem rudimentar como duas bolinhas e um palito. Ele olhou e perguntou se eu sabia o que era aquilo. Eu balancei a cabeça e disse que achava que sim, mas não tinha certeza… foi nesse momento que meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ele pegou minha mão, uma mãozinha de uma menina mirrada de 10 anos de idade (vocês não imaginam o quanto eu era miúda nessa época, magrinha mesmo, uma varinha, nada que pudesse ter um apelo sexual) e colocou no pau dele. Um membro totalmente rígido. Puxei minha mão na hora num misto de medo, vergonha e sei lá o que. Ele ainda insistiu que eu poderia tocá- lo para saber como era um homem de verdade? Homem de verdade? Oi? Eu queria desaparecer dali, virar pó, ser engolida pelo chão, mas não consegui simplesmente sair correndo. Lembro de agradecer polidamente e dar uma desculpa para ir embora.

Cheguei em casa me sentindo suja, mal, nas não conseguia elaborar o que tinha acontecido. Eu sabia que era errado, mas eu tinha provocado aquilo! Não podia contar para minha mãe, porque, na minha cabeça, ela ia se zangar comigo, afinal, fui eu que fiz o desenho que levou aquela situação. Não podia contar pra Rosa, porque ela ia ficar triste e eu não queria que ela ficasse triste por algo que eu tinha causado.

A partir daquele dia, sempre que era para ir na casa deles eu inventa uma desculpa e sempre que eles iam em casa eu não mais queria participar ou, se participava, era grudada na minha mãe ou na Rosa. Minha mãe chegou a me perguntar por que eu não ia mais na tapeçaria, algo que ela só sabia porque o João tinha falado para ela que eu andava sumida. Eu não me lembro o que respondi, mas sei que a partir daí não fui mais questionada. Só sei que nunca contei e eles seguiram amigos até o fim da vida… se viam menos, eu, cheguei num momento que nunca mais os vi, mas essa história ficou pra mim. E para o abusador do João.

Por que eu não contei? Porque eu tinha vergonha… Porque eu achava que a culpa era minha… Porque eu não queria magoar os adultos… Porque eu queria proteger a Rosa… Porque eu só tinha 10 anos…

Porque não se falava dessas coisas…

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia

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