Banho demorado

Café quentinho

Abraço de criança

Acordar com sol

Caipirinha na praia

Mar e amar (vice versa)

Abraço de saudade

Beijo (de todo jeito)

Dormir até acordar 

Pizza de queijo

Viajar

Cerveja gelada

Amigos (de verdade)

Navegar (virtual e real)

Barulho de chuva

Pão caseiro do marido

Filhar (verbo novo)

Rir junto (de tudo e de qualquer coisa)

Perder peso

Brindar 

Aniversariar

Sonhar colorido

Dar presente 

Viver novas experiências

Sentir a fé

Sentir amor

Viver

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Bela Urbana, 54 anos, casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

Início de mais uma semana, em uma rotina que é difícil até de se imaginar;
Ao final da segunda-feira, com a cabeça ja dolorida, chamei minha amiga Chica para caminhar;
A resposta sincera foi não poder, falou algo da dança flamenca que iria praticar;
Disse também da distância da escola e perguntou alegre se não gostaria de acompanhar.

Fui até a portaria onde esperei Chica chegar, ainda envolto aos pensamentos do trabalho, francamente bem cansado a vi se aproximar;
Uma mulher com estatura alta e forte de uma presença que impõe respeito, mas traz uma doçura no olhar e no falar que me faz alegrar;
De longe ela já vem sorrindo, pude perceber pois não havia colocado a máscara, adereço destes novos tempos;
A abracei com ternura e saímos para caminhar;

Ela tem um daqueles poderes de super herói que a gente não sabe direito explicar, nos conhecemos a pouco tempo e já parece que somos grandes amigos e me coloco a falar;
Sem muita vergonha falamos das ruas da cidade, do cotidiano e de poesia, assunto que insiste em me procurar;
com passos fortes, seguimos sorrindo e eu me aproveitando do que poderia aprender, afinal ela é letrada, de conhecimento não muito casual e não poderia perder;
Disse que para escrever era só me dedicar, sentar em frente a máquina e deixar a coisa rolar, disse também que conheceu outros escritores, não que eu seja um, mas que eu poderia ser;
As ideias e composições são, de acordo com ela como canções e podem renascer, falou que se tiver uma pitada de sofrimento fica até melhor, mais fácil de entender;

A deixei a frente da escola e fui para padaria comprar o que comer, pensei em poesia, livros escritos e musicados, achando de certo um bocado que talvez tenha algo a fazer.
Mas não sou escritor e nem musico, minha poesia é reza, não se sustenta só, se parada cai de pé, se deitada se esparrama, se sentada descansa a chama que não quer calar.
De concreto se quebra a lama e de banda se anestesia a alma e chega dar um nó;
Logo como pode ´perceber, não sou escritor nem musico, não sei tocar nenhuma nota SÓ;

Mas se ela que conhece e sabe muito bem escrever, se ela que fala em outras línguas que sequer sei dizer, diz ela, que talvez eu consiga escrever;
Porque então no encanto do descanso do retorno do caminho eu não poderia me colocar para pensar, de repente dentro do meu ninho, sentado, ali sozinho eu poderia escrever;
Sair quem sabe um rascunho, daquele curto e sem nó, que ninguém nem consegue ler, quem sabe se eu pegar uma caneta, colocar atras da orelha eu poderia fazer;

Foi o que fiz ali calado, de certa forma ainda cansado do trabalho e agora do lazer, quis escrever esta trilha, de de passo em passo , poder relatar o que aprendi com você;
Na caminhada com Chica, descansei na escrita do que pude pensar;
Na caminhada com Chica, de conhecimento terno e rica, pude perceber;
Se quero e busco conquisto, haja visto o que um homem pode fazer;
Agradeço a Chica, pessoa mais rica que pude conhecer.

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Tempos de bailinhos na garagem com vitrolas revestidas de vinil, long. plays, compactos de sucesso, tudo sempre preparado para se dançar livre ou coladinho.
 
A cidade pequena, turma do colégio, turma de sair, de frequentar a casa… se tivesse um aniversário todos eram convidados; “bicão”, como se dizia na gíria da época, só se não fosse da turma, mas se fosse, poderia chegar em qualquer festa e levar a irmã, porque essa também era da turma.
 
E lá fui eu com meu irmão, num domingo à tarde, na festa do aniversário do novo menino da turma, filho da professora de OSPB, (para quem não sabe, OSPB – Organização Social Política Brasileira) que se mudara de Campinas com a família porque o pai advogado, com clientes na cidade, e a mãe efetivada no colégio. 
 
Aniversários na garagem eram assim:  nada de álcool, adultos supervisionando, músicas tocando… e a música proibida que causava “frisson” era “Je t’aime moi non plus”, Canção de Jane Birkin e Serge Gainsbourg, e ele me tirou pra dançar.

Nada ocorreu de mais próximo durante os anos que fomos amigos de turma. Meu irmão e ele, sim, se tornaram grandes amigos, andavam de bicicleta, viajavam juntos, aprontavam juntos.

Ele, um menino diferente, com hábitos de cidade grande (Campinas, na nossa imaginação, já era uma Metrópole), namorou amigas em comum; enquanto eu me mantinha fiel a uma “paixonite” de adolescente que me acompanhou por anos. (Mas essa é uma outra história). Ele fazia a sensação entre as meninas por ser diferente (articulado, inteligente) e tinha amigos e primos “gatos” que sempre trazia nos finais de semana para ficar na sua casa. 
 
Desde aquele dia quando dancei com ele a proibida “Je t’aime mói non plus”, nada aconteceu entre nós, a não ser um episódio, 10 anos depois (1979), num encontro rápido  de amigos saudosos que, em função da distância, (já que agora ele estudava na USP) e não se viam há tempos, teve muito beijo na boca… beijos que nenhum dos dois havia programado … e não passou disso.
 
Vida que segue. A minha. A dele. Não nos vimos mais.
 
Anos e anos depois, eu, divorciada, passei a ser o interesse de um também amigo; amigo daquela turma da cidade onde morei (até hoje tenho vínculos porque lá residem boas amigas e a minha família).

Esse amigo pretendente ao cargo de namorado sério numa insistência que, para mim extrapolava, buscava situações e conhecidos para que me decidisse ao compromisso. Era bombardeada diariamente com telefonemas pela manhã, tarde e noite… inúmeras mensagens para que eu acordasse, comesse, dormisse; era bom dia, boa tarde, boa noite e tudo mais… só eu não estava “de boa” porque me sentia vigiada… Cercava amigos, família, vó, vizinha… todos que pudessem me convencer a aceitá-lo como namorado. (Afff…)

Mas, como tudo na vida tem um “mas”… eu que estava buscando tropeçar no homem que seria meu amor, tal qual a cigana tinha previsto quando leu a minha mão, eu seguia fugindo do amigo que queria o compromisso sério e,  ao responder a uma  amiga em comum, via privado do Facebook,  que ele também procurara pra me convencer… na página chamou minha a atenção aquelas janelinhas  de amigos, pois havia um nome conhecido e muito único… só podia ser ele… o amigo que não via há quase 23 anos. 

Mando um convite solicitando amizade e encaminho uma mensagem…  a resposta veio imediatamente. (Era 03 de junho de 2011).

Naquela sexta-feira trocamos mensagens de oi, como vai, onde estás e, cinco dias depois um convite para nos encontrarmos…. Sugeri um café, ele, um jantar. 

Às 20:30 passou em casa.

Comida italiana, vinho, conversa e 2 telefonemas do amigo insistente candidato a namorado; saímos da Tratoria e a música era “Amor I love you”.

A cigana acertou quando leu o meu destino. Casamos!

E o fim da história não é: “e foram felizes para sempre”, porque felizes para sempre não existe. Mas felizes, sim!

Shirley Andreuccetti – Bela Urbana. Professora de formação, por amor e por paixão. A Psicanálise e a Mediação são adendos para complementar o trabalho na Educação, o verdadeiro ópio. Canceriana com ascendente em Peixes e 7 Planetas em Leão, um mapa astral cheio de intensidade e contradições. Paixão pelo filho e pelo Mauridinho. Gratidão eterna aos meus avós, uma vez que fui uma criança criada por eles.

O ano começou ótimo para ela. Pretendia se formar na faculdade. Sim, essa era sua prioridade, já que seus pais sempre lhe disseram o quanto ter seu próprio diploma era importante; o quanto independência intelectual e financeira eram tudo na vida de uma mulher. Por isso, ela também ia encontrar um emprego. Um bom, daqueles que se tem possibilidade de crescer e orgulho de contar para a família. Família. Ela pretendia visitar seus avós toda semana. Agora, ela podia dirigir! Parte da tão cobiçada independência já estava bem encaminhada. Esse ano ela poderia ir sozinha pra a faculdade; poderia visitar os amigos; ir a festas; viajar com o amor de sua vida. Tão jovem, e já havia encontrado o amor! E ela planejava aproveitar naquele ano. Aquele ano prometia… além de tudo isso, sua autoestima estava melhor do que nunca, ela acabara de começar a fazer aulas de dança, ela tinha idade para ir aos bares e começar a explorar a vida.

E que vida ela tinha planejada! E começava agora!

Que ano era esse? Esse ano era 2020.

Em março, tudo estava caminhando em direção a um ano de sucesso, quem sabe o melhor de todos? Era isso que ela prometia para si mesma todo Ano Novo: fazer esse ano ser o melhor da sua vida.

Até que, um dia, tudo se despedaçou. A faculdade foi cancelada, e todos foram mandados para casa. Ela deu adeus a um emprego, já que não tinha mais ninguém contratando. Pior de tudo, ela nem podia sair de casa! Como veria seus avós? Como os poria em risco? Sairia de casa para que, então? E suas viagens? Seus amigos? A dança? As festas e bares? De que serviria a carteira de motorista que ela lutara tanto para conseguir?

E a distância doía…

A solidão aumentava a cada dia, como se ela fosse uma mochila cada vez com um livro a mais dentro de si. Pesava. E sufocava. Que importava o que ela pensava sem ninguém para compartilhar? E no que ela poderia pensar, se nenhum dos objetivos dela podiam mais ser alcançados? E a cada dia, ela sentia que aquilo que, um dia, ela sonhou, importava menos e menos… até que ela se tornou um recipiente vazio.

Sem forças, comia menos. Não estudava mais tanto, porque não importava. Se afastou dos amigos e perdeu contato com a família. A cada dia ela entrava mais e mais dentro de si. E a cada dia ela encontrava menos e menos para ver.

Um dia ela acordou no meio da noite. Estava fraca e sem vontade. Estava sem ar. Abriu a janela de seu quarto. Olhou para as estrelas. Olhou para as ruas vazias. Viu a lua. Viu as árvores. E se espantou. Tudo ainda estava lá! Ela havia se esquecido! Esquecera-se de tudo fora de sua janela! Esquecera-se da linda paisagem que a aguardava! Esquecera-se das pessoas que esperavam por ela! Esquecera-se do mar, que ela não podia ver, mas tinha certeza de que estava lá! Esquecera-se de quem ela prometera ser! Esquecera-se de viver! Afinal, havia esperança, e estava lá! Tudo que ela queria estava lá, quieto na calada da noite, pausado, à sua espera, suspenso, mas o vento disse a ela que não era tarde! Que amanhã ela teria uma nova chance de sonhar! Uma menina, uma criança, 20 anos não é tempo de desistir de tentar!

Ela não dormiu mais naquela noite. Estava atrasada. Sem tempo. A vida esperava por ela. Ela sentia saudades do sabor! Do seu prato favorito; de um abraço de seu pai; de um beijo de amor; de fracassar! Mas de tentar de novo. Ela tinha tanta energia armazenada e queria começar a gastar agora! Ela tinha saudades do saber! Da fome dos livros! Da ambição que tinha antes! Ia demorar um pouco para reconquistá-la, mas aquela menina ainda estava lá! Pouco a pouco, a vontade brotou dentro dela como uma pequena muda, pronta para se tornar uma frondosa árvore. E ela a regou. Ia garantir que crescesse e que ela pararia de ser a sombra em seu caminho. Ela seria luz.

Ela abriu a porta de casa. Respirou o ar puro. Não, não era tarde. Ela guardou aquela vista. Guardou as memórias. Com o gosto de liberdade na boca, ela entrou de novo. Sorriu.

Agora, ela era uma mulher de 20 anos. E estava pronta.

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU

Era um dia desses que a gente não tem o que fazer. Fui eu, mais dois amigos ao bar. Falávamos daquelas coisas do universo que nos rodeia: Corinthians, Hamilton, MMA, Bolsonaros e outros assuntos irrelevantes de fato. Cerveja vinha, cerveja ia e gente começava a ter tédio. Muito tédio.

Lascamos a falar mal de mulheres que tínhamos tido. Várias, citando o nome ou não, eram motivos de risada. Seja pelas manias, pelas fixações, pelo atrevimento e ousadia. Qualquer valor era motivo de crítica apenas pelo riso. Ao final, estávamos a contar piadas das mais preconceituosas que se possa imaginar…

Um de nós, não lembro qual (mas não fui eu, claro), fez o desafio: Duvido que alguém dessa mesa saia daqui com uma mulher. Trato feito! Rodamos o bar a procura de alguma desavisada que caísse no nosso léro. Foda-se o nome, era por honra! Não queria ser motivo de piada no próximo Happy Hour.

Eis que a vi. Uma mulher sozinha, impaciente, meio que aguardando algo. Me pareceu habituê daquele bar, ou das noites solitárias, algo que me identifico, não sei como. Sentei ao lado, puxei papo sobre o Jalapão  (ou Japão, nem me lembro) ou qualquer outro local que nunca pisei, mas que, por curiosidade, havia lido na Wikipedia. E que sorte, ela sabia algo sobre esse local. Ou que azar, não sei. Só sei que o papo rolou.

Mas a coisa foi andando para um lugar estranho. Ela foi ficando distante e eu sem bala na agulha (ou na língua). O clima foi esfriando à medida que percebia o vazio que ambos tinham e a aflição em preenchê-lo era grande, crescia. Por algum motivo, me identificava com ela, e me atraía por seu olhar vago, à espera de algo.  E não me refiro aos amigos que deram cano no bar, mas algo da vida que lhe faltava.

Senti uma vontade de partilhar meus medos e angústias, meus sonhos também, algo que não faço há muito tempo. “Mas basta! Que pensamento fraco, homem! Solta uma cantada e agarra essa mulher! Você está aí para provar o poder de seu falo aos colegas, não?”. Essa era a voz que me trazia ao chão. Ou à lona, não sei.

De fato, em algum momento inesperado ela me beijou. Me beijou como se estivesse à procura de algo dentro de mim. Parece papo de maluco, mas senti que ela estava em busca de alguma coisa que não iria encontrar em mim. E eu fiquei intrigado com isso, ainda mais que ela se levantou e se foi logo em seguida. Me pareceu que já fizera isso antes, dessa mesma forma. Como se estivesse minerando em busca de uma pedra preciosa que perdera…

Logo parei para terminar meu copo, e nisso, pensei em mim. O que eu estava fazendo ali, meu Deus? Tentei usar alguém para provar algo para outro alguém. Mas eu mesmo ali não estava… Aliás, quem eu era nessa cena, nesse teatro de farsa? Um saco de batatas, vazio e sujo talvez.

Voltei à mesa com sorriso amarelo. Tinha provado a eles meu potencial, mas por dentro continuava a pensar o quão ridículas aquelas noites estavam se tornando com eles. Precisava mudar meu rumo, mas que rumo tomar, sem que achem que sou frouxo, porra?

Cheguei em casa quase de manhã, pois fiquei rodando a cidade até o sol aparecer. Pensei em todas as mulheres que passaram na minha vida. Casamentos, namoros, noivados, noitadas. O que eu tinha plantado nessa vida além de sêmen? Realmente, acho que não vou colher porra nenhuma desse jeito.

Abri meu guarda-roupas, separei alguns objetos que guardava e não usava mais. Coisas que provavam o que eu não era. Separei roupas que não mais cabiam, perfumes da moda e remédios azuis. Botei num saco preto e joguei no lixo. Não sei o que me deu, mas aquele dia, depois daquele beijo vazio, me deu uma vontade de mudar algo que ainda não sei o quê. Preciso começar…

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

VÉSPERA DE NATAL. Último dia do trampo, entrei às 11h30 e saí às 18h, fiquei no caixa, depois do expediente o pessoal do “calçados” se reuniu para tomarmos champagne (bom!). Clima de despedida, vou sentir saudades do pessoal (“foi bom estar com vocês, brincar com vocês…”), foi bom mesmo, muito bom!

O “R” me ligou da sua cidade, desejando Feliz Natal, eu simplesmente adorei!. L me ligou em seguida desejando Feliz Natal, gostei muito! (é bom demais saber que lembram da gente).

Ceia na casa de uma tia, ela e família, os outros tios, primos, avós, tias-avós, amigos, namorados. M estava muito chata, acho que não tem jeito, ela é desagradável, que pena!. Pai (de bode).

NATAL – não gosto do que as pessoas te transformaram.

24 de dezembro – Gisa Luiza – 20 anos

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: @gilguzzo @ofotografico

Quando tenho dúvida na matéria
Ele me dá as respostas
Quando não sei o clima
Ele me mostra
Quando tenho saudades da minha amiga
Ele me leva até ela
Quando escrevo um texto novo
Ele o transporta a todos os meus conhecidos

Quando tenho outras coisas a fazer
Ele me prende
Quando quero dormir
Ele não me deixa
Quando quero privacidade
Ele não me dá
Até quando quero ficar sozinha
Ele está lá comigo

Quando olho para os lados
Mesmo sozinhos
Estão todos acompanhados
Quando saio de casa sem ele
Volto buscar
Ou fico sozinha de verdade
Me sinto ansiosa
E parece que falta uma parte de mim
Parece que deixei
Meu pai meu namorado todos os meus amigos
Em casa
Que não me importo com eles

Eu posso reportar cada segundo do meu dia
E mesmo que ninguém me cobre disso
Sinto que o dia não é completo se não o faço
Como se esse dia nem tivesse sido
Porque não foi divido com ninguém

Não sei como faziam antes dele
Como se combinava de sair juntos?
Como se conhecia gente nova?
Como se sabia o número de todo mundo?
Como se pedia para o pai ir buscar?
Como se guardavam as memórias?
Como se trazia comida?
Como se mostrava aos outros?
Como se fazia para alguém se interessar?

Não sei se preciso
Mas também não posso dizer que não
Não sei
Só sei
Que não vivo sem

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU.

Atualmente em nossos celulares temos muitas opções de aplicativos, diferentes formas de entretenimento, serviços de entrega, redes sociais e muitos outros.

Em muitos aspectos esses aplicativos nos ajudam, como exemplo quando estamos com amigos e queremos comprar cerveja ou lanche e não temos carro, nem um mercado próximo, ligamos aplicativos como Rappy e I-Food e rapidamente os pedidos chegam onde estamos.

Porém, temos muitos problemas que alguns aplicativos nos trazem, como fakenews (muitas) e o fato das pessoas passarem muitas horas nos aplicativos, perdendo a noção do tempo e muitas vezes também perdendo um belo dia de sol.

Com a internet, as redes sociais, pessoas que antes não tinham voz, agora podem também ter seu destaque na mídia e mostrar aos outros o que pensam, que fazem, que gostam e muito mais, mas o grande problema é se elas estão mesmo sendo verdadeiras ou apenas usando essas redes como uma fachada para esconder problemas e frustrações.

Enfim, a internet mudou muito o estilo de vida da população, e a questão que deixo aqui é: Como seria a vida sem ela?

Bruno de Andrade Nogueira – Belo Urbano. Estudante de jornalismo. Curte fazer acadêmia e tem como lema a frase “nós não somos iluminados, nós iluminamos”