Ela coçou os olhos, sentou na cama e literalmente reclamou de ter que acordar naquela manhã gelada. Sair debaixo das cobertas não fazia parte dos seus planos, muito menos abandonar o seu quarto, que se tornou o seu refúgio neste confinamento obrigatório!
Pegou o celular e lá estavam as mensagens de “bom dia” e “oiê” que a têm feito sorrir nos últimos tempos. Como é bom ter amigos! Esse foi o primeiro pensamento dela, ainda sem sair da cama.
E às vésperas de quarentar em plena quarentena, ela se pegou pensando: o que essa pandemia tem feito com as pessoas? No seu caso, foram tantas perdas até então: o contato com o outro, que lhe é tão característico; o tocar; trabalhos; a avó, que naquele dia completava um mês de sua partida; a despedida que não aconteceu; os amigos que estão longe; a saúde que teima em ter ligeiros baques pelo tal estresse.
Coerente, ela sabe que muita gente, por esse mundão afora, perdeu muito mais. Mas é impossível dela não sentir a sua dor, nem que na maioria das vezes seja em silêncio.
Sendo assim, ela pensou nos que eram, nos que são e nos que serão…
Para alguma coisa essa reclusão forçada há de servir! Muitos dizem que é para buscar o “eu interior”, ela, nos seus pensamentos mais secretos, acredita que vá muito além do reconhecer o “eu”, mas é reconhecer o “nós”.
Se cada um passa pela nossa vida com um propósito, durante um determinado período, ela fez questão de entender o cada um daquele momento.
Foram tantas mensagens que ela esperou em vão. Foram tantos os olhares que não vieram. Foram tantas certezas desfeitas. O aconchego veio de quem talvez ela menos esperasse: novos amigos, alguns quase tão recentes quanto à própria quarentena, amigos distantes geograficamente e tão presentes.
É claro que algumas certezas se mostram absolutas e aquelas amizades de anos, de quase uma vida, estão lá, naquele lugar especial que estiveram e sempre estarão. Pessoas que a leem como se fossem sua alma.
Ela lembrou da fala rotineira da terapeuta: “não se apegue ao passado, nem se penitencie pelo futuro. Viva o hoje. Não fique chorando pelo que se tinha, mas valorize o que se tem”.
Coçou novamente os olhos. Respondeu suas mensagens, como faz toda manhã, mas com uma grande diferença. Sorriu, com os lábios e com o coração, entendendo que aqueles que FORAM, foram. E esses, que fazem questão de estar, cada um a seu jeito, SÃO e, se Deus assim o permitir, ainda SERÃO.
Finalmente ela levantou da cama, fez o coque em seu cabelo e foi de pijama mesmo cuidar da sua vida!

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Comentários

comments