O próximo beijo que eu vou dar
Quantos próximos beijos estão por vir…
O beijo de amor… O de afeto… O de gratidão… O de compaixão…
Aquele cheio de ternura… O da despedida, mas também o da chegada.
Beijos que selam a amizade… Que encerram ciclos. Beijos apaixonados, mas alguns meio aflitos.
Todos fundamentais, mas sugiro um diferente, simbólico, porém de grande valor… Um beijo no espelho! Isso mesmo… beije aquele que está refletido ali. E siga confiante, pronto pra quantos outros beijos quiser dar e receber!

Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

Desde muito pequena sempre fui chamada de beijoqueira. Passava batom pra beijar o espelho e o vidro do box do  banheiro vaporizado. Meu pai não gostava muito de beijo mas eu insistia e ele acabava cedendo dizendo:  – Essa menina é beijoqueira.

Penso que o beijo é uma demonstração de afeto muito pura, que vem do coração, por isso quando fui questionada para quem iria o próximo beijo, no mesmo instante pensei nas crianças.

São elas que dão os beijos mais puros, afetivos e despretensiosos. Elas aprendem desde um aninho o que é um beijo estalando a boquinha e mandando beijinhos pondo a mão na boca.

Quando chego na creche onde trabalho, lá estão elas, esperando o meu olhar, o meu carinho e o meu beijo. Um amor incondicional, sem esperar algo em troca, sem preconceito. Um amor puro. Um beijo puro. simplesmente um beijo.

É pra elas que vai o meu próximo beijo, e o outro, e o outro também. Sempre que existir uma criança é pra ela o meu beijo.

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Bela Urbana, 53 anos, casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

Próximo beijo será pra “ele”. Ele que um dia neguei muitos beijos. Ele que mesmo depois de anos de casados gostava de longos beijos.

Dizia que “o beijo aquece o amor que esta esfriando”. Por cinco anos ficamos ausentes um do outro, partiu e acreditando ser o fim buscou uma outra boca.

Fiquei sozinha gostando da pausa, da frieza, correndo na labuta, numa luta por viver… cinco anos … De vez em quando sonhos com beijos, beijos roubados, beijos consentidos… mas sonhados, não vivenciados. Vem a saudade, da boca de hálito puro, mesmo na manhã ainda no leito.

Vem a lembrança dos beijinhos terminados em mordidinhas nos lábios que pareciam esticar como chicletes numa provocação para outros beijos. A saudade daqueles beijos, foi chegando, se instalando, se firmando e agora?

Bora correr atrás daquela boca que depois de uma boa conversa diz também sentir saudades da minha. Confessa que enquanto outra boca beijava era a minha que ansiava… Bora buscar sua boca em minha boca e nunca mais desgrudar!

O próximo beijo, será pra ele, pois nunca foi de mais ninguém!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, 52 anos, divorciada, mãe de duas filhas, uma de 25 e outra de 17, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

 

Sempre é para ela. E creio que será assim “até que a morte nos separe” e cá entre nós, espero que esse dia demore muito. Sabe paixão? Pois é, dizem que a paixão acaba logo e depois, aí sim, vem o verdadeiro amor, mas no meu caso, sinto que essa paixão vai longe. Não é que já não haja amor – sim, existe muito amor há tempos, mas com ela, eu vivo as loucuras de um eterno apaixonado. Seja pelo jeito cativante dela, seja pela sua alegria, sua espontaneidade e porque não, pelos seus beijos carinhosos.  Por ela, eu literalmente perco a razão, abro mão de dormir mais cedo, faço coisas que não gosto e outras tantas que adoro fazer só ao lado dela. Ela rouba o meu estoque de beijos. Ela me faz ter vontade de beijar, até porque, as amarguras da vida, vão lentamente, nos fazendo beijar cada vez menos – ainda bem que ela está aqui pra me ajudar a trazer à tona o melhor de mim. Obrigado filha. O próximo beijo sempre é, e sempre será pra você. “Beija eu.”

Vinícius Eugenio – Belo Urbano46 anos, publicitário, redator, atua com criação há mais de 25 anos, mas sem dúvida, a sua melhor criação, feita em dupla com a Leila, foi a Valentina. Espirituoso, prático e pragmático, gosta tudo de preto no branco, até por isso, é corintiano razoavelmente apaixonado. Saudosista confesso, colecionador de objetos antigos e admirador nato de Fuscas antigos. 

