Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

“… Sei que sou uma pessoa bem humorada, que vejo coisas boas no mundo e nas pessoas, mas fico extremamente triste com as brigas e ofensas deles. Não sei porque é assim. Não sei o que fazer de diferente. Se tem algo que consegue me colocar para baixo é isso, essas situações. Me tira a força. Me tira a paz. Faz meu copro doer. Rouba minha energia produtiva e criativa e me leva para um estado de telespectador sem iniciativa. Se tem de fato algo que nos dias de hoje eu classifico como algo que me deixa em profunda tristeza é essa falta de amorosidade…”

14 de fevereiro – Gisa Luiza – 48 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

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Na semana passada fui ao banco. Estava cheio, eu sentada na espera para ser atendida,quando começou uma gritaria.

Todos se entreolharam, mas só identificamos de onde vinha quando um rapaz com seus 20 e poucos anos se aproximou para sentar nas cadeiras e a guarda do banco veio logo em seguida. Ambos estavam discutindo. Berravam alto um com o outro, três segundos de silêncio e lá começava um de novo a reclamar e o outro a retrucar.

Palavrões, ofensas desnecessárias a parentes, a idade, a verbalização de todos os preconceitos possíveis e a inteligência de cada um. Bobeiras e agressividades na ponta das línguas afiadas.

Lá estava eu, na linha de fogo dos dois, o rapaz se sentou um pouco atrás de mim e a guarda ficou na minha frente. Enquanto discutia  percebi que ela tinha uma arma na cintura e onde sua mão se aproximava, isso me chamou a atenção, como me chamou a atenção o descontrole de ambos.

Não estava aguentando presenciar aquilo e nada fazer, queria dizer: Parem com isso, parecem crianças brigando, vocês são adultos. Não disse. A guarda saiu e voltou com seu supervisor, ainda gritando e dizendo que seguiu o procedimento, que estava certa e o rapaz por sua vez, garantido que ela abusava do seu poder em travar a porta, pois é cliente antigo do banco e todos o conhecem.

Um intervalo maior que dois minutos na discussão e ai entro eu. Perguntei para o rapaz se ela tinha ofendido ele primeiro. Ele nervoso que estava, me disse o que tinha acontecido, sem responder a questão. Disse que foi depositar um dinheiro da empresa que trabalha e que o dinheiro estava na bolsa, que sempre faz isso e que todos os guardas o conhecem e que ela não abriu de propósito. Ele alegou que não podia deixar a bolsa onde ela pedia pois já foi assaltado e não queria correr o risco novamente.

Bom, lá vou eu me meter no assunto. Sintomas misturados, meio de mãe, meio de movimento gentileza sim, meio de quero um mundo melhor, meio de chega de não fazer nada, enfim, disse para o rapaz, com toda a calma do mundo, que eu entendia o nervoso dele, mas que ele deveria respirar fundo e tentar manter o controle e resolver a situação de outra forma, porque entrou em ofensas pessoais que nada tinham haver com o assunto e que quando isso ocorre ele perde a razão também. Outra moça que estava ao lado, entrou na conversa e me apoiou no que dizia, inclusive dizendo que ele poderia até ser processado. Eu ainda disse que ele deveria explicar o caso para o gerente e pedir para resolver o assunto de outra forma, visto que ele sempre tem que fazer esses depósitos. Ele nos ouviu  bem.

Lá fui eu para o caixa ser atendida. Perguntei se a guarda era nova na profissão. O caixa me disse que não, mas que era nova no banco. Achei a guarda totalmente sem autocontrole, afinal ela é uma profissional e usa uma arma. Uma pessoa sem controle que usa uma arma é algo assustador. Um perigo.

Não conformada ainda, quando sai do caixa, lá vou eu de novo me dirigir ao moço. Peço licença para dar mais um conselho e digo: Tomo a liberdade de te dar mais um conselho, com a melhor das intenções. Faça as pazes com a guarda, você se sentirá muito melhor e isso nunca mais ocorrerá. Ele me olhou com uma cara de não sei o que, surpreso, acho que essa é a melhor definição para a expressão dele, não disse nem que sim nem que não, mas pela sua expressão pensou a respeito, ou pensou na maluca a sua frente que dava esse conselho. As pessoas a sua volta também me olhavam, em um misto de curiosidade e surpresos também. Desejei ainda que o resto da tarde dele fosse ótima e fui embora.

Fui embora com a sensação de ter feito o que tinha que fazer, fui embora em paz por não ter sido omissa com algo que vi. Fui embora sabendo que poderia levar um presta atenção e até também ser ofendida, mas na hora, confesso que nem pensei nisso. Fiz o que meu coração mandava.

Minha conclusão é que quando estamos fora de um conflito conseguimos enxergar com uma perfeita clareza certas situações e com essa isenção de sentimentos conseguimos agir da melhor forma e em paz. No meio do furação fica difícil achar a solução, mas se estamos de fora e vemos o furação, podemos sim e devemos fazer alguma coisa.

Penso ainda, que a vida pode ser mais leve e que esses contratempos não merecem que a pressão sanguínea seja aumentada, que as pessoas infartem, há problemas mais reais e que todos teremos que enfrentar, esses de fato, não são problemas e não devem jamais nos roubar a paz. Ainda penso que os guardas e todos os profissionais que estão armados por ai, merecem treinamentos constantes em vários aspectos. Pessoas armadas sem controle são um perigo. Os empregadores não deveriam sucatear tanto esses profissionais.

Por menos problemas desnecessários e que sempre alguém tenha que mantenha a calma, inclusive comigo para me ajudar a sair do meio do furação, se por acaso em algum momento eu for parar por lá.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de todas os contos e poesias. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência  Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos.