Olhava pela janela esperando que escurecesse rápido para sair. Gostava pouco de ser vista durante o dia, nos tempos que vivia agora. Se arrumara de forma descuidada e seguia, o caminho sabia ‘de cór’.

Entrou no bar vazio pela hora, cedo ainda, pediu uma cerveja. Não se dava conta de quando isso tinha virado rotina. Porém, aquela noite se deparou com uma já imaginada e mais ou menos esperada: encontrar quem tanto brincara com seus sentimentos, todo sorriso e sedução, numa mesa próxima.

Sua companhia tinha o olhar distante enquanto ele não parava de falar. De onde ela estava ele pouco podia vê-la , porém, ela via com clareza que tinha chegado ao fim essa história que um dia mexeu tanto com os dois.

Agora, distante de emoções, olhava-o como um qualquer, ou melhor, aquele homem ela não olharia caso cruzasse o seu caminho.

Ela se distraía com o celular e vez por outra dava uma espiada para o lado, apenas força de hábito.

Naquela noite, naquela hora tomara a decisão que já devia ter tomado há tempos: perder de vez qualquer esperança de um retorno feliz e seguir em frente.

Voltar para casa, não sem antes cruzar pela mesa ao lado, onde ele estava, se fazer vista e jurar para si que não mais se sentiria assim.

 Nove da noite, calor no quarto desarrumado. Entre revistas, livros e roupas espalhadas resolveu ali começar sua revolução pessoal.

Desapego foi a primeira palavra que veio à mente, e partiu para a ação. Juntou tudo que não vestira por um ano, guardou fotos que nada lhe diziam no momento. Juntou livros e revistas para doar, o quarto começava a respirar novos ares.

Refez a cama com roupas limpas. Pôs uma mala sobre ela e começou a colocar roupas escolhidas com carinho, suspirava, sorria. As roupas escolhidas não seguiam uma lógica, não importando sol, chuva, frio, calor.

 O próximo passo foi cuidar das plantas, colocando-as num canto da varanda entre sol e sombra. Passou vistas na sala e cozinha tentando deixar registro na memória da posição de móveis, quadros e objetos.

Já tarde entrou num chuveiro de água bem quente e deixou que lágrimas caíssem junto com a água. Por fim, um jato de água fria! Colocou uma camiseta velha, larga como gostava de dormir e no conforto da cama limpa começou a pesquisar um lugar para onde ir.

Já viajara muitas vezes na sua cabeça, e assim foi. Seguiu sua intuição, deixou tudo pra trás e foi em busca de novos encontros, desencontros ou talvez um porto seguro.

De certo o que ficara para trás não moveria mais seus passos. Agora era a protagonista da sua própria história!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.