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Capítulo 1 – ROSANA

i. manhattan

Era uma noite fria…
Eu estava completamente só. Pelo vidro embaçado via tudo branquinho. Eu gosto de neve. Os pedacinhos caindo lenta e levemente, forrando o chão, clareando a paisagem. Não cai como lágrima, chuva ou confete colorido. Cai como neve. Silenciosa, branca, branca, branca.

Gostando ou não, está cedo demais para estender esse carpete de luz fria, é estranho ver tanta neve em Nova York no início de novembro. Também não existe nenhuma razão para eu não conseguir dormir, o Furacão Sandy já está bem longe, a temperatura aqui dentro marca perto de 26o Celsius e me sinto cansada, o que na teoria facilitaria o sono.
Reli a imensa lista de presentes de Natal que ainda tenho que comprar, são mais de vinte. Este ano vou ficar aqui e receber minha irmã e meu sobrinho mais velho. O Eduardo é meu grande amor, um menino reservado, diferente, uma fera com programas de computador. No dia de Natal ele vai fazer 18 anos e diz que virá morar comigo. Eu e a Roberta gostamos da ideia, mas vamos esperar para ver como vai ser em relação ao Doutor Klaus, o pai com quem ele mora desde pequeno.
‘Quase quatro e meia da manhã e eu aqui fazendo chazinho’ pensei enquanto me servia de um chá japonês chamado ‘Camellia Sinensis’, presente da Kristin. Nós saímos juntas algumas vezes nos últimos dois ou três meses, mas sabemos que não temos e nem teremos um relacionamento. Ela de fato é uma mulher interessante, eu é que não consigo passar da primeira pele, sou sempre muito superficial. Meu único mérito é reconhecer isso.
Peguei a xícara, o maço de cigarros e escolhi ouvir aleatoriamente o álbum de clássicos para ver se relaxava. A música sorteada não poderia ser mais linda ou triste, era a ‘Suite número 3 de Bach’.
Em uma explosão de TOC, alinhei em fila os meus quatro livros publicados com ensaios fotográficos e arrumei a Yashica FX-3/50mm que foi a primeira máquina da minha vida, eles ficam em cima de um baú de madeira maciça lotado de passado. Também endireitei a moldura vertical pendurada entre as janelas da sala com dez ‘selfies’ mal tiradas. Com as pernas empurrei o
divã de retalhos coloridos para perto de uma das janelas, acendi um cigarro e deitei confortavelmente olhando a neve cair, esperando o sono chegar.

