Não entendia o que estava errado, mas sentia que algo em alguns momentos não ia bem.

Digo alguns momentos, porque em outros tudo ia muito bem. Começou a debochar de amigos meus que não conhecia. Comecei a me afastar sem eu mesma perceber.

Certa vez, uma grande amiga minha que não mora na minha cidade, combinou que queria me ver. Marcamos um almoço, ela foi com seu marido e eu com ele. Depois que nos despedimos começou a dizer que já a conhecia de outros tempos, dando a entender que rolou algo com ela no passado. Nitidamente querendo me deixar insegura, mas eu não caí na armadilha, porque conhecia muito essa amiga e seus namorados desde a adolescencia.

Porém, caí em outras ciladas que me desestabilizavam, com outras histórias de mulheres, comecei a desejar até mal para essas pessoas que fizeram parte da vida dele no passado que eu nem conhecia. Uma loucura? Totalmente.

Um dia estava na recepção de um consultório e peguei uma revista, comecei a ler uma matéria sobre Relacionamentos Tóxicos, eram cinco depoimentos de pessoas que viveram isso em situações diferentes, lembro de um caso de uma mãe e filha que achei muito triste, mas todos traziam situações e sensações parecidas com o que eu estava vivendo.

Como a revista era um pouco antiga…. levei a revista embora… não sou de fazer isso, mas eu precisava ficar com aquilo perto de mim, para reler e pensar sobre tudo aquilo. Consegui fazer tudo mudar, mas não foi imediato. Nem sempre conseguimos ser tão racionais e rápidos quanto deveríamos.

Coloquei limites. Seguimos…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

1º namorado da filha.
Ela tinha 17 anos. Linda, alegre, cheia de vida, no auge da juventude, aguardando ansiosamente seus 18 anos e a liberdade de ir e vir que viria a conquistar.
Ele tinha 25 anos. Moço lindo, forte, saudável! Soube conquistá-la. Ela se apaixonou!
No início, a diferença de idade me assustou. Meu receio seria de que ela deixasse de viver boas experiências de vida que a maioridade lhe permitiria. Não queria que ela pulasse etapas da vida. Ainda teria uma faculdade pela frente e muitas aventuras por viver.
Meu coração desejava vê-la feliz e sendo assim acabei apoiando a sua escolha e, de verdade, me senti feliz por ela ter alguém com quem compartilhar bons momentos. Ele foi muito bem recebido e acolhido pela nossa família. Ela idem pela família dele. Harmonia!
No início tudo ia bem, ele a tratava como uma princesa, e ela orgulhosa por tê-lo como namorado. Ela já tinha tido outros paqueras, ficantes, como os jovens dizem, mas namoro mesmo, esse era o primeiro. Os passeios eram sempre pra jantar, visitar os avós, cinema, tudo em paz.
E aí, chegou a faculdade. Com tudo o que pertence a esse universo.
Nova fase, novos amigos, encontros em bares, trabalhos em grupo, festas, jogos universitários. Chegaram também muitos conflitos regados com uma boa dose de ciúme. Foi aí que tudo começou a ficar estranho. De repente, os encontros terminavam em choro ou com ela se culpando por algo que NÃO fez. Isso mesmo, ela passou a ser a culpada por tudo, a responsável pelas brigas e discussões. Senti que ele a estava manipulando, dizendo como deveria ser e agir. Passou a escolher quem eram os amigos legais que ela deveria manter e quais não eram e ela deveria se afastar. Vieram as discussões, as festas terminadas em briga, o mal estar na família e o principal que eu via no olhar dela: a alegria dando lugar à tristeza! Seu riso solto foi ficando mais raro, seu olhar entristecido parecia quase sempre querer dizer algo.

Suas amigas mais próximas, viam o mesmo que eu. Com a ajuda delas, enviamos textos com o tema relacionamento abusivo para tentar alertá-la. Nada parecia surtir efeito.
Conversei muitas vezes com ela, e estive muito próxima, porém discutimos algumas vezes e tive medo dela se distanciar de mim. Era tudo o que ele queria, nos afastar para poder exercer sua total influência sobre ela sem ninguém para atrapalhar.
A alertei e esperei que o tempo lhe mostrasse a verdade e entreguei a Deus! Mas… monitorando! Sempre atenta.
A gota d’água para mim, foi numa noite em que estávamos jantando em uma pizzaria pouco antes de embarcarem para uma viagem juntos e ele protagonizou uma cena machista. Após uma provocação da parte dele, começaram uma discussão, ele tentou desmoralizá-la na frente de seu pai e em determinado momento ele lhe apontou seu dedo em riste, intimidando-a. Aquilo me doeu! Como mãe e como mulher, pois isso também me machucaria se fosse com uma desconhecida na mesa ao lado. Enfrentei-o e aí a discussão foi comigo.
Embarcaram e voltei pra casa! Triste, arrasada e com medo.
Chorei, chorei, chorei até não poder mais e me perguntei mil vezes como que ela não via isso? Uma menina criada e educada para ser dona de si.
Estava sendo completamente manipulada por ele. Que poder é esse que os manipuladores tem!
Passaram um mês viajando, foi o período mais tenso que eu já tinha vivido. E se ele fizesse algo a ela, tão distante de mim? Rezava o tempo todo, pedindo para que tudo corresse bem.
Meu coração não estava apertado a toa, ela me contou um tempo depois que, durante a viagem, tiveram outras discussões e algumas atitudes que ele teve que fizeram soar o alerta dela.

