Um dia acordei e percebi que a cidade, o estado e o país que vivia estava diferente. Era um estado esquisito, mas melhor. Achava estranho por ser novo, diferente, até incomodo perto do que vivia, mas era bom, estranhamente bom, funcional e justo.

O estado era mais bem organizado, respeitava as pessoas. Todas elas. Por mais diferentes que fosse. Respeitava o tempo do corpo, da alma, da emoção. O trabalho, a economia não eram totens do sucesso individual, mas sim, expressão da união das pessoas em prol do seu próprio cuidado. Estavam limitados ao que era necessário, sem exigir dos indivíduos mais que o esforço necessário para atender ao necessário.

Havia um afeto coletivo genuíno. Não era sexual ou piegas, mas genuíno ao ponto de eu não saber explicar. Onde eu ia, me sentia acolhido como no útero de uma mãe. Pessoas educadas, calmas e colaborativas. As crianças eram livres, inteligentes e ouvidas. Os adultos eram sábios e ponderados, reconheciam seus erros e aprendiam. A justiça era feita na conversa, não no martelo, ou na balança cega por quem tem mais.

As ruas eram limpas, para que nenhum bicho, por mais selvagem que fosse, se contaminasse. Todos habitávamos em harmonia com as plantas que permeavam a cidade. Tudo era vida e tudo bem. Não havia concreto, mas o solo, a terra que sempre existiu, abraçando nossos pés. Esse mundo, parecido com um desenho bíblico havia se tornado real porque as pessoas simplesmente buscaram construí-lo.

Um exercício de imaginação é o princípio de um mundo novo. Convido você a imaginar esse dia, assim como imaginei para escrever essas linhas. Vem, pensa num mundo governado pelas mulheres!

Entendo se você estranhar esse depoimento, esse exercício imaginativo. Talvez nunca tenha imaginado nada sobre matriarcado ou sociedades governadas (ou mesmo geridas) a partir do etos feminino. Nem eu sou expert nisso. Mas a mulher tem outro tempo, outro espaço e outras demandas, necessidades e prioridades muito mais humanas. Homens como eu, como você talvez, temos que entender que há um mundo possível, bem diferente do que aquilo que chamamos de normal. Há algo que nunca tentamos, e não é porque o patriarcado está aí a um bom tempo que temos que conservá-lo. Às vezes, está errado a um bom tempo, temos que ter culhão para mudar urgentemente.

Uma mulher na política vai sim pensar na vida em gestação, aquela que só ela sabe como carregar em seu corpo. Vai pensar nas dificuldades que são, uma vez por mês, sangrar pela humanidade e na necessidade de pausa para sentir e refletir o momento. Vai pensar no tempo necessário para cimentar o sorriso em uma criança, até quando ela puder sorrir por si só e fazer o mundo ao redor sorrir junto. E a cada criança que sorri, a partir de políticas públicas baseadas em dilemas femininos, é um pedaço de uma sociedade mais humana e equilibrada que surge, buscando longe do trabalho ou da economia os totens de sucesso, mas sim na felicidade e na união dos povos.

Mulher no poder é necessário, assim como todas as outras identidades. Os homens precisam dar espaço e tentar o novo, por mais romântico que o texto pareça, pensar nisso é realmente necessário se quisermos superar as demandas econômicas, ecológicas, sociais e de paz do mundo. Pense nisso. 

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Mudar é um coringa. O da carta, não o do cinema.

Mudar é, ao mesmo tempo, assustador e empolgante, um peso e um alívio, uma dor e um prazer… Mudar pode ser ruim quando as coisas estão boas, mas é a melhor saída quando as coisas estão ruins.

Nossa sociedade está sempre em movimento e sempre em busca de algo melhor, ainda que se torne temporariamente pior nesse processo. E nossa sociedade começou a mudar, algum tempo atrás. Uma leve melhora que provocou os egos mais conservadores que, na ânsia de proteger sua “zona de conforto”, lutaram contra essa melhora, o que fez de todos nós um pouco piores.

Mas isso é bom! Porque só quando nos sentimos desconfortáveis ou ameaçados é que resolvemos nos mexer. E nós crescemos somente quando existe um obstáculo à nossa frente. A piora é só o efeito colateral dos primeiros passos para a melhora.

Eu gosto de mudanças. De todas as mudanças! As que trazem dor e as que trazem prazer. Sim, ambas! A mudança, para mim, remete a desconforto, como para todos, mas desse desconforto surgem a excitação das novas informações e, com elas, novas possibilidades. Nossa sociedade, nossa cultura, principalmente nossos valores estão muito doentes e a cura só vem com a mudança.

Nestas eleições, eu busquei muitas mudanças e torci para que elas fossem as mais radicais possíveis. Agi até onde pude, mas fui limitado a dois míseros votos. Queria ver a maior diversidade possível nas casas executivas e legislativas deste imenso País, mas, com coerência e conhecimento, só consegui apoiar duas mulheres: uma para a Prefeitura e outra para a Câmara dos Vereadores.

Ao final, minha cidade querida terá 3 mulheres e 2 transgêneros* no seu conselho legislativo. Satisfação! No executivo, contudo, as opções sobreviventes são mais do enferrujado e hipócrita mesmo. Frustração.

Eu entendo que o momento é das mulheres e precisamos delas. Elas estão melhor preparadas para o cenário atual, pois elas não têm os vícios do poder patriarcal, têm a sensibilidade de quem é orientada para a congruência, para a união, e elas têm a virtude de dar voz a todos, coisa que anda em falta na cultura tupiniquim dos últimos tempos. O momento é também de quem não se vê lá, nem cá, ou, estando lá, sabe que seu lugar é aqui e vice-versa. Ser LGBTQI+ é ser disruptivo em essência. E a ruptura com o sistema é a mudança que nós mais precisamos!

Estamos longe ainda da diversidade que eu considero ideal, mas os resultados desta eleição, ao menos em São Paulo, trazem um avanço sem a menor sombra de dúvidas!

Parabéns a quem chegou lá e a quem contribuiu para esse princípio de mudança! Aos que tentam conter essa mesma mudança, sugiro que olhem para os dois lados, antes de atravessar a rua.

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* Fico, aqui, imaginando como cada um leu o número “2”.

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Artur. Trans na política são resposta ao bolsonarismo, diz Erika Hilton, 6ª vereadora mais votada em SP. São Paulo: Folha de São Paulo, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

UOL Eleições 2020 – Apurações. São Paulo: UOL, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

Cássio C. Nogueira – Belo Urbano, psicanalista, coaching, marqueteiro, curioso, maluco com CRP, apaixonado pela vida e na potência máxima, sempre!

Muitas vezes pessoas protelam afazeres
Não pense você que tratam-se de atividades complicadas e que exigem muito esforço.
Quase sempre não!
Embora simples, não o fazem em função da preguiça.
Uma preguiça que invade, domina e paralisa.

E quando saem da imobilidade?
Quando a água bate na bunda.
Aí se mexem!
Muitas vezes esperam até o último minuto
E complexificam a própria vida.

preguiça, ah a preguiça!
Cativeiro ou redenção!?

Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 

Tudo se transformou quando você chegou!

Eu pensava que o amor era amor, mas de repente o amor se transformou em amar incondicionalmente uma pequenina que acabou de chegar.

Eu pensava que o amor era amor, mas de repente o amor se transformou num objetivo de vida para aprender a cuidar de uma pequenina tão indefesa.

Eu pensava,  eu me desdobrava e eu me realizava, enquanto você crescia e encantava.

Eu pensava que tudo seria pra sempre, mas sempre nem sempre seria, mas sempre estaria ao seu lado aqui ou lá.

Eu pensava…., mas de repente passaram 20 anos que nem percebi de tão maravilhosos que foram cada segundo ao seu lado.

Eu pensava, eu creio e eu afirmo, filha é uma presente divino.

Antônio Pompílio Junior – Belo Urbano. Graduado em Análise de sistemas pela Pontifícia Universidade Católica de Campinas . Pós-graduado em Gestão de Empresas pela UNICAMP e MBA Gerenciamento de Projetos E-Business pela FGV-RJ . Adora esportes, viagens e luta pela liberdade da vida e pelo amor das pessoas.

