Existem muitas histórias e não histórias sobre o que ocorreu. Todas começam da mesma forma. Com amor. Diana amava muito seu marido, querido Ângelo. Querido… Ângelo chegou tarde em casa. Seu bafo fedia a bebida e seu colarinho manchado cheirada a mulher. Diana estava indignada, brava. Estapeou seu marido. Ângelo, bêbado, bateu de volta, só que muito mais forte. Diana caiu, desamparada, bateu a cabeça em uma quina e morreu na hora. Essa é a boa versão.

Na segunda versão, Diana tinha medo. Medo de que Ângelo voltasse pra casa “daquele jeito” mais uma vez. Medo de que novamente ele desse nela uma “lição de quem manda aqui”. Medo de que ela tivesse que precisar usar roupas largas durante mais uns dias para que ninguém pudesse ver as marcas. Medo de que alguém descobrisse depois. O que iriam pensar? Ângelo não fazia por mal, ela dizia pra si mesma. Só batia nela pois a amava, a queria bem. Não é? Diana se matou nessa versão.

Na terceira versão Diana nunca se casou. Ficou pra titia, mas nem ligava muito. Amava seus sobrinhos como seus filhos. Mais até! Mas Carlos, marido de sua irmã a achava uma sem vergonha. Como ousava ela morar sozinha naquela idade! Era uma PUTA! Era o que Carlos dizia a qualquer um que quisesse ouvir. Mulher nenhuma deveria viver daquele jeito. Solteirona, sozinha, e usando umas roupas curtas daquela… Carlos iria dar uma lição nela. E foi o que fez. Um dia, enquanto seus filhos e mulher viajavam, fez uma visita a cunhada. Não cabe a ninguém saber o que aconteceu naquela noite. Mas Diana, nunca mais foi vista, e os rastros de sangue e sinais de abuso eram visíveis em sua casa quando a polícia chegou nessa versão.

Em outra versão Diana não sobreviveu quando seu marido, ou seu namorado, ou seu amigo, ou seu vizinho, ou só um conhecido achou que ela os traia. Diana nunca fez nada de errado. Diana só dormia e sorriu. Sorriu para quem? Só poderia estar de casinho com um cafajeste, seu namorado pensou. Ou era seu marido? Ou conhecido e nem nada mais? Não importa, ela fez algo de errado e claro que deveria PAGAR!

Em outra, Diana tentou terminar, mas seu namorado não aceitou bem.

Em outra ela saiu para festejar, mas o homem na rua não gostou quando a viu.

Em outra Diana…

Em todas as versões Diana morreu. Algumas de forma quase instantânea, em outras com horas de dor. Será mesmo que nenhum vizinho a ouvir gritar por horas a fio? Será mesmo que ninguém se importou? Será mesmo que algum homem verdadeiramente a amou?

Diana era uma objeto, não uma pessoa. Um ser que os outros tomaram posse e fizeram uso do jeito que acharam melhor. Diana era nada. Diana morreu sendo nada. Diana só nunca soube que poderia ter sido alguém. Nunca contaram para Diana que ela ERA alguém.

DIANA ERA ANA BEATRIZ. DIANA ERA AMANDA. ELA ERA JANAINA, THAIS, JESSYKA, ROMILDA, MARY, TAUANE… DIANA JÁ FOI MUITAS PESSOAS, E SERÁ AINDA MAIS SE NADA MUDAR.


Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do terceiro ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Minha mãe sempre teve medo do pai dela, ele batia nela e em todos os irmãos, ela chegou a ser espancada algumas vezes, minha mãe viu também uma tia ser chutada na barriga, grávida, essa mesma tia viveu anos com esse homem e teve vários filhos dele, apanhou e foi muito humilhada, ele teve várias mulheres fora do casamento e finalmente quis se separar para ficar com outra, bem mais jovem, ela, mulher das antigas ficou com ele e nunca tentou se separar, aguentou tudo calada. Apesar do meu avô ter sido violento com minha mãe, ele nunca me bateu, acho que foi suavizando com o tempo mas eu percebia o quanto minha avó o temia, o quanto minha mãe se sentia tensa ainda adulta ao estar perto dele, ela carrega muitas feridas emocionais da infância que a afetam até hoje aos seus quase 65 anos; se casou aos 16 anos, no fundo acredito que quis fugir de casa; aos poucos na adolescência fui entendendo o ciclo de violência que as famílias vão perpetuando, e o poder que os homens exercem sobre as mulheres, ou querem exercer, vivemos ainda hoje na cultura do patriarcado, a cultura do machismo que ainda impera e apesar de tantos direitos adquiridos pelas mulheres ao longo dos anos, essa cultura segue impregnada nas atitudes de homens e por vezes até das próprias mulheres, na relações das crianças também, podemos ver os meninos ainda nos dias de hoje, passando a bola somente para os colegas meninos e ignorando as meninas, essas atitudes são ensinadas, observadas e copiadas, as famílias ainda perpetuam essa cultura sexista e misógina, ajudando a disseminar essa visão da mulher como um ser inferior, infelizmente ainda existe um preconceito muito grande em relação a mulher e tudo isso leva ao feminicídio, uma realidade horrenda no Brasil, com números alarmantes, em média 13 mulheres são assassinadas por dia, e o pior: uma grande parte dessas mulheres é morta por parentes, maridos ou parceiros.

Talvez por ouvir as histórias da minha mãe, me sentir muito tocada por seu sofrimento eu cresci muito atenta às relações entre mulheres e homens, me lembro que minha mãe não trabalhava fora e quando chegava próximo ao horário do meu pai chegar do trabalho ela me pedia para pôr o par de chinelos dele e a toalha de banho no banheiro, eu fazia isso sempre, aos quinze anos falei que não faria mais, achava um absurdo e pensava que se um dia me casasse eu jamais faria isso, claro que eu era apenas uma adolescente desenvolvendo minhas opiniões sobre o mundo porém me incomodava também aquelas piadinhas antigas: “mulher esquenta a barriga no fogão e esfria na geladeira”, eu nunca achei aquilo engraçado e ficava muito brava ao ouvi-las, e o pior: me deixava boquiaberta a naturalidade das meninas com respeito a isso, para mim nunca foi uma piada ou “brincadeira boba de homem” era algo muito sério,  o tempo passou e hoje eu vejo com alegria que apesar da cultura machista as mudanças chegaram para nós mulheres, a Constituição de 1988 assegura que os homens e as mulheres são iguais em direitos e obrigações, a Lei Maria da Penha já existe há 12 anos e essa lei trouxe apoio legal para milhões de vítimas de violência, a mulher conquistou o direito do voto, no nossos dias as mulheres trabalham, são independentes, chefes de família e as relações amorosas são igualitárias, porém a cultura machista segue ainda poderosa, e com ela o feminicídio segue frequente, o abuso, a falta de aceitação do homem de que ele não tem poder absoluto sobre as mulheres, felizmente com o advento da internet as notícias chegam muito rápido, as investigações também e assim pessoas como João de Deus, Sri Prem Baba e tantos outros são desmascarados e detidos, no entanto me entristece ver todos os dias uma notícia nova de uma mulher que foi morta, estuprada, atacada e tantas outras situações que a colocam em risco de vida ou que perdeu sua casa ou está foragida enquanto o homem segue sua vida normalmente, é tanta injustiça que me angustia pensar que minhas duas filhas vivem nesse mundo aonde não somente a rua mas a nossa própria casa pode se tornar um lugar perigoso; sei que leva anos para que as mudanças sejam efetivas, para que os culpados sejam punidos adequadamente, sonho com o dia em que as estatísticas sejam diferentes para nosso país e que as mortes diminuam, por ora eu acredito nos grãos de areia das nossas atitudes, em minha micro esfera tento plantar sementes de respeito e amor na minha casa com as minhas meninas e nossa relação de família, meu marido é um companheiro que respeita meu “não”, que divide as tarefas diárias, e faz sua função de pai assim como eu faço a minha de mãe, ele cuida delas, ensino minhas crianças a respeitar o “não” de qualquer outro ser humano, e também a dizerem não se necessário, a respeitar seu espaço pessoal, seu corpo, a duvidar de figuras de autoridade, que não batemos para conseguir respeito, com minha família espero ter quebrado o ciclo de violência que tantas vezes vi com meus avós e parentes próximos,  ensino que estudar e trabalhar é importante e necessário para todos, não sou uma “feminazi”, e estou longe de ter uma vida de foto de rede social,   radicalismos não são meu forte, gosto, pratico e busco o caminho do meio: as pessoas precisam uma das outras, as relações amorosas independente do gênero devem ser respeitosas e igualitárias, se alguém acha que está em desvantagem então é problema, acredito nos bons combinados entre os parceiros, no amor acima de tudo, quem ama não quer prender o outro consigo, quem ama aceita que as coisas nem sempre são como gostaríamos que fossem, quem ama quer a felicidade do outro e não a morte.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.