Ah tô eu aqui 40 anos, solteira novamente… pós separação de um ano de namoro… e de quem será o próximo beijo? Ah… ainda não sei…. mas vai pra aquele que me oferecer um universo diferente que eu possa desfrutar e me encantar… pra ser um beijo gostoso onde a gente tenta descobrir mais ainda sobre o outro e onde a gente se entrega um pouquinho também…

Tomara que seja aquele beijo gostoso em que a gente fica sem chão, nem que seja por um segundo, aquele beijo em que os dois navegam no mesmo ritmo tentando desvendar com a língua o universo do outro.  Aquele beijo em que o corpo todo amolece e faz a gente ter vontade de não parar mais de beijar.

Tô ansiosa por esse próximo beijo… rs… e olha,  não sei mesmo de quem será porque tem alguns pretendentes em vista rs …  hoje, eu solteira.. .com 40 anos! Feliz!

Que venha o próximo beijo e com ele todo um universo!

Luciana Spina – Bela Urbana, formada em publicidade. Trabalhou em agências mas a vontade de ter a própria marca de roupas falou mais alto, deixou a propaganda e virou estilista e criou a marca Lucybravinha. Atualmente faz as próprias roupas com modelagem e estampas exclusivas. Expõe na feira do Centro de Convivência de Campinas aos sábados e domingos e também atende no ateliê no bairro Guanabara. Solteira, mãe de uma menina de 7 anos. Campineira, escorpiana , rock’n roll, romântica e sonhadora. 

O próximo beijo

que eu vou dar

para quem será?

Em quem quero dar?

Será um beijo na boca?

No rosto?

Na testa?

Quem será que vai ganhar?

Ou será que eu que ganharei?

de onde menos espero…

de alguém que se atreva

a me dar um beijo de cinema

ou não, talvez seja, um beijo na mão

Beijo na mão, não rola não

Mas que beijo é esse que está por vir?

Darei?

Sim, darei um próximo beijo e outros

Agora eu vou

E o beijo é virtual, escrito

Beijo que fica no imaginário

Mas beijo é sempre beijo

então, beijo

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

 

Uma São Paulo apaixonada é ainda mais surreal.

Dia desses, na Av. Paulista, tava despedindo do gatinho carioca – ali na entrada do metrô Consolação. Um dia de sol bem gostoso. Com sorvete e calorzinho favorável. A despedida já tinha virado um amasso-espetacular-de-dar-inveja e eu já tinha perdido um pouco da noção do tempo e do bom senso.

Mas eis que, então, somos interrompidos:

– Ei, oi…

De primeira, de segunda, de terceira, ignoramos – um monte de gente ali, oai. Pense na força de um sonho corinthiano e na sinceridade de um desejo flamenguista de que – PORFAVORDEUS – não fosse com a gente. Afinal, naquele dia já tinha parado pra ouvir ONG pedindo o dinheiro que não tenho e descolado uma moeda pra um artesão que queria me vender um chaveiro gigante de fita cassete. Mas o “eioioi” foi chegando perto e ficando insistente. Virou “EI, VOCÊS”. Então, só sobrava nóis memo.

Aí já era. Abre o olho, desmancha o abraço, enxuga a boca, volta pra Terra – contrariada – e tenta achar da onde vem. Ao nosso lado, uma jovem senhora, toda desconsertada, diz:

– Então, sabe, é… será que cêis podiam descer e falar com o funcionário do metrô pra ele inverter o sentido da escada rolante? Porque eu preciso. Porque eu não consigo, sabe? Porque eles fazem, se pedir. Porque o elevador tá com cheiro de xixi.

Ainda sob efeito daqueles beijo que minha nossa, faço pausa de dois segundos só pra entender a situação, sem deixar de pensar MANO, SÉRIÃO? Já o boy, aposto ter sentido algo como um PORRÃ inconsolável.

Claro que a gente foi. Se pegar bonito, em público, não isenta ninguém de ser prestativo e solidário. Pedimos. E ouvimos do funcionário que tinha elevador. E explicamos que ela não queria pegar o elevador porque tava fedido. E contamos pra ela que o funcionário não quis inverter, mas que na outra entrada – logo à frente -, a escada tava descendo. E ficamos observando até ter certeza de que ela achou e entrou. E rimos tentando entender POR QUE CARALEOS – naquele lugar mega movimentado, de uma das maiores avenidas de sp -, ela foi pedir justo pra gente.

A senhorinha deve ter sacado que, em terra de autômatos, ser humano que beija na boca pode ser um bicho um pouco mais generoso.

– Mas bom, agora deixa pra lá. Acho que ajudamos alguém. Onde a gente tava mesmo?

Segue o amasso.

Camila Santos – Bela Urbana, formada em Psicologia, já foi cantora e professora de inglês. Já morou por três meses na Inglaterra e por três anos em Ilhabela. Entre uma ilha e outra, também passou um tempo como tripulante de um navio. De volta a São Paulo, escreve e dança forró para viver.

Ela olhou para ele e sorriu… Um sorriso muito mais de súplica do que de felicidade. Era como se ele lhe sugasse o ar e toda a sua vida dependesse daquele instante, daquele sorriso.

Ele mais uma vez não correspondeu. A indiferença não atendeu à súplica dela e lhe causou infelicidade. Era como se para ele estar ali fosse um sacrifício.

Ela pensou em cada palavra que falou, ele não ouviu nenhuma delas.

Ela se irritou, gesticulou, chorou. Ele seguiu indiferente.

Até que num ímpeto desesperado, ela foi beijá-lo e ele lhe deu a face.

Magoada, ela levantou do banco e virou de costas. Ele, seguro de si, lhe deu literalmente as costas e embarcou no primeiro ônibus que partiu.

E eu fiquei ali no meu lugar, vendo essa cena toda e com vontade de me aproximar e dizer àquela moça: hei, relaxa, sei que agora dói, mas tudo passa. E de abordar aquele rapaz e “praguejar”: hei, não relaxa, sei que agora você se sente por cima, mas tudo passa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

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Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada, sem pensar lasco-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinha risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia decor nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda. Já tinha feio aquilo uma vez com ele, ele de novo nos seus pensamentos, ela ria e tinha vontade de dançar, mas melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua, era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu. Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como o mente clareava para seu estado normal.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa 🙂

 

 

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Um dia ele tomou coragem e pensou em escrever uma carta.

Ninguém mais escreve cartas, mas ele era de um tempo em que as pessoas se comunicavam bastante por cartas, um tempo não muito distante, mas olhando da janela de hoje parece algo perto dos dinossauros.

Ele nunca foi bom com as letras, chegou a ser reprovado na escola por causa da redação, e como sofreu na época do vestibular por isso!

Mas mesmo com essa grande dificuldade definiu que uma carta seria a melhor tática. Aliás tática era uma das suas palavras mais usadas. Começaram meio como uma brincadeira as táticas do jogador… principalmente quando jogava Banco Imobiliário, ficou craque nesse jogo, era imbatível, porém só nisso era imbatível, de fato, sua tática no jogo era absoluta.

Mas, voltando à carta, a sua ideia era algo que chegasse pelos correios, queria que fosse algo inusitado, algo inesperado para os dias de hoje.

Tentou, tentou, escreveu, riscou, rabiscou de novo, tentou e nada. Nada novamente, ele era péssimo em expor seus sentimentos, era péssimo para escrever de forma lógica e expressiva.

Pensou em desistir, mas não era de desistir facilmente. Era ou não era? – se perguntava. A mãe a vida toda o tratou como um bebezinho, não acreditava naquele menino, o pai nem sim, nem não, até o dia que sumiu, o avô assumiu o neto, e com ele, somente com ele, acreditou que não era de desistir facilmente.

Mudou sua tática, em vez da carta foi para um bilhete, melhor digitar, não quero que veja minha letra, pode reconhecer e se isso acontecer o que irei fazer? Queria e não queria… era sempre assim em tudo na sua vida, tratou isso muitos anos na terapia, mas pelo visto não adiantou nada.

Bom, depois de rascunhar algumas frases chegou à versão final, que dizia:

“Vou te olhar discretamente, mas vai ser um olhar de lobo mau”.

Leu no horóscopo algo que a lua mudaria e estaria favorável no dia 9 de novembro, ele acreditava fielmente nisso e por esse motivo escolheu esse dia para que a tentativa de carta que virou um mero bilhetinho fosse entregue.

Pelos correios não seria possível, afinal não teria certeza se ela abriria naquele dia, e teria que abrir naquele dia, é o que dizia o horóscopo. Pensou em outra tática – nossa, aqui entre nós, que homem chato com essa coisa de tática aqui, tática acolá… – Bom, mas voltando à história, ele conversou com seu amigo Totó – não é um cachorro, é um amigo ser humano mesmo –, Totó era seu confidente, sabia o quanto aquela mulher mexia com seu amigo. Conseguiu que Totó fosse o entregador para entregar o bilhete assim que ela chegasse em sua casa.

Alfredo se posicionou do outro lado da rua em uma padaria, colocada estrategicamente em frente à porta da casa dela, nada é por acaso – pensava. Detalhe: a padaria foi construída 15 anos atrás, nada a ver esse pensamento dele, e eu aqui contando essa história pensando que ele não deveria ter largado a terapia… por favor… agora o endereço da padaria não é por acaso… daqui a pouco ele vai pensar que o pingado não é por acaso, socorro desse homem, coitada dessa moça.

Voltando, exatamente às 16h55 ela chegou na porta de sua casa, Totó, que estava escondido atrás da árvore na esquina, vestido de lobo mau, pensava: – “Que papel se prestam os verdadeiros amigos, por uma causa nobre de um grande amigo”.

Ele correu com aquela fantasia quente e pensada para entregar o bilhete para a Rafaela, a mocinha desta história, na verdade nem tão mocinha assim.

Rafaela é uma secretária executiva de uma multinacional, tem 35 anos, terminou há um ano um namoro de 10 anos, que ficaria nisso por mais 10 anos provavelmente, e vem investindo suas forças na carreira, sem acreditar muito em um novo romance.

Totó correu, tropeçou no rabo do lobo, quase caiu, mas foi amparado por Rafaela, ele disse:

– Obrigado, qual seu nome?

– O quê? Não estou entendendo – ela disse.

Com a máscara era impossível entender o que falava.

O que ela ouvia era um blo blo blo, caiu na risada e disse:

– Tire isso, kkkk, não estou entendendo nada. Você vai animar alguma festa infantil? Está perdido? (ela ria sem parar).

Alberto, do outro lado da rua, estava angustiado, não parava de se mexer.

– Tire isso – ela voltou a dizer. – Não posso ajudá-lo a achar a festa assim.

E Totó, sem alternativas, tirou a máscara e disse:

– Você é Rafaela?

– Sim, como sabe meu nome?

– Isso é pra você.

Ele entregou o bilhete, que veio dentro de uma pequena caixinha vermelha perfumada, acompanhada de um chaveiro de metal com a imagem do lobo mau.

Ela disse:

– Eu te conheço?

– Não.

– Você me conhece?

– Não, sim…

– Como assim?

– Quer dizer, conheço de tanto que escuto alguém falar de você.

– Quem?

Nisso Alfredo, que estava inquieto na padaria do outro lado da rua, não parava de se mexer, escondido atrás de um par de óculos escuros e boné, falando baixinho:

– O que estão conversando? Não era para ele conversar com ela… Era só pra entregar. Sai daí, Totó. (ele estava falando sozinho).

– Não, moço, ele não chama Totó, ele é o Pingo… – disse uma menininha que passava ao seu lado naquele momento e mostrava o cachorrinho logo na saída da padaria.

– Não é com ele que estou falando.

– Ah, o moço não quer ir no banheiro?

– Banheiro, menina? De onde tirou isso?

– Ué, você não para de se mexer, sempre que fico assim, minha mãe me diz para ir no banheiro antes que eu faça na calça.

– Obrigado, mas não é o caso, agora me deixe olhar a paisagem, menininha.

Do fundo da padaria uma voz berrava.

– Roberta……

Veio uma mulher correndo em direção à menina e, ao parar ao lado dos dois, já brava, disse:

– Eu não disse para você nunca falar com estranhos?

– Mãe, mas é que esse moço aqui está com vontade de fazer xixi.

– Eu já disse que não estou – falou Alfredo um pouco mais ríspido. Se conteve e olhou para a mãe, que nada mais era que Cris Crica.

Ele pensou: – Ela não, só falta me reconhecer.

Cris Crica era colega de classe de ambos da época da faculdade, a maior fofoqueira que a faculdade já teve, e é claro que ela o reconheceu, mesmo atrás daqueles óculos e do boné.

– ALLLLLLfredo, é você? Por que está de óculos escuros e boné dentro de uma padaria? Ficou careca? Tem problemas de visão? Ou ficou famoso e não quer ser reconhecido? Ahahahhaha.

Ela continuava a mesma inconveniente de sempre – ele pensou, mais angustiado do que nunca, querendo saber o que se passava do outro lado da rua onde a conversa não acabava, mas sem alternativa disse:

– Oi, Crica, quer dizer, Cris.

– Engraçadinho… ninguém mais me chama de Crica, só aquele “povinho” da faculdade…

Enquanto isso, do outro lado da rua, Totó transpirando em bicas com aquela fantasia, ela aguardando a resposta da pergunta que não veio.

– Quem fala tanto de mim?

Ele estava se sentindo sem saída e fingiu estar passando mal e disse:

– Não estou me sentindo bem, tenho que ir embora, essa fantasia é muito quente e eu não deveria ter tirado a máscara.

Ela deu um sorriso, aquilo era muito engraçado, um homem adulto vestido de lobo na sua frente, aliás um homem adulto e charmoso, mesmo fantasiado de lobo.

Sim, Rafaela estava achando Totó charmoso.

– Vou pegar um copo de água, espere.

– Não, preciso ir.

– Me diga, quem fala de mim?

– Não posso, prometi que não falava nada e já falei e mostrei tudo que não podia.

– Por favor…

– Bom, é alguém que estudou com você na faculdade, esse alguém trabalhou onde você trabalha há alguns anos…

– Já sei quem é.

– Que merda… falei demais.

– Não se preocupe, fingirei que não sei, mas não sei  porque ele nunca vem falar comigo, sempre foi assim de recados.

– Mas meu amigo é legal.

– Acho que talvez você seja legal, afinal se vestir de lobo, passar calor, quase cair, para ajudar um amigo… você me parece legal, além de engraçado.

Ambos se olharam de uma forma definitiva.

Totó já conhecia aquela mulher há tantos anos de tanto ouvir o amigo falar, sabia quase tudo, a cor que mais gostava, que tinha alergia a camarão, que tinha um gato preto, que gostava de música clássica, que morava com a avó, que sonhava conhecer a Itália, namorou um canalha 10 longos anos, que chorou muito quando terminou com esse cara e que hoje só queria saber de trabalho, sabia que era uma chocólatra e que nas horas vagas contava história em abrigos de crianças, ele sabia muito sobre ela e naquele instante, além de tudo, achou ela muito bonita, o cabelo liso, longo, os cílios compridos, os olhos, a boca…

Na padaria Alfredo angustiado e Cris Crica na sua frente querendo saber o que lhe tinha ocorrido nos últimos 15 anos…

Ela disse:

– A última vez que nos vimos foi na formatura, você casou?

– Não.

– Eu casei, separei, tenho minha filha, dou aulas hoje. Eu e meu ex somos amigos, é melhor assim. Minha sogra, ou melhor, ex-sogra, é uma chata, que mulher chata, todo dia estava na minha casa, o casamento acabou por causa dela, agora ela está feliz com o filhinho da mamãe de volta ao lar e blá-blá-blá.

Alfredo nada ouvia, estava se sentindo muito mal, percebia que acontecia algo fora do seu controle do outro lado da rua. Aquela chata da Cris Crica na sua frente falando sem parar.

Uma “vitrola quebrada” (expressão que seu avô usava), é isso que ela é – pensava ele sobre Crica.

E ela:

– Você não quer ir no banheiro?

– Banheiro? Que banheiro?

– Fica ali no final do corredor.

Ele berrando:

– EU NÃO QUERO IR NO BANHEIRO, JÁ DISSE…

A padaria toda olhou para ele.

Ela, coitada, ficou passada, começou a chorar, Cris Crica era mais sensível do que parecia.

Ele ficou sem graça.

– Me desculpe, eu não tinha a intenção de ser grosseiro.

– Mas foi – ela chorava sem parar.

– Me desculpe, mas não quero ir no banheiro e sua filha já tinha me perguntado isso.

– E como eu ia saber? É que você não para de se mexer, achei que estivesse apertado com vontade de ir no banheiro… quis ajudar – disse ela chorando alto.

– Me desculpa, mas quero ficar sozinho.

– Depois de me ofender, ainda quer se livrar de mim?

– Por favor, eu só quero ficar sozinho.

– Deveria me dar algo para pedir desculpas. Não sabe ser gentil?

– Como assim? Eu já pedi desculpas e só quero ficar sozinho – disse novamente falando alto.

Ela chorando e agora falando alto também, continuou:

– O que está esperando ou bisbilhotando? Você sempre foi assim… bisbilhoteiro.

– Você é muito chata, sua sogra deve ser uma santa, isso sim.

– O quê? Chato é você, chato e banana, aliás você sabia que era conhecido como banana-prata na faculdade?

– E o que isso quer dizer?

– Banana = mole, prata, que não é ouro, ou seja, nem sendo banana consegue ser o melhor. É prata, banana-prata.

Aquela conversa estava deixando Alfredo tão nervoso como ele nunca tinha ficado, era nervoso daquela Crica, daqueles absurdos que ela falava e de olhar o que acontecia do outro lado da rua, sem nada poder fazer…

Será mesmo que não pode fazer nada? Vai, Alfredo, é claro que pode, sai correndo dessa padaria, dessa mulher e corre em direção do seu amor, do seu antigo amor, antes que o bonde passe, o avô sempre falava isso quando era menino.

– “Alfredo, pegue o bonde.” Não existiam bondes quando ele era criança, mas o avô sempre se referia aos ônibus como bondes.

Alfredo deixou vários bondes na sua vida passar, por medo, por insegurança, por não acreditar que podia dar certo, por desculpas, por tantas coisas, que perdeu muitos e muitos bondes, e lá estava ele novamente em uma das suas últimas tentativas de não perder mais esse bonde, mas de novo se escondeu, no bilhete, no amigo, na fantasia do amigo, se escondeu…

Vai, Alfredo, corre, vai em direção ao seu amor, o bonde vai passar… Era sua consciência gritando, mas nada, banana-prata fazia sentido.

Enquanto isso, no outro lado da rua, Totó olhava Rafaela, naqueles segundos mágicos, e Rafaela se encantava com aquele moço charmoso, mesmo vestido de lobo, como é charmoso, pensava ela… e que sorriso lindo tem.

Depois de um ano sabático longe de qualquer homem, ali, naquele momento, seu coração começou a pulsar novamente, pulsava tão forte que teve a impressão de ouvi-lo.

Ela passou a mão no cabelo, ele olhou seus olhos, ela disse bem baixinho:

– Diga a seu amigo para nunca mandar recados, eu posso me apaixonar pelo carteiro.

Ele olhou aquela boca dizer aquilo bem devagar e baixinho e em ato instintivo lascou-lhe um beijo, não um beijo qualquer, mas um BEIJO.

Alfredo saiu correndo da padaria, Cris Crica foi atrás, a filha atrás, o caixa da padaria atrás e um carro que vinha na rua deu um violento breque, pois quase atropelou aquela turma que saía em disparada sem olhar o outro lado da rua.

Nem o barulho daquele breque violento fez Totó e Rafaela pararem de se beijar, já Alfredo caiu no chão e foi acudido por Cris Crica, que o levou zonzo para casa e socorreu-o em tamanho estado de choque, que nenhuma palavra dizia, ela fez um chá quente de camomila para acalmar, a filha foi brincar.

Ele só pensava o que deu errado, afinal o horóscopo dizia o contrário.

Alguns meses depois…

Totó e Rafaela resolveram se casar, depois de um breve e intenso namoro, pareciam um casal perfeito.

Alfredo foi convidado para ser padrinho, mas esquecer um grande amor platônico não é fácil, principalmente tendo sido o cupido do seu amor, fez todo sentido a tal banana-prata. Ele recusou o convite.

A amizade com Totó nunca mais foi a mesma. Constrangidos, se evitavam.

Cris Crica recebeu um convite para um jantar de Alfredo como agradecimento por ela tê-lo socorrido. O jantar foi uma delícia, ele foi gentil e ela foi educada. Falaram dos tempos da faculdade e de tudo que aconteceu naquele dia fatídico na padaria. Comeram camarão e de sobremesa banana split, deram muitas risadas.

Cris Crica nem era tão crica assim e era bonita, ele se perguntava por que nunca tinha percebido. Começou ali alguma coisa real.

Alfredo tomou algumas atitudes, disse um basta aos horóscopos, nem pensou em terapia, mas procurou um desses cursos que ensinam os homens a ser machos alfas.

Meio bobeira, hein, Alfredo, mas no seu caso concordo que foi bom.

Também resolveu aprender a cantar, achou que seria interessante soltar a voz e aprender a se expor em apresentações. Melhor que isso, resolveu fazer uma serenata para Cris Crica.

Bingo, Alfredo.

Desta vez ele não perdeu o bonde. Banana-prata agora só se for de sobremesa com sorvete.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de todas os contos e poesias. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência  Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos.