Oito meses…levantei para ir ao banheiro e senti a bolsa rompendo. Gelei…Tinha receio que
algo acontecesse, ainda me recuperava de um câncer. Medo de te perder, mas ao mesmo
tempo uma certeza absurda de te encontrar, pois nos meus sonhos você já estava lá.

Avisei a médica e segui para o hospital. Quando entrei, as pernas bambearam, me colocaram
numa maca e vi muito sangue escorrer. Um enfermeiro gritou: “ ruptura de placenta, cirurgia
de emergência!” Olhou para mim e ordenou: “fique de lado, não se mexa, por nada”.
Falei com você: “logo eu vou te ver, meu anjo”.

A médica chegou e avisou que você precisaria nascer chorando, isso demonstraria que os
pulmões estariam preservados. Dentro do meu interior me comuniquei com você e pedi:
“Grita, filha!”E você nasceu gritando.

E a partir daquele momento iniciei minha jornada como mãe canguru, por quarenta dias na uti
neonatal.

Ficávamos em silêncio, junto às outras mães e seus bebês na mesma situação, por doze horas
seguidas, ao som de músicas tranquilas que o hospital disponibilizava para nos relaxar.

Cada manhã, bem cedo, todas as mães já estavam a espera para se higienizar e iniciar a
jornada, mas cada atraso em nos chamar era motivo de angústia…pois sempre que um bebê
prematuro morria, demoravam para permitir a entrada. Nos fitávamos apreensivas, e uma dor
horrível, de gelar os ossos, quando uma mãe era chamada em particular. Ao mesmo tempo,
um alívio no peito, quando não era o nosso nome.

E assim seguimos…Até aquela música tocar, a nossa música, certeza que era nossa!
“Eu não sei parar de te olhar, não vou parar de te olhar”( é isso aí, Seu Jorge).

Passei a cantar para você, todos os dias, até o instante em que te vi abrir os olhinhos pela
primeira vez, após 15 dias do seu nascimento. Nossa! Meu Deus, que emoção! Ver teus olhos
me fitando, me acalmando, me encantando.

Mais 25 dias de UTI, até o momento em que ouvi que podíamos ir para casa.

Ouvi isso no dia em que percebi que minhas forças tinham acabado, pois eu não suportava
mais dormir longe de você, queria dormir com você nos meus braços.

Íamos para casa…

Lembra o que eu te disse naquele dia?

“ Meu amor, nós vamos para casa. E essa história é nossa, uma história de duas mulheres
fortes e é uma honra estar ao teu lado”.

Siomara Carlson – Bela Urbana. Arte Educadora e Assistente Social. Pós-graduada em Arteterapia e Políticas Públicas. Ama cachorros, poesia e chocolate. @poesia.de.si

Para saber o que é paciência: Construa uma casa.
Para saber o que é amor incondicional: Tenha filhos.
Para saber sobre o tempo: Observe o seu envelhecimento.
Para um casamento duradouro: Potencialize sua aceitação e seu altruísmo.
Para resolver todos os problemas: O dia seguinte.
Para saber o que é dor e angústia? Basta perder quem amamos.
Para perdoar de verdade: Só ficando sem memória.
E se você quer sentir que é verdadeiramente amado e lindo? Conviva com as crianças.
Para não ter medo de nada: Sugiro a fé.
Para saber o que é saudade: ́Vislumbre a longa estrada que te separa dos seus amores.
Para alcançar a alegria: Curta o sonho que antecede a conquista porque na verdade é tudo uma ilusão passageira.

Viver é seguir um caminho sem volta a espreita do que virá e sabendo que misteriosamente haverá um fim.

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Bela Urbana, casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

Passei os últimos tempos, dito aqui como “últimos” propositadamente, dedicado tão somente às coisas. Prateleiras novas para grãos que sempre adio com delivery e autossabotagem, cafeteiras novas para aquele café que nem amo, quadros novos emoldurando antigas lembranças, e muitas mudanças embaladas pelo som do interfone. Andei assim, sem sair do lugar. Reparando o terraço para visitas que não chamo, em vez de reparar em mim e nas saudades que aqui residem comigo… Fui esse desvio todo. Alimentando o cachorro com ainda mais brinquedos e um amor culpado, recentemente invocado na terapia, sem que eu entendesse a urgência de também me alimentar, junto, de amor próprio um tanto esvaziado… Deixei me deixar de lado. Abastecendo os vazios pela casa na mira do lar que nem sei ainda qual é, e que talvez já até pudesse ser, meu, perfeito, se meus olhos se permitissem buscar contato com meus desejos tão negligenciados pelo hábito. Desconexão voluntária, acho. Das defesas que a gente arma sem nem perceber. Fato é que segui assim, fugindo dos confrontos com a dureza do espelho, enquanto recauchutava o que via pela frente de material, com a eterealidade suspensa nessa clara fuga suspeita. Hoje clara, digo. Vista. Deflagrada. Mas chega de fingir e fugir, é hora de realmente dar sentido às mudanças. De sentir as mudanças… Abandonar os “últimos” tempos, em que eu não me dava voz nem vez, e abraçar meus defeitos. Dizer meus nãos, desagradar se for o caso, mas me escolher dessa vez. Se não houver o sorriso perfeito, equilibrado na boca e no peito, vou sem ele mesmo, mas vou. A casa tá direita.. As culpas assumiram o foco da reforma. E talvez eu até me faça um café. No espelho, dado a cruas reflexões, finalmente consigo ver esse outro cara.. Acho até que temos, nessa nova dedicação, boas chances de gostar do que vamos ver daqui pra frente.
Novos tempos aí vou eu.

Bernardo Fernandes – Belo Urbano. Um gêmio canceriano, e um ingênuo de 35 anos, nesse contínuo processo insano de se descobrir. Achou na Comunicação uma paixão e uma labuta, e vive nessa luta de existir além do resistir, fazendo diferente e diferença… Ser feliz de propósito, sabe? Sem se distrair desse propósito. E vai assim, escrevendo o que a alma escolhe dizer, tocando o que a viola resolve contar, fazendo festas com cachorros e amigos perdidos, e brincando de volei, de pique, e de ser feliz na aventura da sua viagem. Vai uma carona?

Alfredo Lopes – Belo Urbano. Médico pediatra com 40 anos de experiência formado pela UNICAMP. Defendo o Amor genuíno, principalmente dos pais para com seus filhos , assim criaremos pessoas especiais. Apaixonado por Bike e Mar

Sou cartunista, mas não leio o futuro nas cartas. Desenho o presente com lápis e humor.

Minha formação acadêmica é em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda e já trabalhei na área. Depois, aliando o mundo business e o meu conhecimento fluente em alguns idiomas, passei a dar aulas. Também trabalho com construção civil, junto com a família.

Porém, a minha grande paixão é a arte! Já sofri muito pela falta de tempo de produzir o que minha mente criativa pedia. Cores, tintas, lápis, papéis, dá até água na boca de pensar.

Juntando a arte com a veia de humor, que sempre esteve presente em mim, nasceu a cartunista. Há alguns anos tomei coragem e inscrevi uma ou duas caricaturas em salões de humor, que foram selecionadas e eu passei a amar esse novo mundo que se abria. Com o passar do tempo, o vício foi dominando e, charges, cartuns, até tirinhas foram surgindo. O Brasil é uma terra rica em matéria-prima para essa arte, seja pela homenagem às nossas
grandes figuras ou pela crítica à política do momento. E tem o mundo.

Nunca pensei ser a ‘mulher cartunista’, mas, aos poucos, acabei me tornando uma ativista cultural também. Fui percebendo a pouca representatividade feminina na área e procurei entender os motivos para isso, visto que o mundo do cartum é uma bolha masculina. Os grandes chargistas são majoritariamente homens – procure “cartunistas do Brasil” no Google – e nem mesmo eles parecem perceber esse círculo fechado em que vivem.

Sabemos que, há muitos séculos, existe um trabalho por parte de sociedades, principalmente as religiosas, para destruir a relevância do papel da mulher. O sexo frágil, a bela, que deve ser também recatada e do lar. No seu papel de procriadora, ela acabou sendo dominada e o seu
conhecimento ancestral foi chamado de bruxaria e queimado nas fogueiras da inquisição e outras semelhantes.

Quando surgiu o movimento feminista, toda a luta foi desmerecida. O que se buscava era a igualdade de direitos, como poder votar, trabalhar, ter direito à herança, sair à rua desacompanhada e sem ouvir bobagens. Mas denunciar o machismo é coisa de “histérica”, ela é feia, tem sovaco cabeludo, não gosta de homem, mal-amada, não conseguiu segurar marido,
a lista é longa… O humor que ela desenha é, também, desmerecido como arte inferior.

Uma vez, em uma feira de quadrinho, na Alemanha, Maurício de Sousa foi indagado sobre a falta de mulheres quadrinistas em sua comitiva. Ele respondeu que, no Brasil, “Mulher ainda não tem essa liberdade sem vergonha que homem tem, de trabalhar até tarde, tem que cuidar
da casa, dos filhos, quadrinho exige muito tempo de dedicação”.

A mulher, como protagonista de seus próprios desenhos de humor precisava ser resgatada e furar a bolha.

Na procura por essas cartunistas, salões de humor, exclusivos para mulheres, surgiram, como é o caso do “Batom, Lápis & TPM”, que acontece todo mês de março, em Piracicaba e que reúne artistas, que, mesmo espalhadas pelo mundo, são muitas e seus desenhos e mensagens são
impressionantes. Sororidade passou a ser um lema. Esse ano, 2021, houve a tentativa da secretaria de cultura de Piracicaba de cancelar o Salão. Quando tomei conhecimento de que não haveria uma edição inédita, entendi que era a hora de mobilizar os cartunistas e passei a enviar mensagens e e-mails mundo afora e, assim, conseguimos reverter a situação. Preciso dizer que também recebi algumas reações estranhas, de negação, como se o salão fosse realmente algo inferior e que não merecia atenção, por parte de pessoas que eu admiro. Não guardo rancores, mas guardo nomes…

Trata-se de um precedente perigoso. O primeiro corte é nas mulheres. Era preciso agir para que não houvesse corte (ou censura) a outras exposições de humor. O Salão de Humor de Piracicaba tem uma longa tradição de resistência política. Nasceu no auge da ditadura militar no Brasil e está em sua 48ª edição, em 2021. Todos os anos o Salão Batom, Lápis & TPM, abre a temporada, em março. Em seguida, sai o regulamento e as inscrições para o salão principal, que acontece em março. Muitas atividades são levadas às escolas da cidade, e existe o salãozinho, para crianças. Quem sabe o que mais pode ser cortado, alegando custos e organização, mas sabe-se que é política. E parece que a atual política é tendenciosa à censura do humor questionador.

Há 3 anos, eu fiz a curadoria da exposição “Humorosas”, que reuniu 20 artistas. A ideia original foi do amigo artista, o Robinson, para expor as mulheres artistas que fazem humor. Foi um sucesso, a abertura foi no MACC, Museu de Arte Contemporânea de Campinas, depois passou
por mais 3 locais, antes de encerrar. Estamos programando uma nova edição de Humorosas para logo, pois temos um problema recorrente. Hoje, nas páginas das redes sociais, que anunciam festivais de humor, pouquíssimas mulheres são mencionadas. Quando uma de nós levanta a questão, denunciando o clube masculino, a recepção é sempre fria e negado o machismo. Acabo de ver um cartaz com “cartunistas do Brasil”, com umas 100 fotografias. Não cheguei a ver 3 mulheres entre os grandes.

O trabalho de charges, cartuns e caricaturas que realizo, estão muito ligados a essas situações, de sexismo e política, basicamente. Recebo prêmios e críticas pelo meu trabalho. Prêmios no Salão Internacional de Piracicaba e, ano passado, 2020, o “Prêmio Destaque Vladimir Herzog Continuado”, junto com 110 cartunistas (6 mulheres), por uma charge continuada, em apoio a
um cartunista, ameaçado pela Lei de Segurança Nacional. Críticas vem nas formas mais variadas. Tem gente que acha que eu não devo criticar o governo, que acha que estou torcendo contra. Tem gente que pergunta se eu não tenho medo. Medo do quê, amigo?

Enquanto conto os números de mortos na pandemia, a cada charge ou texto que publico, nunca terei medo de expor as mazelas e irresponsabilidades de um governo genocida. Não é um prazer desenhar o terror que estamos vivendo e ainda tentar agregar humor. Para mim, é um dever. Estamos em março de 2021 e nadando a braçadas para os 300 mil mortos pela Covid-19.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

O ano começou ótimo para ela. Pretendia se formar na faculdade. Sim, essa era sua prioridade, já que seus pais sempre lhe disseram o quanto ter seu próprio diploma era importante; o quanto independência intelectual e financeira eram tudo na vida de uma mulher. Por isso, ela também ia encontrar um emprego. Um bom, daqueles que se tem possibilidade de crescer e orgulho de contar para a família. Família. Ela pretendia visitar seus avós toda semana. Agora, ela podia dirigir! Parte da tão cobiçada independência já estava bem encaminhada. Esse ano ela poderia ir sozinha pra a faculdade; poderia visitar os amigos; ir a festas; viajar com o amor de sua vida. Tão jovem, e já havia encontrado o amor! E ela planejava aproveitar naquele ano. Aquele ano prometia… além de tudo isso, sua autoestima estava melhor do que nunca, ela acabara de começar a fazer aulas de dança, ela tinha idade para ir aos bares e começar a explorar a vida.

E que vida ela tinha planejada! E começava agora!

Que ano era esse? Esse ano era 2020.

Em março, tudo estava caminhando em direção a um ano de sucesso, quem sabe o melhor de todos? Era isso que ela prometia para si mesma todo Ano Novo: fazer esse ano ser o melhor da sua vida.

Até que, um dia, tudo se despedaçou. A faculdade foi cancelada, e todos foram mandados para casa. Ela deu adeus a um emprego, já que não tinha mais ninguém contratando. Pior de tudo, ela nem podia sair de casa! Como veria seus avós? Como os poria em risco? Sairia de casa para que, então? E suas viagens? Seus amigos? A dança? As festas e bares? De que serviria a carteira de motorista que ela lutara tanto para conseguir?

E a distância doía…

A solidão aumentava a cada dia, como se ela fosse uma mochila cada vez com um livro a mais dentro de si. Pesava. E sufocava. Que importava o que ela pensava sem ninguém para compartilhar? E no que ela poderia pensar, se nenhum dos objetivos dela podiam mais ser alcançados? E a cada dia, ela sentia que aquilo que, um dia, ela sonhou, importava menos e menos… até que ela se tornou um recipiente vazio.

Sem forças, comia menos. Não estudava mais tanto, porque não importava. Se afastou dos amigos e perdeu contato com a família. A cada dia ela entrava mais e mais dentro de si. E a cada dia ela encontrava menos e menos para ver.

Um dia ela acordou no meio da noite. Estava fraca e sem vontade. Estava sem ar. Abriu a janela de seu quarto. Olhou para as estrelas. Olhou para as ruas vazias. Viu a lua. Viu as árvores. E se espantou. Tudo ainda estava lá! Ela havia se esquecido! Esquecera-se de tudo fora de sua janela! Esquecera-se da linda paisagem que a aguardava! Esquecera-se das pessoas que esperavam por ela! Esquecera-se do mar, que ela não podia ver, mas tinha certeza de que estava lá! Esquecera-se de quem ela prometera ser! Esquecera-se de viver! Afinal, havia esperança, e estava lá! Tudo que ela queria estava lá, quieto na calada da noite, pausado, à sua espera, suspenso, mas o vento disse a ela que não era tarde! Que amanhã ela teria uma nova chance de sonhar! Uma menina, uma criança, 20 anos não é tempo de desistir de tentar!

