Como um segredo que se quer revelar aos poucos, foi tirando lentamente o capacete com uma vontade de respirar a si mesmo. Olhou por um instante ao redor enquanto afagava seu cabelo amassado. Estava de volta. Estava de volta à cidade que havia abandonado pra nunca mais voltar e estava de volta ao bar em que havia começado a trabalhar como motoboy no dia anterior. Não contou a ninguém que havia voltado. Queria ficar escondido enquanto recuperava tudo que havia perdido fora dali. O emprego de motoboy no bar era perfeito. Vivia invisível dentro do seu capacete enquanto percorria os quatro cantos da cidade. Era assim que queria, era assim que seria por um tempo. Sentia-se um flaneur às escondidas. Sentado na moto ao lado dos demais entregadores, começou a fitar a todos dentro do bar. De repente, seu coração gelou e um arrepio gelado subiu pelas costas. Imediatamente colocou o capacete, causando um certo estranhamento aos outros entregadores ao redor. Era ela! Ela estava ali. Sozinha na mesa do bar. Ela parecia esperar alguém. Ninguém chegou. Ela bebeu, sorriu, beijou um estranho. Ele foi invadido por memórias e calafrios. Memórias do amor pra vida inteira. Aquele amor que nunca acaba. Vieram as memórias da pele, do cheiro, dos seus corpos ainda mornos e abraçados na manhã seguinte e de tantas outras coisas. Engolia seco e suava frio, ao mesmo tempo em que ainda podia sentir o gosto da sua boca e da textura das suas costas molhadas entre seus dentes. Sentiu um ímpeto de ir até a mesa, mas não foi. Ela levantou-se e saiu cambaleando pelas ruas escuras. Não pensou em nada. Saiu da moto e foi caminhando atrás dela. A situação era quase bizarra e chegou a rir. Afinal, resolveu ir atrás sem tirar o capacete. Mas era assim que tinha que ser. Cuidadosamente se esgueirava pelas calçadas sem ser notado. A não ser quando uma ou outra pessoa resolvia dizer alguma coisa ou brincar com a situação. Afinal, não era comum ver um homem andando escondido pelas ruas só de capacete. Mas ele não ligava pra nada. Enquanto ia atrás dela a sua cabeça revirava. Queria vê-la mais de perto, sentir o seu perfume, olhar no seu olho. A madrugada avançava e nada. Ele a protegia com suas memórias. Memórias que também a levaram para uma praça que ambos sabiam o que significava. Decidido, depois de um tempo, tirou o capacete e arrumou o cabelo. Deu um passo à frente em sua direção. De repente, um telefone começou a tocar. Ela não atendeu. Tomou coragem e tentou de novo. O telefone tocou novamente e ela atendeu. Desligou. Ela olhou ao redor e respirou fundo. O dia estava amanhecendo. Enquanto o dia chegava a coragem dele ia embora. Mesmo assim, tirou o celular do bolso e colocou uma música do Milton que havia cantado pra ela. A música que era “Quem sabe isso quer dizer amor” começou a encher a praça ainda silenciosa e vazia daquela manhã. Ela olhou em volta com um ar surpreso. Quase não acreditava. Procurou instintivamente por ele. Ele já havia colocado o capacete e se afastava junto com a música. Ela ficava com a memória. Ele caminhava, assim como os versos do Milton, com a vontade “… de chegar a tempo de te ver acordar, de vir correndo à frente do sol, de abrir a porta e antes de entrar, reviver uma vida inteira…”

Gil Guzzo –Belo Urbano, é artista, professor e vive carregando água na peneira. É um flaneur catador de latinhas. Faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO PRESS (Agência de imagens) e professor universitário. Adora cozinhar e ficar olhando distraidamente o mar. É alguém que não se resta a menor dúvida…só não se sabe do que…. 

Olhava pela janela esperando que escurecesse rápido para sair. Gostava pouco de ser vista durante o dia, nos tempos que vivia agora. Se arrumara de forma descuidada e seguia, o caminho sabia ‘de cór’.

Entrou no bar vazio pela hora, cedo ainda, pediu uma cerveja. Não se dava conta de quando isso tinha virado rotina. Porém, aquela noite se deparou com uma já imaginada e mais ou menos esperada: encontrar quem tanto brincara com seus sentimentos, todo sorriso e sedução, numa mesa próxima.

Sua companhia tinha o olhar distante enquanto ele não parava de falar. De onde ela estava ele pouco podia vê-la , porém, ela via com clareza que tinha chegado ao fim essa história que um dia mexeu tanto com os dois.

Agora, distante de emoções, olhava-o como um qualquer, ou melhor, aquele homem ela não olharia caso cruzasse o seu caminho.

Ela se distraía com o celular e vez por outra dava uma espiada para o lado, apenas força de hábito.

Naquela noite, naquela hora tomara a decisão que já devia ter tomado há tempos: perder de vez qualquer esperança de um retorno feliz e seguir em frente.

Voltar para casa, não sem antes cruzar pela mesa ao lado, onde ele estava, se fazer vista e jurar para si que não mais se sentiria assim.

 Nove da noite, calor no quarto desarrumado. Entre revistas, livros e roupas espalhadas resolveu ali começar sua revolução pessoal.

Desapego foi a primeira palavra que veio à mente, e partiu para a ação. Juntou tudo que não vestira por um ano, guardou fotos que nada lhe diziam no momento. Juntou livros e revistas para doar, o quarto começava a respirar novos ares.

Refez a cama com roupas limpas. Pôs uma mala sobre ela e começou a colocar roupas escolhidas com carinho, suspirava, sorria. As roupas escolhidas não seguiam uma lógica, não importando sol, chuva, frio, calor.

 O próximo passo foi cuidar das plantas, colocando-as num canto da varanda entre sol e sombra. Passou vistas na sala e cozinha tentando deixar registro na memória da posição de móveis, quadros e objetos.

Já tarde entrou num chuveiro de água bem quente e deixou que lágrimas caíssem junto com a água. Por fim, um jato de água fria! Colocou uma camiseta velha, larga como gostava de dormir e no conforto da cama limpa começou a pesquisar um lugar para onde ir.

Já viajara muitas vezes na sua cabeça, e assim foi. Seguiu sua intuição, deixou tudo pra trás e foi em busca de novos encontros, desencontros ou talvez um porto seguro.

De certo o que ficara para trás não moveria mais seus passos. Agora era a protagonista da sua própria história!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Você que acorda cedo pra pular Carnaval. Que vai tarde adentro, noite afora. Que esperou ansioso para camelar ao sol e ao som de batuques. Não vai poder entrar na folia este ano, porém não passará de bar em bar pisando em urina fresca, não vai levar passada de mão gratuita e terá seu dinheiro guardado na pochete no fim do dia.

Brincadeiras à parte, o carnaval foi cancelado! A pandemia não!

Ainda na espera dos blocos vacinados muita gente vai ter que reinventar a passagem sem o batuque horas a fio.

O que faria no carnaval será feito em casa e sem o agravante de ser assaltado ou ferido. Brincadeiras à parte, este texto satírico é só pra deixar mais ameno o fato de que o brasileiro, folião por definição, terá que brincar de pijama mesmo. Do Oiapoque ao Chuí.

Mas não se lamente, ouça um álbum novo, ou velho, faça uma playlist, entretenha-se num podcast, leia um livro engavetado, veja um clássico.

Seu carna vai ser diferente porque todos somos hoje. Não haverá festas, nem manchetes e fuzuê.

Seu amor sambista vai aguardar a vacina chegar.

Fantasia de coronga nem à vista. A gente não aguenta mais ver essa praga.

Não há festa. Nem manchetes dos títulos, alvoroço nas ruas.

Tô fria? Não. Realista.

Cozinhe seu prato preferido, sambe na sala até calejar. O importante é que estaremos vivos para pular feito doido quando o mundo deixar a folia voltar.

E tá tudo bem! O samba é maior! E tá dentro da gente oriundo que só ele, guardado e protegido.

Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.

Ela nunca gostou de Natal. O que todo mundo sempre achou feliz e cheio de esperança, para ela era deprimente e sem sentido.

Andando pela rua, ela começou a pensar qual o verdadeiro valor e significado de tudo aquilo…

Para quem é religioso simboliza o nascimento de Jesus. Para quem tem esperança é o começo de algo novo. Para quem gosta de festa é mais um motivo para juntar a família e os amigos e comemorar.

Mas o que era o Natal pra ela?

Por muitas vezes foi festa, casa cheia de gente, todo mundo dançando e dando risada. Por muitas vezes foi dor, passando no hospital e sem saber se ia ficar tudo bem. Mas uma certeza ela tinha, sempre foi família.

Se as coisas estavam boas ou não, se era uma data de choro ou de risada, sempre foi família. E por mais que essa data até hoje não seja sua favorita do ano, ela sabe que se sentirá em casa, porque passará mais esse momento em família.

Ela olha ao redor e vê as luzes piscando pela cidade e não consegue colocar em ordem a bagunça de sentimentos que se passa dentro dela.

Inspira, expira o ar e segue caminhando, tendo a certeza de que mesmo não importando o motivo, Natal é amor!

Juliana Manfrinatti Bittar – Bela Urbana. Bióloga. Gestora empresarial em formação. Apaixonada por livros, se arrisca às vezes na escrita. Tem como um dos objetivos de vida conhecer todas as maiores e mais bonitas bibliotecas e livrarias do mundo.

VÉSPERA DE NATAL. Último dia do trampo, entrei às 11h30 e saí às 18h, fiquei no caixa, depois do expediente o pessoal do “calçados” se reuniu para tomarmos champagne (bom!). Clima de despedida, vou sentir saudades do pessoal (“foi bom estar com vocês, brincar com vocês…”), foi bom mesmo, muito bom!

O “R” me ligou da sua cidade, desejando Feliz Natal, eu simplesmente adorei!. L me ligou em seguida desejando Feliz Natal, gostei muito! (é bom demais saber que lembram da gente).

Ceia na casa de uma tia, ela e família, os outros tios, primos, avós, tias-avós, amigos, namorados. M estava muito chata, acho que não tem jeito, ela é desagradável, que pena!. Pai (de bode).

NATAL – não gosto do que as pessoas te transformaram.

24 de dezembro – Gisa Luiza – 20 anos

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: @gilguzzo @ofotografico

Tudo se transformou quando você chegou!

Eu pensava que o amor era amor, mas de repente o amor se transformou em amar incondicionalmente uma pequenina que acabou de chegar.

Eu pensava que o amor era amor, mas de repente o amor se transformou num objetivo de vida para aprender a cuidar de uma pequenina tão indefesa.

Eu pensava,  eu me desdobrava e eu me realizava, enquanto você crescia e encantava.

Eu pensava que tudo seria pra sempre, mas sempre nem sempre seria, mas sempre estaria ao seu lado aqui ou lá.

Eu pensava…., mas de repente passaram 20 anos que nem percebi de tão maravilhosos que foram cada segundo ao seu lado.

Eu pensava, eu creio e eu afirmo, filha é uma presente divino.

Antônio Pompílio Junior – Belo Urbano. Graduado em Análise de sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas . Pós-graduado em Gestão de Empresas pela UNICAMP e MBA Gerenciamento de Projetos E-Business pela FGV-RJ . Adora esportes, viagens e luta pela liberdade da vida e pelo amor das pessoas.

Pomps

Chamego eu gosto
Chamego me faz bem
Chamego no rosto
Chamego na alma
Chamego que nunca desdém
Chamego me amansa
Chamego me faz sorrir
Chamego me faz curtir
Chamego na hora de partir
Chamego só pra sentir
Chamego de surpresa
Chamego debaixo da mesa
Chamego na hora que convém
Chamego também na hora incerta
Chamego debaixo da coberta

Sentir-se amada
Sentir-se querida
Sentir-se afagada
Sentir-se empoderada

Sorrisos se encontram
Mãos só transpiram
Coração acelera
Pensamentos
Coisas da vida
Quero mais
Chamego

Angela Carolina Pace – Bela Urbana, publicitária, mãe, apaixonada por Direito. Tem como hobby e necessidade estudar as Leis. Sonha que um dia as Leis realmente sejam iguais para todos.

VERSANDO

ALENTO

SOLETRO

O TEMPO.

VISLUMBRO

CANTO

PERCEBO

O LEITO.

TOCANDO

HÁBITO

NOTANDO

O FÔLEGO.

EXPANDE AMOR

SACIA

A DOR.

SELANDO A VOZ

PENETRA

EM NÓS.

CARISMA FINCA

TORMENTO

ABALA.

ENTREGA ESPERA

CÉLULA

SE ACHA.

VEIAS DE AMOR

ABRAÇA!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

X X X X X X X X X X X X ❤…– … Match!!!

–x–

Cara do Match: – Oi, nossa estamos bem perto hein?

Meu pensamento: – Mas que raios? Porque não vi isso? 4km de distância. Deus me livre se for um Serial Killer, ou pior, pode ser alguém que vai ficar me mandando mensagens a cada meia hora, perguntando onde estou…Nossa, e não tem nada a ver comigo…devia estar muito carente meia hora atrás. Melhor dar Unmatch?

Meu dedo na ação: – “unmatch”

–x–

Bom, melhor antes de mais nada explicar algumas funcionalidades dos aplicativos de relacionamentos para quem não sabe como isso funciona:

Tinder: Você monta seu perfil, colocando suas preferências: homem ou mulher, faixa de idade, etc… aí escreve uma pequena biografia (se quiser), coloca seu Instagram (se quiser), coloca músicas (se quiser). Por fim, adiciona fotos bonitas ou esquisitas, porque acho que às vezes essa é a decisão de algumas pessoas, e pronto, você pode começar a brincar.

Happn: Igual o Tinder, porém ele mapeia quem cruzou o seu caminho ou passou perto.

Nos dois apps, se você não gosta do perfil que te aparece, é só apertar o X e ele sai da sua linha do tempo. Se você gosta, manda um coração. Se ele também te mandar um coração, vocês formam um Match! Que lindo!! É aí que podem começar a conversar. Agora, se você se arrependeu do match, é só apertar unmatch, e a pessoa some da sua lista.  Foi o que eu fiz ali em cima.

Ah a decisão de apertar o X ou o Coração tem que ser imediata, nada de deixar para depois (péssimo para indecisos como eu).

Tem outros jeitos também de falar que você gostou da pessoa, mas aí você tem que pagar e isso tá fora de cogitação pra mim.

De uma forma geral, se você ainda não entendeu, imagina um catálogo da Avon, da Tupperware ou da Natura, em que no lugar de todos esses produtos que essas marcas oferecem, há homens “se oferecendo” em um catálogo online e no celular. Tipo isso.

Agora, esses aplicativos nunca foram do meu gosto, exatamente pela ideia formada em minha cabeça de estar escolhendo homem em um catálogo, algo um pouco bizarro na minha opinião. Mas vamos combinar né? Essa quarentena acabou temporariamente com o jeito tradicional de conhecer pessoas, e também acabou com a minha “lista de possíveis contatos”. No começo, lá por maio, até baixei o Happn, mas depois de poucos dias deletei. Ahh me deu preguiça e decidi respeitar meu tempo e minha necessidade de ficar sozinha. Percebi que meu coração precisava de um respiro, um tempo isolado pra terminar de se curar, pra se conhecer e finalmente se abrir a um outro alguém, fosse para compromisso sério ou não.

Depois de um término de relacionamento, cada um tem seu tempo de cura. O seu pode ser diferente do dele, dela. E traumas ficam, assim como aprendizados. Aprendizados doloridos, mas que me fizeram enxergar a necessidade de me olhar por inteira, de compreender minhas vontades e equilibrá-las entre meu orgulho e meu amor próprio.

Minha intenção é ser sincera primeiro comigo. Me entender e assim estar apta e aberta a entender o outro. Não quero mais jogos. Não quero ter que fingir desinteresse ao demorar para responder uma mensagem. Não quero ter que continuar com alguém por carência. E tem dias que não quero falar com ninguém, não quero conhecer ninguém. Tem dias que quero ficar solteira e gosto disso. Não quero me sentir obrigada a entrar em um relacionamento porque com essa idade a sociedade diz que eu devia estar namorando, noiva, casada, grávida ou com filho.

Não quero ser o padrão que a sociedade impõe. Quero criar o meu próprio padrão.

Também não vou ser hipócrita e falar que quero ficar sozinha pra sempre, ou que eu me preencho e não preciso de mais ninguém. Estou cansada desse discurso que às vezes pregam de que temos que ser exclusivamente autossuficientes. Quando que ser autossuficiente virou sinônimo de deixar de incluir um outro na nossa vida? O ser humano precisa de vínculo com outros seres humanos e ponto, e se você discorda vai dar uma lida no livro da Brené Brown, “A coragem de ser imperfeito”.

Entendo que esse tipo de discurso é pautado em nossa história, por termos sido caladas por muito tempo. Porém, se continuarmos proclamando a “Guerra dos Gêneros”, onde vamos parar?

Independente de gêneros, cada um tem suas feridas, suas ideias, seus pensamentos, suas vulnerabilidades, formando histórias únicas e particulares.

É lógico que em alguns dias minha presença será suficiente, assim como em outros dias a presença de alguém ao meu lado será importante e necessária. Não importa se ainda é só uma paquera, um casual, uma amizade com benefícios ou algo que vire por fim um relacionamento sério. Mas o que tá faltando acima de tudo é respeito. Quero oferecer respeito e ser respeitada, porque a falta dele desencoraja.

No passado deixei de tocar em meus sentimentos, deixei de me fazer entender. Não me permiti falar sobre o que me afligia, e por imaginar o que o outro estava pensando através de suas ações ou ausência destas, me confundi. Desrespeitei a mim e a ele, e vice versa. Meu orgulho e meu ego cresceram, e ao invés de antídotos, seus excessos viraram alimento para minha insegurança.

Quando consegui falar tudo que queria, já era tarde.

Eu mesma tapei meus buracos, e eu mesma estou aprendendo a lidar com os vazios deixados por outro. Não quero ser a responsável por deixar um buraco no coração de ninguém.

Dali amadureci e aprendi a não me fazer calar.

É, não imaginava que um “unmatch” ia cavar em mim labirintos. Apesar disso tudo ter saído de um pensamento cômico do meu cérebro, encontrei pelo caminho medos reais oriundos de um passado ainda presente. Medo da rejeição, do abandono e da traição. Medo de me fazer sufocar por mim mesma, e de esquecer quem eu sou.

E entre essas lembranças e pensamentos, estou aprendendo a me ler por completo. Estou aprendendo o significado da empatia. É assim que o respeito passa a ter propósito, passa a ser consciente, e é assim que a coragem de mandar aquela mensagem pra aquele alguém nasce no peito, mesmo que aquele alguém seja por agora só o match de um aplicativo.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier