Poderia eu escrever sobre hoje, ontem ou há quase 60 anos, daria na mesma.

Continuo sendo aquela criança que gosta de brincar, correr, rir, xingar, amar, brigar, descobrir, desenhar, pintar, criar…

A mesma que adora refrigerantes e chocolate, claro, hoje com um pouco de álcool.

Não mudei muito, apenas continuo um adolescente, mas experiente em algumas poucas coisas, lógico, porque as que não sabemos e nunca fizemos são as melhores a se fazer.

Enfim, nesse tempo que não existe, continuo procurando aquilo que não conheço, arriscando nelas, as novidades, pelo menos para essa criança, porque tempo e espaço não existem mesmo, são apenas ilusão de um ser humano que infelizmente foi predestinado a acreditar em começo, meio e fim….que bobagem isso.

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

foto: Mauro Soares

Combinei com minha amiga que escreverá a história da minha vida como artista, mas como começar?

 Qual trecho seria interessante pra esse começo além do nascimento?

 Começar é igual uma tela em branco, sempre difícil e assustadora para muitos, ou uma fantástica aventura, um desafio, uma nova possibilidade para tantos outros. Pra mim por exemplo…

 Adoro essas novas possibilidades e desafios, elas me aguardam na minha intensa vontade de começar algo novo, diferente sempre, repleto de incertezas, tensões, frio na espinha, pensamentos, criação, …e aqui vamos nós nesse mais novo desafio, contar a história da minha vida enquanto vivo, ao menos por aqui.

 “Pinceladas de uma vida”

 Auto biografia de Mauro Soares, apenas um simples artista.

 Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

foto: Mauro Soares

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Naquele 1º de abril, antes de amanhecer o dia e já acordada, ela se dá conta da mudança que ela enfrentará naquele mês. Seria impossível terminar abril como começava…

Olhando-se no espelho depois de lavar o rosto, ela avalia quem está lá olhando para ela. Os mesmos olhos, a pele meio marcada do travesseiro… No geral, gosta do que vê, não resiste e sopra um beijo ligeiro.

Enquanto o aroma de café inunda a cozinha, pensa e pensa, não veria o jornal da manhã na tv hoje e do jornal impresso, só olharia a charge do Dálcio e talvez a página de Cultura. O mundo dela se agitava e o mundo se agitava. Desafios que ela enfrentaria seriam bem-vindos, mesmo sendo fontes de grande ansiedade. O que tivesse que ser seria e ela faria o seu melhor para que o resultado fosse positivo, seja lá qual fosse. Seria Bom.

Mas o mundo lá fora estava dividido entre nós e eles, com articuladores criando discórdia… Aquilo certamente levaria a algum extremo que nem era bom pensar. Aliás, pensar era algo complicado em épocas de ânimos acirrados e turbas descontroladas. Faltava bom-senso e sobravam rótulos.

No caminho para o trabalho, ela se indaga quando aquilo ferveria de fato. Mas, por algum motivo estranho, o que seus olhos veem são outras coisas.

Um carro quebra, atrapalhando o trânsito. Ninguém xinga. Um moço, de bicicleta, para e ajuda a tirar o carro da via, alguém pode ser elite, alguém pode ser plebe, mas naquele momento são amigos desconhecidos, ajudando-se, apertando as mãos e sorrindo. Ela sorri também.

Mais adiante, uma filha tenta atravessar a rua com seu pai idoso, alguns carros param e esperam pacientemente aquele senhor, de pernas frágeis, alcançar a calçada do outro lado. Ninguém buzina nem faz cara feia. Alguns devem ser coxinhas, outros esquerdopatas, nunca saberia.

A moça lhe entrega o jornal Metro no semáforo, sorri e lhe deseja bom-dia.

Alguém segura o elevador, alguém dá licença, ninguém espera nada em troca. Pessoas que se organizam para tornar as suas vidas e as dos outros mais fluída… Independente de idade, cor, religião, visão política, gênero ou orientação sexual. Gentileza gerando gentileza num círculo sem fim.

Só que teria fim e seria antes do fim de abril. Aquelas mesmas pessoas urgiam por mudanças e se enfrentariam, xingariam e rotulariam uns aos outros, independente do desdobrar dos acontecimentos.

Mas hoje é 1º de abril e ela escolhe viver a verdade daquele momento bom, início de um novo ciclo.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

 

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A primeira vez que eles se encontraram foi no portão do colégio, no final da aula, e como moravam perto um do outro, caminharam juntos. Um mês depois ele a pediu em namoro, ela aceitou. Namoravam ainda na formatura do colegial e durante a faculdade.

Quando se formaram, já moravam juntos e começaram a planejar o casamento, para assim que tivessem estabilidade de empregos. Em algum momento cada um conseguiu uma carreira promissora. Ele comentou que deveriam repensar depois que os filhos chegassem. Ela comentou que não pensava em ter filhos, na verdade, não queria ser mãe, queria fazer carreira na su área, que ela amava. Ele ficou devastado, sempre quisera ser pai.

Após conversarem durante a noite mais longa de suas vidas, cada um seguiu um rumo diferente. Era a hora do adeus e do recomeço.

Dois anos se passaram e ele se casou, assim ela ouviu dizer. Ela se mudou para o exterior, a trabalho e sua carreira prosperava, assim os amigos contaram a ele.

Dez anos depois ele vivia feliz com a esposa e tinha dois filhos… Ela vivia feliz com o companheiro em algum lugar além-mar.

Mais anos se passaram e ele se separou, o casamento acabou, por nada, apenas era morno e era melhor assim… Ela decidiu que era hora de voltar a viver na terra natal, junto da irmã e da afilhada que a chamava de solteirona…

A primeira vez em que eles se reencontraram foi na formatura do filho dele e da sobrinha dela. Ele a tirou para dançar… Ela sentiu um arrepio e aquele friozinho na barriga.

Eram tantos os fins, os começos e recomeços, tantas vidas vividas por eles e agora, naquela dança, era como se apenas tivesse havido um breve parênteses na vida dos dois.

A música acabou, eles ficaram parados olhando nos olhos do outro. Estava tudo lá. Era o fim de um ciclo e o recomeço de outro… Saíram de mãos dadas.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.