Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Um dia desses, após uma caminhada com meu amigo no bairro, coloquei a mão no bolso e percebi que meu celular não estava, assim que isso ocorreu voltamos imediatamente todo o trajeto que tínhamos feito, olhando para o chão, ligando para o celular e nada! O celular havia sumido, não estava no bolso, na rua e nem no terreno que havíamos entrado, ligávamos para o número e ninguém atendia.

Assim que minha mãe chegou em casa, fizemos o mesmo trajeto novamente, olhando para o chão, ligando para o celular etc., o celular tocava mas nada acontecia. Após isso, já tinha desistido e achava que nunca mais o veria de novo, fiquei muito triste pois ali estavam, muitas fotos e arquivos importantes, porém…

Quando voltamos para casa, recebi uma foto no meu e-mail com a cara de uma estranha que estava com meu celular e sua localização, por conta de um aplicativo, toda vez que alguém tentava desbloqueá-lo e não conseguia, eu recebia um e-mail com a foto da pessoa e a localização do telefone, em questão de minutos eu já sabia quem tinha achado meu celular, qual era a casa da pessoa e quem era o filho dela, ao longo da noite recebi mais de vinte e-mails com fotos da cara dela e sua localização.

Nós ligávamos e ligávamos mas ela não atendia, percebemos que ela estava agindo de má fé, eu queria ir logo na casa dela e pegar meu celular de volta mas minha mãe resolveu fazer um boletim de ocorrência, estávamos prestes a enviar uma viatura na casa da mulher. Quando ela finalmente percebeu que não ia conseguir desbloquear o celular, resolveu atendê-lo, era meu amigo ligando, conversou com ela e ela decidiu devolver o celular no dia seguinte, a mulher trabalhava no condomínio que fica na frente ao meu. Por isso, pense bem antes de fazer algo errado, você está sendo observado em todo canto.

Pedro de Andrade Nogueira -Belo Urbano. Filho do meio. Estudante do ensino médio. Gosta de assistir séries, sair com seus amigos, viajar e ir para o clube.

Desde a Antiguidade, os últimos dois anos foram os anos com a maior produção e volume de  conteúdo que se tem notícia na Humanidade. Parte desse conteúdo graças aos grandes influenciadores existentes no mundo digital. Jovens ou não tão jovens, mas, com mente e espírito voltados para redes sociais. Ah! suas ações estão “bombando”. Esses influenciadores ganharam em menos de cinco anos “zilhões” de seguidores. Com suas pautas voltadas para  agradar ou desagradar em emoções seus expectadores, os quais, via digital estão presentes em todo Planeta.  A primeira pergunta socrática: esses influenciadores têm capacidade e conhecimentos científicos para modificarem o pensamento da pessoa que o segue, da família dessa pessoa e da empresa empregadora que serve todos eles no longo prazo?

Desde Sócrates e Aristóteles  e outras centenas de famosos, se tornaram influenciadores equidistantes da grande e filosófica Grécia. Existem também  “zilhões” de outros influenciadores que não fazem parte das redes sociais. Suas influências estão baseadas em conhecimentos científicos a partir de experiência própria, bacharelados, mestrados e doutorados e suas frequentes publicações e atualizações complementares. A veracidade desses “zilhões” se comprovam em suas comunicações e informações cientificas. Esses influenciadores estão sempre ao lado desses fabulosos jovens ou não tão jovem, porém, infelizmente,  não são seguidos.  Talvez, esses influenciadores não tenham tanto “glamour”, beleza, brilhos nos olhos, nos lábios e cabelos coloridos e sequer tenham tempo de utilizar seus celulares para serem vistos, idealizados e adorados por seguidores. A culpa é deles mesmo. O problema está nos nomes que adotaram, nomes surrados, sem graça, sem fama, que existem em toda parte. São chamados de pai, mãe, professor, empregador, entregador, limpador, carregador de lixo, empregada doméstica, enfim, seres comuns que passam o dia inteiro preocupados em servir seguidores de “famosos”.

