Fui sua inquilina durante 6 meses. Aluguei um quarto em sua casa. Excelente casa, confortável, clara e muito bem localizada. Falávamos pouco. Desde o começo falei que era ruim o meu inglês. Isso não nos impediu de trocarmos mensagens. Com o meu jeito de transformar os lugares onde moro, arrumei o jardim, recuperei o tampo de duas belas mesas. Ele ficou muito admirado e agradecido.

Pega de surpresa quando me comunicou a venda da casa, fiquei sem saber o que fazer e como tinha uma passagem já comprada para Portugal, resolvi mudar os planos, já que tentar alugar outro quarto na cidade onde estava era muito difícil.

Resolvi ajudar a desmontar algumas coisas na casa e ele mais uma vez se mostrou feliz com a parceria. O tempo que passamos na casa organizando a mudança, nos aproximou. Fiquei sabendo ser divorciado, dois filhos, dois netos. Vegetariano o que foi uma grata surpresa. Nos despedimos com um forte abraço.

Chegando a Portugal mantivemos contato e a cada cidade nova, mandava fotos e pequenas mensagens. Prometi que quando retornasse a Girvan faria um quiche para ele, depois de ter mandado uma foto de um projeto que não vingou.

O tempo me trouxe uma nova mudança de planos. Resolvi adiantar o meu retorno a Girvan para ficar mais tempo com os netos já que não queria turistar mais. Pouco dinheiro, saudades, solidão.

Quinze dias depois de estar ao lado da família, o que me recuperou as energias cem por cento, resolvi faZer o quiche e mandar mensagem a ele para cumprir a promessa. Não sabia se tinha alguém. Só o via sozinho. Fiquei na expectativa e joguei para o universo.

Ele pronto respondeu e disse que passaria a tarde para me rever e receber o presente.

Batidas na porta, sabia ser ele, nos abraçamos, senti que estava feliz em me rever. Fui pegar o quiche perguntei se queria entrar e ele diz que estava voltando do trabalho, outra hora entraria. Me perguntou se eu queria ir conhecer a casa nova. Como eu já tinha essa expectativa, tinha até me arrumado, aceitei o convite.

Fomos conversando o caminho de vinte minutos de estrada, chegamos a sua nova casa. Lindo lugar de frente ao mar, fazia frio como sempre, mas hoje sem chuva. Entramos, me mostrou toda a casa e pediu licença para tomar um banho. Fiquei observando tudo e excitada como uma adolescente.

Chegou mais confortável, me ofereceu um vinho e foi acender a lareira. O clima na Escócia e bem propício ao romance: frio, lareira, vinho e por último um jazz para ouvir. Montado o cenário. Resolvi contar histórias da viagem e mostrar fotos. Rimos do meu inglês precário e bem perto um do outro nos esbarrávamos, meio na brincadeira e por fim o olho a olho. O calor transbordou nossos corpos e nos beijamos com calma e deliciosamente. Gosto de vinho. Sua barba macia me aquecia ao toque das mãos. Ali ficamos meio sem jeito. Eu percebi o quanto era tímido.

Fomos comer o tão esperado quiche e bebemos mais um pouco. Lembro que há tempos falamos a respeito de bebidas e éramos iguais; uma ou duas taças de vinho, não mais. E assim foi.

Sentamos no chão no tapete em frente a lareira. Ele pegou a manta do sofá e nos envolvemos. Deitamos e fomos nos descobrindo no nosso tempo. Mas velhos como somos, já não rasgamos roupa ou as tiramos em desespero. Carinho, movimentos mais apreciados e ali realizamos nossa primeira noite juntos.

Na verdade não podia dormir naquela noite ali e mais tarde pedi que me levasse a casa. Já não sabia muito como agir. Pedir que ligasse, convidá-lo a jantar?

Nos despedimos com um carinho imenso. Me sentia enebreada de desejo, amor. Tudo junto e claro ansiedade.

No dia seguinte envie mensagem, logo cedo, agradecendo a noite e manifestando a vontade de estar com ele de novo. Não perdi tempo tentando achar o certo e o errado.

Novo encontro se deu num jantar preparado pela filha e o genro. Noite memorável, muitas histórias que ele nos contou por ser um eterno viajante. Nos despedimos de forma rápida e calorosa. Não iria para casa dele naquela noite.

Combinamos de fazer umas caminhadas no final de semana e assim foi. filha, genro e netos. Levamos um grande lanche e fomos por longos caminhos pelas matas da linda Escócia. Paramos por várias vezes por conta das crianças, mas dessa vez o inusitado do passeio era que eu tinha um companheiro, visto que sempre estava só.

Já tarde, retornamos e dessa vez os filhos foram e eu fiquei em sua casa. Banho tomado e cansados demais, apenas dormimos lado a lado. Eu vivia um sonho, agora acordada. Café da manhã, preguiça no corpo e um dia pela frente para relaxar e brincar de casal.

Nos identificávamos em muitas coisas e aprendíamos com nossas diferenças. Comecei a ficar mais tempo em sua casa. Os dias em que trabalhava a noite eu dormia na casa da filha.

O tempo passou rápido. Logo voltará ao Brasil para rever a filha, família e amigos. O que não esperava era sentir a saudade que me tomou por inteiro. Falávamos todos os dias e quando podia nos víamos por vídeo.

Já fazia planos de logo voltar quando fui surpreendida por um pedido! Depois de frases em um inglês escocês quase inaudível, entendi por fim que me pedia em casamento. Não acreditei e fiquei rindo, rindo e rindo. E disse yes, yes, yes!

Era Real? Jamais tinha imaginado isso, claro que o coração de uma eterna sonhadora, nunca descansa. Mas era sempre nos sonhos acordada que inventava belas histórias com finais felizes.

Agora era real. Eu já imaginava tudo; a festa, família, comidas, música e alegria. Mas o mais importante era pensar na cumplicidade de nos dois, já com uma estrada menor para percorrer, agora não mais sozinhos!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

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