Depois de quase vinte anos em Nova York eu posso me considerar uma pessoa realizada profissionalmente, estudei nos melhores institutos, ganhei dinheiro, fiz alguns trabalhos bárbaros, outros medíocres. Fotografei as modelos mais bem pagas, lindas e chatas do mundo até chegar aqui.
Meu único luxo é o apartamento onde moro no Soho. Amplo, tem o pé direito alto com quatro imensas janelas de vidro que vão do chão ao teto deixando à mostra as escadas de ferro externas. No andar de baixo fica o ‘Estúdio CaVVeg’ que divido com Alejandro Vega, fotógrafo espanhol que faz grande sucesso com ensaios de corpos nus.
Há mais ou menos dez anos ele chegou aos Estados Unidos com um visto de estudante. Bateu na porta do meu antigo estúdio em um dia de muita chuva dizendo que era meu fã.
– Você quer o que?
– Quero fotografar como você.
– Você quer me fotografar?
– Não! Quero aprender! – gritou tremendo de frio, com os olhos cheios de água da chuva e de choro. Tinha vinte aninhos o moleque.
Trazia na bolsa uma fotografia premiada num importantíssimo concurso internacional em Los Angeles no início dos anos 2000, era uma foto em preto e branco parte de um ensaio homoerótico que fiz para uma revista francesa. Um case consagrado em diversos países que ganhou destaque também na imprensa brasileira por meio de uma revista paulista que fez um encarte bárbaro e de certa forma apresentou o meu trabalho ao Brasil.
Naquele dia o Alejandro entrou no ateliê e nunca mais saiu da minha vida. Além de me auxiliar nas fotos, arrumou bicos em uma produtora de vídeos e aos domingos passou a utilizar o estúdio para fazer os seus sonhados ensaios nus.
Eu demorei a me acostumar com aquele entra e sai de gente pelada, mas ele mostrou que estava no caminho certo e o seu trabalho chamou a atenção ganhando prêmios de menor expressão. Fechou bons contratos, passou a andar com as próprias pernas e três anos depois de bater na minha porta não dependia mais de mim. Virou um grande fotógrafo, meu sócio e melhor amigo.
O engraçado neste ‘mundo redondo’ é que fiz pelo Alejandro exatamente o que um dia fizeram por mim, só que eu cruzei o caminho do polêmico Christopher Miller, fotógrafo nova-iorquino, hoje com quase sessenta anos. Na
época ele era um dos grandes nomes em fotografia de moda, amigo de Oliviero Toscani, participava das polêmicas campanhas da Benetton.
Encontrar o Miller foi como achar uma pérola no oceano. Eu o conheci por acaso pouco tempo depois de chegar em Nova York. Pisei no Aeroporto John F. Kennedy puxando duas malas imensas no dia 1o de janeiro. Saí do Brasil em 1993 e cheguei aos Estados Unidos em 1994 para uma nova vida, a outra tinha ‘acabado de acabar’. Naquele primeiro dia do ano eu vi neve pela primeira vez e a Rosana Nazaré Cavalcante deu lugar a Rose Caval.
O Miller foi meu professor de fotografia na Academia e ofereceu a oportunidade da minha vida. Contava pra todo mundo que tinha me contratado como estagiária por um simples e absurdo motivo: eu era morena e brasileira como a Sônia Braga. Dizia que conheceu sua musa anos antes, mas eu nunca soube se isso era verdade ou não.
Vinte e três anos, naturalmente morena com cabelos cacheados e longos, recém-saída do dourado verão baiano para contrastar com as caras brancas e pálidas do inverno nova-iorquino. Foi essa ‘Dona Flor’ que o Miller enxergou em mim, uma imagem bastante distorcida que acabou virando o meu Greencard.
Eu não desperdicei as chances que tive, andei ao lado do Miller e depois segui em frente, exatamente como aconteceu com o Alejandro. Por sorte, os dois se tornaram minha família.

ii. revés

Acordei no divã toda torta, amanhecia, a chuva batia contra as vidraças com força fazendo um barulho que competia com a música alta. Novamente tocava a ‘Suite número 3 de Bach’, não sei se por coincidência ou a música tinha se repetido sem parar. Eu estava suando, o chão molhado e a xícara de chá com a asa quebrada caída perto da janela. Desliguei o som angustiante lembrando apenas de ter deitado no divã sem sono algum. Olhei para a fileira de fotos penduradas entre as janelas e senti a ‘sombra da Isabel passeando pelo meu pelo’. Eu estava completamente arrepiada.
Recolhi os pedaços da xícara quebrada e fui buscar alguma coisa para limpar o chá japonês que escorria pelo chão da minha sala. Quando abaixei senti uma forte tontura, sentei no divã tentando me manter consciente, mas não sei se consegui. Vi cenas desconexas onde a Roberta chorava, depois sorria enquanto o Eduardo, ainda garotinho, brincava abraçando a mãe, passando por
baixo das suas pernas, rindo. Aí de repente não era a Roberta, era eu e as nossas imagens me confundiam.
Apertei o pano molhado contra o rosto sentindo uma náusea incontrolável. Corri para o banheiro já vomitando e sentei dentro da banheira com a água despencando em cima de mim, nem escutei o celular que tocava sem parar na mesinha da sala. Quando finalmente atendi, vi que o Alejandro ligava pela quinta vez seguida.
– Hello moleque… – falei amorosamente misturando idiomas como sempre fazemos.
– Oi Rose, tudo bem? – perguntou sério, em inglês.
– Mais ou menos, devo ter comido alguma porcaria ontem. O que tá me preocupando é você acordado domingo cedinho – tentei rir, mas não consegui.
– Rose, eu estou chegando ai na sua casa. Tenho um assunto pra falar com você.
– Putz Ale, aconteceu alguma coisa? É de trabalho? – perguntei nervosa.
– Eu estou estacionando o carro, beijo – desligou.

