A grande maioria das pessoas espera e se prepara ansiosamente para a maior folia do Brasil, o carnaval.

Historicamente, a folia de carnaval acontece durante três dias que antecedem a quarta-feira de cinzas, dia que se dá início à quaresma e que simboliza a reflexão e mudança de vida. Carnaval vem do latim carnem levare – afastar-se da carne – mas como assim? Sabe aquela história que todo regime começa na segunda-feira e no fim de semana antes você come e faz tudo que pode? Então, carnaval é isso aí… aproveitar ao máximo os prazeres da carne.

Na magia do carnaval nos despimos da repressão e censura, das obrigações e responsabilidades do cotidiano para nos vestirmos de fantasias e máscaras, com uma falsa sensação de que “tudo é permitido”, vivendo intensamente a alegria, o prazer e a descontração, mas por baixo da máscara da folia aparecem outras máscaras, aquelas que vamos colocando desde a infância, que culturalmente é passado de geração em geração e nem percebemos – as máscaras do patriarcado, do machismo estrutural e privilégios masculinos. 

Sei que este ano, devido à Covid, o carnaval de rua foi adiado e nos clubes cancelado, assim como o ponto facultativo na grande maioria das cidades, mas por que este artigo então? Porque o povo brasileiro é festeiro, e é bem provável que o carnaval particular aconteça. E um fato é que no período de carnaval há o aumento do índice de assédio (que acontece o ano inteiro) e, por incrível que pareça, a grande parte se dá em lugares privados e não públicos, ou seja, nos lares e entre amigos e familiares.

E aí homens, quais comportamentos resultantes das máscaras que estamos tendo ou abafando e que afloram mais no carnaval?

Uma máscara comum é a do assédio e que muitos homens se justificam como paquera. Assédio é quando o espaço da mulher é invadido, a mulher é desrespeitada, o seu corpo é como objeto, a sua segurança é ameaçada e seus direitos violados. Isso é desamor! E paquera é onde o respeito acontece e o espaço da sedução é vivido pelos dois. Há um consentimento, um interesse das duas partes, há liberdade de escolha, e a entrega ao desfrute do amor e erotismo acontece.  

Quais outras máscaras utilizamos e que para nos autoafirmarmos (defesa da própria identidade) na nossa masculinidade, utilizamos da violência verbal, física, sexual e assim por diante? 

Nós homens, e como seres humanos, temos a condição básica de pertencimento a outro ser humano e de criarmos vínculos emocionais. Queremos amar e sermos amados!

Mas como viver isso? Nos autoconhecendo e nos desenvolvendo! E o primeiro passo é tomarmos a decisão de não mais fazer mal para as mulheres e qualquer outro ser humano e assumirmos a responsabilidade por absolutamente tudo, de como vivemos, e parando de procurar culpados.

O segundo passo é identificarmos as máscaras que utilizamos. Nos observar em nossos comportamentos e os impactos que causamos nos outros. O machismo estrutural acontece de muitas maneiras, mas tem a característica de depreciar, discriminar, ser preconceituoso, de dominar e de ser superior.

Quanto mais nos conhecemos, mais ampliamos a consciência e passamos a nos respeitar e respeitar o outro, e com o outro, desfrutamos o melhor do carnaval com a máscara da alegria, do prazer e descontração!

Viva o carnaval, viva a vida!

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.

O dia começa a clarear e eu vou amanhecendo com ele.

Na casa pequena onde me acomodo agora, os pássaros acordam a mesma hora e os cachorros vêm para junto da porta aos primeiros movimentos da casa.

Água com vinagre de maçã, hábito antigo, mingau de aveia com leites vegetais, hábito recente. Varro as folhas caídas à noite, troco de roupa e sigo para caminhada quase sempre a mesma hora.

Quando a lama não me deixa andar pelas ruas que me levam às matas, me dirijo à praia.

Primeira caminhada, recolho o lixo deixado nas areias; abaixo e levanto várias vezes, mesmo sabendo que o exercício não está tão correto assim. Mergulho. A segunda, volto a caminhar por areias limpas.

Olhares de espanto, admiração, estranhamento. Sim, sou essa mulher de 60 anos, cabelos brancos, corpo marcado e muita vontade que me impulsiona.

Às vezes me parabenizam, mas pouco dou atenção, faço por mim, não preciso de aplausos.