Dois meses após o retorno da viagem, o tempo veio trazendo a verdade e ela acabou o namoro.
Na última discussão que tiveram, ele a retirou, contra a vontade, do ambiente em que ela estava com sua turma, e saiu dirigindo com ela de passageiro em alta velocidade, totalmente descontrolado, falando, segundo ela, coisas horrorosas.
Ela teve medo! Discretamente pegou seu celular, chamou o último número discado e deixou que alguém ouvisse os absurdos que estavam sendo ditos, acho que querendo uma testemunha caso algo acontecesse com ela. Mas, graças a Deus e seu anjo da guarda, a única agressão física foi um puxão de cabelo.
Ele a deixou na porta de minha casa. Ela abriu a porta chorando, gritando que ele era um louco, um doente e ele saiu novamente descontrolado com o carro em alta velocidade.
Nesse dia ela deu um basta.
Não parou por aí, porque ele ainda insistiu em voltar por um bom tempo. E ela chorava porque se achava a pior pessoa do mundo, achava que nunca ficaria livre dele e o pior, pensava que só era uma pessoa melhor quando estava com ele. Perdeu sua identidade, sua autoestima, perdeu a confiança nos homens e levou um bom tempo até dar nova chance ao Amor.
Nesses dois últimos anos, com muito amor da família e algumas boas sessões de terapia ela está se recuperando, porque leva um tempo ainda para deixar esse episódio no passado. Sim, porque ela vai levar essa experiência pela vida toda. Toda ferida cicatriza, porém deixa marcas.
Hoje ela conseguiu vencer o medo de novamente se relacionar com alguém e está vivendo uma história bem diferente.
O mais importante é que está tendo a oportunidade de ser quem deseja ser e está feliz e confortável, dentro de si mesma. Está fazendo as pazes consigo mesma.

Mães, fica aqui meu recado: é nossa missão zelarmos pelo bem estar de nossos filhos, estarmos atentas. As vezes pode parecer que estamos exagerando, mas sigam o coração, ele nunca nos engana. Observem as relações de seus filhos e não se calem!


MULHER – Bela urbana, 50 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180


E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

Quando se conheceram ele era encantador, chegara a instituição a procura de apoio para sair da dependência química. Ela era trabalhadora do lugar. Moça bonita, esforçada, nunca havia fumado ou bebido, não era dada a saídas ou baladas, vaidosa, tivera muitas perdas recentes: não conseguira terminar sua faculdade de odontologia devido à situação financeira, seu animalzinho de estimação morrera, seu ex-noivo do nada, havia terminado e tudo desencadeou em depressão.

Ele devido aos problemas não só de dependência, mas de bipolaridade foi acolhido por ela e não demorou muito para que começassem a namorar. Ele muito envolvente, dizia que queria mudar e constituir uma família. Ela tinha um desejo de ter filhos pois segundo ela estava com 35 anos e não poderia esperar. Ficou grávida e decidiram morar juntos, com 6 meses de gravidez ele quis terminar o relacionamento, ela chorou e ele arrependido convenceu a voltar.

Entre a gestação e nascimento do bebê muitas turbulências, continuaram juntos ele sempre ofendendo, depreciando-a perto dos outros, em virtude de ser adicto por vezes ele recaia no uso de drogas e bebidas, sempre se desculpando dizendo que ia mudar e continuavam aos trancos e barrancos. A criança nasceu, já no hospital era rude com a inexperiente mãe. Ele aparentava o pai zeloso e fazia dela a mãe relapsa, ignorando sua depressão e agravando a situação, pois dessa forma o pânico se instalou.

E ela vive uma situação abusiva. Como é difícil para nós que estamos de fora vendo um familiar passando por essa situação e não conseguimos ajudá-la a sair, principalmente quando a própria pessoa identificou que está vivendo a situação abusiva, mas não tem forças para sair, se encontra refém da situação. Acredita que o agressor poderá mudar.

Na tentativa de ajudar essa pessoa que vive essa situação de abuso, nos desgastamos de uma forma tão intensa que ficamos adoecidos, sentimo-nos invasores e após muitas insistências de nossa parte, vem o sentimento de impotência, pois a pessoa parece não querer sair.

Quero acreditar que é uma situação muito mais complexa do que imagino, principalmente quando se tem filhos envolvidos.

Sempre me perguntei: como querer que seu filho conviva com essa situação? Como submeter os pequenos a assistirem eles se destruindo?

Quando vai ter forças pra sair? 
Lhe dizia: Estou aqui! Conte comigo! Minha casa é sua! 
Não adiantava.

Na primeira vez que saiu devido as fortes discussões, estava magoada, ele manipulador pedia desculpas, alegava arrependimento, ela voltava. 

Na segunda vez, além de magoa, decepção, mais uma vez pede perdão demonstra arrependimento, assume que foi responsável, diz que ela também teve culpa, pois é teimosa e ela lhe impondo culpa, pois acaba por acreditar que deveria ter sido tolerante (ele a faz se sentir culpada por tudo), ela volta.

Na terceira vez: mágoa, decepção, medo e uma filha.

De agressões verbais a psicológicas e a quase agressão física, sai de novo pela quarta vez, a levo até a delegacia mas não registra queixa, pois segundo ela teme por ele, pela filha, pela família dele. Isso me deixou possessa! Ficou 5 meses longe dele.

Arrumei escola para a criança, quando ele viu que ela estava relutante em voltar, começou a torturá-la, alegando que pelo fato dela estar depressiva e com síndrome do pânico diagnosticada, não iria conseguir a guarda da criança. (Que poder eles tem? pois mesmo a advogada dizendo a ela que ele não conseguiria).

Organizei toda minha casa em função e por amor a elas… ele ligava todos os dias, ia até a porta de casa, a família dele também a pressionava por causa da criança e mais uma vez ela decide voltar.

Segundo minha irmã, a filha é a razão pela qual permanece, muitas vezes briguei, dizendo que a filha era só pretexto para que ela continuasse com ele, fui dura! 

Nessas Idas e Vindas, os abusos aumentaram, agora ele a isola, não aceita visitas, tem todo o controle da situação.

Ele me odeia! Me ameaçou! Diz que sou corajosa de ir até lá! 
Mas vou! Não entro na casa dela, faço visitas semanais para ver como elas estão.  Quero com meus olhos. 

Nunca deixo de visitar e percebo nela nem sombra daquela pessoa que ela foi! Há em seus lábios um sorriso triste, os olhos falam mais que a boca e me contam de sua dor, evita me falar tudo o que tem passado.

Mora num lugar muito difícil, sem luxo e muitas vezes passa necessidades. Ele a humilha e debocha dizendo que ela agora mora na favela e que acabou a frescura! 

Os vizinhos cuidavam dela no começo, até me ligavam quando sabiam que ela estava sofrendo, hoje não mais, pois devido as suas idas e voltas deixaram de se envolver acreditando no “briga de marido e mulher ninguém mete a colher”.

Por vezes tive medo que ela tirasse sua vida ou ele o fizesse isso me consumia. A fraqueza e o medo a visitam todos os dias. 

Ele vive mais desempregado que trabalhando, todos os dias bebe.

Ela zelosa e amorosa com a filha caprichosa no cuidado do lar e ele só se queixa. Nada está bom!

Contratei uma psicóloga que atualmente atende online, o faz escondido do sujeito. 

Torço para que com essa ajuda ela se cure tenha forças e saia fortalecida. Se por enquanto não sair, que não sinta que esta só.

Todos os dias mando mensagens de vídeo e reafirmo meu apoio.

Durante as visitas, mesmo agora em virtude da pandemia, não deixo de ir, garantimos o protocolo de segurança e nos vemos. Na despedida  me coloco  pronta e digo:

Precisando estou aqui! Quando estiver pronta e decidida me chama que te tiro daqui. Ela balança a cabeça afirmativamente e me dá um sorriso.

Ah, como eu gostaria de arrancá-las de lá!

Mas como eu disse acima, ela deverá estar realmente decidida senão  acabará voltando.  

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Muito difícil começar a escrever a minha história… há um ano e cinco meses ela teve seu ponto final, mas, infelizmente, diariamente ainda lido com os efeitos de um ano e dois meses de um relacionamento extremamente abusivo.

Muitas pessoas ainda têm a errônea ideia de que relações de violência acontecem quando alguém viola seu corpo ou te bate, mas existem outros tipos de violência, na minha opinião, ainda mais destrutivas em alguns casos.

Bom, me apresentando, sou Malu, uma moça hoje com 22 anos, mas no tempo dos fatos tinha 20 anos. Sou cristã, de uma família religiosa de seguimento protestante, sou extrovertida, amo conversar com pessoas, trabalho desde os 14 anos de idade (sim, este é um fato importante para este
relato). Conheço meu abusador há aproximadamente 9 anos. Nesse período nutrimos uma amizade saudável, mas quando nos aproximamos e cogitamos o namoro, o primeiro alerta estava nítido. Sim, os sinais estão gritando a todo momento, mas a paixão não nos deixa enxergar. Este primeiro sinal se deu quando ele reclamou da distância que teria que percorrer para me encontrar (vinte minutos de estrada). Eu ignorei esse sinal, quis dar “N ” razões para a solução do problema, e me desculpei pelo transtorno do deslocamento.

No começo do relacionamento “eles” não mostram sua verdadeira face, mas aos poucos começam as manipulações. No meu caso, ele foi se utilizando de cada área onde eu era forte e as áreas que foi me afetando foram: relação familiar, minha carreira, visão que tinha sobre meu próprio corpo, meus
relacionamentos interpessoais, forma que eu utilizava meu dinheiro, tudo isso regado a muita manipulação, cinismo, comentários passivos-agressivos.
A grande porcaria de um relacionamento manipulador é que ele não vem como uma faixa na testa falando “sou um covarde abusador”. Geralmente são pessoas calmas e “centradas”, na visão de todos, mas que são verdadeiramente monstros.

Vou discorrer seu mecanismo e forma de agir em cada área. Espero ajudar pessoas que estejam passando por cada situação de abuso.
Relação familiar: Pessoas abusivas vão se utilizar de artimanhas para te colocar contra sua família, falando que sua família é a errada sempre, e que você nunca deve se parecer com as características da sua família. No meu caso, ele fez isso, pois não suportava o fato da minha família ser unida.
Quando tínhamos algum problema familiar, o que é normal, ele me colocava sempre contra meus pais e me fazia sentir inadequada o tempo todo, como se o único modelo de vivência era a forma como a mãe dele levava a vida. Diversas vezes ele me pressionava a agir como ela, falava que
odiaria me ver como a sua tia, alguém que era comunicativa e extrovertida. Isso foi me desgastando, mas eu acreditava nele e, por vezes, me afastava, ficava mais na minha. Comecei a não falar mais das situações que passava com ele. Minha mãe não gostava dele, mas sempre o respeitou.
O abusador vai querer te isolar da sua base, afinal, um alvo isolado é muito mais fácil de atingir e derrubar, e ele não tem escrúpulos para isso.

Carreira: Eu sou uma menina que veio de uma família de classe média-baixa, que passou por muitas privações quando era criança e sempre aprendeu o valor do dinheiro; por conta disso, desde muito nova sempre ajudei meus pais, sempre trabalhei, com o que fosse, sempre quis ter meu
dinheiro. Ele era uma pessoa que, próximo aos 30 anos, não tinha quase trabalhado com carteira assinada, e quem pagou a faculdade integral dele foram os pais, assim como cada gasto. Então, ele se afetava muito por eu já trabalhar dando aulas particulares, fazendo faxinas, ensaios fotográficos
para conseguir pagar meu curso. Constantemente ele queria que eu desistisse do curso, disse que eu não conseguiria me formar na faculdade, sempre tinha comentários passivos-agressivos que faziam eu me sentir incapaz e duvidar do meu potencial em tudo que eu domino.

Visão do meu corpo: Ele me conheceu quando eu tinha um corpo extremamente magro. Tinha 16 anos quando o conheci e ele na casa dos 24 anos. Com o passar dos anos, meu corpo mudou.
Mesmo sendo atletas, nós mulheres temos nossas particularidades. Sua forma de me magoar era com comentários como: “Você até que está bem, mas precisa emagrecer uns quilos para ficar melhor” (eu estava sete quilos abaixo do ideal para o meu IMC). Sou alta, e mesmo que tivesse um corpo fora do padrão, ninguém tem direito de falar que você é deformada. Mas ele sempre tinha um comentário malvado, com uma calma na fala. Eu fui me vendo no espelho e me odiando, com a autoestima cada dia mais afetada. Nessa altura ele já estava com domínio de três áreas da minha vida. Sem minha base familiar e perspectiva de valor, caí nessa cilada emocional.

Relacionamentos interpessoais: Esses abusos ainda foram mais intensos. Ele ficava com ciúmes que eu fosse amiga dos meus amigos de anos e também não gostava das minhas amizades da faculdade, dizia “por que eu tinha que me relacionar e ter amigos sempre homens?”. Eu não queria conflito, então deixei meus amigos e me esforcei para ter mais amizades femininas, mas nunca tive muita afinidade. Ele falava que era meu jeito que me afastava das mulheres, dizia que elas eram recatadas e menos expansivas, por isso eram amigas entre si, e que por isso, eu não conseguia me enturmar. Ele que nunca estava satisfeito com nada, falava que eu tinha que ter uma vida além dele.
Os abusadores não querem que você tenha amigos, querem te humilhar, querem ter você na palma da mão para que eles brinquem com seu emocional para satisfazer seu sadismo cruel.
Nesse processo, comecei a ter episódios de síndrome do pânico, ele causava os gatilhos e sumia por dias; depois manipulava toda a situação e eu sempre pedia desculpa, mesmo quando não tinha como eu ser culpada pelos seus desvios de caráter.
É uma prisão que é muito difícil ver as algemas, mas se você precisa abrir mão de quem você ama por outra pessoa, isso não é amor, é posse.

Vida financeira: Sempre tive menos poder aquisitivo que ele, os pais dele têm uma vida estável e segura financeiramente, e eu, como era a única responsável pelas minhas finanças, tinha que fazer aquele malabarismo para pagar todas as contas. Sendo autônoma, não tendo carteira assinada, ele sempre questionava cada gasto que eu fazia, sempre queria uma justificativa, falava como eu tinha que gastar meu dinheiro, motivo de inúmeras brigas que me desgastavam internamente. Sentia-me culpada por cada centavo que eu gastava, pois sempre era questionada em como utilizava meus recursos. Ele se sentia menosprezado, e um dia até disse: “Ainda bem que fui chamado no concurso antes de você ter carteira assinada”. Que tipo de pessoa fala algo assim? Alguém que se odeia e quer te fazer se odiar e viver culpada e frustrada. Como na vez que fomos ao shopping para jantar, eu pedi de sobremesa um sorvete do Mc Donald’s de R$ 10,00 e ele me respondeu: “Você merece uma casquinha”. Não era em tom de brincadeira não, ele tinha um vale de R$ 900,00. Você deve estar pensando, mas casquinha é legal, seria sim, se fosse o que ele pudesse me oferecer, eu aliás, tomaria com enorme felicidade, como em todas as vezes que paguei minha parte nas contas no namoro em todas as nossas saídas, mas essa situação foi única e exclusivamente para me humilhar e constranger.

Defraudação emocional: Como mulher cristã, meu maior sonho era casar e ter uma família. Não existe nada de errado com meu sonho, ele é legítimo, mas foi usado diversas vezes para me manipular quando eu não atendia às expectativas dele e ouvia a seguinte frase: “Você está quase pronta para eu te amar incondicionalmente e te pedir em casamento, mas isso eu não gosto”. E eu, como já estava com a minha vida nas mãos desse monstro, tentava me adequar a todas as exigências que eram inalcançáveis, pois ele nunca iria casar comigo, era sempre para me ver subjugada a ele.
Chegou a vir na minha casa falar sobre os planos de como queria a cerimônia, fez uma lista de casamento junto com meus pais, até com um cerimonial tínhamos marcado, ou seja, eu não estava criando expectativas do nada. O amor a esse sonho me fez aceitar o inaceitável, pois estava
empolgada com o casamento. Todo abusador faz um ciclo à ofensa, te faz pedir desculpa a ele. Não é podre o tempo todo, afinal, precisa te dar algumas migalhas para poder continuar com os jogos emocionais e fazer tudo novamente, então, ele sempre vai falar que você que é louca para casar, que você que o está pressionando, sendo que ele nunca quer se comprometer de verdade. Não tem capacidade de amar e de cuidar de alguém. Irá brincar com seus sonhos mais puros e te fazer se sentir culpada por sonhar. Um relacionamento abusivo é sempre recheado de culpa, infelizmente.

