E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

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