Não me recordo há quantos anos, e contá-los seria só um detalhe, quando fui pra rua atrás de Blocos de Carnaval.

Os grandes não me interessavam muito porque sentia fobia – pequena que sou, mal via o chão.

Procurava a Agenda Carioca e também o “disse me disse” a respeito de um bloquinho de esquina.

Fazia meu roteiro. Adorava ver a criatividade do povo, mas a minha não ia além de um short velho, uma mini camiseta, tênis velho e uma rosa no cabelo. Pochete também (rs). Totalmente ninguém na multidão!

Rio de Janeiro, fevereiro, sempre mais de 35 graus, dias de sol. Sábado à tardinha, concentração do Cacique de Ramos, o mais antigo bloco que mantém a tradição de desfilar entre cordas, com a ala da Velha Guarda e apenas uma marchinha. Saí às 7 da noite – se não tem a camisa do bloco e está fora das cordas, siga ao lado, farra igual, batucada, cantoria e pé no asfalto… Lá vai o bloco! Uma vez sentada no meio-fio com uma latinha de cerveja na mão, um vendedor perguntou se eu estava bem. Meus cabelos brancos denunciavam mais uma coroa na avenida. – Estou ótima!

Domingo, 8 da manhã, e o sagrado Boi Tá Tá na Praça XV, famosa praça no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Bloco parado com toques políticos, artistas engajados em causas sociais, músicos famosos. Uma mistura perfeita! Marchinhas antigas e novas, sambas, rock, frevo, de tudo um pouco. Nesse bloco, já abandonei namorado velho para ver Teresa Cristina na beira do palco, no meio da muvuca. Acho que ele ainda está me procurando. Ali também já beijei namoradinho de escola que não via há anos. Sumiu também.

Agora é lei, e se é multado caso faça xixi na rua. Mas sou do tempo em que não existiam banheiros químicos… Xixi atrás dos carros, muitos!

O roteiro mudava conforme a disposição, acompanhar o tradicional Escravos da Mauá pelas ruas do Centro da cidade, esse com samba-enredo que se cantava com papelzinho na mão. Gosto pouco!

Partindo Zona Sul, o hilário: “Largo do Machado, mas não largo do copo!” Bloco pequeno que dá a volta em duas ruas e volta para o Largo. Ali se vai atrás de uma bandinha, cujos integrantes se somarmos as idades dá uns 1000 anos. Dos prédios, as pessoas cantam e acenam: momento sambódromo! Só diversão!

Suor, fome indo embora num pastel de queijo, cachorro-quente sem salsicha e sucos duvidosos. Não existe cansaço, não dá pra ser politicamente correto, é carnaval! São dias pra se esquecer e vestir vários personagens.

Gosto de ir sozinha, não sei andar em fila com amigos e filhos. Gosto realmente de ser ninguém. Dançar com estranhos, rir das performances. Me dar o direito de sentar no chão, lavar o rosto com água mineral, cantar alto e desafinado e ir “carnavivendo”!

Atravessar a Baía de Guanabara no bloco da Barca, que vai de uma cidade a outra flutuando e batucando.

A cada ano o Rio de Janeiro se reinventa na criatividade, nos nomes dos blocos.

Agora muitos tomaram grandes proporções que já não me agradam mais. Fico de olho nos batuques de esquina antes que cresçam. Os ouvidos sempre atentos a qualquer batucada e o corpo vai seguindo com faro de perdigueiro até encontrar sua caça.

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Imagine que tenho cabelos brancos desde os 28 anos. O Léo tinha três anos quando fez o alerta – deitei minha cabeça no seu colo miúdo num final de tarde e ele, ingenuamente, declarou que havia algumas linhas brancas misturadas aos meus cabelos.
Desde então, muitas cores e disfarces para afastar um medo ridículo de parecer velha. Ridículo aos 28, numa crescente escala de tempo.
Com os anos, fui me sentindo escrava das tinturas. Quando eu não queria ou não podia pintar o cabelo, eu me sentia obrigada a fazê-lo e isso me incomodava. Eu fiz inúmeras tentativas para driblar a aparência: luzes, reflexos, cortes, cores… Uma estrada longa mesmo. O meu desejo de liberdade era freado pela aprovação (no caso reprovação) dos outros. Tem ideia de como isso dói?
“SER, PARECER, QUERER SER COMO UM CAMALEÃO.”
Não é saudável.
E o meu discurso de autenticidade? E o meu desejo de liberdade? E minha relação com o tempo?
Foram anos de sofrimento e reflexão sobre o sentido desse embranquecimento dos cabelos.
Ah! Tem quem curta colorir, quem não se incomode com as frequentes idas ao salão… E tudo bem. Não estou aqui para criticar as escolhas alheias. Aliás, nunca faço isso.  
Mas, eu fico pensando o que define o padrão (belo) antinatural dos cabelos? Pior: por que homens grisalhos são charmosos e mulheres feias? Se tem explicação, não é lógica.
Não me enquadro!
Para mim, particularmente, o envelhecimento traz luz e maturidade. Traz uma tranquilidade com minha imagem que talvez eu não tenha tido em nenhuma outra fase da vida, nem mesmo na plenitude das gravidezes. Eu posso me assumir assim, do jeitinho que estou!
O fato notório e irrevogável (até quando eu quiser) é que não pinto mais meus cabelos (taokey?) Eles estão curtíssimos e quase totalmente brancos, quase naturais porque ainda tenho um restinho de luzes (ou descolorante, como queira). Foi minha tacada de mestre!
Tenho precisamente 48 anos 8 meses 6 dias e algumas horas. Portanto, “nova ou velha” são adjetivos bastante relativos. Se ao me olhar, você me acha jovem, lamento que meus cabelos lhe desapontem – eu vivo isso! Mas, se ao me olhar você percebe o tempo passando, não se incomode, esses cabelos brancos estão em minha cabeça, somente nela.
Com isso, quero dizer que essa decisão é íntima. Se lhe interessa, me faz bem sentir-me livre, apesar dos olhares indiscretos, das opiniões, e tudo mais. “DEIXE QUE DIGAM, QUE PENSEM, QUE FALEM…”
Eu não tenho mais o medo de parecer velha. Tenho outros medos, mais desconhecidos, menos evidentes, mais limitantes… Eu vejo necessidade de dizer isto porque de modo muito singelo entendo que estamos vivendo um período de mudanças profundas, em que as atitudes precisam ser marcadas e o respeito ressaltado.
E respeitar é a melhor forma de conviver!

Dany Cais – Bela Urbana, fonoaudióloga por formação, comunicóloga por vocação e gentóloga por paixão. Colecionadora de histórias, experimenta a vida cultivando hábitos simples, flores e amigos.