A cena está batida de tanto que foi vista. A russa, que não entende nada de português, mas que se esforça para ser simpática com os visitantes brasileiros, tão animados, repetindo o que eles gritam, na comemoração da Copa do Mundo. Enquanto esses mesmos brasileiros estão expondo ela ao assédio cretino, moral e sexual, gritando sobre a buceta rosa dela “que delícia”. Outras cenas aparecem, outros brasileiros fazendo russas repetirem que querem dar a buceta para eles, outro fazendo uma criança repetir que quer chupar o pau do Neymar… Vou parar, antes de vomitar.

Foi só uma brincadeira… Exageramos na bebida… Se fosse no Carnaval ou na favela estava tudo bem… Vocês estão exagerando… Frases machistas, sempre usadas por quem consegue justificar a violência contra a mulher ou vulnerável.

Só que não! Foi longe demais, compartilhado infinitamente em rede mundial.

O que faz com que esses babacas achem que isso é brincadeira? Que eles têm o direito de expor o Brasil inteiro ao ridículo?

Não bastasse a situação vexatória do assédio, tudo foi filmado e compartilhado! Com qual intenção? Mostrar a caça aos machos que não foram viajar?

Uma vez ouvi a seguinte frase “se não aprende em casa, vai acabar aprendendo na rua.” No caso desse bando de brasileiros desavisados, é isso que está acontecendo.

Acostumados a uma vida machista, criados para tudo poderem fazer, que o mundo é dos espertos, a passarem a mão na cabeça, coitados, que estavam só se divertindo, nesse Brasil de desigualdades, que luta por dignidade, eles viajam, bebem, acham bacana fazer os outros de idiotas na Gringa e, choram quando descobrem que atos têm consequências.

E se a cena fosse o oposto? Eles sendo expostos a situações constrangedoras pelos russos. A indignação seria nas mesmas proporções?

Infelizmente, não existe limite para o mau-caratismo, mas nos cabe fazer com que as próximas gerações entendam que esse tipo de comportamento é inaceitável, em qualquer lugar do mundo, em qualquer idioma.

A repercussão do caso mostra bem que apenas uma minoria justifica o acontecido, mas apenas uma minoria mesmo nos expôs à vergonha dessa amostra de comportamento considerado “brincadeira” no Brasil.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Ilustração: Synnöve Dahlström Hilkner

Related posts:

Comentários

comments