O fim do meu relacionamento veio após sucessões de humilhações, uma delas da minha ex-sogra, que tinha comportamentos extremamente inadequados, como oferecer resto de comida do próprio prato para que eu não realizasse um pedido em restaurante (mesmo eu tendo dinheiro para isso), com medo dela ter que pagar a conta. Aquilo foi muito humilhante. Muitas vezes ela ficava medindo a quantidade de comida que eu colocava no meu prato, fazia pouco-caso das comidas que minha família fazia em datas comemorativas, situações de extremo desagrado. Mas o estopim foi
ela reclamar e falar que iria me cortar de uma foto de família, pois segundo ela, eu não estava adequada (um shorts que “não era vulgar” era na metade da coxa), na opinião dela. Como ele me queria como uma mãe dele parte 2 , brigou comigo por eu ter ficado chateada, e fez eu me sentir como uma garota de programa por um shorts.
A partir daquele momento me enchi e perdi o medo, comecei a falar do que não gostava e não deixei ele me tratar mais daquela forma. Dois meses depois tivemos um desentendimento por ele não ter consideração por mim, ele sabia que estava errado e sumiu por uma semana, sabia que isso me gerava pânico.

Neste relacionamento foram três internações por crise de asma devido ao stress que ele me causava, tamanha era a pressão que fazia sobre mim.
Ele me encontrou pessoalmente e disse que queria terminar, conversei com ele por algumas horas, porque mesmo ele sendo um monstro, eu não sabia viver sem ele, era como um parasita me sugando energias e eu não sabia mais a minha identidade. Eu tinha aberto mão de tudo por conta do meu
sonho de ser esposa e mãe, não entrava na minha cabeça que mesmo abrindo mão de tudo, eu era descartável.

Um dia ele comprou bombom e disse que iríamos nos acertar, me levou em casa. No dia seguinte, ele disse que estava terminando comigo, que a culpa de tudo que ele me fez era minha e me bloqueou em todas as mídias digitais, ele e todos os membros da casa dele, que sempre passaram pano para tudo que ele fez. Meses depois, ele viu que tinha sido exposto e que as moças não se aproximavam dele. Eu descobri que eu não era sua única vítima. Fez isso com outra, abandonando da mesma forma covarde, só que o e-mail foi para a mãe da moça, que graças a Deus superou o que ele fez e hoje tem uma vida estável emocionalmente.

Ele me pediu perdão e disse que tudo que fez foi porque se sentia insatisfeito com quem era e como estava a sua vida, por isso agia assim comigo.
Um conselho: se passar por algo assim, perdoe, mas não mantenha contato, pois esse tipo de pessoa infelizmente não muda. Caráter ou você tem ou não tem.

Este é o meu relato!
Tiveram vezes que preferia ter apanhado a ter o dano emocional que ele me causou. Foi um longo caminho e ainda tenho uma enorme caminhada para me curar, mas cada dia é um passo para me perdoar. Acho que essa é uma das partes mais difíceis, se perdoar pelo que você passou e não se
culpar. Jamais a culpa é da vítima.
Quero voltar a me amar e saber o meu valor.
Espero que tenha ajudado alguém.

Malu Zaparoli – Bela urbana, 22 anos, cristã, formada em fotografia, professora de informática, líder de um projeto social que atende pessoas em situação de vulnerabilidade social

Quando a Adriana perguntou sobre escrever um relato da minha história aqui no Belas Urbanas, sabia que seria um desafio e tanto, pois senti um frio na barriga em tornar público o que vivi e que pouquíssimas pessoas conhecem.

Para mim a palavra “abuso” estava associada somente ao sexual, mas hoje sei que há muitos e muitos tipos de abuso.

Hoje, com 53 anos me lembro de quando criança com uns dois anos em um canto da casa, amedrontado e fechado em meu mundo.

Meu pai, dedicado ao trabalho, provedor, tinha uma gráfica.  Minha mãe era trabalhadora também, da casa. Dedicada em viver em função da família.

Meu pai quando em casa, mostrava sua austeridade. De pouco sorriso no rosto, e quando tinha era de sarcasmo ou ironia, gostava de beber uma cerveja para relaxar, o clima pesava e a agressividade verbal e física corria solta. O nível de tensão era sempre alto. Não apanhei muito, mas minha mãe sim.

Meu pai em sua ausência, se fazia presente determinando e controlando a minha vida (imagino que dos meus irmãos também, somos em 04, todos homens). Ainda menino,  com mais coordenação motora, comecei a trabalhar na gráfica, independendo da vontade ou não. Já nasci com um trabalho e futuro determinado…..pelo meu pai.

Conforme fui crescendo, as coisas foram complicando. Fazia judô, não gostava, queria jogar basquete. Pedi para mudar de esporte, mas como meu pai era meu pai e diretor de judô no clube, fui obrigado a continuar no judô. Mas um belo dia, não aguentei e fui conversar com o professor de basquete, fiz o teste e passei, mudei de esporte. Joguei por quase 10 anos e ele nunca assistiu um jogo se quer.

Nunca levei um amigo para casa, não podia, tinha vergonha. Além do meu pai extremamente bravo e meus amigos terem medo dele (um amigo relatou isso mês passado), minha mãe vivia a realidade dela, via e escutava o que ninguém via e escutava. Ela tinha esquizofrenia.

Meu pai era bom para lidar com máquina, não com gente. Autoridade e autoritarismo são coisas distintas, um vai pelo respeito e outro pelo medo. E pelo medo abafei minhas emoções, me preservei me tornando submisso, fazia de tudo para pertencer e agradá-lo, mas a ferida emocional da rejeição e desvalorização já estavam abertas. Vesti a armadura do guerreiro solitário e fui pra vida.

O que trago aqui é somente alguns pontos macros, mas no dia a dia o negócio era punk, em qualquer momento do dia poderia acontecer algo de ruim e tinha que dormir com a porta do quarto trancada para não ter surpresas. A ameaça, a tensão era uma constante e convivi com o sentimento de medo e tensão no corpo até poucos anos atrás. Tive momentos de um frio congelante que me paralisava, o racional se desligava, perdia o chão ficando sem rumo, sensação de não existir, era desesperador. Tive vários dentes quebrados por bruxismo e muitas fronhas de travesseiro amareladas devido ao suor exalado pelos traumas vividos em forma de pesadelos.

Isso refletiu em todas as minhas relações na vida, não tem como. Mas com elas aprendi.

Aprendi que não nasci na família errada, aliás, acredito que ninguém nasça na família errada. Aprendi que os meus pais fizeram o que estava dentro de suas possibilidades, das suas suficiências. Aprendi que por pior que tenha sido uma situação, muito falava de mim e que poderia me melhorar como ser humano. Aprendi a perdoar e aceitar a vida, a me amar, respeitando mais os meus limites, capacidades e valores maiores e que eu sou o responsável pela minha vida e evolução e que ninguém pode tomar uma decisão por mim. Aprendi que a vida é mais como respondemos a ela do que acontece com a gente. 

Sou um buscador e através da observação de mim mesmo, dos meus pensamentos, das minhas atitudes, emoções, dos sonhos, praticando meditação e pedindo ajuda para terapeutas integrativos competentes, venho me transformando, evoluindo, vivendo mais a minha coerência e mais em paz, leve, mais disposto, com criatividade e propósito.  

A vida não tem chegada e fim, só ida e nessa ida, respeitando e honrando de onde vim, faço um caminho de escolhas mais conscientes, resgatando a minha inteireza no amor e respeito com a minha esposa, minhas duas filhas, as cachorrinhas e  todas as pessoas que me relaciono, que juntos, geramos o mundo que vivemos.   

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. – Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.





Ficamos cientes das atrocidades que um ser, dito humano, é capaz de cometer através de um caso mais chocante ou mais divulgado pela mídia do que muitos outros. Ao lado da divulgação, muitos números, percentuais, gráficos, implorando por leis que protejam seres que estejam submetidos, por diferentes razões, à tais violências e atrocidades. A alma ainda não compreendeu, então precisamos de Leis para ter boa conduta como a Lei dos Direitos Humanos e a Lei Maria da Penha. “Detalhe” facilmente esquecido por trás dos números, cada caso ou morte refere-se à um ser humano.

Feminicídio, violência doméstica, violência conjugal, temas que emergem novamente com o confinamento e com a aparição das fotos em preto e branco de mulheres nas redes sociais em solidariedade às mulheres assassinadas, à manutenção da “Convenção de Istambul”, tratado internacional do Conselho da Europa pela eliminação de toda forma de violência contra as mulheres, conjugal ou familiar.

Ultimamente, me perguntei várias vezes se estamos vivendo no ano de 2020 d.C. , sem esquecer que também houve um tempo a.C. O ser, dito humano, já não é tão jovem… Somos considerados os seres mais evoluídos do planeta Terra, e que decepção! A evolução da alma ficou esquecida. Já passou da hora de agir com menos instinto e mais humanidade, de responder mais com o cérebro frontal e menos com o reptiliano.

Esqueceram que o único modo de entrar neste planeta é através de uma mulher, que nutre, protege, acompanha, ensina, perdoa. Esqueceram que sua descendência se faz através de uma mulher. Parece tão difícil para ele ver a mulher como um ser humano, pois ele não o encontrou dentro de si mesmo.

Tudo na natureza toma forma à partir de polaridades, de seres que direi complementares e não opostos, da união do masculino com o feminino. Sendo assim, não deveria haver espaço para a ilusão de propriedade, superioridade ou mesmo a submissão, que geram a violência, seja ela física, verbal ou psicológica. A energia feminina é naturalmente diferente e assim é a natureza, isso não significa qualquer motivo para menosprezo ou violência de algum tipo.

Para os leitores curiosos em números, relembrando que cada caso se trata de um ser humano, uma vida, uma alma, pessoas envolvidas, sonhos e emoções: Na Suiça, 0,4 assassinatos por 100.000 mulheres, esta proporção é de 0,13 na Grécia, 0,27 na Espanha, 0,31 na Itália e 0,35 no Reino Unido. Mais feminicídios são registrados na França 0,50 e na Alemanha, 0,55. (“Le Matin”, 25/08/2019).

Se observarmos os outros planetas do nosso sistema solar, podemos dizer sim que aqui é o Paraíso, e vamos nutrindo a esperança de que “Adão e Eva” não sejam expulsos, sendo a espécie “mais evoluída” do planeta. Yin e Yang, Shiva e Shakti, Masculino e Feminino em harmonia complementar, gerando vidas ao invés de eliminar vidas.

Viviane Hilkner – Bela Urbana publicitária (PUCC) e Profissional de Marketing (INPG). Atuou na área, no Brasil, em agencias de publicidade e meios de comunicação, e, na Itália, em multinacionais no Trade Marketing e Brand Development & Licensing. Morando na Suiça, mudou seu estilo de vida e apaixonou-se pela prática de Hatha Yoga. Ansiando compartilhar esta prática e sabedoria milenares, forrnou-se professora.Atualmente, ensina no Centre Kaizen e no Club de Yoga da Associação de Esportes e Lazer da Nestlé.Organiza Workshops e Retiros de Yoga na Suíça e no exterior, principalmente, na Grécia.Sua profissão tornou-se hobby e seu hobby, sua profissão.

Eu cansada de tantas manipulações, humilhações dele e da família! Pedi para ele ir embora! Ele prontamente atendeu! Sumiu!

Aparecia quando bem entendia, e para me culpabilizar e infernizar a vida!

Dias antes da minha filha nascer, eu já com 9 meses de gestação, ele apareceu em casa e das 23 da noite as 2 da manhã ele gritou, me fez ajoelhar aos seus pés e pedir desculpas!

Eu implorava perdão sem nem saber o motivo, e de maneira cruel ele olhava pra mim e gritava cobrando justificativa! Gritava para que eu falasse o motivo do perdão! Eu chorei por horas! Por dias! Eu não dormia, não descansava! Eu passava todos os minutos pedindo desculpas aos meus filhos!

Dias depois ele me enviou uma carta linda, dizendo que os problemas de um casal era responsabilidade dos dois! Que se ele fazia o que fazia, também era responsabilidade minha! ( E NÃO! ERA A PSICOPATIA DELE MESMO).

No hospital foi um show de horror! Ele carregava aquele teatro de pai maravilhado, a mãe atuando como a vó sensível que não se sentia a vontade em pegar a PRIMEIRA neta por minha causa! É mesmo eu passando por um trabalho de parto de quase 40 horas que resultou em uma cesárea, mesmo eu pedindo para não receber visitas! Mas estava o circo todo armado! A família dele toda! Levando comida para dentro do quarto, para eles, chamaram vizinhos, enquanto eu nem forças tinha para me levantar! Eu implorei para que não usassem perfumes fortes, pois eu ainda estava enjoando muito e por causa do meu bebê! Não adiantou! Chegavam banhados a perfumes e com marmitas de peixe!

E quando eu resolvi falar! Caos! Ele me pegou com o bebê no colo e me deixou na porta de casa como um saco de roupa suja!

Vez ou outra voltava, dizia que me amava e a nossa filha! Dizia que queria uma vida com a gente! Mas quando via que mesmo vulnerável, eu não mais aceitaria viver da maneira dele, a conversa mudava!

Dias depois da cesárea, eu ainda com físico e emocional tão sensível, ele forçou a barra para termos relações, eu tive uma crise de choro no meio! Ele teve raiva, vomitou o ódio dele por horas! Eu, puérpera, depois de meses de humilhação e ainda passando por isso!

Luciana me deu as mãos, juntou ao meu redor algumas amigas mulheres! Elas iam até mim toda semana! Me deixavam fortalecidas! Era uma corrente de proteção!

A dona do imóvel que eu morava, foi em casa cobrar o aluguel! Se deparou com uma mulher destruída e uma bebê no colo! Contei a história e ela ficou chocada! Atordoada foi atrás dele no intuito de responsabilizar ele pelo aluguel, era o mínimo!

Flávia chegou na casa deles e se deparou com ele e a mãe! Já com um documento pronto de autorização de despejo!
Ela voltou com os olhos marejados!

Luciana percebeu relutante, mas sem saída! Que precisava ser minha proteção! Então, não me deixava mais sozinha, as poucas vezes que ele ia até lá, tirar foto dos 15 minutos que passava com a filha no mês!

Inventou para meio mundo que eu não deixava ter contato!

Meu filho, mulheres ao meu redor e Luciana me tiraram do fundo do poço!

Eu pedi ajuda desde a gestação! Mas a sociedade está acostumada a passar pano pra macho escroto e psicopata! A sociedade está acostumada a culpabilizar a mulher por tudo! E assim foi comigo! Os amigos e amigas dele fingiram não ver! Apenas um amigo dele se aproximou de mim e me acolheu! Me ouvia em tantas noites insones de muito choro, me fortalecia só de estar ali comigo! Tentava desesperadamente me fazer entender toda a força que eu carregava e que nem eu mesma acreditava!

Eu tive a sorte de ter Luciana e Iuri ao meu lado! Eu tive a sorte dela ter me levado até a Amanda, uma psicóloga competente e sensível!

Lembro de quando eu estava certa de que não tinha motivos pra eu viver já que nem boa mãe eu era! E Amanda virou pra mim e disse: não faça de uma vírgula, a sua história de vida inteira!

E eu fixamente comecei a enxergar essa pessoa como uma vírgula!
E fixamente coloquei como meta me reerguer e fazer o mesmo com outras e para outras mulheres!

Quando já estava no meu atual casamento, grávida da minha terceira filha! Ele me procurou! Para novamente me humilhar! Me atacou falando que eu faço das minhas relações uma futura aposentadoria! Me acusando de estar engravidando para pegar dinheiro de cada pai! Ele, que nem pensão paga! Ele que se esforça para ligar uma vez no ano para a filha!

Ali, eu passei horas chorando, não por mim, mas por perceber que a atual mulher dele, já com uma filha deles, é mais uma vítima, mesmo que ela ainda não saiba! Pedi as deusas que mantenha elas em proteção!

Eu poderia passar semanas aqui escrevendo sobre todo o terror que passei!
Essa série de texto não representa nem 10% dos absurdos que eu vivi e que muitas mulheres estão vivendo!

Escrever sobre isso e cutucar essa ferida! Por mais cicatrizada que esteja, me fez tremer, me fez faltar o ar!

Esses homens abusivos e psicopatas deixam marcas eternas na gente!

Precisamos sempre que for possível gritas nossas histórias!

E eu mulher que carrega essa bagagem estendo minhas mãos pra você mulher que está passando por isso!

Você não está errada, você não é ruim, não é louca! Você é uma mulher incrível! E com certeza vai se reerguer! Você é uma mulher incrivelmente FODA!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Eu, grávida, com outro filho já! Tentando com que isso não afetasse meu primeiro filho de maneira que já estava afetando! Tentando seguir com a gravidez minimamente em paz! Em vão! Chorei e me desesperei todos os dias da minha gravidez! Comecei a planejar o parto humanizado, e participava das rodas! Ele ia comigo, era lindo, ele era perfeito… na frente dos outros! Eu comecei a ter pânico das segundas-feiras, porque sabia que logo após o céu que ele me levava por querer mostrar para os outros o quão bom ele era pra mim, inclusive “assumindo” o meu filho mais velho… ele
me empurraria para o inferno! Era um terror sem fim!

Eu me sentia cada vez mais fraca, e estava! Tive dengue durante a gravidez, mal levantava da cama! Ele chegava, perguntava se não teria almoço, e com a minha negativa aos prantos, ele saía tranquilamente para comer fora!

Sem se preocupar em me alimentar! Lembro que em um desses dias o máximo que eu consegui foi me arrastar até a cozinha e fazer um macarrão instantâneo! Ele quando chegou e viu a embalagem, me chamou de irresponsável, de imbecil pra baixo por estar comendo algo tão sem nutrientes estando grávida! Mas jamais fez algo para eu comer, mesmo estando com dengue! Em um desses dias, aos gritos, me falou que sentia pena da criança que estava sendo gerada dentro de mim!

Eu chorava! Muito!

Coloquei meu filho em horários especiais na escola, para que ele presenciasse cada vez menos todas essas atrocidades! E para que pelo menos ele tivesse sua alimentação com qualidade e completa!

Muitas vezes quando ia levar ele para a escola, eu passava horas no pátio! Com medo de voltar pra casa!

Durante a gravidez ele muitas vezes sumia durante a noite! E lógico não tinha celular porque não queria fazer parte desse sistema! Eu, grávida, numa cidade que não era minha, sem família e quase sem amigos! E ele não tinha celular e sumia! Quando chegava pela manhã, me fazia sentir a pessoa mais alucinada por estar em desespero com a situação!

No meio dessa merda toda, um dia eu mergulhada em tristeza, meu filho na época com 9 anos, olhou pra mim e disse! Mãe… tenha coragem, eu to do seu lado e essa pessoa não merece ser pai desse bebê e nem meu! Aquilo foi como se ele estivesse me salvando de um afogamento!

Ali comecei a ver como se estivesse de fora! No meio desse processo todo conheci minha vizinha Luciana, que mal sabia, ela e eu, que me salvaria e me traria a força tão intensa do feminismo!

Era ela que me levava para o hospital no meio da noite quando eu passava mal por tanto stress! Era ela que muitas vezes levou comida pra mim! Já que ele comia até o que eu comprava para meu filho, e quando eu questionava, era chamada de mesquinha e egoísta!

Muito esgotada com tudo isso e já grávida de 7 meses, muito magra! A médica constatou que meu bebê estava abaixo do peso e que eu precisaria me alimentar melhor!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima

Pessoas assim praticamente nunca agem sozinhos! Na grande maioria das vezes sua família apoia e reforça todos esses atos cruéis!
E comigo foi assim!

Uma família que achava que eu tinha dinheiro para sustentar os devaneios do filho! Uma família que apoiava, omitia graves fatos do passado! Uma família que finge o tempo inteiro uma bondade que jamais existiu! Uma família hipócrita! Encenam uma doçura que faz com que qualquer um queira fazer parte da vida deles!

E assim seguimos! Fomos morar juntos! Fizemos um casamento, que só após eu ter negado a proposta de emprego eu soube que seria somente encenação! Não seria no papel! Porque logicamente ele não se compromete com nada! E com toda sua postura esquerdomacho que se preze, me convenceu que papéis serviam apenas para provar algo para a sociedade e que nada disso importava para nós!

Eu vivia numa gangorra de emoções, num abismo prestes a despencar!

Fomos morar juntos e logo no começo eu conversei sobre o fato de não querer ter mais filhos antes de ter o “casamento” estruturado! Obviamente não fui respeitada, ele me invadiu sem permissão e eu engravidei!
Mas logicamente dizia que era por amor!

Já grávida fomos contar para a família dele, todos comemoraram! A mãe dele se emocionou, disse estar muito feliz com a chegada da primeira neta, quando todos saíram do ambiente que estávamos, ela olhou pra mim e friamente me questionou e disse que não era para eu ter engravidado antes da filha dela! Ali eu vi que seria só ladeira abaixo! Me vi numa novela, daquelas que nos deixam fixados na tela com tanta maldade!

E assim foi! Todo mês na data que comemoraríamos “aniversário “ de casamento, ela o chamava para almoçar! E ele ia, e se eu falasse algo… eu era louca e ressentida!

Logo no início da gravidez, me senti desesperada com toda a situação! Ele um vagabundo, não levantava antes das 14h para trabalhar! Eu super enjoada, tinha dias que nem água conseguia tomar…

A família dele falando que era mentira minha os enjoos! Certa vez o pai dele passou horas me ofendendo, eu chorando e tentando me defender! Dia seguinte fui parar no hospital!

Logo no início da gravidez, quando tentei questionar ele de algo que eu não concordava… ele pulou em mim e começou a me enforcar!

Quando eu consegui empurrar e correr, ele chorou muito! Implorando perdão e logicamente pedindo para que eu não fizesse ele chegar aquele ponto!

Carol Oliveira – Bela Urbana, chef de cozinha, mãe de 3 filhos. Adoro escrever sobre o dia dia real. Inspirada pelas fotos do meu marido… Sigo tentando ver poesia e arte nesse momento de tanta angustia e medos!

Foto Ricardo Lima