Ouvi as batidas na porta enquanto vestia uma calça branca de capoeira muito velha, as listras coloridas nas laterais já bem desbotadas. O Ale estava todo molhado, pálido e não veio sozinho, o Miller entrou atrás dele. Tiraram os casacos sem olhar para mim, os dois de cabeça baixa. ‘Meu Deus, é grave’ pensei e não esperei mais nem um segundo.
– Alejandro o que aconteceu?
– Rose, eu preciso que você fique calma… – respondeu nervoso.
– O que foi Ale? Fala!
– Você vai ter que ser muito forte.
– Pelo amor de Deus Alejandro, o que tá acontecendo? – perguntei com vontade de chorar.
– Senta Rose – o Miller apertou minha mão com força e me larguei no sofá – Aconteceu um acidente lá no Brasil – começou devagar me olhando de frente.
– Meu pai? Isabel, Edu, Beta? – falei de uma única vez, em um ato falho sem tamanho e fechei os olhos para ouvir a resposta.
– Eduardo.
Meu coração parou. Senti como se estivesse caindo nesses elevadores que projetam queda livre nos parques de diversões, só que eu não parava de cair.
– O que aconteceu Alejandro? O que foi? – perguntei sentindo as lágrimas e o meu corpo despencando cada vez mais rápido.
– O Edu foi atropelado ontem no final da tarde, ele estava em uma estrada quando…
– Atropelado? Ele tá machucado? – sacudi o meu amigo pelo colarinho – Me responde Alejandro! Ele se machucou?
– Rose, foi bem grave… Se acalma! – pediu tentando fazer com que eu largasse sua camisa – Ele atravessou a tal estrada correndo, veio um desses carros grandes, um Jeep em velocidade e…
– Um Jeep? – esfreguei o rosto com as duas mãos e abri a boca tentando pegar ar – Ele está vivo, né? Alejandro pelo amor de Deus, diz que meu sobrinho tá vivo! – implorei com a voz anasalada.
– Não Rose, o acidente foi muito grave. O Eduardo morreu.
Foi como se o elevador onde eu me encontrava despencando se espatifasse no chão em mil pedaços. Soltei um grito gutural e me contorci no sofá sentindo uma dor dilacerante. Não sei quanto tempo fiquei ali sendo velada pelo Alejandro e pelo Miller.
– Meu Edu! – falei baixinho e me sentei – E a Beta? Como é que tá a minha irmã?
– Eu não sei muita coisa, quem ligou pra mim foi o Klaus – contou.
– O Klaus, por que logo ele? – levantei e comecei a andar de um lado para o outro – E o meu pai?
– Eu sei que a sua irmã está a caminho da cidade onde aconteceu o acidente, porém não falamos sobre o seu pai Rose, me desculpe.
– Quando foi o acidente? – perguntei soluçando e tentei acender um cigarro, o que era impossível de tanto que eu tremia.
– Ontem no final da tarde por lá, mais ou menos umas nove da noite – o Alejandro pegou o cigarro da minha mão e devolveu aceso.
– E por que demoraram tanto pra me avisar?
– Eles decidiram não te dar a notícia por telefone e eu também demorei pra atender porque estava em um lugar barulhento e não ouvi o celular – confessou culpado não conseguindo mais segurar o choro – Me desculpe Rose, eu sinto tanto.
Abracei o meu amigo consolando e sendo consolada, enquanto o Miller carinhosamente afagava nossas costas sem conseguir dizer uma única palavra.
Quando entramos no JFK meus olhos estavam ardendo, o Alejandro chorava e apertava a minha mão como quem deseja receber uma transfusão de
dor, o Miller continuava em silêncio. Tentei falar com a Roberta umas dez vezes e nada, a minha cabeça não parava de rodar.

Foto Carla Dias Young

Carla Dias Young – Bela Urbana,  tem 46 anos é jornalista, (tenta ser) escritora e trabalha na empresa ‘Young.comunicação Consultoria em Comunicação e Licenciamento Ambiental’. Nasceu em Santos, mora em Campinas, é casada e tem um cachorro e uma gata, todos vira-latas.

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