As pessoas tendem a achar que dar esmola não é legal, pelos mais diversos motivos: a pessoa devia estar trabalhando, podia estar vendendo algo, vai usar para bebidas ou drogas, etc. São tantas as justificativas que superam em número a razão para se dar as esmolas, que conheço poucas pessoas que as dão.

Mas vou contar aqui porque eu dou esmolas.

Há muitos eu trabalhava à tarde e muitas vezes acabava voltando à noite para casa. Na época meus filhos eram meninos de 6 e 8 anos. Em geral, quando eu saía mais tarde, eu cuidava de trancar bem o carro, fechar os vidros e passar o mais rápido possível pela região central que era o meu caminho.

Num dia de frio e garoa, um menino mais ou menos da mesma idade dos meus filhos, talvez um pouco mais velho, veio na minha janela quando o farol frechou. Camiseta velha, furada e suja, shorts idem. Simplesmente estendeu a mão em busca de algum valorzinho que fosse. E eu não tinha… O sinal abriu, saí… chorando e envergonhada! Podia ser meu filho! Não, claro que não… meus filhos estavam em casa, aquecidos, vendo TV, jantando. Me passou pela cabeça em algum momento me sentir culpada por tudo que eu tinha (e ainda tenho, e nem é tanto assim), mas pensei comigo que a injustiça não é minha, é do mundo, do governo, da história, enfim…

Cheguei em casa, abracei meus filhos, agradeci por tudo que nós tínhamos!

Nunca mais vi o menino, mas desde então ando sempre com moedas e às vezes notas de R$2,00 no carro. E balas… Algumas vezes, no inverno, já andei com sacolas com agasalhos para distribuir nos faróis. Espero repetir esse ano, embora hoje meu trajeto não me leve mais por caminhos onde habitualmente haja pedintes.

Mas parei de pensar se eles podiam estar trabalhando ou vendendo algo, parei de pensar se vão usar pra drogas ou para levar pão para casa… Parei de julgar alguém que está à margem da nossa sociedade. Simplesmente ajudo como posso, mesmo que seja com uma esmola.

Outro dia, vi um rapaz num farol… e pela idade que aparentava, enquanto ele vinha em minha direção fiquei me perguntando se seria aquele menino que me tocou tanto naquele farol anos atrás… torci para que não, para que ele tivesse tido a chance de sair da margem e prosperado. Mas podia ser meu filho!! Não, claro que não… eles hoje estão crescidos, trabalham, têm suas vidas em ordem.

Abri a janela, estiquei para ele uma nota de R$2,00… ‘Deus lhe acompanhe’, ele disse… ‘que Ele esteja com você’, respondi… Segui meu caminho, e ele seguiu para a janela fechada do carro seguinte.

Tove Dahlström – Bela Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

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