Não entendia o que estava errado, mas sentia que algo em alguns momentos não ia bem.

Digo alguns momentos, porque em outros tudo ia muito bem. Começou a debochar de amigos meus que não conhecia. Comecei a me afastar sem eu mesma perceber.

Certa vez, uma grande amiga minha que não mora na minha cidade, combinou que queria me ver. Marcamos um almoço, ela foi com seu marido e eu com ele. Depois que nos despedimos começou a dizer que já a conhecia de outros tempos, dando a entender que rolou algo com ela no passado. Nitidamente querendo me deixar insegura, mas eu não caí na armadilha, porque conhecia muito essa amiga e seus namorados desde a adolescencia.

Porém, caí em outras ciladas que me desestabilizavam, com outras histórias de mulheres, comecei a desejar até mal para essas pessoas que fizeram parte da vida dele no passado que eu nem conhecia. Uma loucura? Totalmente.

Um dia estava na recepção de um consultório e peguei uma revista, comecei a ler uma matéria sobre Relacionamentos Tóxicos, eram cinco depoimentos de pessoas que viveram isso em situações diferentes, lembro de um caso de uma mãe e filha que achei muito triste, mas todos traziam situações e sensações parecidas com o que eu estava vivendo.

Como a revista era um pouco antiga…. levei a revista embora… não sou de fazer isso, mas eu precisava ficar com aquilo perto de mim, para reler e pensar sobre tudo aquilo. Consegui fazer tudo mudar, mas não foi imediato. Nem sempre conseguimos ser tão racionais e rápidos quanto deveríamos.

Coloquei limites. Seguimos…

MULHER – Bela urbana, 40 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

Novamente aqui me encontro para relatar uma situação que muitos indivíduos vivem, principalmente mulheres, e não sabem sequer o que fazer para se proteger e viver em paz!

Hoje escrevo como advogada, não especialista no assunto e na área, mas apaixonada por ler, estudar e sinceramente espero que este texto elucide e ajude aqueles que passam por alguma situação de violência doméstica.

Vamos lá;

Muito importante primeiro definir quais são os tipos de violência doméstica, ora, muitos acreditam que violência doméstica só ocorre quando existe alguma situação de agressão física, um tapa, um chute, um murro, ou até mesmo a agressão oriunda de um objeto: uma faca, uma arma, entre outras tantas coisas. Mas não, existe uma outra forma de agressão que muitas vezes pode ser pior e mais devastadora na vida de qualquer indivíduo e mais ainda na vida de uma mulher: a agressão verbal, os insultos verbais, os xingamentos, os maus tratos verbais muitas vezes podem causar transtornos incalculáveis na vida de um ser humano.

Vejamos, ao se deparar com qualquer destas situações muito importante termos ciência de que precisamos relatar as ocorrências e quanto mais cedo isso for feito sempre melhor! Ou seja, reagir imediatamente frente a qualquer caso de violência doméstica existente.

Para aquelas mulheres que tiverem condições de buscar a orientação de um advogado, uma advogada está é sempre a melhor opção para que proceda ao relato de suas ocorrências.

Para as que não tiverem condições de buscar orientação profissional existem muitos locais de apoio e orientação a elas.

Primeiro acredito ser muito importante nesta luta a questão da educação. Só através dela teremos uma possível solução, investir na educação dos jovens, meninos e meninas, será de fato a melhor maneira de combater este problema social ainda tão comum na sociedade que vivemos.

Depois, impossível falarmos deste assunto sem mencionar a Lei Maria da Penha, número 11.340/06, um marco na Luta pela igualdade e proteção dos direitos que visa coibir violência doméstica e familiar, independente da orientação sexual.

Imprescindível ainda buscarmos a origem e entender o contexto que a Lei Maria da Penha foi criada.

Criada aos 7 de agosto de 2006 a fim de combater com mais veemência a violência contra a mulher, foi inspirada em Maria da Penha Maia Fernandes, que se tornou paraplégica em razão de um tiro nas costas, levado durante o sono. O autor do disparo foi o marido, depois de já ter praticado por anos violência doméstica contra a mulher.[1]

A referida Lei se destina a proteger e respaldar mulheres de agressões e violências que acontecem no seio de seu lar. Neste ponto, cumpre observar que não necessariamente a violência contra a mulher precisa acontecer dentro de casa, o que mais importa para a lei criada em 2006 é a proximidade de vínculo afetivo com o agressor.

Hoje, a pena para agressores que se enquadram na Lei Maria da Penha é de três meses a três anos e aumentou a criação de delegacias especiais para mulheres.

Neste aspecto, a função da Delegacia da Mulher é a de prestar o melhor atendimento às vítimas de agressão moral ou física, aqui incluída a sexual, assegurando proteção à população vítima de violência doméstica.

A lei trouxe ainda diversas medidas protetivas para as vítimas que podem ser aplicadas antes mesmo do julgamento, ou seja, quanto antes toda esta situação for relatada e enfrentada melhor.

Importante destacar que as Delegacias Especiais de Atendimento à Mulher faz atendimento para qualquer pessoa e aceite ser encaminhada para os devidos procedimentos legais.

O que é e como funciona a medida protetiva:

1) Ao sofrer algum tipo de agressão do companheiro(a), a vítima deve registrar boletim de ocorrência e acionar a Lei Maria da Penha;

2) Atualmente por conta da pandemia, foi liberado o BO eletrônico também para casos de violência doméstica e isso facilita muito para as vítimas: o boletim eletrônico poder ser realizado através do https://www.delegaciaeletronica.policiacivil.sp.gov.br/ssp-de-cidadao/home;

3) Em 24 horas a juíza (juiz) emite decisão sobre a medida protetiva de urgência.

4) Entre as medidas constam: afastamento do lar, domicílio ou local de convivência com a ofendida; proibição de determinadas condutas, entre as quais: aproximação da ofendida, de seus familiares e das testemunhas, fixando o limite mínimo de distância entre estes e o agressor; contato com a ofendida, seus familiares e testemunhas por qualquer meio de comunicação; delimitação de perímetro a fim de preservar a integridade física e psicológica da vítima.

5) Em alguns casos o juiz (juíza) pode solicitar também o uso de tornozeleira eletrônica para o acusado e botão do pânico para a vítima.

A proteção pode ser solicitada em qualquer delegacia mais próxima, mas o ideal é que ela seja feita diretamente na Delegacia da Mulher.

A Central de Atendimento à Mulher – tel 180 – presta uma escuta e acolhida qualificada às mulheres em situação de violência.

O serviço registra e encaminha denúncias de violência contra a mulher aos órgão competentes, bem como reclamações, sugestões ou elogios sobre o funcionamento dos serviços de atendimento. O serviço também fornece informações sobre os direitos da mulher, como os locais de atendimento mais próximos e apropriados para cada caso: Casa da Mulher Brasileira, Centros de Referências, Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam), Defensorias Públicas, Núcleos Integrados de Atendimento às Mulheres, entre outros.

A ligação é gratuita e o serviço funciona 24 horas por dia, todos os dias da semana. São atendidas todas as pessoas que ligam relatando eventos de violência contra a mulher.

O Ligue 180 atende todo o território nacional e também pode ser acessado em outros 16 países.

Infelizmente, durante esta pandemia, no ano de 2020 situações relacionadas à violência doméstica aumentaram e toda e qualquer publicação e textos informativos são sempre importantes para que todos possam se orientar na tentativa de vencermos e não permitirmos tamanhos absurdos!

Ninguém merece sofrer violência doméstica, seja ela qual for!

Espero sinceramente ter ajudado, até qualquer outro texto!

[1]BRASIL. Lei nº 11.340, de 07 de agosto de 2006. Lei Maria da Penha. Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 07 de ago. 2006. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2004-2006/2006/lei/l11340.htm>;

Ana Carolina Roge Ferreira Grieco – Bela Urbana, advogada formada pela Pucc Campinas em 2000, atualmente atua no corpo de advogados do escritório Izique Chebabi Advogados Associados, site: chebabi.com.
e-mail: atendimento@chebabi.com . Empresária. Virginiana que ama jogar tênis e ficar com a família!

Como você é linda!
Foi assim que o relacionamento começou.
Já se passaram meses, e como ele é carinhoso!
Mig estava nas nuvens. Que homem incrível havia encontrado. Fiel, trabalhador, um eterno
romântico, sempre a elogiando, presenteando com chocolates e buquês de rosas vermelhas.
“A verdade é que ele a amava. Era intenso.”
Não demorou para as promessas de casamento começarem a lhe cobrir de esperanças, afinal,
Mig realizaria o sonho de constituir uma linda família, pois filhos também já tinham sido
cogitados.
Combinaram de sair, e Mig comprou um belo vestido, arrumando-se toda para agradar seu
amado. Pena ele não ter gostado tanto assim da sua produção, pedindo-lhe com todo carinho
que colocasse algo mais apropriado. “Que mal faria ela trocar sua roupa?” Jamais iria
contrariar seu agora quase noivo com uma bobagem dessa.
O tempo passou, e como ele se recusava a usar métodos contraceptivos (Mig entendia as
razões dele), não custou para que o primeiro filho chegasse.
“O casamento podia esperar”, disse ele.
Foram morar juntos.
Uma pena ele ser tão ocupado! Chegava todos os dias tarde, cansado sempre, não cuidava do
bebê, nem tampouco da casa.
Mig se desdobrava entre os afazares, o trabalho e a faculdade à noite, quando contava com a
ajuda de sua mãe e algumas amigas.
Mas essa situação ficou insustentável e, segundo ele, a faculdade podia esperar. Mig viu que
ele tinha razão. Trancou sua matrícula.
Outro ponto foi manter sua mãe e as amigas mais distantes, pois “viviam dando palpites e eles
acabavam sempre discutindo por isso”. Mig ficou triste, mas entendia as razões dele.
Estranho que ele andava nervoso, mas Mig sabia que era por conta do cansaço.
Passados alguns dias, todo carinhoso, sugeriu então que Mig largasse o emprego, pois assim
teria mais tempo e condições de cuidar dele e do bebê. Ela entendeu que ele estava fazendo
isso para o bem da família. E assim, pediu demissão.
Mas parecia que nada o agradava.
Até que um dia, sem mais nem menos, deu-lhe um tapa na cara, alegando que a comida não
estava quente. Ela chorou muito, mas não quis brigar.
Na manhã seguinte, ele pediu desculpas, chorou, implorou para que ela esquecesse aquele
triste momento. “Ele a amava e não faria de novo”. Claro que ela o perdoou.
Os episódios passaram a ser constantes… Descaso, humilhação, cobranças absurdas e muita
agressão física.

O pedido de perdão, com lágrimas e lamentos, tornou-se recorrente.
Mig não estava mais dando conta. Mas não tinha coragem nem força para tomar uma atitude,
inclusive porque não sabia o que fazer.
Mas o tempo a fez perceber que precisava terminar com ele, pois temia por seu filho também.
Foi aí que a tragédia aconteceu.
Por conta de não aceitar o fim do relacionamento, ele planejou o pior.
Esperou Mig dormir, jogou álcool sobre ela e ateou fogo.
Ela acordou em chamas. Com seus gritos de dor, uma vizinha conseguiu arrombar a porta e
socorrê-la.
Ele havia fugido para sempre.
Mig teve 80% do corpo queimado, seu rosto desfigurado e marcas psicológicas para sempre.
Precisou lutar pela vida.
Sobreviveu com garra! Hoje luta pela causa, para ajudar outras mulheres a não passarem pelo
que passou.


*Dados do DeltaFolha afirmam que “o Brasil registra 1 caso de agressão à mulher a cada 4
minutos.”
*Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “7 em cada 10 mulheres no planeta foram
ou serão violentadas em algum momento da vida”.
*Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, “a quantidade de
denúncias de violência contra as mulheres recebidas no canal 180 cresceu quase 40%
comparando o mês de abril de 2020 e 2019”. (saude.abril.com.br)

Disque 180. Denuncie. Vá até a Delegacia da Mulher (ou delegacia mais próxima) e preste
queixa.
Disque 190 – Polícia Militar para atuação emergencial.


Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

E ele chegou em minha casa e… Apertou a campainha e… Disse que estava com sede. (Aprendemos a não negar “pão e água”…). Então conhecendo-o abri o portão… e ele entrou.

Amigo da família… Seguiu-me sem precaução alguma. Até que entramos pela sala… Fechei a porta… Era amigo da família!

Fomos até a cozinha… O servi, e ficamos conversando… Notei a conversa mole! Mas, desgastada com a recente viuvez eu nem percebi, o olhar de cio, e de prazer ao manusear o copo, de água… Havia dito que estava com sede!

E, pasmei ao dirigi-lo para a sala. Estávamos conversando sobre o falecido marido, amigo íntimo dele. Quando abri a porta de saída? Ele me enlaçou pelas costas… EEEEEE… Eu?

Gastei meu vocabulário sobre todas as razões que tinha aberto o portão, para saciar a sede de um seleto amigo? Nem sempre é assim, e disso sei bem.

Raivosa fui indo direto para o portão… Ah! Abri-me com todos que pude, dado a fragilidade em que me encontrava. Até hoje, quando nos encontramos, vê-se a vergonha em seus olhos, e posso adiantar que quem ficou com vergonha, até de passar em minha porta foi ele, o assediador casado, que usou anos atrás a sede, para beber algo de difícil degustar.

Eu Joana.

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Ainda sobre espaços não ocupados ou gotas

que nem foram diluídas.

Sobre perder quase 18 quilos, vomitar as palavras ou

tampar os espelhos.

Sobre se recompor ou não…sobrepor um vestido neutro,

alisar os cabelos com os dedos, decantar a saúde aos

gestos.

Nenhuma bebida quente. Sim! Ela não bebia e ela não

bebe. Ela come as sobras e os restinhos. Quem se

importa?

A sociedade é como um gatilho, atira pra todos os lados, e

ela corre, engorda o que perdeu, perde o que nunca teve,

solicita nada. Ela nunca pede!

Recria os espaços, acolhe sua cria com a amplitude do

amor supremo e protege.

Solta os dedos, ajeita a louça, tempera os dias. Ela pagou

todas as contas, até aquelas que não eram suas.

Deita no silêncio, na incerteza e na faxina.

Não! Ela não é louca!

Ela é um vulcão, uma calmaria, um reflexo de quem

abusou…e ela tem horas que queria:

“Para de me maltratar, por favor, para!”.

Gritaria se fosse ouvida.

Mas,₢ um pouquinho.

A sorte é que seu dorso é um pedaço de ombro forte e ela

ama, ama a poesia.

Siomara Carlson – Bela urbana. Arte Educadora e Assistente Social. Pós-graduada em Arteterapia e Políticas Públicas. Ama cachorros, poesia e chocolate. @poesia.de.si

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Tivemos a mais linda história de amor. Nos conhecemos naquela véspera de ano novo, na praia, em 31 de dezembro de 2018. Nosso primeiro beijo foi à meia noite. Foi mágico.

Logo, você me pediu em namoro. Disse que estava apaixonado, que queria conhecer minha família e fazer parte de cada detalhe da minha vida.

No meu aniversário, em fevereiro, você apareceu na porta da minha casa com um buquê de rosas vermelhas, todos os ingredientes para um risoto e uma garrafa de vinho tinto. Você fez tudo, e nunca, nenhum homem tinha feito uma surpresa assim pra mim.

Aos domingos, íamos à casa de meus pais para o café da manhã. Lá, você jogava vídeo game com o Carlinhos, meu irmão mais novo. Conversava sobre política com meu pai, e insistia em lavar a louça para minha mãe.

Você disse que sentia falta de uma família assim na sua vida. Me disse que cresceu sem pai e com mãe ausente, e que eu e minha família éramos tudo que você tinha ali. Nós te acolhemos, e você soube nos cativar.

Depois de alguns meses, nos casamos. Fizemos uma pequena cerimônia e um churrasco de almoço com minha família e poucos amigos, meus e seus. No fim, eu nunca conheci sua mãe.

Em seus votos, você me disse que eu era a mulher da sua vida, aquela para ser mãe de seus filhos, e a quem você gostaria de envelhecer juntinho, segurando entre mãos enrugadas e macias de tantas histórias, nossas canecas amarelas com chá de hortelã, o nosso favorito.

Nos mudamos para meu apartamento logo após o casamento. Não tivemos lua de mel, pois a situação financeira não era das melhores. Mas isso não importava pra gente, nosso amor era maior que tudo.

Pouco tempo depois, engravidei. Era nosso sonho se tornando real! Foi aí que você me disse que não fazia mais sentido eu trabalhar fora, afinal, eu estava grávida, e quem cuidaria do bebê depois que nascesse? Eu tinha acabado de receber uma promoção no meu trabalho. Eu trabalhava no RH de uma pequena empresa, e gostava muito de lá, mas mesmo assim entendi que sua ideia fazia mais sentido, pois então eu poderia descansar mais na gravidez, e focar na limpeza da casa, no enxoval do bebê e na cozinha, afinal isso eram afazeres de mulheres. (palavras suas, não minhas). Acatei, pois enxerguei ali um cuidado que você queria ter comigo e com nosso filho.

Decidimos ainda não contar a ninguém sobre a gravidez, afinal estava no começo né? Antes eu tivesse falado.

Descobri no médico que eu tinha que tomar algumas precauções com a vinda do nosso filho. Era uma gravidez de baixo risco, mas ainda assim de risco.

Quando minhas amigas me chamavam pra sair, no começo, você pedia pra eu ficar te fazendo companhia, porque tava sempre com saudades. Depois que eu engravidei me disse que agora éramos uma família e não pegaria bem eu ficar andando com um bando de meninas solteiras por aí. Até achei isso bonitinho sabe? Esse seu cuidado comigo. Então um dia, minhas amigas finalmente se cansaram de mim.

Você começou a reclamar que eu estava gastando demais com comida, com o enxoval do bebê e disse que começaria a fazer hora extra no trabalho. Me imaginei tricotando pra fora para ter alguma renda, o que já era um sonho meu, mas você disse que não. Que eu devia focar na gravidez, na limpeza da casa, nas nossas refeições. Tudo bem então.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Você passou a chegar cada vez mais tarde em casa. Disse que era o trabalho, o chefe. Mas comecei a sentir seu hálito de álcool. Um dia que você chegou bêbado e foi direto pra cama, encontrei marcas de batom vermelho pelo seu corpo. Clichê né? Aquilo doeu, como se uma faca tivesse pulsado em meu coração.

Guardei pra mim. Chorei no banho. E a vida continuou. Entendi que aquilo era sua maneira de escapar, afinal não podíamos transar por causa da gravidez de risco que eu tinha, e por isso você teve que buscar isso fora de casa. Eu compreendi depois de um tempo e aceitei. Era temporário, e eu sempre seria aquela que você amaria. Com as outras era só sexo. Tudo bem então.

Noitadas esporádicas se tornaram rotina, e o cheiro de álcool impregnava o quarto. Era cada vez mais difícil te entender e sentir aquele cheiro sem ir vomitar no banheiro. Não sei mais se eu vomitava pelo enjoo da gravidez, ou pela mágoa do que você estava fazendo comigo. Ainda assim, decidi ficar quieta. Eu não queria brigar com você. Eu ainda te amava, e você era o pai do filho que eu carregava no ventre. Não te contei, mas era um menino.

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Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Uma noite você chegou pior do que das outras. Chegou quebrando tudo. Estava muito nervoso. Você gritava comigo. Disse que não tinha comido nenhuma puta naquela noite, e então só restava eu. Eu disse que não, te implorei, disse que ia perder o bebê. Você nem me ouviu. Me jogou no chão, e com uma faca em meu pescoço me obrigou a ficar de quatro. Você me machucou. Machucou meu corpo, machucou minha alma, e me largou ali no chão como se eu fosse um nada pra você. Eu perdi o nosso filho naquela noite.

Desde então, a vida perdeu o sentido para mim. Nada mais me importava. Você chegava em casa e me batia. Um dia era porque o jantar não estava na mesa, o outro era porque o arroz estava muito salgado. Você me batia, pois dizia que eu era a responsável por ter perdido o nosso filho. Você me estuprava porque dizia que eu tinha obrigação de engravidar de novo.

Eu não resistia. Eu tinha vergonha. Eu tinha culpa do que tinha feito com a gente, do que tinha feito com a minha vida. Na verdade, eu nem sei o que eu tinha feito. Eu me escondia dos vizinhos, e da minha própria família. A cada final de semana, inventava uma desculpa. Dizia que estávamos sempre a viajar. Até que minha mãe descobriu.

Ela bateu na porta de casa um dia, e me encontrou. Marcas roxas pelo corpo, rosto esfolado. Eu já não era mais eu há muito tempo.

Ela quis me levar embora, mas eu não fui. Eu já tinha tudo planejado.

Eu não sei quando tudo mudou, quando a gente mudou. Quando eu mudei.

Desculpa mãe, desculpa pai, desculpa Carlinhos por não ter sido a filha e irmã forte que vocês queriam que eu tivesse sido. Perdão por ter me tornado cega de amor. Perdão por não ter escutado a vocês enquanto era tempo.

Esta manta é a lembrança do neto que vocês nunca chegaram a saber que existiu. Não contei a vocês, mas era um menino. Ela é azul, assim como a minha manta de quando eu era bebê.

Agora é tarde, e eu já não consigo mais viver com a culpa do que aconteceu na minha vida. Eu o matei. O matei por ter me tirado a alma, e ter me deixado só com o corpo. O matei por ter tirado à força de mim meu bem mais amado. O matei pelas tantas outras mulheres que descobri depois que ele violentou e enganou.

Não quero que chorem, pois estarei melhor pra onde quer que eu vá.

E eu me vou despida de bens, despida de amor, despida de medo, com o alívio de não ter que viver mais essa vida. Eu o matei a punhaladas, e cada punhalada foi por uma mulher que ele fez sofrer. Foram dez.

Ariela Maier – Bela urbanas, uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Eu e ele

Eu sou lua e ele é terra

Eu gosto de sal e ele de açúcar

Eu sinto o frio e ele calor

Eu gosto de comer vegetais e ele de comer animais

Ele metódico, eu livre

Ele é touro e eu áries

Ele mais preocupado com finanças, eu menos….diria…bem menos

Eu emoção, ele razão

Eu riso solto e ele preso

Ele exatas e eu humanas

Eu verão, ele inverno

Eu praia e ele montanha

Eu bagunça e ele organização 

Desafiamos todas as probabilidade e expecativas, dos inimigos  claro,  de que não daria certo…

Aqui estamos! 41 anos juntos

Uma vida vivida em companhia do diferente

Desafio? 

Aceitação?

Tolerância? 

Não, amor. Pra mim, o verdadeiro. 

Prova de que Amar só se define com veracidade quando para isso temos que: somar, respeitar e aceitar. 

Sorte?

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Bela Urbana, 54 anos, casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “


No trabalho as relações são as mais bem definidas. As funções, obrigações e interesses de cada um estão pré-estabelecidos e essa simbiose de interesses precisa ser saudável. Nem empregados nem empregadores estão prestando favores uns aos outros. É necessário que essa interdependência seja óbvia. Abusos e excessos de qualquer uma das partes prejudicam direta e instantaneamente a saúde da empresa. Empresa esta, que provê todos interesses de cada parte. Sejam eles financeiros, profissionais, ou qualquer tipo de crescimento esperado.

Na família o laço é eterno. Talvez seja o plano onde se cometam alguns abusos, por haver um vínculo compulsório e indestrutível. Às vezes não há simbiose, às vezes nem existem interesses em comum. De toda forma, acredito eu, que por algum motivo fomos inseridos em nossos contextos familiares. E na maior parte das vezes é na relação entre pais e filhos que a criança tem o primeiro contato com a construção de um relacionamento. Portanto as promessas feitas nunca deveriam ser descumpridas. Sejam elas de gratificações, sejam elas de punições. Pois é nessa fase da vida que se aprende o valor do respeito e da palavra.

A amizade é a mais singela de todas as relações, pois é onde não há uma simbiose. É onde não existem interesses. É onde se desenvolve a capacidade do bem querer por alguém que você não tem vínculos nem obrigações. São pessoas que se divertem juntas, compartilham bons momentos, trocam experiências e conhecimentos, dividem alegrias e tristezas. O sentimento genuíno da amizade é altruísta pois é absolutamente desinteressado. É, portanto, um vínculo extremamente raro.

O amor romântico? Sim ele existe. Existe entre pessoas que antes do “I love you”, são capazes de dizer “I see you”. O I love you é egoísta. Refere-se aos próprios sentimentos.  O I see you demonstra a capacidade de enxergar as necessidades do outro. Esse tipo de relacionamento não é desinteressado. As trocas são necessárias. A espiritualidade e os objetivos de vida precisam ser compatíveis. Deve haver sintonia na maneira de enxergar o mundo e os relacionamentos. E quais são os interesses? Ah… são os mais carnais e mundanos que existem. 

Mas seja qual for o tipo de relacionamento, eles são sagrados. E podem se quebrar.

Uma vez quebrados, partem-se em muitos pedaços que podem até ser colados, podem até voltar às suas formas. Mas as marcas serão eternas.  

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Próximo beijo será pra “ele”. Ele que um dia neguei muitos beijos. Ele que mesmo depois de anos de casados gostava de longos beijos.

Dizia que “o beijo aquece o amor que esta esfriando”. Por cinco anos ficamos ausentes um do outro, partiu e acreditando ser o fim buscou uma outra boca.

Fiquei sozinha gostando da pausa, da frieza, correndo na labuta, numa luta por viver… cinco anos … De vez em quando sonhos com beijos, beijos roubados, beijos consentidos… mas sonhados, não vivenciados. Vem a saudade, da boca de hálito puro, mesmo na manhã ainda no leito.

Vem a lembrança dos beijinhos terminados em mordidinhas nos lábios que pareciam esticar como chicletes numa provocação para outros beijos. A saudade daqueles beijos, foi chegando, se instalando, se firmando e agora?

Bora correr atrás daquela boca que depois de uma boa conversa diz também sentir saudades da minha. Confessa que enquanto outra boca beijava era a minha que ansiava… Bora buscar sua boca em minha boca e nunca mais desgrudar!

O próximo beijo, será pra ele, pois nunca foi de mais ninguém!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, 52 anos, divorciada, mãe de duas filhas, uma de 25 e outra de 17, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.