Como em um conto de Charles Dickens, uma pequena órfã foi abusada por adultos. Na
Inglaterra Vitoriana, com leitores formados pela Revolução Industrial, as obras Dickensianas
causavam certa revolta por mostrar a exploração de vulneráveis por outros seres humanos.
Eram textos sombrios, mas que mesclavam uma dose de humor no estilo, mas não poupavam
o leitor, que sofria com a morte de personagens pelas quais se afeiçoavam. Um mundo cruel
esse dos livros de Charles Dickens.
Bom, estamos no Brasil de 2020. Enclausurados – ou não – de maneira surreal devido a uma
doença que faria sentido em outro século. E temos a história de um pequena órfã para contar.
A menina é órfã de mãe, o pai está preso. Mas é da periferia de algum lugar do país.
Essa pequena órfã, aos 10 anos, com dor de barriga, chega ao hospital. Está grávida! Agarrada
a um bichinho de pelúcia, ela grita, desesperada. Ela está amparada pela lei que, em caso de
estupro, determina que um procedimento de aborto seja realizado. Simples assim.
Mas a série de abusos está apenas começando. Abusos cometidos por adultos. Adultos que
deveriam protegê-la. Um tio que a estuprava desde os 6 anos. Uma família de tios e avós
adultos que nada percebia. Professores que nada viam de estranho no comportamento da
menina. Ainda assim, dá para dizer que o único adulto responsável pelo abuso era o tio. Até
aqui.
O hospital, constatada a gestação, lava suas mãos e, usando um subterfúgio qualquer, recusa-
se a cumprir a lei e interromper a gravidez, causada por estupro, em uma criança de 10 anos.
Uma criança que não tem corpo para gerir uma criança, um gravidez que coloca em claro risco
a sua vida.
O pedófilo estuprador, a essa altura, sumiu no mundo.
A menina precisa, então, ser levada para um hospital, bem longe, em outro estado, onde
médicos se propõem a cumprir o que a lei determina. E seguem-se outros abusos a essa
criança que só quer ser criança.
Os dados dessa menina, de alguma forma, são vazados e uma criminosa, cumprindo prisão
domiciliar de tornozeleira eletrônica, com acesso ao governo e a redes sociais, divulga nome
completo da criança, para onde foi levada, quem são os médicos que realizarão o aborto,
enfim, o inimaginável. Não se sabe como ela conseguiu essas informações, mas o que não se
sabe, é possível imaginar. São dados confidenciais.
Uma turba ensandecida, contra a ideia de aborto e dizendo-se cristã, irrompe na porta do
hospital, impede a passagem de médicos, que, só com a ajuda da polícia, consegue entrar no
hospital. Enquanto isso, a criança entra, escondida em um porta-malas, pelo estacionamento,
como se fosse ela a criminosa. Aos gritos de “assassina”, ela é internada. Aos gritos de
“assassinos”, os médicos se preparam para atendê-la.
Enquanto isso, o pedófilo está solto em algum lugar.
Nesse circo do absurdo, duas pessoas, não se sabe como, conseguem acesso à menina dentro
do hospital e, mais uma vez, ela é constrangida, cobrando-se dela que mantenha a gravidez.
Ela, agarrada ao seu brinquedo, mais uma vez recusa, chorando.

Por fim, a gestação é interrompida e os médicos dizem que a pequena passa bem. Como se
fosse possível alguém, que passou por tantos abusos e um aborto pudesse estar bem.
Com a identidade revelada, ela já não pode voltar para sua casa. Então, é lhe oferecido trocar
de identidade. Ela e familiares entrariam para o Programa de Proteção a Testemunhas.
Proteção é tudo o que ela, criança, precisa.
O pedófilo estuprador é, enfim, preso.
Comentários de gente doentia, em redes sociais, demonizam os médicos, a menina, o
procedimento. Onde se encontram esses “cristãos” quando o Brasil tem tantos meninos e
meninas em situação de rua? Mendigando, vivendo em abrigos, vivendo com sua famílias, mas
totalmente desassistidos pelos poderes? Em um país que não investe em suas crianças, um
país que tem como projeto acabar com a educação?
O assunto “aborto” é questão de saúde pública. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública de 2019, a cada hora, 4 meninas de até 13 anos, são estupradas no país. Segundo o
SUS, por dia, acontecem em média 6 abortos em meninas de 10 a 14 anos, sendo que 66%
dessas jovens são negras.
Será que, caso a menina vivesse em um país de leis medievais ou em uma era das trevas, ela
seria, além de considerada culpada pelo próprio abuso, condenada a levar a gravidez até o fim
e apedrejada depois do parto? Aqui, no Brasil de hoje, ela SÓ sofreu o apedrejamento moral.
A pequena, enfim, teve alta, tem uma nova identidade, espera-se que ninguém vaze a
informação de sua localização. Que ela possa ser protegida, acolhida e que tenha um futuro
livre de tantos pesadelos que tantas pessoas adultas infringiram a ela. Que o final dessa
história passe longe dos finais de Charles Dickens.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Tínhamos planejado a nossa viagem,  aqui pertinho mesmo, não iamos demorar, afinal de contas ele tem tantos compromissos na segunda. Temos pouco tempo para nós dois, vida corrida, filhos e ainda as suas viagens.

Sexta já estava sonhando com a viagem, já fomos umas duas vezes, nesses seis anos de casamento. Seria a nossa terceira vez de irmos para as montanhas. Quarentena, vontade imensa de sair um pouco de casa, e desse turbilhão. Claro, já apreensiva que talvez algo daria errado, um compromisso de última hora…

Na própria sexta, ele recebe um telefonema, e só escuto: tudo bem, combinado, vamos almoçar e falar de negócios. Bom, ele tinha chegado de viagem depois de 20 dias fora e precisava fazer contatos de trabalho, o mercado não estava dos melhores e sabe como é, ele precisava fazer dinheiro. Desligou o telefone e nem se deu conta que tínhamos combinado a tão sonhada viagem. Perguntei depois de algum tempo, ensaiando antes como eu falaria sobre o ocorrido. Tomei coragem e perguntei: mas e a nossa viagem? Ele respondeu que a tarde de sábado ele estaria livre e iríamos viajar. Pensei… é… ele precisa trabalhar. Logo depois ligou a irmã, pedindo que a ajudasse na obra que ela estava fazendo em sua casa pela parte da manhã de sábado. Meu coração apertou, uma agonia familiar se instalou, um frio na barriga e uma tristeza velada no meu olhar. Me segurei para não chorar, não explodir, não começar tudo de novo. O controle tinha que estar em mim de uma vez por todas. Ele estava do meu lado, não percebeu nada, ainda bem… sentimentos apenas meus.

Depois de algumas horas, não segurei, uma raiva sem controle explodiu e falei, falei, gritei com ódio, e aquela raiva de mim mesmo de não ter falado Não! O sábado já estava perdido e eu me vi assim, desolada, frágil, sem força… perdida em mim. Enfim o sábado passou, não queria saber mais desse dia, acordamos no domingo e demos uma volta de moto, percorremos a Lagoa, fomos ao Rio. Lugar que eu nunca deveria ter saído, sensação de pertencimento finalmente. Foi bom, em paz… esqueci de dizer que ele já tinha marcado no domingo com seu sócio de ver as finanças, mas no meio dessa paz, vinha aqueles pensamentos, ele vai me deixar em pleno domingo, nem me perguntou nada. Mas domingo não é dia de família, de estar em casa, pelo menos é o de praxe, mas nem sei porque me apego a isso, na minha família, meu pai sempre foi ausente, viajava muito e era compulsivo por trabalho, assim como vivo hoje, ao lado de alguém que não tem hora, nem data…

Voltamos do Rio, fomos para casa, cheguei a pedir para ele desmarcar essa reunião, mas ele me disse que era importante que fosse hoje. Nesse momento, uma dor, aquela dor mais que familiar veio no meu corpo, na minha alma. Eu queria muito que eu ficasse bem, tranquila, que ele fosse para o seu compromisso e eu poderia ficar estudando, adiantando algum trabalho, poderia ler um livro, meditar, descansar, ouvir música, ver um filme… não fiz nada disso. Ele me chamou para ir com ele, fui… e ali fiquei esperando, olhando o tempo passar e lá se foram duas horas, cansada, pensando que eu poderia ter feito algo por mim… paralisei total. O que estou fazendo aqui? Nem alívio senti, senti um arrependimento, uma vergonha de não ter tido coragem de fazer por mim. Ele, tão seguro, tão autosuficiente, tão dono da sua vida. Ali fiquei esperando o tempo dele passar…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Aos finais de semana, os primos e amigos se reuniam!
Tinha rua, clube, quintal.
Havia piscina, bola, bicicleta.
Bolinha de gude, pipa, carrinho de rolimã.
Tinha amarelinha, corda, queimada.
Pega-pega e tantas outras brincadeiras de rua.

Tinha STOP, dança e música.
Havia teatro e apresentações.
Festa do pijama, dança das cadeiras e mais tarde, dança da vassoura.
Tinha dia que havia 5 MARIAS.
E outros, quem reinava era o bambolê.
Com a corda ou com a bola, as possibilidades eram inúmeras.
Tantas coisas que ali havia.

Criatividade, indagações, boas conversas.
Relações eram estabelecidas e reestabelecidas.
Tínhamos ideias e projetos e depois, novos projetos de novo!
Construíamos estratégias, fazíamos planos.
Havia necessidade de elaborar argumentos.
De buscar consensos e aprender a ceder e de se posicionar.

Convivência ali havia.
Resistência ali havia.
Liberdade ali havia.

Cada criança era uma potência!

Estamos na Semana Mundial do Brincar e disseminar o BRINCAR como um valor a ser cultuado é a uma oportunidade de contribuir para que tenhamos adultos mais saudáveis.
E você, qual a brincadeira que está presente em sua memória?

Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 

Hoje eu acordei sentindo que tudo está diferente e ao mesmo tempo fazem quase três semanas que estamos na mesma situação, entocados em casa.
Enquanto estou fazendo meu café, escuto pessoas gritando na rua. Achei que era briga de casal, uma mulher e um homem. Curiosa, abri a janela para descobrir de onde estava vindo essa comoção toda. Em uma casa na minha rua, uma mulher jovem na janela gritava para um homem jovem na rua. Os dois expressando um amor eterno e a saudade apertando o coração. Eles moram no mesmo bairro mas já fazem semanas que não se abraçam e para poder matar um pouquinho dessa saudade ele resolveu declarar um poema de amor para sua namorada, sem se importar com quem pudesse ouvir. Quando ele terminou a rua toda bateu palmas e ele agradeceu como se fosse um ator terminando a cena final de uma apresentação no teatro, depois de mais algumas promessas de amor para sua amada na janela, ele foi para casa, ela ficou na janela até ele virar a esquina e sumir de vista. 

Todos voltaram a fazer o que estavam fazendo. Imaginei o quanto deve ser difícil para uma paixão nova ter que esperar para poder se abraçar de novo. Não sou jovenzinha mas me lembro muito bem como é.
Moro na Inglaterra há 15 anos e tenho família aqui, na Itália e no Brasil. 
Converso por WhatsApp com várias pessoas quase todos os dias. Estranho pensar que antes do Covid-19 eu não falava nem com metade dessas pessoas, família e amigos, nem mesmo uma vez por ano. E agora faço e recebo chamadas de pessoas queridas que estavam perdidas no meu passado. 
Uma grande preocupação é com a família na Itália, minha tia-avó de 94 anos, a última de uma geração na minha família materna que passou por situações muito piores do que a que estamos passando agora. Ela sobreviveu guerras, a rua onde ela morava foi destruída por bombas, perdeu amigos nesse dia, passou fome, frio e terror, mas não perdeu seu coração e nem a vontade de viver. Ontem conversamos e ela me disse que ficar em casa com a família não parece ser esse horror que os jovens estão dizendo ser. Ela está aproveitando esse tempo, onde os netos não tem escolha mas ficar em casa com ela. Eu me senti tão pequena e boba, mas ela abriu meus olhos. Como eu admiro essa mulher! 
Fico imaginando como vai ser quando isso acabar. Será que todas as pessoas que conheço vão estar aqui? Será que meu trabalho vai estar lá? Quando saio para uma caminhada curta pelo bairro e cruzamos caminho com alguém pela calçada eu notei que se são adultos ou jovens as pessoas te olham feio. Aquela sensação que você desagradou alguém simplesmente por ter se atrevido a levar a cachorro para um rolezinho no quarteirão. Agora se são idosos, eles te olham e sorriem e perguntam se está tudo bem.
Não posso prever o futuro, mas posso imaginar que não vai ser como antes. Abraços apertados só para quem vive na mesma casa que você. Aperto de mão vai sair de moda. Sorriso amarelo e espaço pessoal de dois metros será a norma. A não ser que você use transporte público, daí não tem jeito. 
Adaptar e continuar como se tudo que mudou impactou para o bem. 
Bom, não sei, mas espero estar aqui para descobrir. 

Ana Carolina Beresford – Bela Urbana, trabalha numa caridade que ajuda pessoas com deficiências físicas e mentais a locomoverem-se, sente muito orgulho do seu trabalho. Adora animais e viajar sempre que pode.

Se deparar com o silêncio é enlouquecedor. O apartamento era chique, tudo milimetricamente no lugar.

Nos últimos dias ela estava só. Ninguém podia entrar. Dispensou a empregada doméstica e o personal trainer, a contragosto, mas no condomínio o pedido foi explícito: Liberem seus funcionários pelo bem de todos, precisamos controlar as entradas, temos 06 casos suspeitos aqui.

Solidão pesa, ainda mais para quem se engana. A filha mora em Brasília com o marido, se falam bem pouco. O ex casou faz 10 anos com uma jovenzinha, como ela diz, e até hoje não conversam.

Solidão pesa. Você tem que se olhar, quando tudo que te sobra é você mesmo. Sentir isso era uma facada no peito. Não tinha amigos para ligar, sempre implicava com todos. Era chata. Impecavelmente chata.

As pessoas se afastam de quem só enxerga problemas, só critica.

Sandra, esse era seu nome, mas ela nem se lembrava. A vida inteira foi Sazinhah, que ela escrevia com o H no final desde menina. Achava chique como os copos de cristais que ganhou no casamento há 35 anos e que continuam intactos, sem uso.

Sua vida foi cuidar da casa, mas sempre com ajuda de empregada doméstica. Cada ano uma. Ninguém durou muito ali. Ela implicava. Não era rica, mas tinha uma boa condição. Classe média-alta, casou bem. Fez um acordo no divórcio de uma boa pensão, afinal, ele tinha condição.

Hoje o incomodo foi enorme quando o som alto do vizinho chegou aos seus ouvidos, a música falava rezadeira…. ela se irritou, como sempre aliás. Ligou na portaria para pedir para abaixarem. O som vinha do vizinho, que ela nem sabia quem era. Evitava entrar no elevador com outras pessoas, odiava sentir outros perfumes além do dela. Era chata até o infinito.

A música não parava e se repetia. A portaria retornou e disse que ninguém atendia. Ela poderia bater no vizinho e pedir para abaixar, mas só de pensar sua mão gelava.

Engoliu seco, e foi deixando aquele som diferente entrar na sua mente, no seu corpo. Foi até o espelho, olhou uma mulher com a expressão dura, parada, pensou: deve ser o botox.., os vários preenchimentos. Nunca tinha percebido sua falta de expressão. Doeu, assim como doeu olhar para a cristaleira com aqueles copos de cristais esperando a melhor ocasião. Esperando há 35 anos!

Foi para a varanda, a música que falava benzedeira não parava. De irritada começou a se movimentar, olhava para as áreas do condomínio, todas vazias. Super irritada, começou a se soltar e a dançar. Devo estar louca, pensou. Jogou as almofadas no chão. Foi fazendo um striptease até ficar nua. Nua e só.

Nua e com os cristais. Nua dançando ao som do vizinho. Resolveu beber, por sorte tinha um vinho bom. Presente da dermatologista pelo aniversário, afinal, gastou um bom dinheiro com ela. Não gostou, nunca gostava de nada. Chata.

Nua, abriu o vinho, fez uso da taça de cristal, até que enfim, a ocasião. Dançou na varanda, nua, com o copo na mão ao som do vizinho. Bebeu a garrafa inteira.

Lembrou-se de quando era uma criança e de tudo que NÃO vivera até ali. Lembrou a pandemia. Lembrou da dor da solidão. Dançou até o último gole e jurou que se saísse viva daquilo, mudaria tudo, começaria convidando os vizinhos para um vinho e decidiu que todos os dias da sua vida usaria seu jogo de copos de cristal, até para beber água. 

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

Foto: @gilguzzo @ofotografico

Quando me designaram escrever sobre a pandemia, logo pensei não vou dar conta pois nunca havia passado por uma cilada dessas. Uma sensação de total relevância à vida perante uma desconhecida doença. Nunca passei por guerra ou fome. Que gabarito tenho eu?
Porém, na última declaração “macacônica” do nosso chefe de estado sibilando palavras destorcidas da realidade, entrei no fronte com as narinas abertas para escrever lhe uma carta aberta:
Valha me Sr. presidente,
Então, está tudo bem?
“estatística comprova que o vírus novo atinge mais os idosos“
“voltem a sua rotina”
“economia não pode parar”
É graças a esses “velhos” que digito essas míseras palavras descontentes para lembrar que eles já foram jovens e fortes, criaram famílias, contribuíram economicamente e pagaram impostos e estudo aos filhos. Inclusive muitos o elegeram, infelizmente.
Esses velhos que já não tem vigor, tem rugas e flacidez que já não votam mais e sobrevivem de aposentadoria merecem respeito. Respeito que suas palavras enfadonhas não atingem.
A pandemia nos afastou em pequenos metros esterilizados, vivendo de mídias digitais em lares higienizados não somente do tato, mas do próprio pensamento.
Vamos ter que acertar essa conta que chegou para nós como esse vírus cobrando juros altos, todavia, nos tornando biblicamente iguais não importa o quanto é sua renda, a marca do seu possante, quantos boletos atrasados temos ou o nome do delivery.
Estamos sozinhos no impasse dessa reflexão, assim como meu pai, diabético, de longe me mandou um beijo da sacada de sua casa querendo se esbaldar em um abraço infantil.
Você errou senhor presidente, porque não nos considera iguais, humanamente iguais. Isolado está você.
Vença sua derrota e guarde sua máscara esterilizada e pantomímica de Souvenir.

Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.

Minha mãe sempre teve medo do pai dela, ele batia nela e em todos os irmãos, ela chegou a ser espancada algumas vezes, minha mãe viu também uma tia ser chutada na barriga, grávida, essa mesma tia viveu anos com esse homem e teve vários filhos dele, apanhou e foi muito humilhada, ele teve várias mulheres fora do casamento e finalmente quis se separar para ficar com outra, bem mais jovem, ela, mulher das antigas ficou com ele e nunca tentou se separar, aguentou tudo calada. Apesar do meu avô ter sido violento com minha mãe, ele nunca me bateu, acho que foi suavizando com o tempo mas eu percebia o quanto minha avó o temia, o quanto minha mãe se sentia tensa ainda adulta ao estar perto dele, ela carrega muitas feridas emocionais da infância que a afetam até hoje aos seus quase 65 anos; se casou aos 16 anos, no fundo acredito que quis fugir de casa; aos poucos na adolescência fui entendendo o ciclo de violência que as famílias vão perpetuando, e o poder que os homens exercem sobre as mulheres, ou querem exercer, vivemos ainda hoje na cultura do patriarcado, a cultura do machismo que ainda impera e apesar de tantos direitos adquiridos pelas mulheres ao longo dos anos, essa cultura segue impregnada nas atitudes de homens e por vezes até das próprias mulheres, na relações das crianças também, podemos ver os meninos ainda nos dias de hoje, passando a bola somente para os colegas meninos e ignorando as meninas, essas atitudes são ensinadas, observadas e copiadas, as famílias ainda perpetuam essa cultura sexista e misógina, ajudando a disseminar essa visão da mulher como um ser inferior, infelizmente ainda existe um preconceito muito grande em relação a mulher e tudo isso leva ao feminicídio, uma realidade horrenda no Brasil, com números alarmantes, em média 13 mulheres são assassinadas por dia, e o pior: uma grande parte dessas mulheres é morta por parentes, maridos ou parceiros.

Talvez por ouvir as histórias da minha mãe, me sentir muito tocada por seu sofrimento eu cresci muito atenta às relações entre mulheres e homens, me lembro que minha mãe não trabalhava fora e quando chegava próximo ao horário do meu pai chegar do trabalho ela me pedia para pôr o par de chinelos dele e a toalha de banho no banheiro, eu fazia isso sempre, aos quinze anos falei que não faria mais, achava um absurdo e pensava que se um dia me casasse eu jamais faria isso, claro que eu era apenas uma adolescente desenvolvendo minhas opiniões sobre o mundo porém me incomodava também aquelas piadinhas antigas: “mulher esquenta a barriga no fogão e esfria na geladeira”, eu nunca achei aquilo engraçado e ficava muito brava ao ouvi-las, e o pior: me deixava boquiaberta a naturalidade das meninas com respeito a isso, para mim nunca foi uma piada ou “brincadeira boba de homem” era algo muito sério,  o tempo passou e hoje eu vejo com alegria que apesar da cultura machista as mudanças chegaram para nós mulheres, a Constituição de 1988 assegura que os homens e as mulheres são iguais em direitos e obrigações, a Lei Maria da Penha já existe há 12 anos e essa lei trouxe apoio legal para milhões de vítimas de violência, a mulher conquistou o direito do voto, no nossos dias as mulheres trabalham, são independentes, chefes de família e as relações amorosas são igualitárias, porém a cultura machista segue ainda poderosa, e com ela o feminicídio segue frequente, o abuso, a falta de aceitação do homem de que ele não tem poder absoluto sobre as mulheres, felizmente com o advento da internet as notícias chegam muito rápido, as investigações também e assim pessoas como João de Deus, Sri Prem Baba e tantos outros são desmascarados e detidos, no entanto me entristece ver todos os dias uma notícia nova de uma mulher que foi morta, estuprada, atacada e tantas outras situações que a colocam em risco de vida ou que perdeu sua casa ou está foragida enquanto o homem segue sua vida normalmente, é tanta injustiça que me angustia pensar que minhas duas filhas vivem nesse mundo aonde não somente a rua mas a nossa própria casa pode se tornar um lugar perigoso; sei que leva anos para que as mudanças sejam efetivas, para que os culpados sejam punidos adequadamente, sonho com o dia em que as estatísticas sejam diferentes para nosso país e que as mortes diminuam, por ora eu acredito nos grãos de areia das nossas atitudes, em minha micro esfera tento plantar sementes de respeito e amor na minha casa com as minhas meninas e nossa relação de família, meu marido é um companheiro que respeita meu “não”, que divide as tarefas diárias, e faz sua função de pai assim como eu faço a minha de mãe, ele cuida delas, ensino minhas crianças a respeitar o “não” de qualquer outro ser humano, e também a dizerem não se necessário, a respeitar seu espaço pessoal, seu corpo, a duvidar de figuras de autoridade, que não batemos para conseguir respeito, com minha família espero ter quebrado o ciclo de violência que tantas vezes vi com meus avós e parentes próximos,  ensino que estudar e trabalhar é importante e necessário para todos, não sou uma “feminazi”, e estou longe de ter uma vida de foto de rede social,   radicalismos não são meu forte, gosto, pratico e busco o caminho do meio: as pessoas precisam uma das outras, as relações amorosas independente do gênero devem ser respeitosas e igualitárias, se alguém acha que está em desvantagem então é problema, acredito nos bons combinados entre os parceiros, no amor acima de tudo, quem ama não quer prender o outro consigo, quem ama aceita que as coisas nem sempre são como gostaríamos que fossem, quem ama quer a felicidade do outro e não a morte.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.

Comecei a pensar nesse tema ao observar como os homens querem a atenção das mulheres para seus assuntos, mas não prestam atenção no que as mulheres querem dizer.

É comum ver piadinhas, memes, cartoons mostrando as mulheres falando sem parar e os homens entediados, sem prestar atenção ou batendo o carro, ou a mulher com a boca calada pelo cinto de segurança, enquanto o homem dirige tranquilo.

O que tenho observado é que há um conflito entre os assuntos de interesse do homem e da mulher. Muitos homens gostam de contar para a mulher seus novos projetos, seu dia no trabalho, sua discussão no trânsito. Enquanto outros, por considerarem seus assuntos somente interessantes para homens só conversam com os amigos do futebol, do trabalho, do bar. A mulher gosta de dividir seus assuntos com o parceiro, mas normalmente não encontra interesse da parte dele.

Mulheres gostam de falar sobre relacionamentos, comportamento. Quando comentam sobre o trabalho, geralmente falam sobre as atitudes do chefe ou dos colegas. Quando expõe seus projetos, levam em conta a parte humana da coisa. Para os homens, mais práticos, não interessa saber esses “detalhes”.

Os assuntos das mulheres que optaram por tomar conta do lar e das crianças, são ainda menos interessantes para eles. A nova receita de bolo, como as crianças se comportaram, tudo lhes parece tão chato!

A questão é que esse desinteresse gera uma distância tão triste entre um casal, uma falta de diálogo, que, acredito eu, tem causado muitas separações de casais.

Aquela pessoa que, um dia foi o centro dos seus interesses, de repente se torna alguém com quem você não quer conversar.

Para manter a chama do casamento ou do relacionamento acesa, não é preciso só sexo, mas é preciso saber ouvir, ter interesse no outro, compreender suas carências, suas necessidades e dificuldades. Temos dois ouvidos e só uma boca, por isso, temos que aprender a ouvir.

Filipa Mourato de Jesus –  Bela Urbana, 43 anos, a espera do terceiro filho, ex bancária concursada, atual mãe em tempo integral, larguei tudo em busca de fazer o que amo, quero ser confeiteira!

O inverno chegou e veio em todo seu esplendor, não é? Que tal aproveitar esse friozinho ( puro eufemismo, claro) e reunir os amigos, juntar uns cobertores e preparar uns caldinhos para se aquecer e jogar um pouco de conversa fora?

Estamos vivendo em um tempo de muita informação, correrias sem fim, relacionamentos líquidos e virtuais, mas muito pouca interação verdadeira. É claro que o dia a dia acaba nos levando a escolhas cada vez mais práticas e rápidas, mas que tal tirar um tempinho para resgatar as relações ao redor da mesa e levar de brinde mais saúde física e mental?

Minha proposta? Invista nas sopas, caldos ou cremes (os nomes são apenas variações gastronômicas para as texturas, ok?); eles aquecem, dão uma sensação de conforto e, com os ingredientes certos, ainda podem proporcionar uma melhoria no sistema imunológico, reduzindo a incidência de doenças associadas ao inverno. Ah! E se você convidar os amigos para dividir essa experiência, ainda tem o conforto emocional, a alegria da partilha…que também ajuda a prevenir muitas doenças. ”Pessoas felizes são mais saudáveis”!

Sem ideias do que fazer? Abuse das especiarias! Cardamomo, gengibre, anis estrelado, canela, páprica, açafrão… Todas têm propriedades anti-inflamatórias e são termogênicas, o que vai ajudar a te aquecer…

Não conhece algumas delas? Vá a uma casa de produtos naturais ou na sessão de temperos do supermercado e se divirta. Experimente, ouse, saia da caixinha!

Sabores são muitos! Mandioquinha com açafrão, abóbora com gengibre, beterraba com cenoura e cardamomo, feijão com páprica…e mais um monte de combinações a sua escolha. Todos deliciosos, quentinhos e, com as companhias certas, uma experiência única e renovadora.

E aí? Que tal tentar esse encontro no aconchego de casa? Eu garanto que é demais!

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr que fica dentro de um espaço de yoga e terapias que se chama Manipura em São José do Campos – SP.

Essa bagunça me consome

Ver os sapatos espalhados

Os papeis acumulando no meio da agenda

As contas que chegam e ficam jogadas

As coisas velhas que ficam entulhando o caminho

Precisam ser dadas, doadas

Mas como isso é demorado…

Essa bagunça das fotos

Essas milhares de fotos digitais

Esses milhares de selfies

Onde guardar tudo isso?

Sem ordem

É tudo uma bagunça

E as fotos antigas então

Algumas em papeis,

Algumas nos álbuns

Algumas soltas e já digitalizadas

E depois onde guardar tudo isso no mundo digital?

Organizar, datar, guardar, compartilhar

E os e-mails?

Disseram que iriam acabar,

mas não paro de recebê-los

As cartas físicas, sim, essas eu parei de receber

No físico só recebo as contas para pagar

No digital o que  mais recebo são os spans

De golpes que querem ser dados

De golpes em formas de prêmios

De golpes em forma de curiosidade

De golpes em forma de amor.

O que mais recebo são esses spans

Que me fazem perder minutos, vários deles

durante todo meu dia

E muitas cópias de e-mails que fico sendo copiada

Sei lá pra que

E os antigos que ficam arquivados

E os antigos de outros que também tenho que guardar

Me consome, esse tanto de inutilidades

Esse peso dessas coisas

Que eu não sei o que fazer.

Sei que de verdade, os sapatos, no meio da sala

São os mais simples de resolver.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)