O dia começa a clarear e eu vou amanhecendo com ele.

Na casa pequena onde me acomodo agora, os pássaros acordam a mesma hora e os cachorros vêm para junto da porta aos primeiros movimentos da casa.

Água com vinagre de maçã, hábito antigo, mingau de aveia com leites vegetais, hábito recente. Varro as folhas caídas à noite, troco de roupa e sigo para caminhada quase sempre a mesma hora.

Quando a lama não me deixa andar pelas ruas que me levam às matas, me dirijo à praia.

Primeira caminhada, recolho o lixo deixado nas areias; abaixo e levanto várias vezes, mesmo sabendo que o exercício não está tão correto assim. Mergulho. A segunda, volto a caminhar por areias limpas.

Olhares de espanto, admiração, estranhamento. Sim, sou essa mulher de 60 anos, cabelos brancos, corpo marcado e muita vontade que me impulsiona.

Às vezes me parabenizam, mas pouco dou atenção, faço por mim, não preciso de aplausos.

Viajo algumas vezes, países ricos, outras culturas, mas em todo lugar esse é meu movimento.

Hoje retornei às minhas origens, Brasil, quanta sujeira, quanto descaso, pobreza, consumismo, desigualdade, desordem, desgoverno. Gastei quase todos os adjetivos com D.

Todos se assustaram com um ano atípico, todos esperando uma solução para normalizar(?) a vida. Meses depois, o que encontro nas ruas é o reflexo desse povo que não entendeu ainda. O povo está a espera de um milagre.

Será que aprendemos alguma coisa?

Já faz tempo que sou ecochata, não mato bichos, cato lixo nas ruas, reformo móveis, compro em brechós. Faço muito pouco. Gostaria de contribuir mais.

Eduquei 3 filhos com esse pensamento minimalista, valorizar o simples. Eles me acham desapegada demais.

Queria ter mais crenças, admiro as pessoas que têm. Mas não está em mim.

Sempre fui assim, desde os 11 anos, onde descobri a morte.

Minha reza é minha atitude.

Meus mantras vão do Funk ao canto de Umbanda.

Acendo velas; acho-as lindas.

Acendo incensos; adoro o perfume.

Cultuo o som das águas do mar e dos rios, o canto dos pássaros, a voz dos animais.

Sigo a minha intuição, adoro fazer minha comida, arrumar uma mesa com capricho. Ouço todo tipo de música. Dou bom dia a todos que passam por mim. Falo com todos sem conhecer, sigo os meus passos hoje, que ainda posso seguir!

Feliz Dia Novo!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

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