Uma história passa a ser um conto, quando se encontra repleta de causos constantes na vida de uma família, seja ela de qualquer tempo de vida.
Quando nascemos, já viramos a história da família que nos comporta. Então, lá vamos nós como uma máquina agindo naquele tempo.
Tempo leia-se Vida!
Meu pai João Firmino Neves nasceu em 1901, em 19 de outubro… e viajou para a Lua, assim como disse para a querida vizinha Clementina, antes de seu falecimento, de que só morreria pós a Chegada do Homem na Lua (acontecida em 20 julho 1969) … E meu pai, viu o Homem pisar na Lua… e no dia seguinte 21 julho 1969, faleceu! A conversa com Deus, foi positiva!
E a amiga dona Clementina, avó de minha afilhada Paulinha nos contou a prosa dele com ela no dia anterior. Um “causo” assim o declamo, esses causos ficam para um sempre!
Lembranças de meu Herói João Neves, assim foi conhecido…
Foi durante muitos anos Caminhoneiro, Benzedor/Rezador, Policial Civil (Investigador 1ªDelegacia Campinas/SP/Brasil).

CURIOSIDADES:
EDUCAÇÃO E CULTURA
Poliglota na percepção do entender e da fala – Inglês, francês, japonês, italiano, espanhol, um pouco de alemão e árabe, e o que mais orgulho tinha um PORTUGUÊS impecável.
Como? Sentia pela Vida o maior enlaço, e ele abraçava os seus AGORAS, e sempre dizia, que o aprender Joaninha (apelido carinhoso que ele me deu) só tem lógica, quando somos capacitados para vivenciá-la. E sendo meu Pai um Caminhoneiro viajou o Brasil todo, e foi aprendendo a se comunicar com as pessoas que tinha contato, para se entender e ser entendido. Eu o considerava um ABUSO! Ele se lambuzava em suas estradas pessoais e interpessoais! Gostava muito de ler… e me estimulava demais à leitura, e a compreensão de metáforas! Estudava muito sobre o Comportamento dos seres vivos, o que ajudou muito a ser um Investigador de Excelência.

AMIZADES

Foi muito querido pelas crianças e adultos, vizinhos ou não, e sempre era uma festa encontrá-lo!
Como fui filha única, meu pai abriu a nossa casa para primos e primas de longe, afim de morar em casa, para fazer-me companhia tendo uma vivência normal de estudo.
A Joaninha não podia crescer sem ter ninguém ao lado… Ele proferia:
– Nenhum homem é uma ilha.
Para ele meu pai, o mimo fazia mal e solidão também.
Ele tinha tantos amigos, que nem que pensem como isso se dava, não entenderão… As noites de final de semana, na casa da Vila Nova/Rua Carolina Florence/ o caminho para Barão Geraldo, nós éramos embalados pelo som de Guarânias, Amigos paraguaios, que até o instrumento Harpa levavam… Não jogávamos água não… saíamos de dentro da casa e ficávamos no jardim (Guarânia é um estilo musical de origem paraguaia, em andamento lento, geralmente em tom menor. Foi criada em Assunção pelo músico José Asunción Flores, em 1925).

SENSIBILIDADE E PERCEPÇÃO
De notável diferença a sua percepção da vida, dentro de si mesmo e ao arredor. Me confiava de que um Ser Humano precisa se acertar, antes de proclamar ser o Mestre Salvador da Pátria!
Me treinava com seu olhar, e podem começar a dar risada, eu sou ele…
Um adendo:
A minha mãe toda social, tímida, preocupada com o que somos e o que vêm, ficava uma fera quando saíamos juntos… Pois, eu e meu pai ríamos alto e sem parar, diante de qualquer coisinha, mesmo nossas, aliás eu aprendi com ele a rir de mim. A maior herança que me deixou foi o BOM HUMOR!
Ele amava carros antigos, quando faleceu tínhamos um modelo Oldsmobile (Oldsmobile foi uma marca de veículos descontinuada pela General Motors em 2004).
Ele usava chapéu “Panamá” e ternos de linho, gravatas e sapatos notadamente engraxados, pelos engraxates da cidade.
Ele nos levava, eu e mamãe ao Restaurante Rosário, toda semana.
E toda semana, eu e minha mãe esperávamos a sua volta do trabalho, que era árduo como Investigador da Polícia Civil, com sanduiches dos bares Giovannetti ou do Eden Bar.
Ele me presenteou com o Livro O Diário de Anne Frank/1958 quando me formei no primário e tinha 09 anos, para que eu conhecesse o’utro lado do meu mundo!
Vocês entendem o valor disso na educação?
Um detalhe, aos meus 06 anos de idade estava no primeiro ano do grupo escolar “Dona Castorina Cavalheiro” (morava na Rua Barata Ribeiro) quando a Diretora chamou meus pais logo na segunda semana de aulas.
Foi um ohhhhh!
Em casa, e meu pai disse:
-Joaninha o que está acontecendo?
E lá foram conversar, e eles ficaram exultantes, a filha pequenina deles, estava atrapalhando a sala, já estava alfabetizada, e não poderia ficar mais na sala. Meu pai teve um infarto…
Mentira… Estavam lá para credibilizar a minha ida direta ao segundo ano!
Meu pai disse, ao sairmos para a minha mãe:
-Zilda, não estamos errando.
Uma das metáforas mais importantes que ele me ensinou:
Joaninha, a Oportunidade só tem cabelo na frente, atrás ela é careca!
Nunca duvidei disso, pois hoje aos 7.3 anos de vivências, sei e sou muito ainda de meu Pai João Neves.
Viveu durante quase 68 anos… nasceu em 1901/outubro/19 e faleceu 1969/julho/21.
Eu tinha 21 anos de idade!
E EU ESTOU FELIZ PARA SEMPRE!
FIM

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Ela sentiu a nuca arrepiar ao olhar para aquele par de olhos azuis. Aquele era um indício de muita confusão em sua vida e de uma entrega que nunca havia vivido. Eram apenas algumas horas para viver essa louca paixão estrangeira, sem freios.

E assim foi. Foram exatas 10 horas de êxtase, gargalhadas, alguns problemas com o idioma, a descoberta que ele realmente não gostava de pimenta e que ela era louca em vinho Carménère e não podia tomar cerveja daquele jeito maluco e que eles dançavam forró lindamente, apesar dos dois pés esquerdos dele.

Jogo de Copa do Mundo no Brasil, festa na arena São Paulo. E lá estava o hermano mais charmoso que ela havia visto. Tudo começou com um irreverente e –inocente – acreditou ela, pedido de “saca uma foto, por favor?”. Claro! Pronto, feito o primeiro contato aqueles olhos não se desgrudaram mais. Conversa vai, conversa vem, em bom portunhol. Pois sim, ela só achava que as aulas de espanhol tinham feito algum efeito. Ele brincou com ela e a pediu tirar uma foto com o chapéu azul e branco. Ela tomou outro gole da birra e topou a brincadeira. A “irmã caçula” que a acompanhava, achando tudo lindo, incentivou a brincadeira.

Ela torceu pelos hermanos… O Brasil não jogava naquele dia, já havia acontecido o fatídico 7×1. Entre uma tentativa e outra de tentar ensinar o dançarino de tango forrozear, ele lhe roubou um beijo. Ela parou. Ele, sem graça, pediu desculpas. Ela riu e roubou outro beijo. A irmã, os amigos só se olharam e seguiram tarde e noite a fora rindo.

E eles pararam de ver a Copa, os jogos, as pessoas e se fecharam num mundo só deles. Conversaram, riram, dançaram. Até que ele teve que ir embora. Era domingo à noite. Ele tinha uma fronteira para cruzar e ela, uma hora e pouco de estrada pela frente.

Se abraçaram como se não existisse amanhã. Até hoje ela é capaz de sentir o cheiro do perfume dele se pensar naquele momento. Os olhos marejaram. Os dela e os dele. Trocaram juras de se ver. Ele prometeu voltar, ela prometeu ir. Passaram a se seguir nas redes sociais e conversaram horas a fio durante a volta dele. Se falam até hoje. A promessa de se encontrarem não foi cumprida. Ele namorou, ela também. Mas ainda se conversam esporadicamente. Numas dessas conversas a revelação mais surpreendente: ele guardou o guardanapo que ela escondeu no bolso da sua calça com um bilhete, ainda ouve a aquele forró de Gil e lembra dela. Ela ainda bebe o vinho Carménère e sabe o trecho que ele ensinou do hino argentino. Um torce pelo time do outro (quando não são rivais na partida) e guardam os copos de cerveja daquela Copa.

