Era um dia desses que a gente não tem o que fazer. Fui eu, mais dois amigos ao bar. Falávamos daquelas coisas do universo que nos rodeia: Corinthians, Hamilton, MMA, Bolsonaros e outros assuntos irrelevantes de fato. Cerveja vinha, cerveja ia e gente começava a ter tédio. Muito tédio.

Lascamos a falar mal de mulheres que tínhamos tido. Várias, citando o nome ou não, eram motivos de risada. Seja pelas manias, pelas fixações, pelo atrevimento e ousadia. Qualquer valor era motivo de crítica apenas pelo riso. Ao final, estávamos a contar piadas das mais preconceituosas que se possa imaginar…

Um de nós, não lembro qual (mas não fui eu, claro), fez o desafio: Duvido que alguém dessa mesa saia daqui com uma mulher. Trato feito! Rodamos o bar a procura de alguma desavisada que caísse no nosso léro. Foda-se o nome, era por honra! Não queria ser motivo de piada no próximo Happy Hour.

Eis que a vi. Uma mulher sozinha, impaciente, meio que aguardando algo. Me pareceu habituê daquele bar, ou das noites solitárias, algo que me identifico, não sei como. Sentei ao lado, puxei papo sobre o Jalapão  (ou Japão, nem me lembro) ou qualquer outro local que nunca pisei, mas que, por curiosidade, havia lido na Wikipedia. E que sorte, ela sabia algo sobre esse local. Ou que azar, não sei. Só sei que o papo rolou.

Mas a coisa foi andando para um lugar estranho. Ela foi ficando distante e eu sem bala na agulha (ou na língua). O clima foi esfriando à medida que percebia o vazio que ambos tinham e a aflição em preenchê-lo era grande, crescia. Por algum motivo, me identificava com ela, e me atraía por seu olhar vago, à espera de algo.  E não me refiro aos amigos que deram cano no bar, mas algo da vida que lhe faltava.

Senti uma vontade de partilhar meus medos e angústias, meus sonhos também, algo que não faço há muito tempo. “Mas basta! Que pensamento fraco, homem! Solta uma cantada e agarra essa mulher! Você está aí para provar o poder de seu falo aos colegas, não?”. Essa era a voz que me trazia ao chão. Ou à lona, não sei.

De fato, em algum momento inesperado ela me beijou. Me beijou como se estivesse à procura de algo dentro de mim. Parece papo de maluco, mas senti que ela estava em busca de alguma coisa que não iria encontrar em mim. E eu fiquei intrigado com isso, ainda mais que ela se levantou e se foi logo em seguida. Me pareceu que já fizera isso antes, dessa mesma forma. Como se estivesse minerando em busca de uma pedra preciosa que perdera…

Logo parei para terminar meu copo, e nisso, pensei em mim. O que eu estava fazendo ali, meu Deus? Tentei usar alguém para provar algo para outro alguém. Mas eu mesmo ali não estava… Aliás, quem eu era nessa cena, nesse teatro de farsa? Um saco de batatas, vazio e sujo talvez.

Voltei à mesa com sorriso amarelo. Tinha provado a eles meu potencial, mas por dentro continuava a pensar o quão ridículas aquelas noites estavam se tornando com eles. Precisava mudar meu rumo, mas que rumo tomar, sem que achem que sou frouxo, porra?

Cheguei em casa quase de manhã, pois fiquei rodando a cidade até o sol aparecer. Pensei em todas as mulheres que passaram na minha vida. Casamentos, namoros, noivados, noitadas. O que eu tinha plantado nessa vida além de sêmen? Realmente, acho que não vou colher porra nenhuma desse jeito.

Abri meu guarda-roupas, separei alguns objetos que guardava e não usava mais. Coisas que provavam o que eu não era. Separei roupas que não mais cabiam, perfumes da moda e remédios azuis. Botei num saco preto e joguei no lixo. Não sei o que me deu, mas aquele dia, depois daquele beijo vazio, me deu uma vontade de mudar algo que ainda não sei o quê. Preciso começar…

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

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