Revertemos…singelas apostas.

Crosta de ferrugem que molha a roseira. Mel.

Um contorno de água quando tiramos os sapatos…

e  fico com os dedos em algum desenho, laços.

Revejo o cansaço, o pão no forno, o que temos.

Tiro toda a roupa…até a pele. Vestido de aço. Sou.

o fogo entre as mordaças, as escolhas, cada uma delas.

Vejo no espelho o que mora em meu peito. Beija.

Me aquece os espaços. Não há liga sem as palavras

e um silêncio que muda.

Então me caça…me afoga em risos, em decorrente.

Me prende na lava dos amaldiçoados e quentes.

Pois se reverto eu me despedaço…

Lambendo sempre os copos de requeijão,

quebrando as taças.

Vem…Me posta…me basta.

Siomara Carlson – Bela urbana. Arte Educadora e Assistente Social. Pós-graduada em Arteterapia e Políticas Públicas. Ama cachorros, poesia e chocolate. @poesia.de.si

Como você é linda!
Foi assim que o relacionamento começou.
Já se passaram meses, e como ele é carinhoso!
Mig estava nas nuvens. Que homem incrível havia encontrado. Fiel, trabalhador, um eterno
romântico, sempre a elogiando, presenteando com chocolates e buquês de rosas vermelhas.
“A verdade é que ele a amava. Era intenso.”
Não demorou para as promessas de casamento começarem a lhe cobrir de esperanças, afinal,
Mig realizaria o sonho de constituir uma linda família, pois filhos também já tinham sido
cogitados.
Combinaram de sair, e Mig comprou um belo vestido, arrumando-se toda para agradar seu
amado. Pena ele não ter gostado tanto assim da sua produção, pedindo-lhe com todo carinho
que colocasse algo mais apropriado. “Que mal faria ela trocar sua roupa?” Jamais iria
contrariar seu agora quase noivo com uma bobagem dessa.
O tempo passou, e como ele se recusava a usar métodos contraceptivos (Mig entendia as
razões dele), não custou para que o primeiro filho chegasse.
“O casamento podia esperar”, disse ele.
Foram morar juntos.
Uma pena ele ser tão ocupado! Chegava todos os dias tarde, cansado sempre, não cuidava do
bebê, nem tampouco da casa.
Mig se desdobrava entre os afazares, o trabalho e a faculdade à noite, quando contava com a
ajuda de sua mãe e algumas amigas.
Mas essa situação ficou insustentável e, segundo ele, a faculdade podia esperar. Mig viu que
ele tinha razão. Trancou sua matrícula.
Outro ponto foi manter sua mãe e as amigas mais distantes, pois “viviam dando palpites e eles
acabavam sempre discutindo por isso”. Mig ficou triste, mas entendia as razões dele.
Estranho que ele andava nervoso, mas Mig sabia que era por conta do cansaço.
Passados alguns dias, todo carinhoso, sugeriu então que Mig largasse o emprego, pois assim
teria mais tempo e condições de cuidar dele e do bebê. Ela entendeu que ele estava fazendo
isso para o bem da família. E assim, pediu demissão.
Mas parecia que nada o agradava.
Até que um dia, sem mais nem menos, deu-lhe um tapa na cara, alegando que a comida não
estava quente. Ela chorou muito, mas não quis brigar.
Na manhã seguinte, ele pediu desculpas, chorou, implorou para que ela esquecesse aquele
triste momento. “Ele a amava e não faria de novo”. Claro que ela o perdoou.
Os episódios passaram a ser constantes… Descaso, humilhação, cobranças absurdas e muita
agressão física.

O pedido de perdão, com lágrimas e lamentos, tornou-se recorrente.
Mig não estava mais dando conta. Mas não tinha coragem nem força para tomar uma atitude,
inclusive porque não sabia o que fazer.
Mas o tempo a fez perceber que precisava terminar com ele, pois temia por seu filho também.
Foi aí que a tragédia aconteceu.
Por conta de não aceitar o fim do relacionamento, ele planejou o pior.
Esperou Mig dormir, jogou álcool sobre ela e ateou fogo.
Ela acordou em chamas. Com seus gritos de dor, uma vizinha conseguiu arrombar a porta e
socorrê-la.
Ele havia fugido para sempre.
Mig teve 80% do corpo queimado, seu rosto desfigurado e marcas psicológicas para sempre.
Precisou lutar pela vida.
Sobreviveu com garra! Hoje luta pela causa, para ajudar outras mulheres a não passarem pelo
que passou.


*Dados do DeltaFolha afirmam que “o Brasil registra 1 caso de agressão à mulher a cada 4
minutos.”
*Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “7 em cada 10 mulheres no planeta foram
ou serão violentadas em algum momento da vida”.
*Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, “a quantidade de
denúncias de violência contra as mulheres recebidas no canal 180 cresceu quase 40%
comparando o mês de abril de 2020 e 2019”. (saude.abril.com.br)

Disque 180. Denuncie. Vá até a Delegacia da Mulher (ou delegacia mais próxima) e preste
queixa.
Disque 190 – Polícia Militar para atuação emergencial.


Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

E se me cansar do reacionário?
Cansar do somelie de esquerda?
Cansar do santo religioso?
Cansar do ateu convicto?
Que que tem?

E se me cansar do ódio?
Cansar do que fala e não faz?
Cansar do que faz errado e ri?
Cansar do que ri de tudo?
Que que tem?

Cansar do que diz que é?
Do falso amigo?
Do falso parente?
Do falso profeta?
Que que há?

Deixa eu me cansar!
Deixa eu viver!
Viver a loucura do óbvio,
O incerto, o correto,
O indecoroso respeito,
O impiedoso silêncio,
O afrontozo pensar,
O proibido amar!
Que que tem?
Que que há?

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Meu inverno é a sua ausência.

Careço do seu sol.

Nossos beijos fluem que nem rio onde as águas se misturam.

Meu abraço de ventania se funde com os seus ares.

Nossos sonhos seguem aos pares.

O todo é feito de partes.

Meus desenhos são seus traços.

Minha cama, seus braços.

Repouso em você meu cansaço

E meu amor se reparte

Em pedaços de mim, em pedaços seus

Até que se despedace o amor

Em fragmentos de adeus…

Alda Nilma de Miranda – Bela Urbana, publicitária, autora da coleção infantil “Tem planta que virou bicho!” e mais 03 livros saindo do forno. Gosta de tudo que envolve tinta e papel: ler, desenhar e escrever, mas o que gosta mesmo é de inventar motivos para reunir gente querida. Afinal, tem coisa melhor que usar o tempo para estar com os amigos?

foto: Adriana Chebabi