Uma história linda, de um encontro inusitado, que até hoje move sentimentos em dois corações distantes.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 40 anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Aqui está mais um registro de amor.
Meu pequeno está na sala, para variar está construindo mais uma de suas maravilhosas invenções de Lego.
A vontade que me dá é abrir as portas e janelas e chamar todos para que vejam sua nova engenhoca. Eu queria mostrar ao mundo um ser humano tão puro e tão raro de se encontrar para que ao menos uma vez na vida sintam o amor leve e genuíno que eu sinto todas as manhãs quando ele abre os olhos.
(Pausa para algumas lágrimas que escorrem pele a fora…).
Eu não sei descrever o orgulho que sinto em mim por ter a oportunidade de trilhar esse caminho com você.
Gostaria ao menos que pudessem assistir comigo todas as vezes que você conta pela décima vez a mesma piada e ri como se nunca tivesse ouvido antes.
E o jeito como brilha os seus olhos toda vez que fala com tanta intimidade sobre o seu grande amigo Jesus.
Tão pequeno e valente.
Ah meu amor, você é tão especial que igual não há. E quem te conhece não pode discordar, é tão diferente de tudo que já se viu.
Gosto de te ver brincar.
Gosto de te observar.
É ali que me sinto nostálgica, muitas lembranças eu tenho de você.
Lembranças de dor, de medo, de perca. Te vejo tão forte e lutando tanto por uma chance.
Eu queria que para cada pessoa na terra, Deus separasse um de você.
Assim do jeitinho que é. Transforma um lar num parque de diversões.
Leva o nosso coração até o ponto mais alto no céu.
Domingo será mais um dia das mães, mas a data tão especial é posta à prova todos os dias do ano, e são nesses dias que me crio e me reinvento.
São todos esses dias que me faço mãe, irmã, amiga, ouvinte para te entender, te acalentar, ensinar, carregar no colo e curar tua ferida.
Desde a hora do banho até o cafuné na hora de dormir te guardo em pensamento e te peço proteção por onde quer que vá.
Oro por ti em silêncio e renovo a armadura, troco meu sono pelo teu.
Você é a melhor das minhas ações.
Você é o sonho mais intenso e milagroso que já vivi.
Você é meu filho e meu maior orgulho é ser tua mãe.

Feliz dia das mães para todo ser humano passível de sentir o amor incondicional e mais forte de todos dentro do coração.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Há pouco menos de 500 anos o calendário era outro, o ano se iniciava no final de março com a chegada da primavera no hemisfério norte e outono para nós, abaixo da linha do equador.

A partir de 2020, aqui no Brasil começamos uma nova contagem de tempo que acaba de completar um ano, um ciclo.

Certa vez, um amigo me disse que sempre após um evento marcante em nossas vidas deveríamos esperar um ano para avaliar com clareza e realidade como estamos, pois, como ele disse, após um ano teríamos experimentado viver a “primeira vez” de várias situações.

Agora que acabamos de retornar ao mesmo ponto da órbita solar que estávamos quando fomos colocados à prova em nossa imensa capacidade de adaptação, aceitação, superação e esperança, vejo que estamos tendo a chance de fazer pela primeira vez em uma segunda vez.

Eu ainda não, pois nasci em dezembro, mas alguns de vocês ou seus filhos já comemoraram o segundo aniversário nesta nova dinâmica, outros estão experimentando novos formatos e modelos de convivência e relacionamento.

O convite aqui é para refletirmos e percebermos como somos capazes de aprender e ensinar mesmo nas situações mais adversas da vida. Não quero romantizar, nem dramatizar o que estamos vivendo, longe disso. Proponho apenas que cada um olhe para o seu “mundo” e perceba a oportunidade que estamos tendo de rever tantas variáveis e fatores em tão pouco tempo. Quantos processos individuais e coletivos foram catalizados nessas quatro estações.

O que será que foi pior, aquilo que aconteceu e queríamos ter evitado ou aquilo que não desejávamos e simplesmente aconteceu. É aí que entra a diferença entre conformismo e aceitação, quando acessamos um lugar de paz e leveza em nosso coração, onde a dor, o medo e a insegurança não existem.

