O Covid me trouxe vários convites para um mundo que eu precisava realmente conhecer… ou resgatar. 

Minha alma pedia recolhimento, quietude, pausa, mas eu não sabia. Meu nível de inconsciência com ela não permitia compreender que eu não precisava abraçar o mundo, que o externo não me preenche e que a paz habita aqui dentro de mim. 

Eu precisava deste tempo: #fiqueemcasa. Carecia deste isolamento comigo mesma para entender que a Carolina aspira por voos muito mais profundos. 

No começo um desespero, porque mudar os padrões mentais e aceitar que temos pouco controle sobre a vida não é um processo fácil. Para quem é mulher sabe que somos um importante ponto de equilíbrio na família e quando estamos em desarmonia parece que fica todo mundo fora do eixo. 

Bom, deixa eu contextualizar: sou filha única e as pessoas que me criaram foram essencialmente minha mãe e avó, mulheres marcantes. Meu tio e tia maternos tiveram uma participação incrível. Meu pai foi ausente. Com a ida de minha avó e tio, a família ficou basicamente composta por mãe e tia, aparentemente pequena, mas enorme em termos de força feminina. Duas mulheres poderosas que me deram a base para ser o que sou e me fundamentam até hoje. Ambas idosas e, portanto, mais vulneráveis ao Covid. Desafio number one lançado.

Sou mãe de três filhos e mais três enteados, esposa, ex esposa, bancária, professora de yoga e uma pessoa ativa, cheia de sonhos e projetos. Nesta atual conjuntura, sem a minha santa ajudante, o Covid me fez encarar alguns convites: conciliar uma casa grande para limpar e organizar,  comida para um batalhão (já viram prato de adolescente?), roupas sem fim para lavar (parece que brotam!),  tempo para cuidar dos meus queridos (prezo por isso!) , alta produtividade no home office do banco, práticas e aulas de yoga (meu porto seguro) e suporte aos meus filhos que estão se adaptando à novidade das aulas online.

Isso não é pouco, mas sinceramente o que me desestabilizou foi não saber lidar com o inesperado que o Covid convida. Em um cenário em que estava tudo “bem”, de repente vem um vírus que tira a vida de milhares de pessoas e todo mundo fica perdido, sem saber o que fazer, se vai morrer e o que vai ser… O fato de faltar ar já é para mim um sintoma apavorante. Sou sagitariana, gosto de liberdade e vento no rosto. Tudo isso é muito suspense para mim, que sempre fui chegada em uma boa comédia. Bateu um medo chato, daqueles que embrulham o estômago. 

Separada do primeiro casamento, como ficariam as crianças neste vai para lá, vai para cá da guarda compartilhada? E meus enteados que também vivenciam este vai e vem, ficariam em uma casa só? Tem casal que optou por fazer isso, mas conhecendo bem meu ex e meu marido (pais super presentes), não acho que aceitariam ficar sem a convivência dos filhos e, sendo empática, eu também não aceitaria, a não ser em uma condição muito extrema. O afeto aumenta a imunidade. E foi batata! O dinâmico vai e vem permaneceu aqui em casa… alguns dias estamos em 8 pessoas, outros em 4 ou 5 ou 3, depende da quantidade de crianças. Posso dizer que este foi o primeiro convite do Covid que aceitei. Tem uma voz interna que me diz: ENTREGA E CONFIA e nela me agarro todos os dias. 

O segundo convite foi um pouco mais doloroso: lidar com o fato de ter duas idosas que amo vulneráveis a uma pandemia implacável. Não posso conceber nada de ruim a elas… amarga a boca e minha glândula timo aperta de tristeza (se não sabe sobre a timo, busque conhecer este simpático e importante órgão). Pela segunda vez aceitei o chamado do Covid: dedicar mais tempo a quem eu amo, ainda que à distância, mas com o CORAÇÃO CONECTADO como nunca.  Fortaleci minha fé e sigo proseando com Deus. Este convite foi incrivelmente providencial, Namastê! 

Voltando à questão de conciliar os inúmeros afazeres, estou tendo a oportunidade de presenciar momentos maravilhosos neste isolamento. O Covid nos ofertou aqui em casa ao COLABORATIVISMO.  Todos ajudando, conscientes de seu papel, de uma forma como nunca ocorreu, apesar das minhas inúmeras tentativas. Um dia um cozinha, o outro lava a louça, outro estende a roupa, todos arrumam seus quartos, desde o caçula que tem 7 anos até o mais velho com 14. Este convite espero que perdure após a pandemia, pois, como nunca, percebemos e cuidamos do outro, trazendo um significado mais AMOROSO à vida.

O vírus chinês sacudiu a humanidade. Nos tirou do comodismo fácil. Não sei como está a convivência na sua casa, ou se tem ficado só, mas lidar com as manias, hábitos e personalidades de cada um certamente é uma habilidade que tenho exercitado. Esta convivência intensa é a chamada intimidade. Algo que invade, atropela e não é à toa que aumentaram o número de divórcios. Não estamos acostumados, mas é uma grande oportunidade de sermos mais flexíveis nos relacionamentos. Uma amiga de adolescência dizia a seguinte frase: Intimidade dá nojo! Eu ria e hoje entendo com certa beleza estas palavras. O Covid me convidou à TRANSIGÊNCIA.  

Outra boa parte desta história, foi o tempo para poder conviver com meus filhos e marido. Estou conhecendo cada um muito melhor. Do silêncio da alma, saem grandes reflexões. Concebi que cada um tem a sua essência e que todas podem ser maravilhosas se houver aceitação e respeito. A tendência controladora de uma mãe ou pai de família pode provocar estragos de personalidade. A orientação dos pais pode ser firme e doce ao mesmo tempo, resguardando o âmago de cada um. Isso tem a ver com RESPEITO, no seu sentido mais íntegro, e me fez bem despertar para este convite.

O Covid me permitiu aprofundar nas práticas de Yoga, nos estudos de Patanjali e Iyengar. Faço asanas (posturas) o tempo todo, até enquanto trabalho. Aprendi a harmonizar cada chakra. Estou me deliciando com o mundo vegano (me tornar vegana tem sido uma mudança profunda dentro de minhas raízes libaneses, mas muito coerente com os meus valores). Tomo Sol todos os dias, medito logo cedo, organizo as ideias, SILENCIO a mente. O silencio é o som da alma. Fui convidada por este vírus atrevido a curtir o presente e mergulhar para dentro. Percebo minhas imperfeições, reconheço minha humanidade, cultivo minhas virtudes. É uma longa jornada o autoconhecimento, talvez a maior de todas, mas é uma trilha encantadora. Esta busca só é possível com o silêncio e a quietude, com o retiro da mente. O estado introspectivo permite contemplação e plenitude. Sensação de paz e libertação. O isolamento era necessário para a nossa evolução. Convite aceito Covid! Om Shanti Om.

Carolina Salek Fiad Martinati – Bela Urbana, Mulher, mãe (muito mãe), yoguin, aromaterapeuta, reikiana, professora, entusiasta da vida. Acredita que o corpo é instrumento de cura e evolução. Lema de sempre: Leve a vida leve.

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