Essas pessoas que adotaram esses nomes sem graça, vivem lutando para que sua MARCA que é pública, sobreviva diariamente seus cinco mundos diferentes: pessoal, social, conjugal, familiar e profissional. Tomam decisões observando  cinco variedades humanas, entendendo que cada uma é possuidora e seus SFFR (sinais fracos fora da realidade). Assim, basta que algum  seguidor de famosos dê um “leve” espirro, para que  seus pais fiquem alertas por um tempo, observando se o “espirro” vai se transformar em gripe, febre ou alguma doença mais grave.

Diante de notas absolutamente baixas depois de uma prova, um outro não famoso cognominado de professor, se preocupa em mudar seu método de ensino para que os seguidores de famosos se desenvolvam cognitivamente. Seguidores de famosos se desempregados, buscam no mercado uma oportunidade. Assim, todo final de mês terá um salário para sobreviver. Compram com esse salário um celular, com câmara poderosa para postarem reuniões entre amigos. Todos se divertindo e aproveitando essas reuniões para falar mal daquele ser desprezível com nome quase demoníaco: o empregador.

Aristóteles citado no título, não foi seguido pelos seus pares. Dessa forma não pode ser o escolhido de Platão para ser seu sucessor na Academia Ateniense. Alegaram seus não seguidores que Aristóteles por não ter nascido em Atenas (mesmo sendo grego) não era digno de suceder a Platão. O grande mestre filósofo ficou desempregado. Uma dessas de nome surrado chamada de “mãe” empregou Aristóteles para educar seu filho Alexandre. Esse professor fez daquele filho, daquela mãe, um famoso que o mundo o nominou de Alexandre o Grande. Os ensinamento todos os quatro citados nesse texto, tem seguidores desde 400 a.C. Espero que aconteça o mesmo com os “famosos” do aqui agora. Ah! A mídia daquela época está totalmente fora de moda nos dias de hoje: a escrita. Que se transformou em outro “absurdo” denominado de livro. Ops, lapso meu: e-book!

L.C. Bocatto– Belo Urbano. Diretor do Instituto IFEM – Instituto da Família Empresária
Criador da Ferramenta de Análise Científica Individual e Familiar. Formações – Mestre em Comunicação e Mercado, MBA em Controladoria, Contador, Psicanalista Terapeuta com foco em famílias e indivíduo com problemas Econômicos (perda de riquezas) e Financeiros (saldos negativos de caixa)

Quando tenho dúvida na matéria
Ele me dá as respostas
Quando não sei o clima
Ele me mostra
Quando tenho saudades da minha amiga
Ele me leva até ela
Quando escrevo um texto novo
Ele o transporta a todos os meus conhecidos

Quando tenho outras coisas a fazer
Ele me prende
Quando quero dormir
Ele não me deixa
Quando quero privacidade
Ele não me dá
Até quando quero ficar sozinha
Ele está lá comigo

Quando olho para os lados
Mesmo sozinhos
Estão todos acompanhados
Quando saio de casa sem ele
Volto buscar
Ou fico sozinha de verdade
Me sinto ansiosa
E parece que falta uma parte de mim
Parece que deixei
Meu pai meu namorado todos os meus amigos
Em casa
Que não me importo com eles

Eu posso reportar cada segundo do meu dia
E mesmo que ninguém me cobre disso
Sinto que o dia não é completo se não o faço
Como se esse dia nem tivesse sido
Porque não foi divido com ninguém

Não sei como faziam antes dele
Como se combinava de sair juntos?
Como se conhecia gente nova?
Como se sabia o número de todo mundo?
Como se pedia para o pai ir buscar?
Como se guardavam as memórias?
Como se trazia comida?
Como se mostrava aos outros?
Como se fazia para alguém se interessar?

