Que castelo mais lindo! Coisas dos sonhos! Do sonho de qualquer uma… ou qualquer um. Viver ali era amor. Ela vivia tudo que queria. Nunca representou personagem algum na vida real. Ela era o que era, sem máscaras, e amava seu castelo.

Mas as coisas começaram a não caber ali, um pouco estranho, meio misterioso isso… algo não se encaixava. Tinha muito mistério nesse castelo, lugares e portas emperradas que não abriam. Muitas trancas… mas no começo ela não via.

Com muita força, um dia, abriu uma porta e o castelo começou a ruir. Era feito de areia.

Rapidamente o castelo de areia desmoronou com ela ali dentro. Quase foi engolida, mas ela ainda tinha muita história para contar e muita vontade de viver. A sorte é que a areia não era movediça.

Levantou, engoliu um pouco, tossiu. As lágrimas não paravam de cair. Castelo desmoronado, no chão. Não se sustentou.

Chacoalhou o cabelo, bateu com suas mãos no corpo tirando o grosso da areia da roupa. Esfregou o rosto. Respirou fundo três vezes bem devagar para se acalmar. Com esforço conseguiu sair do monte de areia.

Por dois infinitos minutos olhou para aquele monte que um dia foi um castelo, seu castelo. Não tinha vocação para ser infeliz. Apesar de toda dor do tombo, se consolava porque sabia que tudo que colocou ali dentro foi concreto. Agradeceu ter sobrevivido.

Foi embora sem olhar para trás, mas ainda chorando.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Se deparar com o silêncio é enlouquecedor. O apartamento era chique, tudo milimetricamente no lugar.

Nos últimos dias ela estava só. Ninguém podia entrar. Dispensou a empregada doméstica e o personal trainer, a contragosto, mas no condomínio o pedido foi explícito: Liberem seus funcionários pelo bem de todos, precisamos controlar as entradas, temos 06 casos suspeitos aqui.

Solidão pesa, ainda mais para quem se engana. A filha mora em Brasília com o marido, se falam bem pouco. O ex casou faz 10 anos com uma jovenzinha, como ela diz, e até hoje não conversam.

Solidão pesa. Você tem que se olhar, quando tudo que te sobra é você mesmo. Sentir isso era uma facada no peito. Não tinha amigos para ligar, sempre implicava com todos. Era chata. Impecavelmente chata.

As pessoas se afastam de quem só enxerga problemas, só critica.

Sandra, esse era seu nome, mas ela nem se lembrava. A vida inteira foi Sazinhah, que ela escrevia com o H no final desde menina. Achava chique como os copos de cristais que ganhou no casamento há 35 anos e que continuam intactos, sem uso.

Sua vida foi cuidar da casa, mas sempre com ajuda de empregada doméstica. Cada ano uma. Ninguém durou muito ali. Ela implicava. Não era rica, mas tinha uma boa condição. Classe média-alta, casou bem. Fez um acordo no divórcio de uma boa pensão, afinal, ele tinha condição.

Hoje o incomodo foi enorme quando o som alto do vizinho chegou aos seus ouvidos, a música falava rezadeira…. ela se irritou, como sempre aliás. Ligou na portaria para pedir para abaixarem. O som vinha do vizinho, que ela nem sabia quem era. Evitava entrar no elevador com outras pessoas, odiava sentir outros perfumes além do dela. Era chata até o infinito.

A música não parava e se repetia. A portaria retornou e disse que ninguém atendia. Ela poderia bater no vizinho e pedir para abaixar, mas só de pensar sua mão gelava.

Engoliu seco, e foi deixando aquele som diferente entrar na sua mente, no seu corpo. Foi até o espelho, olhou uma mulher com a expressão dura, parada, pensou: deve ser o botox.., os vários preenchimentos. Nunca tinha percebido sua falta de expressão. Doeu, assim como doeu olhar para a cristaleira com aqueles copos de cristais esperando a melhor ocasião. Esperando há 35 anos!

Foi para a varanda, a música que falava benzedeira não parava. De irritada começou a se movimentar, olhava para as áreas do condomínio, todas vazias. Super irritada, começou a se soltar e a dançar. Devo estar louca, pensou. Jogou as almofadas no chão. Foi fazendo um striptease até ficar nua. Nua e só.

Nua e com os cristais. Nua dançando ao som do vizinho. Resolveu beber, por sorte tinha um vinho bom. Presente da dermatologista pelo aniversário, afinal, gastou um bom dinheiro com ela. Não gostou, nunca gostava de nada. Chata.

Nua, abriu o vinho, fez uso da taça de cristal, até que enfim, a ocasião. Dançou na varanda, nua, com o copo na mão ao som do vizinho. Bebeu a garrafa inteira.

Lembrou-se de quando era uma criança e de tudo que NÃO vivera até ali. Lembrou a pandemia. Lembrou da dor da solidão. Dançou até o último gole e jurou que se saísse viva daquilo, mudaria tudo, começaria convidando os vizinhos para um vinho e decidiu que todos os dias da sua vida usaria seu jogo de copos de cristal, até para beber água. 

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

Foto: @gilguzzo @ofotografico

A Tal era a vizinha da minha bisavó.

Eu era uma menininha de 05 anos.

A bisavó era pequenininha mas era maior que eu.

Era véspera de Natal e todos se reuniam na casa da bisa. A vó, o vô, as tias avós, as tias, tios, primos de primeiro e segundo grau, embora eu nem soubesse o que era isso e a Tal.

A noite era de festa, música, cores e muitos sabores. Eu toda bonitinha, lacinho, sapatilha e roupinha rosa. A Tal, parecia uma árvore de Natal, saia curtinha, sapato salto, cabelão, muitas pulseiras e batom vermelho.

A casa ficava em festa. O piano era tocado, de mãos em mãos, as vezes a quatro mãos.

A Tal estava sempre comendo.

Nós crianças brincávamos, corríamos de um lado para outro, dando voltas na árvore da frente, mas vira e mexe dávamos de cara, ou melhor, nas pernas da Tal.

Quando o relógio batia 23h45 íamos todos para a sala como a bisa queria. Dávamos as mãos e rezávamos. Eu não entendia muito toda aquela reza, mas sentia que aquilo era importante e ficava quietinha, meus primos eram bagunceiros e não paravam deixando minha tias enlouquecidas.

Aquele ano eu vi a Tal chorando naquela hora, ela abaixou a cabeça e as lágrimas caíam. Eu tão pequena, vi quando as lágrimas pingaram no tapete. Não era para ninguém ver, mas eu vi tudo, inclusive que só eu vi. A Tal viu que eu vi. Nossos olhares se fixaram  por segundos como se fossem uma eternidade.

Papai Noel chegou com seu HOHOHO e quebrou esse olhar ou qualquer coisa que viesse a seguir. Suadão, nunca vi Papai Noel com tanto calor. Cadê o tio Zé? Diziam que ele tinha medo e por isso sempre sumia nessa hora, as crianças corriam para achar o Tio medroso, mas Papai Noel mais rápido começava a chamar o nome das crianças para dar os presentes e todos voltavam correndo.

Que bagunça. Que alegria, a Tal ajudava Papai Noel e entregar os presentes e quando o saco ficou vazio, ele saiu sem o trenó, andando pela porta da frente. Eu fui escondida ver como ele ia embora e para minha surpresa, vi Papai Noel beijando a Tal.

Descobri. Ela era namorada do Papai Noel. Sai correndo, eufórica, para contar o maior segredo de todos os tempos, mas a Tal me impediu e pediu que eu não contasse para ninguém porque segredos de Natal nunca podem ser revelados. Etc e TAL.

Fiquei quieta, mas feliz porque o segredo do Papai Noel só eu sabia. Que noite feliz!

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto: @gilguzzo @ofotografico