Quando a Adriana perguntou sobre escrever um relato da minha história aqui no Belas Urbanas, sabia que seria um desafio e tanto, pois senti um frio na barriga em tornar público o que vivi e que pouquíssimas pessoas conhecem.

Para mim a palavra “abuso” estava associada somente ao sexual, mas hoje sei que há muitos e muitos tipos de abuso.

Hoje, com 53 anos me lembro de quando criança com uns dois anos em um canto da casa, amedrontado e fechado em meu mundo.

Meu pai, dedicado ao trabalho, provedor, tinha uma gráfica.  Minha mãe era trabalhadora também, da casa. Dedicada em viver em função da família.

Meu pai quando em casa, mostrava sua austeridade. De pouco sorriso no rosto, e quando tinha era de sarcasmo ou ironia, gostava de beber uma cerveja para relaxar, o clima pesava e a agressividade verbal e física corria solta. O nível de tensão era sempre alto. Não apanhei muito, mas minha mãe sim.

Meu pai em sua ausência, se fazia presente determinando e controlando a minha vida (imagino que dos meus irmãos também, somos em 04, todos homens). Ainda menino,  com mais coordenação motora, comecei a trabalhar na gráfica, independendo da vontade ou não. Já nasci com um trabalho e futuro determinado…..pelo meu pai.

Conforme fui crescendo, as coisas foram complicando. Fazia judô, não gostava, queria jogar basquete. Pedi para mudar de esporte, mas como meu pai era meu pai e diretor de judô no clube, fui obrigado a continuar no judô. Mas um belo dia, não aguentei e fui conversar com o professor de basquete, fiz o teste e passei, mudei de esporte. Joguei por quase 10 anos e ele nunca assistiu um jogo se quer.

Nunca levei um amigo para casa, não podia, tinha vergonha. Além do meu pai extremamente bravo e meus amigos terem medo dele (um amigo relatou isso mês passado), minha mãe vivia a realidade dela, via e escutava o que ninguém via e escutava. Ela tinha esquizofrenia.

Meu pai era bom para lidar com máquina, não com gente. Autoridade e autoritarismo são coisas distintas, um vai pelo respeito e outro pelo medo. E pelo medo abafei minhas emoções, me preservei me tornando submisso, fazia de tudo para pertencer e agradá-lo, mas a ferida emocional da rejeição e desvalorização já estavam abertas. Vesti a armadura do guerreiro solitário e fui pra vida.

O que trago aqui é somente alguns pontos macros, mas no dia a dia o negócio era punk, em qualquer momento do dia poderia acontecer algo de ruim e tinha que dormir com a porta do quarto trancada para não ter surpresas. A ameaça, a tensão era uma constante e convivi com o sentimento de medo e tensão no corpo até poucos anos atrás. Tive momentos de um frio congelante que me paralisava, o racional se desligava, perdia o chão ficando sem rumo, sensação de não existir, era desesperador. Tive vários dentes quebrados por bruxismo e muitas fronhas de travesseiro amareladas devido ao suor exalado pelos traumas vividos em forma de pesadelos.

Isso refletiu em todas as minhas relações na vida, não tem como. Mas com elas aprendi.

Aprendi que não nasci na família errada, aliás, acredito que ninguém nasça na família errada. Aprendi que os meus pais fizeram o que estava dentro de suas possibilidades, das suas suficiências. Aprendi que por pior que tenha sido uma situação, muito falava de mim e que poderia me melhorar como ser humano. Aprendi a perdoar e aceitar a vida, a me amar, respeitando mais os meus limites, capacidades e valores maiores e que eu sou o responsável pela minha vida e evolução e que ninguém pode tomar uma decisão por mim. Aprendi que a vida é mais como respondemos a ela do que acontece com a gente. 

Sou um buscador e através da observação de mim mesmo, dos meus pensamentos, das minhas atitudes, emoções, dos sonhos, praticando meditação e pedindo ajuda para terapeutas integrativos competentes, venho me transformando, evoluindo, vivendo mais a minha coerência e mais em paz, leve, mais disposto, com criatividade e propósito.  

A vida não tem chegada e fim, só ida e nessa ida, respeitando e honrando de onde vim, faço um caminho de escolhas mais conscientes, resgatando a minha inteireza no amor e respeito com a minha esposa, minhas duas filhas, as cachorrinhas e  todas as pessoas que me relaciono, que juntos, geramos o mundo que vivemos.   

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. – Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.





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