Será que quando algo acontece em nossa vida é realmente a primeira vez?

Embora digam que um raio nunca cai no mesmo lugar, algumas teorias dizem que “tudo acontece duas vezes”. Primeiro na nossa mente e depois na realidade. O jogador de basquete Michel Jordan dizia que antes das partidas mais importantes da sua vida, ele “imaginava” algumas jogadas e “magicamente” no dia do jogo elas aconteciam exatamente como ele havia imaginado.

Pensando assim, podemos contribuir com a realidade imaginando soluções, caminhos e pontes para nos conectar com a sociedade e o mundo que queremos, para que quando ele existir tenhamos a sensação de estamos vivendo a primeira vez pela segunda vez.

Flávio Oliveira – Belo Urbano, pai da Júlia, Terapeuta Integrativo, Facilitador de Grupos de Homens e um apaixonado por Filosofia, Poesia e Astronomia.

Em meio a uma crise mundial onde tudo parece diferente, onde uma palavra pungente não cansa de aparecer, onde esta tal de pandemia, pegou uma ruim mania de nos entristecer, pergunto meu querido amigo, você sabe de onde eu venho?

Em meio a pessoas ruins que teimam em jogar nosso país na lama, em meio ao nosso povo que teima em não se unir, polarizando sua força sem lutar pelo que é certo, eu pergunto meu amigo, você sabe de onde eu venho?

Entre hospitais lotados e o meu povo passando fome, no olhar desgastado do pai de família, que se ajoelha ante ao caos montado por quem desgoverna estes país, eu lhe pergunto meu amigo, você sabe de onde eu venho?

Eu venho daqui e de lá, eu fui forjado por um povo que não conhece o medo de lutar, eu fui feito pelas serras gaúchas, eu fui montado pela caatinga do sertão nordestino, pelo sol do meio dia da Bahia, pela chuva de Belém do Pará, pelo tempo mesclado das quatro estações da capital do meu País.

Eu não me entrego, fui índio, fui negro, fui asiático, fui português e muitos outros, mas hoje eu venho daqui, das entranhas deste povo, hoje eu venho da brasa de fogo da bandeira verde que ecoa em nosso olhos, hoje eu venho de um povo que insiste em vencer tudo que se propõe a fazer, então meu caro, já vou dizer sem medo de errar, apesar de já ter sido muitos, hoje sou brasileiro e novamente vou ganhar.

Estou maltratado, separado, abatido, mas não vencido, não é esta pandemia que vai me derrubar, não é o governo corrupto que vai acabar comigo, sou da terra e do ar, não tenho medo de lutar, vou novamente me levantar e novamente vou ganhar, para que em algum fevereiro da vida eu volte a festejar, porque sou brasileiro, sou de luta, sou de força não sou descansar.

Quero todos aqui, juntos, vamos deixar de criticar, vamos levantar a nossa bandeira, a mesma bandeira que é sua, é minha, vamos mostrar as nossas raízes e vamos vencer esta crise, porque nós não sabemos perder, não nos ensinaram a nos render, não nos mostraram a tristeza de ficar parado, nós vamos novamente vencer por o único motivo, nós viemos do Brasil.

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Sou cartunista, mas não leio o futuro nas cartas. Desenho o presente com lápis e humor.

Minha formação acadêmica é em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda e já trabalhei na área. Depois, aliando o mundo business e o meu conhecimento fluente em alguns idiomas, passei a dar aulas. Também trabalho com construção civil, junto com a família.

Porém, a minha grande paixão é a arte! Já sofri muito pela falta de tempo de produzir o que minha mente criativa pedia. Cores, tintas, lápis, papéis, dá até água na boca de pensar.

Juntando a arte com a veia de humor, que sempre esteve presente em mim, nasceu a cartunista. Há alguns anos tomei coragem e inscrevi uma ou duas caricaturas em salões de humor, que foram selecionadas e eu passei a amar esse novo mundo que se abria. Com o passar do tempo, o vício foi dominando e, charges, cartuns, até tirinhas foram surgindo. O Brasil é uma terra rica em matéria-prima para essa arte, seja pela homenagem às nossas
grandes figuras ou pela crítica à política do momento. E tem o mundo.

Nunca pensei ser a ‘mulher cartunista’, mas, aos poucos, acabei me tornando uma ativista cultural também. Fui percebendo a pouca representatividade feminina na área e procurei entender os motivos para isso, visto que o mundo do cartum é uma bolha masculina. Os grandes chargistas são majoritariamente homens – procure “cartunistas do Brasil” no Google – e nem mesmo eles parecem perceber esse círculo fechado em que vivem.

Sabemos que, há muitos séculos, existe um trabalho por parte de sociedades, principalmente as religiosas, para destruir a relevância do papel da mulher. O sexo frágil, a bela, que deve ser também recatada e do lar. No seu papel de procriadora, ela acabou sendo dominada e o seu
conhecimento ancestral foi chamado de bruxaria e queimado nas fogueiras da inquisição e outras semelhantes.

Quando surgiu o movimento feminista, toda a luta foi desmerecida. O que se buscava era a igualdade de direitos, como poder votar, trabalhar, ter direito à herança, sair à rua desacompanhada e sem ouvir bobagens. Mas denunciar o machismo é coisa de “histérica”, ela é feia, tem sovaco cabeludo, não gosta de homem, mal-amada, não conseguiu segurar marido,
a lista é longa… O humor que ela desenha é, também, desmerecido como arte inferior.

Uma vez, em uma feira de quadrinho, na Alemanha, Maurício de Sousa foi indagado sobre a falta de mulheres quadrinistas em sua comitiva. Ele respondeu que, no Brasil, “Mulher ainda não tem essa liberdade sem vergonha que homem tem, de trabalhar até tarde, tem que cuidar
da casa, dos filhos, quadrinho exige muito tempo de dedicação”.

A mulher, como protagonista de seus próprios desenhos de humor precisava ser resgatada e furar a bolha.

Na procura por essas cartunistas, salões de humor, exclusivos para mulheres, surgiram, como é o caso do “Batom, Lápis & TPM”, que acontece todo mês de março, em Piracicaba e que reúne artistas, que, mesmo espalhadas pelo mundo, são muitas e seus desenhos e mensagens são
impressionantes. Sororidade passou a ser um lema. Esse ano, 2021, houve a tentativa da secretaria de cultura de Piracicaba de cancelar o Salão. Quando tomei conhecimento de que não haveria uma edição inédita, entendi que era a hora de mobilizar os cartunistas e passei a enviar mensagens e e-mails mundo afora e, assim, conseguimos reverter a situação. Preciso dizer que também recebi algumas reações estranhas, de negação, como se o salão fosse realmente algo inferior e que não merecia atenção, por parte de pessoas que eu admiro. Não guardo rancores, mas guardo nomes…

Trata-se de um precedente perigoso. O primeiro corte é nas mulheres. Era preciso agir para que não houvesse corte (ou censura) a outras exposições de humor. O Salão de Humor de Piracicaba tem uma longa tradição de resistência política. Nasceu no auge da ditadura militar no Brasil e está em sua 48ª edição, em 2021. Todos os anos o Salão Batom, Lápis & TPM, abre a temporada, em março. Em seguida, sai o regulamento e as inscrições para o salão principal, que acontece em março. Muitas atividades são levadas às escolas da cidade, e existe o salãozinho, para crianças. Quem sabe o que mais pode ser cortado, alegando custos e organização, mas sabe-se que é política. E parece que a atual política é tendenciosa à censura do humor questionador.

Há 3 anos, eu fiz a curadoria da exposição “Humorosas”, que reuniu 20 artistas. A ideia original foi do amigo artista, o Robinson, para expor as mulheres artistas que fazem humor. Foi um sucesso, a abertura foi no MACC, Museu de Arte Contemporânea de Campinas, depois passou
por mais 3 locais, antes de encerrar. Estamos programando uma nova edição de Humorosas para logo, pois temos um problema recorrente. Hoje, nas páginas das redes sociais, que anunciam festivais de humor, pouquíssimas mulheres são mencionadas. Quando uma de nós levanta a questão, denunciando o clube masculino, a recepção é sempre fria e negado o machismo. Acabo de ver um cartaz com “cartunistas do Brasil”, com umas 100 fotografias. Não cheguei a ver 3 mulheres entre os grandes.

O trabalho de charges, cartuns e caricaturas que realizo, estão muito ligados a essas situações, de sexismo e política, basicamente. Recebo prêmios e críticas pelo meu trabalho. Prêmios no Salão Internacional de Piracicaba e, ano passado, 2020, o “Prêmio Destaque Vladimir Herzog Continuado”, junto com 110 cartunistas (6 mulheres), por uma charge continuada, em apoio a
um cartunista, ameaçado pela Lei de Segurança Nacional. Críticas vem nas formas mais variadas. Tem gente que acha que eu não devo criticar o governo, que acha que estou torcendo contra. Tem gente que pergunta se eu não tenho medo. Medo do quê, amigo?

Enquanto conto os números de mortos na pandemia, a cada charge ou texto que publico, nunca terei medo de expor as mazelas e irresponsabilidades de um governo genocida. Não é um prazer desenhar o terror que estamos vivendo e ainda tentar agregar humor. Para mim, é um dever. Estamos em março de 2021 e nadando a braçadas para os 300 mil mortos pela Covid-19.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

A grande maioria das pessoas espera e se prepara ansiosamente para a maior folia do Brasil, o carnaval.

Historicamente, a folia de carnaval acontece durante três dias que antecedem a quarta-feira de cinzas, dia que se dá início à quaresma e que simboliza a reflexão e mudança de vida. Carnaval vem do latim carnem levare – afastar-se da carne – mas como assim? Sabe aquela história que todo regime começa na segunda-feira e no fim de semana antes você come e faz tudo que pode? Então, carnaval é isso aí… aproveitar ao máximo os prazeres da carne.

Na magia do carnaval nos despimos da repressão e censura, das obrigações e responsabilidades do cotidiano para nos vestirmos de fantasias e máscaras, com uma falsa sensação de que “tudo é permitido”, vivendo intensamente a alegria, o prazer e a descontração, mas por baixo da máscara da folia aparecem outras máscaras, aquelas que vamos colocando desde a infância, que culturalmente é passado de geração em geração e nem percebemos – as máscaras do patriarcado, do machismo estrutural e privilégios masculinos. 

Sei que este ano, devido à Covid, o carnaval de rua foi adiado e nos clubes cancelado, assim como o ponto facultativo na grande maioria das cidades, mas por que este artigo então? Porque o povo brasileiro é festeiro, e é bem provável que o carnaval particular aconteça. E um fato é que no período de carnaval há o aumento do índice de assédio (que acontece o ano inteiro) e, por incrível que pareça, a grande parte se dá em lugares privados e não públicos, ou seja, nos lares e entre amigos e familiares.

E aí homens, quais comportamentos resultantes das máscaras que estamos tendo ou abafando e que afloram mais no carnaval?

Uma máscara comum é a do assédio e que muitos homens se justificam como paquera. Assédio é quando o espaço da mulher é invadido, a mulher é desrespeitada, o seu corpo é como objeto, a sua segurança é ameaçada e seus direitos violados. Isso é desamor! E paquera é onde o respeito acontece e o espaço da sedução é vivido pelos dois. Há um consentimento, um interesse das duas partes, há liberdade de escolha, e a entrega ao desfrute do amor e erotismo acontece.  

Quais outras máscaras utilizamos e que para nos autoafirmarmos (defesa da própria identidade) na nossa masculinidade, utilizamos da violência verbal, física, sexual e assim por diante? 

Nós homens, e como seres humanos, temos a condição básica de pertencimento a outro ser humano e de criarmos vínculos emocionais. Queremos amar e sermos amados!

Mas como viver isso? Nos autoconhecendo e nos desenvolvendo! E o primeiro passo é tomarmos a decisão de não mais fazer mal para as mulheres e qualquer outro ser humano e assumirmos a responsabilidade por absolutamente tudo, de como vivemos, e parando de procurar culpados.

O segundo passo é identificarmos as máscaras que utilizamos. Nos observar em nossos comportamentos e os impactos que causamos nos outros. O machismo estrutural acontece de muitas maneiras, mas tem a característica de depreciar, discriminar, ser preconceituoso, de dominar e de ser superior.

Quanto mais nos conhecemos, mais ampliamos a consciência e passamos a nos respeitar e respeitar o outro, e com o outro, desfrutamos o melhor do carnaval com a máscara da alegria, do prazer e descontração!

Viva o carnaval, viva a vida!

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.

O dia começa a clarear e eu vou amanhecendo com ele.

Na casa pequena onde me acomodo agora, os pássaros acordam a mesma hora e os cachorros vêm para junto da porta aos primeiros movimentos da casa.

Água com vinagre de maçã, hábito antigo, mingau de aveia com leites vegetais, hábito recente. Varro as folhas caídas à noite, troco de roupa e sigo para caminhada quase sempre a mesma hora.

Quando a lama não me deixa andar pelas ruas que me levam às matas, me dirijo à praia.

Primeira caminhada, recolho o lixo deixado nas areias; abaixo e levanto várias vezes, mesmo sabendo que o exercício não está tão correto assim. Mergulho. A segunda, volto a caminhar por areias limpas.

Olhares de espanto, admiração, estranhamento. Sim, sou essa mulher de 60 anos, cabelos brancos, corpo marcado e muita vontade que me impulsiona.

Às vezes me parabenizam, mas pouco dou atenção, faço por mim, não preciso de aplausos.

Viajo algumas vezes, países ricos, outras culturas, mas em todo lugar esse é meu movimento.

Hoje retornei às minhas origens, Brasil, quanta sujeira, quanto descaso, pobreza, consumismo, desigualdade, desordem, desgoverno. Gastei quase todos os adjetivos com D.

Todos se assustaram com um ano atípico, todos esperando uma solução para normalizar(?) a vida. Meses depois, o que encontro nas ruas é o reflexo desse povo que não entendeu ainda. O povo está a espera de um milagre.

Será que aprendemos alguma coisa?

Já faz tempo que sou ecochata, não mato bichos, cato lixo nas ruas, reformo móveis, compro em brechós. Faço muito pouco. Gostaria de contribuir mais.

Eduquei 3 filhos com esse pensamento minimalista, valorizar o simples. Eles me acham desapegada demais.

Queria ter mais crenças, admiro as pessoas que têm. Mas não está em mim.

Sempre fui assim, desde os 11 anos, onde descobri a morte.

Minha reza é minha atitude.

Meus mantras vão do Funk ao canto de Umbanda.

Acendo velas; acho-as lindas.

Acendo incensos; adoro o perfume.

Cultuo o som das águas do mar e dos rios, o canto dos pássaros, a voz dos animais.

Sigo a minha intuição, adoro fazer minha comida, arrumar uma mesa com capricho. Ouço todo tipo de música. Dou bom dia a todos que passam por mim. Falo com todos sem conhecer, sigo os meus passos hoje, que ainda posso seguir!

Feliz Dia Novo!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Mudar é um coringa. O da carta, não o do cinema.

Mudar é, ao mesmo tempo, assustador e empolgante, um peso e um alívio, uma dor e um prazer… Mudar pode ser ruim quando as coisas estão boas, mas é a melhor saída quando as coisas estão ruins.

Nossa sociedade está sempre em movimento e sempre em busca de algo melhor, ainda que se torne temporariamente pior nesse processo. E nossa sociedade começou a mudar, algum tempo atrás. Uma leve melhora que provocou os egos mais conservadores que, na ânsia de proteger sua “zona de conforto”, lutaram contra essa melhora, o que fez de todos nós um pouco piores.

Mas isso é bom! Porque só quando nos sentimos desconfortáveis ou ameaçados é que resolvemos nos mexer. E nós crescemos somente quando existe um obstáculo à nossa frente. A piora é só o efeito colateral dos primeiros passos para a melhora.

Eu gosto de mudanças. De todas as mudanças! As que trazem dor e as que trazem prazer. Sim, ambas! A mudança, para mim, remete a desconforto, como para todos, mas desse desconforto surgem a excitação das novas informações e, com elas, novas possibilidades. Nossa sociedade, nossa cultura, principalmente nossos valores estão muito doentes e a cura só vem com a mudança.

Nestas eleições, eu busquei muitas mudanças e torci para que elas fossem as mais radicais possíveis. Agi até onde pude, mas fui limitado a dois míseros votos. Queria ver a maior diversidade possível nas casas executivas e legislativas deste imenso País, mas, com coerência e conhecimento, só consegui apoiar duas mulheres: uma para a Prefeitura e outra para a Câmara dos Vereadores.

Ao final, minha cidade querida terá 3 mulheres e 2 transgêneros* no seu conselho legislativo. Satisfação! No executivo, contudo, as opções sobreviventes são mais do enferrujado e hipócrita mesmo. Frustração.

Eu entendo que o momento é das mulheres e precisamos delas. Elas estão melhor preparadas para o cenário atual, pois elas não têm os vícios do poder patriarcal, têm a sensibilidade de quem é orientada para a congruência, para a união, e elas têm a virtude de dar voz a todos, coisa que anda em falta na cultura tupiniquim dos últimos tempos. O momento é também de quem não se vê lá, nem cá, ou, estando lá, sabe que seu lugar é aqui e vice-versa. Ser LGBTQI+ é ser disruptivo em essência. E a ruptura com o sistema é a mudança que nós mais precisamos!

Estamos longe ainda da diversidade que eu considero ideal, mas os resultados desta eleição, ao menos em São Paulo, trazem um avanço sem a menor sombra de dúvidas!

Parabéns a quem chegou lá e a quem contribuiu para esse princípio de mudança! Aos que tentam conter essa mesma mudança, sugiro que olhem para os dois lados, antes de atravessar a rua.

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* Fico, aqui, imaginando como cada um leu o número “2”.

REFERÊNCIAS:

RODRIGUES, Artur. Trans na política são resposta ao bolsonarismo, diz Erika Hilton, 6ª vereadora mais votada em SP. São Paulo: Folha de São Paulo, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

UOL Eleições 2020 – Apurações. São Paulo: UOL, 16 nov. 2020. Disponível em: . Acesso em: 17 nov. 2020.

Cássio C. Nogueira – Belo Urbano, psicanalista, coaching, marqueteiro, curioso, maluco com CRP, apaixonado pela vida e na potência máxima, sempre!

-Mas é pavê ou pacomê? – Imagine aquele tio das festas de Natal podendo marcar presença em todos os momentos de seu sagrado confinamento social.

Entre grupos de família ou de amigos, de pais da escola, do condomínio, da academia e tantos outros, surge uma nova habilidade social nessa tortura do isolamento: Driblar o WhatsApp!

Começa com um “BOM DIA!” Seguido de uma imagem fofa, em seguida vem as piadas, “para alegrar o dia”, geralmente vídeos longos, sotaque carregado, nordestinês tem a preferência, mas tem também gaúchês, mineirês, caipirês, interiorês de São Paulo, qualquer um que instigue o que tem de melhor nos preconceitos. Tem piada machista, misógina, política e,
tantos mais. O que elas têm em comum? Essas piadas nunca alegram o dia. E mulher gostosa que conta piada machista então? E o tiozão completa, “mas até elas pensam assim”. Você:

-Tio, não é que elas pensem, elas estão lendo um texto para o deleite de véio babão.

Na sequência, vem a opinião de cada um do grupo, tios, primos, cunhados, sobrinhos e agregados, cada um com sua opinião e, do nada, é claro, estamos falando de política. Creio que a frase inicial é algo como:

-Então, o que vocês preferem é ver mulher feia, né? E segue:

-Feia é a mulher do Macron, por isso ele está contra o Brasil do Mito, que tem mulher bonita.

Quando você diz feia ou bonita, só para eu me encaixar na conversa, é para olhar, comer ou ter uma conversa produtiva?

-Mas você é esquerdista mesmo, não?

-Demorou para chegar nessa conclusão?

A discussão já tem conversa paralela, definição de esquerda, feminismo, feio e bonito, entra rachadinha, 89 mil e stf na feed. Entre fake news e boatos, com seus respectivos desmentidos, alguém lembra que estamos em 2020, que ano! Tomara que acabe logo. Não adianta nada dizer que o ano pode mudar, mas que, sem vacina, continuaremos em isolamento.

-Você tomaria a vacina chinesa?

-Talvez, mesmo porque gosto do nome sinovac, lembra o meu (hehehe). Mas eu não tomaria a russa, que não foi testada a ponto de se confiar nela.

-Por que não, você não é comunista?

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Outra discussão está se definindo no horizonte, mas, antes que ela comece, aviso que preciso levar o cachorro para passear. Não tenho cachorro, mas preciso caminhar. Visto minha máscara e aproveito o sol da manhã. Logo, na esquina, escuto a voz de uma criança, na varanda de um prédio:

-Vai para casa sua arrombada.

E é por isso que eu fico com a pureza e a inocência das crianças.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.