Sempre dirigia, dirigia para cima e para baixo, cada hora era uma coisa. Levava os filhos, supermercado, trabalho, médicos, banco. Dirigia e dirigia, o carro era bom ainda, não era tão cansativo dirigir. Herança dos tempos gordos.

Hoje os tempos são magros, magrinhos, ela envelheceu dez anos em um. Estava quase irreconhecível por fora e por dentro, mais por fora que por dentro. A dureza do dia a dia, tiraram sua alegria.

Sempre no trânsito, parada nesses congestionamentos das grandes cidades, e sua cidade era muito grande. Pensava no que ia comprar, pensava na sequencia da agenda e pensava que se pudesse voltar no tempo, voltar, voltar, ela encontraria de novo com ele. Ela teria seguido com ele. Ela teria dito o que sentia.

Ela e ele estariam juntos hoje e provavelmente felizes fazendo compras no supermercado ou cozinhando juntos ou mesmo em uma dessas festas de família, juntos. Os filhos não seriam os dela e os dele. Seriam os nossos. Teríamos sobrevivido juntos ao tempo? Essa pergunta ficava na sua cabeça assim, mas tinha certeza da resposta, sim teriam sobrevivido juntos e felizes. Ele que não saia da sua cabeça. Cabeça branca, cabeça quente, cabeça rodando.

Rodou, rodou e rodou tanto que foi parar lá atrás de onde nunca tinha saído. Estava na casa de amigos, risadas altas, comes e bebes, conversas engraçadas, alguém sem noção e ele. Ele ali. Ela também. Mas como? Ela pensava, como assim? Como estou aqui? Não conseguia se ver, só sentir. Um fantasma dela mesma.

Preciso dizer. Ele precisa saber. Mas…. eu não sei o que dizer. O que eu não sei dizer? O quê? O quê?

Existe uma teoria que tudo acontece ao mesmo tempo em todos os tempos, que existem universos paralelos de nós mesmos. Ela conseguiu atravessar isso, sabe lá como fez isso. Estava tendo uma nova chance.

– Uau, esse roteiro é fantástico, é disso que preciso. Pensava Carla, a atriz, empolgada. Ela precisava de um bom papel urgente para dar um “up” na sua carreira.

Pensava Carla, no meio do trânsito, assim como a personagem. Pensava: “o que eu não sei dizer?”

Ela tinha clara a resposta, mas ainda não tinha coragem. A coragem ela deixava para dar vida a personagem, que literalmente seria a sua salvação. Coincidência ou não, olhou para o lado e viu alguém que não via há muito tempo e teve aquela sensação de já ter vivido aquilo.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

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