Não sei se preciso
Mas também não posso dizer que não
Não sei
Só sei
Que não vivo sem

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU.

Muitos anos atrás, não existiam celulares, sequer a internet. As pessoas tinham que andar quilômetros de distância, ou mandar uma carta, se queriam conversar com alguém. Elas tinham que ir às bibliotecas para achar alguma informação. Poderíamos ficar muito tempo contando o que os nossos ancestrais tinham que fazer sem a existência da tecnologia, mas a verdade é que, eu não sei o que é isso, “um mundo sem tecnologia”, não sei mandar cartas, não sei a sensação de ficar anos sem ver um parente distante, não sei como foi nada disso, por isso, eu não vim escrever como era antes, mas eu vim aqui para contar a minha visão sobre a nova era da humanidade, a era em que eu nasci: em um mundo repleto de informações e tecnologias.

Eu posso dizer que cresci junto com os celulares, e é incrível ver como eles evoluíram em pouco tempo, a curva de evolução só tem aumentado até hoje, e para ser sincero não faço ideia de até onde isso vai. Viver “junto” a esses celulares virou algo normal para nós, podemos ficar horas sem cansar nesses aparelhos, pois a quantidade de informações e funções que eles oferecem é extremamente impossível de se calcular, pois a cada dia uma nova funcionalidade aparece. As grandes empresas do mundo todo, são, praticamente focadas em tecnologia, senão, envolve-a. Os mecanismos de pesquisa são muito úteis hoje em dia, eu praticamente devo realizar mais de dez buscas no dia pelos assuntos que me interessam, e constantemente estou baixando novos aplicativos com as mais diversas funcionalidades.

As coisas que se tornaram possíveis graças as tecnologias e a internet são infinitas, eu convivo com tudo isso como se fosse algo normal, mas não deixo de imaginar como seria viver sem elas, ou como as pessoas que nasceram sem isso se sentem a respeito. Toda essa era uniu grandes personalidades do mundo inteiro, a internet encurtou distâncias, e está em constante mutação, e faz parte da minha vida, é algo muito importante para mim, por mais que a internet tenha trazido coisas ruins, ela também trouxe coisas boas, junto aos celulares e tudo que eles proporcionaram. E essa é minha visão geral da tecnologia: algo que mudou o mundo no passado, e algo que ajuda e melhorar nosso futuro.

Danilo Vicentin – Belo Urbano, estudante do nono ano, gosta de escrever histórias, desenhar, andar de bicicleta e de jogos digitais.

Viajei pela Nova Zelândia por aproximadamente 20 dias no final de 2017. Era meu período de férias de final de intercâmbio na Austrália.

Não fui sozinha. Fui com um namorado que tinha conhecido na Austrália. Ele era alemão.

Não sei se você sabe, mas alemão (ou pelo menos a maioria) ama uma trilha. Não qualquer uma, não uma curtinha de uma ou duas horinhas, as longas são as preferidas.

Uma brasileira tinha me contado que esse passeio, o Tongariro, era imperdível e de boas para quem nunca tinha feito trilha longa que nem eu. Esse monte fica na ilha norte da Nova Zelândia e possui três vulcões ainda ativos, sendo que a última erupção foi em 2012. Um desses vulcões interpretou Mordor e Emyn Muil na trilogia do Senhor dos Anéis, e como leitora do livro e fã dos filmes, claro que eu queria visitar né?

20 quilômetros me pareciam ok, afinal, estava acostumada a andar mais ou menos isso por dia enquanto viajava.

Preparamos várias marmitas e lanchinhos um dia antes, afinal chegaríamos as 6 da manhã e terminaríamos lá pelas 3 ou 4 da tarde a nossa “caminhada”.

Chegamos animados, conversando, e tirando fotos de toda aquela belezura, uma paisagem tão distinta de tudo que já tinha visto. Acontece que eu nunca tinha passado mais de duas horas fazendo trilha na vida, e veja bem, isso não era bem uma trilha de boas como me contaram, e sim a escalada de um vulcão até o topo, lembrando que eu tinha que descer tudo de volta também. Eram então dez quilômetros subindo e dez quilômetros descendo. Esse era o chamado Tongariro Alpine Crossing.

Eu era lerda, muito lerda. E meu namorado, bom, mais fit e acostumado a tudo isso era bem mais rápido do que eu. Em vários momentos falei que ele podia ir na frente sem mim, eu o alcançaria. Ele estava com meu celular e eu com minha câmera.

Parecia que o topo nunca chegava. Caminhei, caminhei, caminhei. Vi restos de neve ao longe (pela primeira vez na vida), subi algumas partes me agarrando a correntes. Sentei em pedras, tirei meus tênis e derramei de dentro deles aquela areia vulcânica como se tivesse enterrado meus pés por lá. Mas aquela monocromia cinza já estava me cansando um pouco, afinal, onde estava todo aquele glamour do Senhor dos Anéis?

Eu e meu namorado não combinamos de ele me esperar em lugares específicos. No começo, ele me esperava mais, perguntava se estava bem e seguia só depois de eu pedir para ele ir em frente. Depois de perceber que eu sempre estava bem, quando chegava perto, ele já desandava a avançar de novo. Acontece que eu tinha certeza que era mais do que óbvio que ele me esperaria no topo né? Só que ele não esperou. Esse abominável ser chegou no topo já descendo a bendita da montanha. Não deu nem tempo de gritar. Fiquei em choque, lá em cima, só observando ele praticamente correr ladeira abaixo, indo embora com meu celular e com meu possível sonho de qualquer selfie.

A vista dava para um lago de águas verdes lindo demais, e eu queria fotos com ele do meu lado e essa vista. Queria selfies com meu celular. E o sonho se foi, perdido, se tornando uma utopia da escalada do Tongariro.

Pelo menos eu tinha minha câmera, e ainda aturdida, pedi para um estranho tirar fotos minhas com ela. Ainda bem que ficaram boas, pois seria minha única recordação e prova de que cheguei ao cume.

Fumegando de raiva, tentei respirar fundo e aproveitar a paisagem. Depois de tentar me acalmar o suficiente, segui caminho. Fui descendo, e nossa, como era difícil. Aquela areia cinza vulcânica era muito fofa, a descida muito íngreme e a impressão que eu tinha era que eu poderia sair rolando a qualquer minuto. Uma alma caridosa percebeu a minha dificuldade e me avisou para eu descer andando de lado, tipo um caranguejo. Foi muito melhor assim. De qualquer maneira, meu pé afundava cada vez mais, e meu tênis antes amarelo virou cinza carbono.

Já ao longe comecei a ver aquele pontinho amarelo neon: meu namorado.

Me concentrei em terminar a descida sem passar vergonha, e fui direto a ele perguntar o porquê não tinha me esperado lá em cima, pois queria ter tirado fotos com ele e com meu celular. Foi um ataque digno de um mini cão raivoso. Não dei tempo para respostas. Estava fula da vida. Continuei minha caminhada andando cada vez mais rápido e deixando ele pra trás. Não queria papo.

Só que ele tinha a mochila da comida. E mais cedo ou mais tarde eu teria que parar e esperá-lo, pois meu estômago já estava começando a reclamar.

Parei em umas pedras e aguardei. Lá vinha ele, novamente. Parecia assustado, afinal até então ele nunca tinha presenciado meu ataque de mini Pinscher. Exigi minha refeição e sentei para comer. Depois me senti mais calma para conversar sobre o que tinha acontecido e o que eu não tinha gostado.

Tudo bem que não fui a pessoa mais bem humorada na descida. Aquele caminho parecia infinito e não havia tempo para descanso, se não perigava de ficarmos sem ônibus.

Finalmente, chegamos. E a melhor sensação foi ter sentado naquele ônibus para voltar e escutar ele dizendo: “Pronto, acabou. Está tudo bem agora.”

No hostel, a alegria de um banho quente, uma cama grande e uma pizza me trouxeram de volta à feliz normalidade.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

O despertador toca! De novo parece tanto pouco tempo de sono. Cheguei do trabalho pra lá das onze, tomei um banho, as vitaminas, pulei pra cama, não consegui dormir.

Coloquei a nova série no Netflix e lá pelo terceiro episódio cheguei à conclusão que era melhor desligar a TV.

Novamente o despertador toca, passados cinco minutos da primeira vez. Sento na cama, desligo o aparelho. Esfrego os olhos, me espreguiço e bora viver mais um dia. Saio da cama exausta, mas acima de tudo feliz.

Minha rotina é não ter rotina no trabalho, mas trabalhar muito. Como tantas outras “Belas Urbanas”, mulheres modernas, multitarefas, que não abrem mão de viver intensamente, buscar o prazer da vida, mas que sempre têm um senso aguçado de responsabilidade. Bom, no meu caso, aguçado demais quando o assunto é trabalho.

Há mais de 10 anos achei o “nicho” de mercado que amo. Passei por maus bocados longe dele, não por questões profissionais, mas desejos pessoais. Então, trabalhar por horas a fio, correr, me descabelar e às vezes chorar de frustração (quando as coisas teimam em não sair do meu jeito, o que não significa estarem necessariamente erradas), ou seja, tudo o que faz parte de um dia-a-dia feliz e realizado.

Me arrumo, entro no meu carro, pego um trânsito de leve, chego ao trabalho. Cumpro uma agenda bagunçada, pois organização nunca foi muito meu forte. Às vezes, me esqueço de ir ao banheiro, de tomar água e até de comer. Há pouco tempo entendi que pelo menos uma refeição deve ser feita direito. Isso não significa que consiga sentar com calma, desligar do celular e comer. Isso significa apenas não comer lanche de fast food toda terça-feira ou me e entupir de pastel porque “sou magra e posso”. Me tornei adepta de comidas mais leves, estou tentando não matar aula de pilates e yoga toda semana, ando me esquecendo da meditação com frequência. Novamente, coisa de mulher moderna.

Reclamo do pouco tempo para os amigos, pois meus horários são malucos, mas não me esqueço dos verdadeiros nem por um dia. Sigo na rotina maluca que escolhi (sim é uma questão de escolha consciente). Parei de fumar, de tomar Coca Cola, diminui o café. Ainda não aprendi a desligar o celular ou a não responder mensagens imediatamente.

Dia desses sofri um acidente grave, assustei. Sabe aquela cena de filme que o carro desliza na estrada desgovernado e a vida da personagem principal passa em flashes? Pois é, vivi isso. Fiquei sensível, chorei e cheguei à conclusão de que era hora de parar e repensar a vida. Pois tudo aqui nesse plano é muito rápido e passageiro. O fiz. Sozinha, na terapia e com as confidentes. E a conclusão a qual cheguei é simples: corro feito louca, às vezes me esqueço de mim mesma, me privo de algumas coisas, mas, sou sim extremamente feliz. Escolhi a vida que escolhi baseada em uma única coisa: o amor. Amor pelas pessoas e pela profissão.

Às vezes, sim, é difícil arrumar um tempo para sonhar nessa rotina acelerada. Mas meus sonhos estão todos comigo: o trabalho, as pessoas, as paixões que me movem, o feriado na praia, os domingos com os sobrinhos, os alongamentos e força para do pilates. Meu maior erro – até o tal acidente de carro e as tais reflexões – era achar que o futuro e os sonhos tinham que ser grandiosos, regrados, estudados e roteirizados. Os meus sonhos e o meu futuro estão todos aqui, nas pequenas coisas que realmente me completam, impulsionados, vividos ao extremo nessa rotina estafante e acelerada, que me faz brigar com o despertador toda manhã.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

 

O mês de agosto chegou anunciando mudanças. Trouxe para mim, além do vento, uma carga de energia pulsante sobre minha cabeça e meu corpo. Tudo era muito denso e ao mesmo tempo ecos de pedidos de socorro soavam em meus ouvidos. Logo eu, que me vejo assim em fragmentos e tantas vezes recorro ao escudo da coragem, sou agora destinatária de alguém que pede a mim um alívio, um refúgio.

Uma missão.

Pois bem, como nada é por acaso nesta vida, estava agora diante do apelo de alguém especial. Sabe o que é não ter e ter que ter pra dar? Eu achava que não tinha nada e quando vi, eu era um tudo que faria um bem. Eu era colo, eu era escuta, eu era um leito suave e cheiroso.

O que posso fazer? Por que eu? Não cabe respostas, apenas gratidão por esse momento ímpar que vivi naquele dia. Difícil explicar a sensação mágica que tomou conta de mim.

Mas minha missão não terminaria ali. Outros alguéns, cada um ocupando um lugar na minha régua de afetos, cruzaram meu caminho. Mais uma vez eu pude entregar e receber sem nada pedir.

Quando imaginei que tivesse terminado, doado de mim todo o esperado e  desprendido minha energia mais pura, eis que aparece Pedro (nome fictício), trazido pelo vento de uma fria noite de agosto. Um cuidador de carros com uma história nada simples.

Pedro, um cara jovem, negro, trinta e poucos anos se aproxima e pede 10 reais como recompensa por ter olhado o carro, enquanto eu me divertia tentando me livrar da carga de uma pesada semana. Como não tinha um centavo, começamos a bater um papo. E foi ali que novamente aquela energia retornou e me vi diante de um novo apelo.

Pedro começou sua história, nada simples, dizendo ter 5 filhos. – Todos homens! (falou isso com um certo orgulho!) e de três mulheres diferentes! Com um ar de indignação ele logo soltou: – Duas dessas mulheres estão na justiça brigando por pensão. Como eu faço? Você precisa ver como o mais novo é “parrudinho”!, disse Pedro com um sorriso entre os dentes.

Pedro não tinha emprego. Pedro não terminou o segundo grau. Pedro, além de pai de 5 filhos ficou 15 anos preso na Penitenciária de Presidente Venceslau. Motivo: tráfico e assalto a banco. Não posso negar que nesse momento me bateu uma vontade louca de sair correndo. Medo! Estava conversando com alguém que oferecia riscos?

Mas Pedro tinha uma necessidade enorme em contar sua vida e esperava desesperadamente por conselhos positivos. Dava pra sentir em seus olhos. Ele ouvia cada palavra minha com atenção… respirava, pensava, concordava, às vezes desistia logo em seguida dizendo que não daria certo e que seu fim era voltar pra aquele lugar obscuro e sem perspectiva de vida.

Pedro dizia: – Sabe esse negócio de celular com whatsApp? Eu não sei o que é isso!!! Eu usava o celular para arrumar mulher quando tava trancado! Por isso tenho 5 filhos hoje!

A conversa com Pedro durou uns 15 minutos. Um tempo incompreensível.

E quando terminou, sem me cobrar os 10 reais, Pedro, o cara jovem, negro, de trinta e poucos anos, que passou 15 anos trancado, olha nos meus olhos e diz:

– Olha aí, obrigado pela conversa viu! Eu nunca tive um papo assim com ninguém. Nem com meus “parças” lá do bairro.

E foi assim que os 15 anos trancados de Pedro me soaram como 15 longos minutos de gratidão.

E gratidão pelo quê?

Pelo encontro com alguém que o vento frio de Agosto me trouxe.

Cris Saad – Bela Urbana, professora universitária, publicitária, fã do vento, da lua e do acaso. Apaixonada por música e dança, enfim apaixonada pela liberdade, pela loucura do movimento e o gozo do encontro.