Viajo algumas vezes, países ricos, outras culturas, mas em todo lugar esse é meu movimento.

Hoje retornei às minhas origens, Brasil, quanta sujeira, quanto descaso, pobreza, consumismo, desigualdade, desordem, desgoverno. Gastei quase todos os adjetivos com D.

Todos se assustaram com um ano atípico, todos esperando uma solução para normalizar(?) a vida. Meses depois, o que encontro nas ruas é o reflexo desse povo que não entendeu ainda. O povo está a espera de um milagre.

Será que aprendemos alguma coisa?

Já faz tempo que sou ecochata, não mato bichos, cato lixo nas ruas, reformo móveis, compro em brechós. Faço muito pouco. Gostaria de contribuir mais.

Eduquei 3 filhos com esse pensamento minimalista, valorizar o simples. Eles me acham desapegada demais.

Queria ter mais crenças, admiro as pessoas que têm. Mas não está em mim.

Sempre fui assim, desde os 11 anos, onde descobri a morte.

Minha reza é minha atitude.

Meus mantras vão do Funk ao canto de Umbanda.

Acendo velas; acho-as lindas.

Acendo incensos; adoro o perfume.

Cultuo o som das águas do mar e dos rios, o canto dos pássaros, a voz dos animais.

Sigo a minha intuição, adoro fazer minha comida, arrumar uma mesa com capricho. Ouço todo tipo de música. Dou bom dia a todos que passam por mim. Falo com todos sem conhecer, sigo os meus passos hoje, que ainda posso seguir!

Feliz Dia Novo!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Mudar é um coringa. O da carta, não o do cinema.

Mudar é, ao mesmo tempo, assustador e empolgante, um peso e um alívio, uma dor e um prazer… Mudar pode ser ruim quando as coisas estão boas, mas é a melhor saída quando as coisas estão ruins.

Nossa sociedade está sempre em movimento e sempre em busca de algo melhor, ainda que se torne temporariamente pior nesse processo. E nossa sociedade começou a mudar, algum tempo atrás. Uma leve melhora que provocou os egos mais conservadores que, na ânsia de proteger sua “zona de conforto”, lutaram contra essa melhora, o que fez de todos nós um pouco piores.

Mas isso é bom! Porque só quando nos sentimos desconfortáveis ou ameaçados é que resolvemos nos mexer. E nós crescemos somente quando existe um obstáculo à nossa frente. A piora é só o efeito colateral dos primeiros passos para a melhora.

Eu gosto de mudanças. De todas as mudanças! As que trazem dor e as que trazem prazer. Sim, ambas! A mudança, para mim, remete a desconforto, como para todos, mas desse desconforto surgem a excitação das novas informações e, com elas, novas possibilidades. Nossa sociedade, nossa cultura, principalmente nossos valores estão muito doentes e a cura só vem com a mudança.

Nestas eleições, eu busquei muitas mudanças e torci para que elas fossem as mais radicais possíveis. Agi até onde pude, mas fui limitado a dois míseros votos. Queria ver a maior diversidade possível nas casas executivas e legislativas deste imenso País, mas, com coerência e conhecimento, só consegui apoiar duas mulheres: uma para a Prefeitura e outra para a Câmara dos Vereadores.

Ao final, minha cidade querida terá 3 mulheres e 2 transgêneros* no seu conselho legislativo. Satisfação! No executivo, contudo, as opções sobreviventes são mais do enferrujado e hipócrita mesmo. Frustração.

Eu entendo que o momento é das mulheres e precisamos delas. Elas estão melhor preparadas para o cenário atual, pois elas não têm os vícios do poder patriarcal, têm a sensibilidade de quem é orientada para a congruência, para a união, e elas têm a virtude de dar voz a todos, coisa que anda em falta na cultura tupiniquim dos últimos tempos. O momento é também de quem não se vê lá, nem cá, ou, estando lá, sabe que seu lugar é aqui e vice-versa. Ser LGBTQI+ é ser disruptivo em essência. E a ruptura com o sistema é a mudança que nós mais precisamos!

Estamos longe ainda da diversidade que eu considero ideal, mas os resultados desta eleição, ao menos em São Paulo, trazem um avanço sem a menor sombra de dúvidas!

Parabéns a quem chegou lá e a quem contribuiu para esse princípio de mudança! Aos que tentam conter essa mesma mudança, sugiro que olhem para os dois lados, antes de atravessar a rua.

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* Fico, aqui, imaginando como cada um leu o número “2”.

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Artur. Trans na política são resposta ao bolsonarismo, diz Erika Hilton, 6ª vereadora mais votada em SP. São Paulo: Folha de São Paulo, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

UOL Eleições 2020 – Apurações. São Paulo: UOL, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

Cássio C. Nogueira – Belo Urbano, psicanalista, coaching, marqueteiro, curioso, maluco com CRP, apaixonado pela vida e na potência máxima, sempre!

-Mas é pavê ou pacomê? – Imagine aquele tio das festas de Natal podendo marcar presença em todos os momentos de seu sagrado confinamento social.

Entre grupos de família ou de amigos, de pais da escola, do condomínio, da academia e tantos outros, surge uma nova habilidade social nessa tortura do isolamento: Driblar o WhatsApp!

Começa com um “BOM DIA!” Seguido de uma imagem fofa, em seguida vem as piadas, “para alegrar o dia”, geralmente vídeos longos, sotaque carregado, nordestinês tem a preferência, mas tem também gaúchês, mineirês, caipirês, interiorês de São Paulo, qualquer um que instigue o que tem de melhor nos preconceitos. Tem piada machista, misógina, política e,
tantos mais. O que elas têm em comum? Essas piadas nunca alegram o dia. E mulher gostosa que conta piada machista então? E o tiozão completa, “mas até elas pensam assim”. Você:

-Tio, não é que elas pensem, elas estão lendo um texto para o deleite de véio babão.

Na sequência, vem a opinião de cada um do grupo, tios, primos, cunhados, sobrinhos e agregados, cada um com sua opinião e, do nada, é claro, estamos falando de política. Creio que a frase inicial é algo como:

-Então, o que vocês preferem é ver mulher feia, né? E segue:

-Feia é a mulher do Macron, por isso ele está contra o Brasil do Mito, que tem mulher bonita.

Quando você diz feia ou bonita, só para eu me encaixar na conversa, é para olhar, comer ou ter uma conversa produtiva?

-Mas você é esquerdista mesmo, não?

-Demorou para chegar nessa conclusão?

A discussão já tem conversa paralela, definição de esquerda, feminismo, feio e bonito, entra rachadinha, 89 mil e stf na feed. Entre fake news e boatos, com seus respectivos desmentidos, alguém lembra que estamos em 2020, que ano! Tomara que acabe logo. Não adianta nada dizer que o ano pode mudar, mas que, sem vacina, continuaremos em isolamento.

-Você tomaria a vacina chinesa?

-Talvez, mesmo porque gosto do nome sinovac, lembra o meu (hehehe). Mas eu não tomaria a russa, que não foi testada a ponto de se confiar nela.

-Por que não, você não é comunista?

-: /

Outra discussão está se definindo no horizonte, mas, antes que ela comece, aviso que preciso levar o cachorro para passear. Não tenho cachorro, mas preciso caminhar. Visto minha máscara e aproveito o sol da manhã. Logo, na esquina, escuto a voz de uma criança, na varanda de um prédio:

-Vai para casa sua arrombada.

E é por isso que eu fico com a pureza e a inocência das crianças.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com

Como você é linda!
Foi assim que o relacionamento começou.
Já se passaram meses, e como ele é carinhoso!
Mig estava nas nuvens. Que homem incrível havia encontrado. Fiel, trabalhador, um eterno
romântico, sempre a elogiando, presenteando com chocolates e buquês de rosas vermelhas.
“A verdade é que ele a amava. Era intenso.”
Não demorou para as promessas de casamento começarem a lhe cobrir de esperanças, afinal,
Mig realizaria o sonho de constituir uma linda família, pois filhos também já tinham sido
cogitados.
Combinaram de sair, e Mig comprou um belo vestido, arrumando-se toda para agradar seu
amado. Pena ele não ter gostado tanto assim da sua produção, pedindo-lhe com todo carinho
que colocasse algo mais apropriado. “Que mal faria ela trocar sua roupa?” Jamais iria
contrariar seu agora quase noivo com uma bobagem dessa.
O tempo passou, e como ele se recusava a usar métodos contraceptivos (Mig entendia as
razões dele), não custou para que o primeiro filho chegasse.
“O casamento podia esperar”, disse ele.
Foram morar juntos.
Uma pena ele ser tão ocupado! Chegava todos os dias tarde, cansado sempre, não cuidava do
bebê, nem tampouco da casa.
Mig se desdobrava entre os afazares, o trabalho e a faculdade à noite, quando contava com a
ajuda de sua mãe e algumas amigas.
Mas essa situação ficou insustentável e, segundo ele, a faculdade podia esperar. Mig viu que
ele tinha razão. Trancou sua matrícula.
Outro ponto foi manter sua mãe e as amigas mais distantes, pois “viviam dando palpites e eles
acabavam sempre discutindo por isso”. Mig ficou triste, mas entendia as razões dele.
Estranho que ele andava nervoso, mas Mig sabia que era por conta do cansaço.
Passados alguns dias, todo carinhoso, sugeriu então que Mig largasse o emprego, pois assim
teria mais tempo e condições de cuidar dele e do bebê. Ela entendeu que ele estava fazendo
isso para o bem da família. E assim, pediu demissão.
Mas parecia que nada o agradava.
Até que um dia, sem mais nem menos, deu-lhe um tapa na cara, alegando que a comida não
estava quente. Ela chorou muito, mas não quis brigar.
Na manhã seguinte, ele pediu desculpas, chorou, implorou para que ela esquecesse aquele
triste momento. “Ele a amava e não faria de novo”. Claro que ela o perdoou.
Os episódios passaram a ser constantes… Descaso, humilhação, cobranças absurdas e muita
agressão física.

O pedido de perdão, com lágrimas e lamentos, tornou-se recorrente.
Mig não estava mais dando conta. Mas não tinha coragem nem força para tomar uma atitude,
inclusive porque não sabia o que fazer.
Mas o tempo a fez perceber que precisava terminar com ele, pois temia por seu filho também.
Foi aí que a tragédia aconteceu.
Por conta de não aceitar o fim do relacionamento, ele planejou o pior.
Esperou Mig dormir, jogou álcool sobre ela e ateou fogo.
Ela acordou em chamas. Com seus gritos de dor, uma vizinha conseguiu arrombar a porta e
socorrê-la.
Ele havia fugido para sempre.
Mig teve 80% do corpo queimado, seu rosto desfigurado e marcas psicológicas para sempre.
Precisou lutar pela vida.
Sobreviveu com garra! Hoje luta pela causa, para ajudar outras mulheres a não passarem pelo
que passou.


*Dados do DeltaFolha afirmam que “o Brasil registra 1 caso de agressão à mulher a cada 4
minutos.”
*Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “7 em cada 10 mulheres no planeta foram
ou serão violentadas em algum momento da vida”.
*Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, “a quantidade de
denúncias de violência contra as mulheres recebidas no canal 180 cresceu quase 40%
comparando o mês de abril de 2020 e 2019”. (saude.abril.com.br)

Disque 180. Denuncie. Vá até a Delegacia da Mulher (ou delegacia mais próxima) e preste
queixa.
Disque 190 – Polícia Militar para atuação emergencial.


Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

“OOOhhhh, ele usa um brinco de argola!”

A primeira vez em que vi uma pessoa preta, devia ter uns seis anos. Isso aconteceu em um restaurante de Helsinque, a capital da Finlândia. 

Como nasci e cresci em uma cidade pequena do país, nunca tinha visto alguém nem levemente morena. Olhos castanhos então, eram algo muito estranho.

Naquele restaurante de Helsinque, do que mais lembro é da reação da minha mãe, de olhos arregalados e falando baixinho, sobre aquele homem negro. Só que, maravilhada, os seus comentários eram sobre o exotismo do que ele estava usando: Um brinco de argola grande na orelha. Não lembro de mais nada sobre ele, de suas roupas, se falava alguma língua desconhecida, com quem estava, nada. Mas passei a associar pessoas que tinham a pele de cor tão diferente da minha com o exótico e maravilhoso.

Quando nos mudamos para o Brasil, pouco tempo depois, vivi em cidades pequenas, onde frequentava a mesma escola que as outras crianças, de todas as cores e classes sociais e brincava com elas. Era com a filha da costureira que aprendi as cantigas de roda, com a filha da lavadeira que brincava de pega-pega e com todas as outras crianças que brincava de esconde-esconde na praça da igreja. Nunca passou pela minha cabeça ou de sua mãe, criticar essas amizades por qualquer motivo.

