Eu gostaria de começar este texto com uma pergunta, mas como a gente ainda não se conhece, considero que essa não é a melhor maneira para começar este texto. Melhor eu me apresentar primeiro: Olá! Eu sou a Geovana Pavanelli, mãe do Vicente, de três anos e meio, esposa do Daniel, Relações Públicas por formação (e paixão) e atualmente atuo como Gerente de Pessoas de uma empresa de tecnologia. Muito Prazer!

Agora que você me conhece um pouco vou direto para a pergunta: O que você estava fazendo em 25 de fevereiro de 2020?

Se você não estava em algum bloquinho (ou qualquer evento em grupo) por aí, curtindo a terça-feira de carnaval, talvez esteja, assim como eu, arrependida por não aproveitar a última oportunidade que tivemos de aglomerar sem medo. Parece que foi ontem, mas há quase um ano, em 26 de fevereiro, estávamos recebendo a notícia do primeiro caso de Coronavírus no Brasil.

E agora eu te convido a uma reflexão… Além do kit básico (distanciamento, máscaras e álcool em gel), o que mais mudou na sua vida de lá para cá? Nós tivemos que nos adaptar a um mundo novo. Profissionalmente falando, as mudanças foram ainda mais intensas, e o trabalho remoto passou a fazer parte (se é que ainda não fazia, como é o meu caso) da realidade de muita gente.

Atuando na área de pessoas, posso garantir que a cultura do trabalho remoto (que é diferente do home office) é o futuro das organizações, principalmente na área de tecnologia. Mesmo muita gente voltando ao trabalho presencial com a flexibilização das medidas de proteção da pandemia, mais de 86% das pessoas preferiram continuar no modelo remoto e 52%  mudariam de trabalho se recebessem uma oferta full remote (pesquisa da Robert Half realizada em 2020). As empresas terão que aceitar esse “novo” modelo de trabalho, principalmente porque, sem ele, em um futuro próximo poderão perder talentos e desmotivar equipes.  

Nesse cenário de pandemia muito se ouviu falar de como as pessoas precisaram se adaptar ao trabalho remoto, mas pouco sobre como as empresas precisam se posicionar e orientar a sua liderança sobre esse novo modelo. Tornar uma empresa remota ou híbrida não é fácil e muito menos automático, exige maturidade do empregador, confiança no time e preparação da liderança.

Se aquele modelo de “chefe” que faz microgerenciamento já estava ultrapassado, e as empresas que viam os seus colaboradores apenas como recursos já estão ficando cada vez menos atraentes, no modelo de trabalho remoto esses posicionamentos simplesmente não funcionam. É responsabilidade das empresas entender esse novo cenário, preparar os seus times para o trabalho remoto ou híbrido, motivar e alinhar todos os colaboradores na busca do mesmo propósito e, principalmente, investir na gestão do trabalho remoto, afinal, ele é completamente diferente do presencial.

E me conta, como foi essa experiência do trabalho remoto para você? A sua empresa estava preparada?

Eu posso responder pela empresa em que eu trabalho: por lá o trabalho remoto foi um processo normal e até que relativamente simples, até porque já fazia parte da nossa cultura, mas vi muitos absurdos sendo relatados por colegas que atuam nos mais diversos segmentos, tais como: empresas que não respeitam horários e acreditam que o trabalho remoto é sinônimo de exaustão obrigatória; que cobram por ambientes 100% silenciosos, quando na verdade é impossível controlar a reforma do vizinho; que não respeitam que você vive em uma casa com outras pessoas (por mais que você zele para evitar interrupções) e dão advertência quando seu filho aparece para pedir para fazer cocô; ou que obrigam mulheres grávidas a trabalhar em ambientes fechados, mesmo quando a atividade é totalmente compatível com a atuação remota.

Há um longo caminho pela frente para que as empresas estejam preparadas para o trabalho remoto ou híbrido, mas a meu ver, elas terão que se adaptar, pelo amor ou pela dor, esse será o futuro.

Já como mãe de uma criança de três anos e meio, nada foi mais desafiador do que exercer o lado maternal e profissional ao mesmo tempo e no mesmo ambiente. É maravilhoso poder estar perto do meu filho por mais tempo; no modelo presencial era impossível almoçar com ele todos os dias. Mas também é doloroso vê-lo mais tempo na televisão do que eu gostaria (e do que é indicado), ouvir ele pedindo minha atenção, quando é impossível parar uma tarefa.

É uma balança difícil de equilibrar: culpa materna x profissionalismo. Eu sigo tentando fazer o meu melhor nos dois lados, mas confesso que dificilmente o dia termina com a balança equilibrada e, na maioria das vezes, um dos lados pesa mais. Como profissional também há um longo caminho pela frente, e eu também tenho que me adaptar (pelo amor ou pela dor), afinal, esse é o meu futuro.

Geovana Capovilla Pavanelli – Bela Urbana. Relações Públicas, especialista em comunicação e recentemente apaixonada pelo universo de gestão de pessoas. Mãe do Vicente, de três anos, que é a minha razão de viver. Sou uma pessoa intensa que ama trabalhar, ama o filho, ama a família, ama os amigos e, principalmente, amo a mim mesma.  

O carnaval em Portugal começou como um período para aproveitar tudo, antes do início da Quaresma, momento de jejum e sacrifícios. Antigamente, a Igreja exercia enorme poder sobre as pessoas e, no período da Quaresma, era proibido música, dança, etc. Logo, foi a própria Igreja Católica que serviu de estímulo para a criação do carnaval em Portugal.

Na época do renascimento, iniciou-se a fase das máscaras e bailes.

Hoje em dia, as festividades carnavalescas são conhecidas por “entrudo”, ou seja, entrada. Preparação para a entrada da Quaresma.

Nunca houve plumas ou mulheres sem roupa no carnaval antigo. Muito pelo contrário, nas aldeias, as pessoas trocavam as roupas. Por exemplo, homens com roupas de mulher e vice-versa.

As ruas ficavam enfeitadas com luzes como no período do Natal.

Em algumas localidades, não passava de brincadeiras e gozações. Em outras freguesias, chegavam a ter carros enfeitados e muita alegria.

Em algumas cidades, há o desfile dos cabeçudos e gigantones. Em Estarreja, temos escolas de samba. Também há freguesias que optam pelo carnaval luso-brasileiro, com participação de brasileiros e desfiles inspirados nos sambódromos. Em Torres Vedras, a farra fica por conta das Matrafonas, homens vestidos de mulher e carros alegóricos. Em vários lugares há sátira à política. Varia muito de um lugar para o outro.

No entanto, não se parece muito com o carnaval brasileiro.

Nas escolas, apenas as crianças mais novas podem usar fantasias. Aos estudantes maiores cabe a tarefa de observar e recordar. Muitas pessoas aproveitam a época para viajar e descansar. Há uma comida típica muito forte apreciada pelos portugueses no dia do carnaval (terça-feira). Trata-se de um cozido com muitas carnes, legumes e verduras.

Apesar de ser diferente, acho que vale a pena conhecer e conferir a diversidade que existe em cada canto do país! Há um calendário próprio com a programação de cada região.

Espero por vocês em carnavais futuros.

Eliane Pacheco Engler – Bela Urbana, luso brasileira, vive em Portugal a quase 7 anos. Fonoaudióloga de formação de coração, mas atualmente o seu maior amor é pela família. Dedicação quase que exclusiva. Tem se aventurado pelo YouTube e pela área imobiliária.

Você que acorda cedo pra pular Carnaval. Que vai tarde adentro, noite afora. Que esperou ansioso para camelar ao sol e ao som de batuques. Não vai poder entrar na folia este ano, porém não passará de bar em bar pisando em urina fresca, não vai levar passada de mão gratuita e terá seu dinheiro guardado na pochete no fim do dia.

Brincadeiras à parte, o carnaval foi cancelado! A pandemia não!

Ainda na espera dos blocos vacinados muita gente vai ter que reinventar a passagem sem o batuque horas a fio.

O que faria no carnaval será feito em casa e sem o agravante de ser assaltado ou ferido. Brincadeiras à parte, este texto satírico é só pra deixar mais ameno o fato de que o brasileiro, folião por definição, terá que brincar de pijama mesmo. Do Oiapoque ao Chuí.

Mas não se lamente, ouça um álbum novo, ou velho, faça uma playlist, entretenha-se num podcast, leia um livro engavetado, veja um clássico.

Seu carna vai ser diferente porque todos somos hoje. Não haverá festas, nem manchetes e fuzuê.

Seu amor sambista vai aguardar a vacina chegar.

Fantasia de coronga nem à vista. A gente não aguenta mais ver essa praga.

Não há festa. Nem manchetes dos títulos, alvoroço nas ruas.

Tô fria? Não. Realista.

Cozinhe seu prato preferido, sambe na sala até calejar. O importante é que estaremos vivos para pular feito doido quando o mundo deixar a folia voltar.

E tá tudo bem! O samba é maior! E tá dentro da gente oriundo que só ele, guardado e protegido.

Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.

Em relação ao carnaval, nesse ano, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro passava por grandes mudanças, entre elas a inauguração do Sambódromo na Sapucaí. Já quanto à infância, eu com apenas 11 anos e meus primos com idades entre 6 e 14 anos, não estávamos interessados no principal acontecimento do carnaval do Rio de Janeiro, ou seja, que o samba deixaria de acontecer no asfalto de grandes avenidas e passaria a ter a sua própria casa.

Naquela época, a chegada do feriado do Carnaval era muito esperada pelas famílias que viviam no interior de São Paulo, principalmente pelas crianças. Um feriado prolongado nos dava a possibilidade de viajar e a torcida era para que pudéssemos sempre ir à praia. O que aconteceu por vários anos consecutivos…

Tínhamos um tio muito querido que adora viajar e sempre convidava a família toda… Digo tínhamos porque esse meu tio nos deixou ainda muito jovem, com apenas 35 anos de idade, vítima de um aneurisma cerebral.

Não quero falar de tristeza, porque meu tio era pura alegria, e falar desse ano, especificamente, me faz homenageá-lo ao lembrar de algumas situações engraçadas que vivenciamos na cidade de Itanhaém, município da Baixada Santista, e que ficaram marcadas para sempre.

A aventura começou já na descida ao litoral, pois como íamos em várias pessoas e, naquela época, os lugares para compras de alimentos eram escassos, tínhamos que levar muita comida para dar conta da fome do povo todo, e para ter espaço para outras coisas que levávamos, meu tio acoplava ao carro uma carretinha.

Saímos de casa de madrugada, e quando estávamos na Marginal Pinheiros, um dos pneus da carretinha se soltou e correu na estrada. Eram só crianças gritando e adultos correndo em direção ao local da parada do pneu. Graças a Deus, a pista estava tranquila (acredito que pelo fato de estar muito cedo) e nenhum acidente foi provocado.

Euforia total nos carros, começava ali o nosso carnaval… muitas risadas, gritos e correria para sairmos da pista o mais rápido possível.

Ao chegarmos na praia, outra situação atípica… Como era a primeira vez que meu tio tinha alugado aquela casa, estávamos acostumados a ir em outro imóvel, demoramos um pouco para encontrá-la. O lugar era distante e com poucas construções, o que deixava o local um pouco sombrio. Os adultos, imediatamente, começaram a comentar o quão difícil ia ser sair dali para ir ver o carnaval de rua, e as crianças mais velhas começaram a falar dos perigos da noite para os pequenos. Muitas risadas e choros.

Meu tio quis alugar uma casa maior para acomodar melhor a família toda, mas também queria nos fazer uma surpresa: na casa tinha piscina com escorregador, o que era uma novidade para todos e acabou causando muito contentamento, principalmente para as crianças, e os choros de minutos atrás se transformaram em muita alegria e euforia.

Durante os dias, as crianças ficavam divididas entre ir à praia ou ficar na piscina. E o carnaval de rua durante a noite? Ah, esta é outra história!

Vou contar aqui o que aconteceu em um dos dias, com duas situações engraçadíssimas…

A família toda foi assistir ao desfile de rua e, chegando lá, havia um público bastante animado. Pessoas desfilando em trajes engraçados e uma considerada plateia acompanhando, dançando, cantando… até que em certo momento, um grupo que estava desfilando começou a jogar no público algumas coisas, o que me lembro eram casca de banana, tomate, farinha, fubá, ovos, entre outros. Minha família toda aglomerada, isso em 1984, certo? Não sabia o que fazer.

Os adultos queriam correr, mas tinham as crianças que para enxergar melhor estavam um pouco distanciadas. Como era carnaval, o público entrou na brincadeira e não era mais possível saber de onde vinham as coisas que estavam sendo atiradas. 

O carnaval acabou cedo para a minha família, tivemos que voltar para casa porque muitos foram atingidos naquela brincadeira, até ovos estavam espalhados pelas roupas. Chegando em casa, foi aquela correria para o banheiro, os atingidos queriam se livrar das roupas e tomar banho.

Lembro que uma das minhas tias teve a ideia de ir usar o banheiro de fora da casa, que era um pouco afastado, e algumas crianças, inclusive eu, resolvemos ir com ela. Afinal, aquele seria um local mais tranquilo, uma vez que a casa estava bastante agitada.

Minha tia entrou correndo porque estava com vontade de fazer “xixi”, mas ela mal entrou e começou a gritar desesperadamente. Nós, crianças, não sabíamos o que fazer e fomos chamar os adultos da casa. Depois de algum tempo, minha tia abriu a porta e mostrou a perereca que se encontrava em um canto do banheiro, tão assustada quanto ela. De acordo com minha tia, assim que ela abaixou o short e foi sentar, viu a perereca… O que aconteceu não preciso contar. Que noite!

Os dias transcorreram e a pauta das conversas era só a perereca no vaso, todos se esqueceram do que aconteceu no desfile, e nem de volta às nossas casas a perereca nos deixou.

São muitas lembranças do carnaval de 1984! Minha família se lembra até hoje dessa viagem, enquanto, certamente, a comunidade da Portela deve se lembrar do título do Carnaval do Rio de Janeiro (conquistado na primeira noite dos desfiles), assim como a escola verde e rosa (Mangueira) também deve trazer nas lembranças a conquista do título na segunda noite e a premiação da campeã das campeãs.

Enfim, enquanto minha família foi surpreendida com arremessos de coisas pelos foliões em plena avenida, os mangueirenses surpreenderam ao dar meia-volta no final da passarela e cruzar a Sapucaí “na contramão”, encantando os presentes.

Pensando neste ano, 2021, em que estaremos isolados, sem comemorações e viagens, vamos ficar em casa e contar histórias. Acredito que assim como eu e minha família, muitas pessoas da minha época, e que viviam no interior, devem ter muitas histórias engraçadas experienciadas no carnaval. Resgatar as memórias da infância é vivê-las um pouco no presente!

Experimente, a festa familiar pode ser muito animada!

Adriana Silva – Belas Urbana. Pedagoga de formação, apaixonada pelo poder transformador da educação e movida por desafios, propósitos e pessoas, há sete anos está no terceiro setor atuando em Programa de Primeira Infância.
Nunca pensou em escrever, mas trabalhou durante anos com crianças em processo de alfabetização e, talvez isso, tenha sido a inspiração para aceitar o convite e compartilhar uma história da sua infância
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Não me recordo há quantos anos, e contá-los seria só um detalhe, quando fui pra rua atrás de Blocos de Carnaval.

Os grandes não me interessavam muito porque sentia fobia – pequena que sou, mal via o chão.

Procurava a Agenda Carioca e também o “disse me disse” a respeito de um bloquinho de esquina.

Fazia meu roteiro. Adorava ver a criatividade do povo, mas a minha não ia além de um short velho, uma mini camiseta, tênis velho e uma rosa no cabelo. Pochete também (rs). Totalmente ninguém na multidão!

Rio de Janeiro, fevereiro, sempre mais de 35 graus, dias de sol. Sábado à tardinha, concentração do Cacique de Ramos, o mais antigo bloco que mantém a tradição de desfilar entre cordas, com a ala da Velha Guarda e apenas uma marchinha. Saí às 7 da noite – se não tem a camisa do bloco e está fora das cordas, siga ao lado, farra igual, batucada, cantoria e pé no asfalto… Lá vai o bloco! Uma vez sentada no meio-fio com uma latinha de cerveja na mão, um vendedor perguntou se eu estava bem. Meus cabelos brancos denunciavam mais uma coroa na avenida. – Estou ótima!

Domingo, 8 da manhã, e o sagrado Boi Tá Tá na Praça XV, famosa praça no Centro da cidade do Rio de Janeiro. Bloco parado com toques políticos, artistas engajados em causas sociais, músicos famosos. Uma mistura perfeita! Marchinhas antigas e novas, sambas, rock, frevo, de tudo um pouco. Nesse bloco, já abandonei namorado velho para ver Teresa Cristina na beira do palco, no meio da muvuca. Acho que ele ainda está me procurando. Ali também já beijei namoradinho de escola que não via há anos. Sumiu também.

Agora é lei, e se é multado caso faça xixi na rua. Mas sou do tempo em que não existiam banheiros químicos… Xixi atrás dos carros, muitos!

O roteiro mudava conforme a disposição, acompanhar o tradicional Escravos da Mauá pelas ruas do Centro da cidade, esse com samba-enredo que se cantava com papelzinho na mão. Gosto pouco!

Partindo Zona Sul, o hilário: “Largo do Machado, mas não largo do copo!” Bloco pequeno que dá a volta em duas ruas e volta para o Largo. Ali se vai atrás de uma bandinha, cujos integrantes se somarmos as idades dá uns 1000 anos. Dos prédios, as pessoas cantam e acenam: momento sambódromo! Só diversão!

Suor, fome indo embora num pastel de queijo, cachorro-quente sem salsicha e sucos duvidosos. Não existe cansaço, não dá pra ser politicamente correto, é carnaval! São dias pra se esquecer e vestir vários personagens.

Gosto de ir sozinha, não sei andar em fila com amigos e filhos. Gosto realmente de ser ninguém. Dançar com estranhos, rir das performances. Me dar o direito de sentar no chão, lavar o rosto com água mineral, cantar alto e desafinado e ir “carnavivendo”!

Atravessar a Baía de Guanabara no bloco da Barca, que vai de uma cidade a outra flutuando e batucando.

A cada ano o Rio de Janeiro se reinventa na criatividade, nos nomes dos blocos.

Agora muitos tomaram grandes proporções que já não me agradam mais. Fico de olho nos batuques de esquina antes que cresçam. Os ouvidos sempre atentos a qualquer batucada e o corpo vai seguindo com faro de perdigueiro até encontrar sua caça.

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Parece loucura mas já parou para pensar que a festa mais importante de fevereiro só é um reflexo do que acontece nos tantos outros dias do ano?

Todos os dias acordamos, nos espreguiçamos, meia volta no quarto, dente escovado e a máscara na cara que é para manter o humor escolhido para o dia. 

Ao longo do tempo troca-se as personagens e no descanso do lar é onde as fantasias perdem formas. 

Todos os anos a mesma rotina, as promessas quase que impossíveis desejadas no novo ano que se inicia e lá estamos nós aguardando ansiosamente pelos novos enredos, novas histórias.

Seria cômico se não fosse trágico a semelhança gritante com que a nossa vida se parece com um verdadeiro carnaval invertido e basta observar.

Todos os dias são dias de carnaval. 

Da alegoria ao passista, na pista a rainha de bateria dá um verdadeiro show. A máscara de riso esconde o choro de luta de quem sabe que não pode fraquejar. 

Aqui fora da avenida os fanfarrões não sabem brincar. O confete é bala e a púrpurina é dor.

Aqui fora da avenida todos os dias são  dias de carnaval, e nem de longe lembra a alegria das crianças.

Aqui é selvageria, carnaval na raça, só sobrevive quem dança conforme o dança. 

E por isso não dá para desafinar, é preciso ter samba no pé e gingado.

É preciso ter molejo e sacudir a poeira.

Na avenida da vida saber passar e chegar sem perder o ritmo.

Ir para avenida, desfilar, carnavalizar. Pois todos os dias são dias de carnaval.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Ah, fevereiro! O mês mais esperado do ano na áurea época da minha juventude! As cinco noites com bailes de Carnaval nos clubes sociais da minha cidade, no interior de São Paulo, são algumas das minhas melhores lembranças daqueles tempos.

Atualmente, depois de quase 20 anos morando na Dinamarca, já quase nem me lembro que fevereiro é mês de Carnaval. Primeiro, porque aqui não existe a tradição carnavalesca como no Brasil – a comemoração dos dinamarqueses, chamada Fastelavn, é só para crianças, e consiste basicamente em fantasiar-se e bater num barril de madeira até quebrá-lo para pegar as guloseimas escondidas dentro dele. Segundo, porque não há clima para Carnaval aqui em fevereiro, nem literal nem metaforicamente. Os dias são frios e escuros, não combinam com o Carnaval que conhecemos e apreciamos. E terceiro, neste ano de pandemia, Carnaval parece coisa de um passado muito distante.

Em tempos normais, pode-se, sim, participar de uma folia carnavalesca ao estilo brasileiro por essas latitudes, mas em outra época do ano. Existem organizações que promovem festas em algumas cidades da Dinamarca no mês de maio, quando o clima está mais apropriado. Trata-se de festivais que incluem música, dança, desfiles de escolas de samba e outras atividades. Participei várias vezes desse Carnaval fora de temporada em Copenhague para sentir-me um pouco mais perto de casa.

O que me parece mais interessante desses eventos é que geralmente são organizados por dinamarqueses que se identificam e abraçam esse aspecto da cultura brasileira, às vezes até com mais paixão que os próprios brasileiros.

O Carnaval celebrado no Brasil sempre foi muito promovido internacionalmente e, de fato, fascina muitos estrangeiros. É algo que quase qualquer pessoa no mundo pensa quando se fala do Brasil, além do futebol, é claro! Isso é muito bacana, mas eu gostaria que o Brasil se destacasse por outras capacidades também; que outras ideias viessem à mente das pessoas quando pensassem sobre o nosso país.

Em várias ocasiões, ouvi o comentário: Você é brasileira? Sabe sambar? Samba um pouquinho para a gente ver… Eu nunca fiquei ofendida com isso, porque achava legal que as pessoas tinham interesse pela nossa cultura. Mas hoje, pensando bem, acho que é muito pouco. O Brasil tem tanto mais para mostrar, mas ainda insiste em promover apenas uma pequena fração de suas muitas facetas.

É certo que crise política, escândalos de corrupção e outros problemas socioeconômicos que nos assolam há bastante tempo não favorecem a imagem do Brasil no exterior, mas acho que, mesmo assim, ainda temos muitas coisas boas de que nos orgulharmos.

A tradição carnavalesca, a música e os aspectos culturais do Brasil devem ser preservados e difundidos, mas precisamos mostrar para o mundo que podemos oferecer mais do que isso. Gostaria que o país do futebol e do Carnaval também fosse reconhecido por seus avanços científicos e tecnológicos, por seus valores democráticos, por sua criatividade, seu respeito à vida e ao meio ambiente e por encontrar soluções sustentáveis para o desenvolvimento do nosso país.

Como já dizia um velho samba-enredo da Mocidade: “Sonhar não custa nada…”

Miriam Moraes Bengtsson – Bela Urbana, formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCCAMP e possui mestrado em Comunicação e Inglês pela Universidade de Roskilde, na Dinamarca. Desde 92, atua nas áreas de mkt e comunicação. Natural de Garca, SP, vive atualmente em Copenhague, Dinamarca, com marido e dois filhos. Trabalha com comunicação digital e branding em empresa da área farmacêutica. Em seu tempo livre, gosta de praticar esportes, viajar e estar com família e amigos.

A grande maioria das pessoas espera e se prepara ansiosamente para a maior folia do Brasil, o carnaval.

Historicamente, a folia de carnaval acontece durante três dias que antecedem a quarta-feira de cinzas, dia que se dá início à quaresma e que simboliza a reflexão e mudança de vida. Carnaval vem do latim carnem levare – afastar-se da carne – mas como assim? Sabe aquela história que todo regime começa na segunda-feira e no fim de semana antes você come e faz tudo que pode? Então, carnaval é isso aí… aproveitar ao máximo os prazeres da carne.

Na magia do carnaval nos despimos da repressão e censura, das obrigações e responsabilidades do cotidiano para nos vestirmos de fantasias e máscaras, com uma falsa sensação de que “tudo é permitido”, vivendo intensamente a alegria, o prazer e a descontração, mas por baixo da máscara da folia aparecem outras máscaras, aquelas que vamos colocando desde a infância, que culturalmente é passado de geração em geração e nem percebemos – as máscaras do patriarcado, do machismo estrutural e privilégios masculinos. 

Sei que este ano, devido à Covid, o carnaval de rua foi adiado e nos clubes cancelado, assim como o ponto facultativo na grande maioria das cidades, mas por que este artigo então? Porque o povo brasileiro é festeiro, e é bem provável que o carnaval particular aconteça. E um fato é que no período de carnaval há o aumento do índice de assédio (que acontece o ano inteiro) e, por incrível que pareça, a grande parte se dá em lugares privados e não públicos, ou seja, nos lares e entre amigos e familiares.

E aí homens, quais comportamentos resultantes das máscaras que estamos tendo ou abafando e que afloram mais no carnaval?

Uma máscara comum é a do assédio e que muitos homens se justificam como paquera. Assédio é quando o espaço da mulher é invadido, a mulher é desrespeitada, o seu corpo é como objeto, a sua segurança é ameaçada e seus direitos violados. Isso é desamor! E paquera é onde o respeito acontece e o espaço da sedução é vivido pelos dois. Há um consentimento, um interesse das duas partes, há liberdade de escolha, e a entrega ao desfrute do amor e erotismo acontece.  

Quais outras máscaras utilizamos e que para nos autoafirmarmos (defesa da própria identidade) na nossa masculinidade, utilizamos da violência verbal, física, sexual e assim por diante? 

Nós homens, e como seres humanos, temos a condição básica de pertencimento a outro ser humano e de criarmos vínculos emocionais. Queremos amar e sermos amados!

Mas como viver isso? Nos autoconhecendo e nos desenvolvendo! E o primeiro passo é tomarmos a decisão de não mais fazer mal para as mulheres e qualquer outro ser humano e assumirmos a responsabilidade por absolutamente tudo, de como vivemos, e parando de procurar culpados.

O segundo passo é identificarmos as máscaras que utilizamos. Nos observar em nossos comportamentos e os impactos que causamos nos outros. O machismo estrutural acontece de muitas maneiras, mas tem a característica de depreciar, discriminar, ser preconceituoso, de dominar e de ser superior.

Quanto mais nos conhecemos, mais ampliamos a consciência e passamos a nos respeitar e respeitar o outro, e com o outro, desfrutamos o melhor do carnaval com a máscara da alegria, do prazer e descontração!

Viva o carnaval, viva a vida!

Wlamir Stervid ou Boy, para aqueles que o conhecem pelo apelido. Belo urbano, apaixonado pela sua família, por gente e natureza. Sua chácara é seu recanto. Devido ao seu processo de transformação, trabalha com desenvolvimento humano, é Coach Ontológico e idealizador do Homens de Propósito, um movimento entre homens para o autodesenvolvimento e transformação do masculino.

A indústria sexualiza o corpo da mulher desde que ele começa a se desenvolver. Talvez o carnaval seja um dos momentos em que isso mais fique visível para todo mundo ver, e que mesmo assim ainda existem muitas pessoas que não notam. Nós mulheres passamos nossa vida inteira tentando nos encaixar em um padrão de beleza que é cruel, desafiador e que na maioria das vezes não se molda aos nossos corpos. Nós estamos constantemente encarando o espelho e procurando por defeitos que nem ao menos existem.

Vivemos muitas vezes com pessoas que acreditam que o corpo de uma mulher diz mais sobre ela do que quem ela realmente é. Vivemos em um mundo onde uma mulher não consegue andar na rua com a roupa que quiser sem ser assediada, comentada ou observada. Vivemos em uma sociedade patriarcal e machista que nos ensina desde cedo a entrar nos moldes e nos portar “do jeito que deve ser”.

Mas o que o carnaval tem a ver com tudo isso? Bom, pode ser que muitas mulheres usem essa data para dar seu grito de liberdade e sair na avenida com a roupa que quiser, do jeito que quiser sem que ninguém ache nada sobre isso. Pode ser também que para muitas a sexualização dos seus corpos fique ainda pior no momento em que a sociedade julga o tipo de roupa usada ou o comportamento das mulheres que saem na avenida.

A verdade é que o problema está nas pessoas que se veem no direito de julgar e sexualizar os corpos femininos. Nas crianças que desde sempre se veem encurraladas por conta disso. Nas adolescentes que antes mesmo de entenderem o que o corpo significa já são taxadas como objeto. Nas adultas que lidam diariamente com a monstruosidade que é se espremer nos padrões, muitas vezes gerando transtornos e compulsões alimentares.

O problema está na nossa sociedade doente. Porque as mulheres só querem ser elas mesmas, se portar como quiserem, se vestir como der vontade e, mesmo assim, continuar sendo respeitadas!

Juliana Manfrinatti Bittar – Bela Urbana. Bióloga. Gestora empresarial em formação. Apaixonada por livros, se arrisca às vezes na escrita. Tem como um dos objetivos de vida conhecer todas as maiores e mais bonitas bibliotecas e livrarias do mundo.