Pomps

Quero que acorde ao meu lado.
Não quero só o despertar físico, manhã de amores,
Mas o acordar para um novo jeito de olhar o mundo.
Quero que acorde comigo a vontade por arco-íris,
E por mar e por pores do sol.
Quero acordar com você o desejo de seguir em frente
E de desfazer as teias que nos prendem a mente,
E de viver sem buscar tantos porquês.
Quero acordar com você essa busca pelo que é novo e pelo que é infinito,
Lado a lado, desadormecer o que faz sentido,
Ensolarar nossos caminhos e nossas intersecções.
Quero você para acordar comigo o raiar de novos dias
E não deixar jamais que o coração durma demais.
Quero que acorde ao meu lado
No amanhecer de um abraço sem fim,
Despertar o que há de mais lindo em você
E o que há de mais intenso em mim…

Alda Nilma de Miranda – Bela Urbana, publicitária, autora da coleção infantil “Tem planta que virou bicho!” e mais 03 livros saindo do forno. Gosta de tudo que envolve tinta e papel: ler, desenhar e escrever, mas o que gosta mesmo é de inventar motivos para reunir gente querida. Afinal, tem coisa melhor que usar o tempo para estar com os amigos? @poetesebrasil

Não julguemos aqueles que aparentemente são frágeis.
Talvez, um dia, eles possam fazer você sorrir.

Não julguemos aqueles que estão distantes de você.
Talvez estejam passando por algum momento difícil.

Não julguemos aqueles que não respondem às nossas perguntas.
Talvez estejam esquecidos ou muito ocupados.

Não julguemos aqueles que demonstram amizade porém nunca estão por perto para lhe ajudar nas horas difíceis.
Eles podem estar vivendo novas experiências e, de repente, aparecem para compartilhar vivências.

Seguimos diferentes caminhos e diferentes histórias.
Contudo, basta ser verdadeiro.

Marianne Kachan – Bela Urbana. Formada em artes, apaixonada pela sua filha, sua família, paisagismo, animais, novas culturas, poesias e gastronomia.

Havia um homem conhecido por ser um assassino
E um pistoleiro
Seu esforço em matar seu alvo era feroz
E sua mira, nada menos do que impecável.
Ele atirava sem mirar,
Acertava sem tentar,
Matava sem chorar.
Pistoleiro ele era e jamais iria por isso se perdoar.
Não importava onde estivesse,
Não importava o que houvesse
Seu único ímpeto era matar.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

A criança briga no andar de baixo

Você está no seu sofá

comendo pipoca

no ar condicionado

vendo a nova série

A mata pega fogo

mas você já fechou a janela

Na sua sala o cheiro do queimado não chega

Você come pipoca

Você vê o filme

A briga de trânsito na rua perto não te interfere

Não sente que o problema é seu

Da uma espiada rápida pelo insta

a piada racista, gordofóbica, machista…

Tanto faz, não é com você.

Na sua sala tá tudo bem

Melhor rir e compartilhar

Que dia é hoje?

Dia de ninguém estragar o seu dia

Dia de pipoca

Na sala

Tanto faz a bomba que cai

Tanto faz a floresta que queima

Tanto faz a criança que chora

Tanto faz a loucura alheia

Tanto faz a falta de grana do vizinho

Meritocracia afinal!

No final

tanto… mas tanto faz

O que importa mesmo é a pipoca no sofá.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography

Emergente classe média!
Que por falta de empatia
Afirma ser especialista
Do que vive nem um dia
Adora reunir-se em bando
Praticando misantropia.

Focada em manter status
Não quer ser merecedora
Do sofrimento miserável
Daquela ralé trabalhadora
Quem pede pão, leva selfie
Ou tiro da metralhadora.

Quando descobrirás
Que o fino é ser gentil?
Nada mais média Z que
Um público classe A.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

A água fica sem leito

O vento sem vales

A noite sem olhos

A minhoca sem terra

A caveira sem carne

A ferida sem casca

A lâmpada sem inseto

A nudez coberta

A cintura sem mãos

A conversa sem ouvido

A pausa sem silêncio

A lousa sem espelho

O sino sem vela

A haste sem bandeira

A boca sem manteiga

A ruga mais aberta


Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.