Já adolescente, morando em uma cidade grande, descobri o preconceito. Primeiro contra mim mesma, por ser alienígena. Não havia muita tolerância ou acolhimento naqueles bons anos 70, numa Campinas provinciana. Mas tinha muita xenofobia e megalomania. Já na escola, só tinha branco. Até os funcionários. E assuntos polêmicos, como divórcio, aborto e racismo eram abordados raramente em alguma aula da área de humanas. À típica pergunta: “Você é racista?”, ela respondia que não, mas ninguém acreditava, o que, por sua vez, fazia com que ela passasse a ter dúvidas sobre suas afirmações. “Você tem amigos negros?” Não, mas qual era a minha oportunidade de encontrar negros para ter amizade?  Tolerava as piadinhas racistas, assim como as misóginas e outras preconceituosas, apenas para não ser a chata da turma, mas na verdade, nunca consegui ver graça nelas. Com o tempo, passou a contestar cada piada ridícula com outra pior, sobre alguma coisa muito sem graça. 

A pior que aconteceu, nos anos 1990, foi ir a uma festa da prima do marido, onde um dos convidados era negro e a tia dizer: “Desculpem, não tive como evitar.” Ao que eu respondi: “Desculpo não, tia! É um absurdo imaginar que a presença do colega de sua filha possa ser ofensiva!” Naquela época ela não entendeu, racismo ainda não era crime, mas eu queimei de raiva por dentro. Se eu teria amigos negros???

Eu tenho AMIGOS e nem mesmo sei a cor deles!

A maioria dos racistas brasileiros sofreria racismo na Europa, Estados Unidos e Japão! Nós somos um país de miscigenados e amo essa mistura maravilhosa que faz a pele mais morena ou não.

Passados os anos 70, 80, 90 e chegados os anos 2000, 2010, 2020. Hoje já não me calo mais, mas, por outro lado, não me isenoa também. Hoje Racismo É Crime e eu luto com meus papéis, desenhos e textos. Luto com as armas que tenho e não estou sozinha. Será que eu me considero racista? 

Eu, definitivamente, sou ANTIRRACISTA!

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.




E assim começou: declaração da pandemia, quarentenas, bagunça geral.

Histórias parecidas no mundo todo, não importa onde vá, seja rico ou seja pobre, more na Suíça ou na Índia, o assunto da moda é sempre o mesmo. Distância social, máscara, lave a mão, não toque o rosto, use álcool, não tem álcool, e agora? Tem vacina? Não. Quanto tempo demora? Especulação.  

Teorias de conspiração chegam rápido. Acusam os chineses, CIA, Bill Gates, indústria farmacêutica. Até rede de celular 5G entrou na lista de culpados.  Muitos se ocupam debatendo o que não importa. Ajuda a passar o tempo.

Nossos líderes, eleitos democraticamente, mostram para que vieram.  Seja Trump, seja Bolsonaro, parece que só muda o endereço. Arrogância, discórdia, guerra de egos, desunião.  Trump chama o vírus de “inimigo invisível”, mas esquece esse não recua com ameaça, embargos nem bomba atômica.

Penso que o buraco é muito mais embaixo. Penso que a crise de liderança reflete uma crise de valores e pode ser tão devastadora quanto o vírus.

Também penso nas consequências de longo prazo dessa crise.  Nos Estados Unidos uma das principais causas de mortalidade de jovens e adultos de meia idade inclui uso de drogas e suicídio. Chama-se “Deaths of Despair” (mortes do desespero). Acho que um dos efeitos colaterais da quarentena será um agravamento dessa situação. 

Penso nas crianças de rua, ou crianças com pais alcoólatras ou narcóticos, agora juntos, debaixo do mesmo teto, 24 horas por dia. Antes da pandemia muitas dessas crianças iam a escola onde encontravam um ambiente estável. Hoje não é possível. Mais um efeito colateral da quarentena. Acho que estamos vivendo algo que assistiremos em filmes daqui alguns anos. Fico pensando se no final das contas teremos mais gente em hospitais psiquiátricos do que nas UTIs. Mas essas estatísticas não dão muito ibope. Além do mais, esses efeitos colaterais chegam mais tarde, depois das eleições. 

Ao mesmo tempo, penso no lado positivo. Somos seis bilhões de pessoas lutando contra o mesmo vírus, passando pelos mesmos problemas. Que oportunidade melhor do que essa para enxergarmos que temos muito mais em comum do que diferenças?

Não temos controle nem sabemos que rumo que essa pandemia vai tomar. Mas uma coisa é certa, temos total controle das nossas atitudes. Penso que nas horas difíceis, de crise, é que temos a oportunidade de aprender (na marra). Temos a oportunidade de ver o mundo (e a nós mesmos) com outra perspectiva. Quem sabe nos tornarmos pessoas melhores.

No final das contas, não precisamos fazer nada grande ou tentar mudar o mundo. Posso fazer coisas pequenas, todo dia, que não custam nada e contribuem para um mundo melhor. Sorrir para o vizinho, porteiro, ou desconhecido na rua, usar palavras gentis, praticar empatia, não julgar, não tentar mudar o que é imutável, aceitar a situação, por pior que seja, e usá-la para algo bom.

Alice Chebabi – Bela Urbana, 38 anos, mãe, esposa, natural de Campinas, mora em Houston, Texas, onde é diretora de desenvolvimento de projetos. Adora trabalhar, jogar squash, ir ao cinema, brincar com seu filho Lucas e aprender coisas novas.

A realidade me fode, talvez por isso eu tenho evitado tanto sonhar. É difícil ter que acordar. Eu tenho me sentido inútil, desnecessário, como se o mundo me quisesse fora, antes ele só não se importava comigo, mas agora ele me nota e me deseja a morte. Mas como matar o que morto já está?

Dramático, né? Eu sei, mas é que tudo que não penso, sinto e eu sinto muito, sinto pra caralho, como um intelectual frustrado, como um escritor com o ego machucado, como profissionais da saúde constantemente ignorados!

Eu minto que tá tudo bem, pinto o quadro do sujeito isolado, mas eu queria alguém do meu lado para chorar, desabafar no ombro amigo, devidamente esterilizados, ambos mascarados, mas com isso eu já estou acostumado, como falei, eu minto, por que eu me sinto um otário quando ainda vejo bares lotados de retardados, alheios ao sofrimento alheio, bicho, eu to cansado…

De tudo e de nada, essa vida, esse dias mal dormidos, esse apocalipse que não chega, tudo é tão ínfimo e vazio, mas ainda assim me enche de medos, anseios, álcool com remédios, insônia e depressão, tesão reprimido, amores omitidos, tudo que eu não disse, tudo o que eu não fiz, tudo o que eu suportei, todos os sapos radioativos que engoli, todos os outros vírus que eu já matei, todas as vezes que eu morri!

Eu queria usar o humor como válvula de escape, mas até isso me escapou e foi pra puta que pariu! Volta aqui, me leva, qualquer coisa é melhor que morrer por conta da incompetência abissal do nosso líder nacional!

Quando tudo desmoronou que a gente não viu? Ou viu e preferiu não ver? É de foder, mas nem é de sexo que eu estou falando, é da agonia, da melancolia, da pandemia, da porra do presidente, da sua corja nazista, racista, machista, eu poderia continuar com muito mais “istas”, mas vamos falar de coisa boa? Vamos falar das lives no insta?

Eu sou hipócrita demais, quando você não entende a minha ironia, o burro é você ou sou eu? Talvez nós dois, de mãos dadas, dois burros alados, caminhando rumo ao precipício ou ao fundo do poço, mas relaxa, não seja pessimista, talvez a gente dê sorte, talvez a gente pule e já esteja transbordado com o gado afogado, eles servirão de ponte para atravessarmos até o outro lado…

Amigo, eu não quero ser um fardo, se eu começar a rir e delirar, me deixe aqui e siga sem olhar pra trás, siga até o próximo paradoxo, porque esse texto já tá muito extenso, eu lhe peço, por caridade, enxergue uma nova realidade, veja o nosso futuro utópico, num Brasil distópico, onde a loucura é a verdade, onde ciência é piada, onde homens grisalhos e de ternos amadeirados sugerem a morte aos menos afortunados, onde celebraremos e reviveremos todas as merdas do passado.

Não, não, não. Espera! Caralho, não era essa estrada, acho que a gente foi pro lado errado!

A verdade irmão, é que ninguém se importa, todos preocupados com o próprio rabo, mas é necessário, temos que sobreviver ao caos e se alguém me disser: “Vai ficar tudo bem”. Eu digo “você está bem? Ah que bom, eu também! :)”

Lucas Alberti Amaral – Belo urbanonascido em 08/11/87. Publicitário, tem uma página onde espalha pensamentos materializados em textos curtos e tentativas de poesias  www.facebook.com/quaseinedito  (curte lá!). Não acredita em horóscopo, mas é de Escorpião, lua em Gêmeos com ascendente em Peixes e Netuno na casa 10. Por fim odeia falar de si mesmo na terceira pessoa.

Hoje eu acordei sentindo que tudo está diferente e ao mesmo tempo fazem quase três semanas que estamos na mesma situação, entocados em casa.
Enquanto estou fazendo meu café, escuto pessoas gritando na rua. Achei que era briga de casal, uma mulher e um homem. Curiosa, abri a janela para descobrir de onde estava vindo essa comoção toda. Em uma casa na minha rua, uma mulher jovem na janela gritava para um homem jovem na rua. Os dois expressando um amor eterno e a saudade apertando o coração. Eles moram no mesmo bairro mas já fazem semanas que não se abraçam e para poder matar um pouquinho dessa saudade ele resolveu declarar um poema de amor para sua namorada, sem se importar com quem pudesse ouvir. Quando ele terminou a rua toda bateu palmas e ele agradeceu como se fosse um ator terminando a cena final de uma apresentação no teatro, depois de mais algumas promessas de amor para sua amada na janela, ele foi para casa, ela ficou na janela até ele virar a esquina e sumir de vista. 

Todos voltaram a fazer o que estavam fazendo. Imaginei o quanto deve ser difícil para uma paixão nova ter que esperar para poder se abraçar de novo. Não sou jovenzinha mas me lembro muito bem como é.
Moro na Inglaterra há 15 anos e tenho família aqui, na Itália e no Brasil. 
Converso por WhatsApp com várias pessoas quase todos os dias. Estranho pensar que antes do Covid-19 eu não falava nem com metade dessas pessoas, família e amigos, nem mesmo uma vez por ano. E agora faço e recebo chamadas de pessoas queridas que estavam perdidas no meu passado. 
Uma grande preocupação é com a família na Itália, minha tia-avó de 94 anos, a última de uma geração na minha família materna que passou por situações muito piores do que a que estamos passando agora. Ela sobreviveu guerras, a rua onde ela morava foi destruída por bombas, perdeu amigos nesse dia, passou fome, frio e terror, mas não perdeu seu coração e nem a vontade de viver. Ontem conversamos e ela me disse que ficar em casa com a família não parece ser esse horror que os jovens estão dizendo ser. Ela está aproveitando esse tempo, onde os netos não tem escolha mas ficar em casa com ela. Eu me senti tão pequena e boba, mas ela abriu meus olhos. Como eu admiro essa mulher! 
Fico imaginando como vai ser quando isso acabar. Será que todas as pessoas que conheço vão estar aqui? Será que meu trabalho vai estar lá? Quando saio para uma caminhada curta pelo bairro e cruzamos caminho com alguém pela calçada eu notei que se são adultos ou jovens as pessoas te olham feio. Aquela sensação que você desagradou alguém simplesmente por ter se atrevido a levar a cachorro para um rolezinho no quarteirão. Agora se são idosos, eles te olham e sorriem e perguntam se está tudo bem.
Não posso prever o futuro, mas posso imaginar que não vai ser como antes. Abraços apertados só para quem vive na mesma casa que você. Aperto de mão vai sair de moda. Sorriso amarelo e espaço pessoal de dois metros será a norma. A não ser que você use transporte público, daí não tem jeito. 
Adaptar e continuar como se tudo que mudou impactou para o bem. 
Bom, não sei, mas espero estar aqui para descobrir. 

Ana Carolina Beresford – Bela Urbana, trabalha numa caridade que ajuda pessoas com deficiências físicas e mentais a locomoverem-se, sente muito orgulho do seu trabalho. Adora animais e viajar sempre que pode.