Anteciparam! É, anteciparam!! E eu esperei muito esse dia, sabe? Porque fazem meses que a minha vida e a de muitos brasileiros está em suspenso, sem muita expectativa e, a vacina contra a Covid19 é um sopro de esperança para que menos mortes ocorram e a vida de quem sobrevive possa tomar algum rumo.

E minha primeira dose aconteceu no mesmo dia da segunda dose da minha mãe. Por coincidência, tomamos no mesmo posto de saúde em que sempre tomei minhas vacinas quando criança, levado por ela. E percebi um fenômeno interessante nesse dia.

Como estamos sendo vacinados pela escala da idade, somado ao fato de estar no posto em que ia quando era criança, pude encontra pessoas que, com a mesma idade que eu, talvez tenham sido vacinados nas mesmas campanhas de outrora, porém, com um espírito bem distinto. Naquele tempo, fugíamos da agulha. Hoje, abraçamos a tão temida injeção.

E o mais engraçado é poder sentir o clima no posto. Com certo esforço de distanciamento, buscando evitar que o viés de confirmação tomasse de assalto minha percepção, pude perceber que as pessoas ali estavam num clima de certa esperança. Como se, após esse dia, a vida passasse a ter mais domínio, tranquilidade e rumo. Esse clima foi uma vacina a mais, uma vacina verdadeira para seguir a vida de forma plena, dando rumo a tudo que está errado ao nosso redor.

Rumo é o que precisamos. Pense, você liga o noticiário e, ou há um clima entorpecido de que tudo está sob controle de quem governa, ou um clima lúgubre de que nada está sob controle. Não há uma visão ponderada que ultrapasse um palmo de nossa própria mão, o que é pouco num mundo tão complexo e conectado.

Passei meses com um sentimento de incerteza paralisante. Por mais que nada de mal tenha acontecido nesse meio tempo, o sentimento é que, a qualquer momento, alguma coisa ruim poderia acontecer. De repente, um simples gesto de cuidado, dado por um agente de saúde do SUS me trouxe uma inversão de polo. Alias, a notícia do dia exato em que essa vacina chegaria a mim pode me dar a expectativa de um tempo de esperança.

Infelizmente, não posso descuidar do resto. Ainda tenho a máscara no rosto, ainda tenho trabalho remoto, ainda tenho a empresa sugando meu lar, meus recursos e espaço pessoal e os parâmetros do que é trabalho e do que é descanso. São outras lutas, como a de querer um estado justo, bem governado e um povo unido. E lutar por tudo isso com a expectativa de que tenho chances de viver com mais saúde, é muito mais fortalecedor.

Certa vez, ouvi uma história de que um rabino americano havia pedido U$ 10.000 para fazer uma palestra. Os organizadores estranharam a exigência, mas conseguiram a verba. Ao final de sua fala, o rabino devolveu o dinheiro dizendo algo como: “Um homem com dez mil dólares no bolso faz qualquer trabalho com muito mais segurança, peguem de volta, pois o dinheiro já me serviu para o que ele se presta”.

Alguém sem recursos sente medo e não desempenha. Pense em um povo sofrendo sem dinheiro e sem saber se vai sobreviver a uma doença invisível e com pouca informação clara de como evitar? Agora pense nesse medo instrumentalizado pela política e pelos políticos eleitos? Pense como seria bom nos libertarmos dessa realidade? Essa é uma outra luta.

Meu salário diminuiu. Meus bens foram vendidos para pagar contas e minha saúde ficou à mercê das fake News. Nunca senti tanta insegurança na vida quanto nesses tempos pandêmicos. Mas de fato, essa vacina foi como ter U$ 10.000 no bolso para dar uma palestra gratuita. Me deu segurança para agir.

A luta agora é que todos tenham seus “U$ 10.000” metafóricos de saúde, de segurança alimentar, de educação, de esperança e de união. E essa luta deve ser encampada por todos que, com sabedoria, fogem das lógicas dos algoritmos e se conectam a sua realidade verdadeira, à realidade dos que estão ao redor e que abandona o entretenimento baseado no ódio ao outro, para adotar o amor ao próximo como ferramenta de transformação nos pequenos atos do dia.

Se Deus preferiu estar no meio de nós ao invés de estar acima de todos, é porque somos muito mais interessantes do que dois polos políticos podem narrar. Então ame, pois foi a única coisa que Ele pediu de fato. Amemos, no axé e no namastê que cremos e pudermos executar de forma compartilhada, indiscriminada, para que possamos alcançar o bem coletivo. Essa cura é a verdadeira do país.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

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