Ela não dormiu mais naquela noite. Estava atrasada. Sem tempo. A vida esperava por ela. Ela sentia saudades do sabor! Do seu prato favorito; de um abraço de seu pai; de um beijo de amor; de fracassar! Mas de tentar de novo. Ela tinha tanta energia armazenada e queria começar a gastar agora! Ela tinha saudades do saber! Da fome dos livros! Da ambição que tinha antes! Ia demorar um pouco para reconquistá-la, mas aquela menina ainda estava lá! Pouco a pouco, a vontade brotou dentro dela como uma pequena muda, pronta para se tornar uma frondosa árvore. E ela a regou. Ia garantir que crescesse e que ela pararia de ser a sombra em seu caminho. Ela seria luz.

Ela abriu a porta de casa. Respirou o ar puro. Não, não era tarde. Ela guardou aquela vista. Guardou as memórias. Com o gosto de liberdade na boca, ela entrou de novo. Sorriu.

Agora, ela era uma mulher de 20 anos. E estava pronta.

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU

As vezes preciso estar só. Para acalmar a mente. Para prestar atenção na minha respiração. Para desacelerar meus pensamentos. Para ouvir música e escrever.

Às vezes preciso ficar só para olhar o horizonte à frente. Deixar a lâmpada acesa ou mesmo beber água saboreando devagar.

Preciso. Às vezes preciso muito. Como nesse exato momento.

Fecho meus olhos, meus lábios sorriem e eu escuto “eu tô voltando pra casa outra vez”, mas eu tô em casa e gosto muito.

Giza Luiza – 52 anos – dia 29 de agosto

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

A personagem Giza Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza




O dia começa a clarear e eu vou amanhecendo com ele.

Na casa pequena onde me acomodo agora, os pássaros acordam a mesma hora e os cachorros vêm para junto da porta aos primeiros movimentos da casa.

Água com vinagre de maçã, hábito antigo, mingau de aveia com leites vegetais, hábito recente. Varro as folhas caídas à noite, troco de roupa e sigo para caminhada quase sempre a mesma hora.

Quando a lama não me deixa andar pelas ruas que me levam às matas, me dirijo à praia.

Primeira caminhada, recolho o lixo deixado nas areias; abaixo e levanto várias vezes, mesmo sabendo que o exercício não está tão correto assim. Mergulho. A segunda, volto a caminhar por areias limpas.

Olhares de espanto, admiração, estranhamento. Sim, sou essa mulher de 60 anos, cabelos brancos, corpo marcado e muita vontade que me impulsiona.

Às vezes me parabenizam, mas pouco dou atenção, faço por mim, não preciso de aplausos.

Viajo algumas vezes, países ricos, outras culturas, mas em todo lugar esse é meu movimento.

Hoje retornei às minhas origens, Brasil, quanta sujeira, quanto descaso, pobreza, consumismo, desigualdade, desordem, desgoverno. Gastei quase todos os adjetivos com D.

Todos se assustaram com um ano atípico, todos esperando uma solução para normalizar(?) a vida. Meses depois, o que encontro nas ruas é o reflexo desse povo que não entendeu ainda. O povo está a espera de um milagre.

Será que aprendemos alguma coisa?

Já faz tempo que sou ecochata, não mato bichos, cato lixo nas ruas, reformo móveis, compro em brechós. Faço muito pouco. Gostaria de contribuir mais.

Eduquei 3 filhos com esse pensamento minimalista, valorizar o simples. Eles me acham desapegada demais.

Queria ter mais crenças, admiro as pessoas que têm. Mas não está em mim.

Sempre fui assim, desde os 11 anos, onde descobri a morte.

Minha reza é minha atitude.

Meus mantras vão do Funk ao canto de Umbanda.

Acendo velas; acho-as lindas.

Acendo incensos; adoro o perfume.

Cultuo o som das águas do mar e dos rios, o canto dos pássaros, a voz dos animais.

Sigo a minha intuição, adoro fazer minha comida, arrumar uma mesa com capricho. Ouço todo tipo de música. Dou bom dia a todos que passam por mim. Falo com todos sem conhecer, sigo os meus passos hoje, que ainda posso seguir!

Feliz Dia Novo!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Um dia desses, após uma caminhada com meu amigo no bairro, coloquei a mão no bolso e percebi que meu celular não estava, assim que isso ocorreu voltamos imediatamente todo o trajeto que tínhamos feito, olhando para o chão, ligando para o celular e nada! O celular havia sumido, não estava no bolso, na rua e nem no terreno que havíamos entrado, ligávamos para o número e ninguém atendia.

Assim que minha mãe chegou em casa, fizemos o mesmo trajeto novamente, olhando para o chão, ligando para o celular etc., o celular tocava mas nada acontecia. Após isso, já tinha desistido e achava que nunca mais o veria de novo, fiquei muito triste pois ali estavam, muitas fotos e arquivos importantes, porém…

Quando voltamos para casa, recebi uma foto no meu e-mail com a cara de uma estranha que estava com meu celular e sua localização, por conta de um aplicativo, toda vez que alguém tentava desbloqueá-lo e não conseguia, eu recebia um e-mail com a foto da pessoa e a localização do telefone, em questão de minutos eu já sabia quem tinha achado meu celular, qual era a casa da pessoa e quem era o filho dela, ao longo da noite recebi mais de vinte e-mails com fotos da cara dela e sua localização.

Nós ligávamos e ligávamos mas ela não atendia, percebemos que ela estava agindo de má fé, eu queria ir logo na casa dela e pegar meu celular de volta mas minha mãe resolveu fazer um boletim de ocorrência, estávamos prestes a enviar uma viatura na casa da mulher. Quando ela finalmente percebeu que não ia conseguir desbloquear o celular, resolveu atendê-lo, era meu amigo ligando, conversou com ela e ela decidiu devolver o celular no dia seguinte, a mulher trabalhava no condomínio que fica na frente ao meu. Por isso, pense bem antes de fazer algo errado, você está sendo observado em todo canto.

Pedro de Andrade Nogueira -Belo Urbano. Filho do meio. Estudante do ensino médio. Gosta de assistir séries, sair com seus amigos, viajar e ir para o clube.

Quando tenho dúvida na matéria
Ele me dá as respostas
Quando não sei o clima
Ele me mostra
Quando tenho saudades da minha amiga
Ele me leva até ela
Quando escrevo um texto novo
Ele o transporta a todos os meus conhecidos

Quando tenho outras coisas a fazer
Ele me prende
Quando quero dormir
Ele não me deixa
Quando quero privacidade
Ele não me dá
Até quando quero ficar sozinha
Ele está lá comigo

Quando olho para os lados
Mesmo sozinhos
Estão todos acompanhados
Quando saio de casa sem ele
Volto buscar
Ou fico sozinha de verdade
Me sinto ansiosa
E parece que falta uma parte de mim
Parece que deixei
Meu pai meu namorado todos os meus amigos
Em casa
Que não me importo com eles

Eu posso reportar cada segundo do meu dia
E mesmo que ninguém me cobre disso
Sinto que o dia não é completo se não o faço
Como se esse dia nem tivesse sido
Porque não foi divido com ninguém

Não sei como faziam antes dele
Como se combinava de sair juntos?
Como se conhecia gente nova?
Como se sabia o número de todo mundo?
Como se pedia para o pai ir buscar?
Como se guardavam as memórias?
Como se trazia comida?
Como se mostrava aos outros?
Como se fazia para alguém se interessar?

Não sei se preciso
Mas também não posso dizer que não
Não sei
Só sei
Que não vivo sem

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU.