E ela fechou os olhos quando tudo se tornou preto… e jurou só abri-los novamente quando o branco prevalecesse… quanta besteira… menina tola… o mundo não é e nem poderia ser preto e branco… Ensinamentos que a vida ainda vai lhe trazer… Esqueceu do amarelo do nascer do sol e do alaranjar de quando ele se põe… Ignorou o verde da grama, o azul do mar e do céu, o violeta das flores… esqueceu a cor mel do olho daquela pessoa, do marrom do cavalo, do tigrado das roupas que usa…. Ignorou por mais uma vez o areia, o gelo, as cores com novos nomes e o colorido dos esmaltes que usa nas unhas…Não, menina tola, a vida não é preto e branco, apenas porque algo não saiu tão perfeito quanto em seu conto de fadas imaginário, porque alguém lhe disse um não, ou porque a música certa não tocou no momento correto… Existe muito mais do que isso a sua volta… Olhe para os lados, para cima e para baixo… Sim, tudo pode estar preto por um momento, mas não espere ficar branco para voltar a abrir os olhos… Deixe para abri-los quando tudo ganhar cor… uma miscelânea delas… Levante, amarre as sandálias de salto, dê um tapa na saia curta para tirar a poeira, arrume os fios os cabelos, passe um batom…. Ria quando tiver que rir e chore às vezes, quando a vida doer um pouco demais… Mas abra os olhos e não defina tudo como preto e branco… E ela aprende, day by day, em meio a tropeções e gargalhadas, que nem tudo é preto e branco… E que existe uma gama infinita de tons e sobretons para seguir colorindo….

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Existem muitas histórias e não histórias sobre o que ocorreu. Todas começam da mesma forma. Com amor. Diana amava muito seu marido, querido Ângelo. Querido… Ângelo chegou tarde em casa. Seu bafo fedia a bebida e seu colarinho manchado cheirada a mulher. Diana estava indignada, brava. Estapeou seu marido. Ângelo, bêbado, bateu de volta, só que muito mais forte. Diana caiu, desamparada, bateu a cabeça em uma quina e morreu na hora. Essa é a boa versão.

Na segunda versão, Diana tinha medo. Medo de que Ângelo voltasse pra casa “daquele jeito” mais uma vez. Medo de que novamente ele desse nela uma “lição de quem manda aqui”. Medo de que ela tivesse que precisar usar roupas largas durante mais uns dias para que ninguém pudesse ver as marcas. Medo de que alguém descobrisse depois. O que iriam pensar? Ângelo não fazia por mal, ela dizia pra si mesma. Só batia nela pois a amava, a queria bem. Não é? Diana se matou nessa versão.

Na terceira versão Diana nunca se casou. Ficou pra titia, mas nem ligava muito. Amava seus sobrinhos como seus filhos. Mais até! Mas Carlos, marido de sua irmã a achava uma sem vergonha. Como ousava ela morar sozinha naquela idade! Era uma PUTA! Era o que Carlos dizia a qualquer um que quisesse ouvir. Mulher nenhuma deveria viver daquele jeito. Solteirona, sozinha, e usando umas roupas curtas daquela… Carlos iria dar uma lição nela. E foi o que fez. Um dia, enquanto seus filhos e mulher viajavam, fez uma visita a cunhada. Não cabe a ninguém saber o que aconteceu naquela noite. Mas Diana, nunca mais foi vista, e os rastros de sangue e sinais de abuso eram visíveis em sua casa quando a polícia chegou nessa versão.

Em outra versão Diana não sobreviveu quando seu marido, ou seu namorado, ou seu amigo, ou seu vizinho, ou só um conhecido achou que ela os traia. Diana nunca fez nada de errado. Diana só dormia e sorriu. Sorriu para quem? Só poderia estar de casinho com um cafajeste, seu namorado pensou. Ou era seu marido? Ou conhecido e nem nada mais? Não importa, ela fez algo de errado e claro que deveria PAGAR!

Em outra, Diana tentou terminar, mas seu namorado não aceitou bem.

Em outra ela saiu para festejar, mas o homem na rua não gostou quando a viu.

Em outra Diana…

Em todas as versões Diana morreu. Algumas de forma quase instantânea, em outras com horas de dor. Será mesmo que nenhum vizinho a ouvir gritar por horas a fio? Será mesmo que ninguém se importou? Será mesmo que algum homem verdadeiramente a amou?

Diana era uma objeto, não uma pessoa. Um ser que os outros tomaram posse e fizeram uso do jeito que acharam melhor. Diana era nada. Diana morreu sendo nada. Diana só nunca soube que poderia ter sido alguém. Nunca contaram para Diana que ela ERA alguém.

DIANA ERA ANA BEATRIZ. DIANA ERA AMANDA. ELA ERA JANAINA, THAIS, JESSYKA, ROMILDA, MARY, TAUANE… DIANA JÁ FOI MUITAS PESSOAS, E SERÁ AINDA MAIS SE NADA MUDAR.


Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do terceiro ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).

Jorge enfim colocou a vida em ordem. Usou o ano para botar a saúde em dia, as finanças em dia, o trabalho e os estudos. Colocar a cabeça em dia, a alma. 

Há muito deixava a vida levar de qualquer jeito, levando suas alegrias e sonhos pelo ralo. Mas nesse ano foi diferente. Largou tudo e mudou de casa, uma casa mais simples, menos móveis, menos coisas. Escolheu ter mais histórias e mais gente de verdade. Deletou as redes sociais, vendeu o smartphone caro, o tablet, os notebook, a câmera fotográfica que não usava senão para ostentar. Deu os quadros, os livros, alguns objetos. Ficou o essencial, mesmo que de improviso. E ficou bom!

Todo movimento que fez deu surpreendentemente certo. Fez o balanço do ano e, apesar de não ser perfeito (nenhum é), sentiu-se feliz, com domínio sobre a realidade e sobre si. Sonhou então fazer um novo ano ainda melhor, para ele mesmo e para os outros. Sabia a fórmula, bastava aplicar com coragem. E de alegria, escorreu uma lágrima…

Percebeu que aquele foi o primeiro natal verdadeiro em anos. Família reunida e em paz na ceia. Ceia feita por eles e não comprada pronta, como sempre fez. As coisas que deu aos amigos e parentes, até mesmo as que vendeu, serviram meio que de presente de natal, só que bem mais útil a quem recebeu que um presente comprado em loja, só para marcar a data. A decoração, simples e improvisada, tinha significado para além dos efeitos elaborados e pirotecnia. 

Jorge viu verdade naquelas pessoas, naquelas coisas, nos momentos.

Antes tarde, Jorge em fevereiro já era outro.


Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

A Tal era a vizinha da minha bisavó.

Eu era uma menininha de 05 anos.

A bisavó era pequenininha mas era maior que eu.

Era véspera de Natal e todos se reuniam na casa da bisa. A vó, o vô, as tias avós, as tias, tios, primos de primeiro e segundo grau, embora eu nem soubesse o que era isso e a Tal.

A noite era de festa, música, cores e muitos sabores. Eu toda bonitinha, lacinho, sapatilha e roupinha rosa. A Tal, parecia uma árvore de Natal, saia curtinha, sapato salto, cabelão, muitas pulseiras e batom vermelho.

A casa ficava em festa. O piano era tocado, de mãos em mãos, as vezes a quatro mãos.

A Tal estava sempre comendo.

Nós crianças brincávamos, corríamos de um lado para outro, dando voltas na árvore da frente, mas vira e mexe dávamos de cara, ou melhor, nas pernas da Tal.

Quando o relógio batia 23h45 íamos todos para a sala como a bisa queria. Dávamos as mãos e rezávamos. Eu não entendia muito toda aquela reza, mas sentia que aquilo era importante e ficava quietinha, meus primos eram bagunceiros e não paravam deixando minha tias enlouquecidas.

Aquele ano eu vi a Tal chorando naquela hora, ela abaixou a cabeça e as lágrimas caíam. Eu tão pequena, vi quando as lágrimas pingaram no tapete. Não era para ninguém ver, mas eu vi tudo, inclusive que só eu vi. A Tal viu que eu vi. Nossos olhares se fixaram  por segundos como se fossem uma eternidade.

Papai Noel chegou com seu HOHOHO e quebrou esse olhar ou qualquer coisa que viesse a seguir. Suadão, nunca vi Papai Noel com tanto calor. Cadê o tio Zé? Diziam que ele tinha medo e por isso sempre sumia nessa hora, as crianças corriam para achar o Tio medroso, mas Papai Noel mais rápido começava a chamar o nome das crianças para dar os presentes e todos voltavam correndo.

Que bagunça. Que alegria, a Tal ajudava Papai Noel e entregar os presentes e quando o saco ficou vazio, ele saiu sem o trenó, andando pela porta da frente. Eu fui escondida ver como ele ia embora e para minha surpresa, vi Papai Noel beijando a Tal.

Descobri. Ela era namorada do Papai Noel. Sai correndo, eufórica, para contar o maior segredo de todos os tempos, mas a Tal me impediu e pediu que eu não contasse para ninguém porque segredos de Natal nunca podem ser revelados. Etc e TAL.

Fiquei quieta, mas feliz porque o segredo do Papai Noel só eu sabia. Que noite feliz!

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto: @gilguzzo @ofotografico

 

 

 

 

 

Ele perdeu a noção do tempo. Não sabia qual era o dia da semana, o mês, o horário. Tudo isso deixou em uma outra vida, em um certo dia.

O dia que uma dor tão profunda apertou seu peito, maior do que todas as outras que já tinha sentido. Ele sempre sentiu dores fortes, desde criança. A dor de um vazio, como se fosse a queda em um buraco, ele sempre se sentia caindo. As vezes parava e se agarrava em algo, mas não conseguia segurar por muito tempo, logo caia de novo.

Em cada queda a dor aumentava, foi ficando tão grande, mas tão grande, assim como o vazio que sentia. Vazio infinito. Dor crescente.

Tinha sorte, mas não a percebia. Perdia, sempre perdia, não pela falta de sorte, mas pela confusão mental que o VAZIO lhe causava.

Tentou o suicídio três vezes em épocas diferentes, mas não morreu, foi salvo.

Salvo? Ele nunca viu assim, preferia ter ido, mas se achava incompetente até para isso.

Em uma tarde de inverno resolver largar tudo, a madrasta, a namorada, a irmã, o cachorro. Saiu pela porta, não deixou bilhete, não levou roupas, não levou comidas, não levou telefone, nem carteira, nem cartões, nada. Foi embora somente com o VAZIO.

Quanto tempo faz? Ele não sabe, Não sabe mais quem era. Sabe quem é, sabe que vive nas ruas, sabe que mendiga, nem sabe se está na sua cidade ou em outras, já andou tanto, que não sabe nem se já voltou.

A dor acalmou, se sente anestesiado. Nunca mais amou, amar machucava. Nunca mais quis se matar. Nunca mais quis nada. Não sentia nem dor, nem amor.

Uma noite bem tarde, ruas vazias, estava na frente de uma uma loja, com televisores que começaram a acender e mostravam um show de rock de uma banda que ele ouvia e gostava.

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Ficou olhando aquilo. Lembrou da dor, lembrou do amor. Lembrou de si. Do vazio. Da queda. Fechou os olhos, pediu perdão. Foi embora, era melhor ser invisível. Não queria ascender.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

 

Fui com o R namorado no shopping, na casa da C e depois na sorveteria, onde soubemos que é proibido dar um beijo na boca, onde o garçom veio até nós e se nos proíbe dizendo que não pode “gestos amorosos” no local.

Eu odeio essa conduta moralista que na verdade é só cínica.

Um beijo, o que tem demais?

19 de dezembro – Gisa Luiza – 19 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

OITAVO CAPÍTULO

Eu pensei naquele momento! Como? Que desrespeito! Ou coragem que esses filhos possuem! E esta mulher? RESPEITOSAMENTE CORAJOSA? Que loucura! Esta vida é louca mesmo!

 

NONO CAPÍTULO

  1. (AGORA PRESTEM MUITA ATENÇÃO NA LEITURA, POR FAVOR) Quando o ônibus parou, esta mulher que conversou a viagem inteirinha, a viagem toda, me atrapalhando…. e se enfiando sem cerimônia em minhas anotações sobre RESPEITO e CORAGEM, se levantou, meio que trôpega (pelo tempo sentada), desceu apressada, correndo… quase voando para abraçar o seu filho mais novinho (como ela havia dito), ela estava roxa de saudades, e naquele momento ele seu filho NÃO ERA BÊBADO, AGRESSIVO, SEM JUÍZO, ERA UM …FILHO E MUITO AMADO!E para mim que a observei e a escutei, a ouvi a viagem toda, pensei ao vê-la nesse momento:

“E UMA MÃE CORAGEM”! (e não é loucura da joaninha).

Acreditem… eu e ela nem ao menos os nossos nomes trocamos! É a vida! Realmente a vida é bela!

(FIQUEI MAIS “RICA” APÓS ESSA VIAGEM DE RETORNO PARA A MINHA CIDADE).

BOA VIAGEM… APROVEITEM, NÃO SOMENTE AS JANELAS!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

 

QUINTO CAPÍTULO

Que respeito tinha essa senhora pelo mundo ao seu redor! Porque será que os seus filhos a tratavam tão severamente, e tão desrespeitosamente? Ela possuía um olhar escuro, mas muito doce, as mãos senis, mas a sua gesticulação atrevidamente italiana, as pernas finas com a doença Erisipela, mas estava com suaves meias finas, de nylon! Ela tinha classe! Como ter diante de mim, uma senhora que apesar de chorosa, era muito direta e franca. Em nenhum momento ela se aquietou, e a cada pedágio ou cidade transposta era para ela um delírio! Ah! E quando chegamos a Campinas/SP/Brasil, a cidade em que viveu e teve que vender a casa construída a duras penas com o marido, já falecido e depois de sua partida, e é claro que foi o alcoolismo também, que deixou de herança na família, ela teve que dividir a casa com os filhos briguentos e insanos. Que dor em suas palavras, mas que CORAGEM ao contar o seu RESPEITO pela vida! E após tudo isso ela foi morar em Indaiatuba/SP/Brasil, cidade pequena vizinha de Campinas, onde a bicicleta contou-me ela é ainda o transporte que mais a favorece em seu crescimento. A senhora viúva ao meu lado ainda teria que pegar um outro ônibus, para chegar em sua casa.

SEXTO CAPÍTULO

Perguntei então: Quem iria apanhá-la na Estação Rodoviária quando chegarmos lá? Ela respondeu: Será o meu filho, o mais novinho, ele também bebe bastante, também é alcoólatra, dele o que é bom é mesmo a sua mulher, um amor de pessoa e ela nem é minha parente!Eu gosto muito dela, ela me respeita e me defende, nela eu posso confiar, sempre! Em seguida disso, lá estava CAMPINAS estampada em nossos olhos, nos dizendo… Sejam bem vindos! Para mim comentei: O IMPORTANTE É CHEGAR!

E ela rindo completou: CHEGAR E BEM VIVOS!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

foto: Adriana Chebabi

Eu “tô tentando” ser feliz, eu “tô tentando” te fazer feliz. – Kid Abelha

Gosto desta letra de música, ela é simples e me empolga também por isso, amo a simplicidade, amo “tentar” sempre. Passei meus 63 anos de vida “tentando” e morrerei “tentando”.

Isso é o grande barato da vida, “tentar sempre”, sem parar!

Tentar tudo! Eternamente! Amo muito tudo isso, com ou sem Big Mac. Nada nessa vida deve parar no que se sabe porque o que se sabe já se sabe! Parece idiota isso, quase uma frase “Dilmêsca”, mas é a pura realidade. Me excita tentar, buscar o novo, o inusitado. Amo loucuras mil! Infinitas novidades, odeio a mesmice, a caretice, as regras imbecis da sociedade que impõe tudo a você, não a mim. Nunca!

A cada tela, a cada pintura um novo desafio, nunca sei se conseguirei, e vou “tentando” a cada passo, a cada projeto de vida, a cada mudança, a cada novo amor, a cada desafio, e eles são constantes, como um vício do “tentar”.

Me dê milhares de doses desse “tentar”.

Uma louca “tentação”!

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

foto: Mauro Soares

Foi para a entrevista de emprego. Currículo simples na mão. A vaga não exigia muito. Achava que podia dar conta, mas a idade já começava a pesar, 38 anos, 02 filhos moços.  Ser mãe envelhece, ser mãe cedo, envelhece mais ainda.

Pobreza envelhece. O limite da falta de dinheiro envelhece. Sobreviver e não viver, envelhece.

A pele mostra os vincos muito aparentes, algumas rugas na testa, mais profundas do que sua idade poderia ter se tivesse uma vida mais leve.

Sem emprego, o medo, o choro e o pouco consolo dos que estão do seu lado.

Na entrevista, a escova feita no cabelo comprido, liso e pintado, até que não estavam mal, só as pontas, muito despontadas. A maquiagem carregada no rímel. A unha nitidamente feita em casa não era das mais bem acabadas. A roupa discreta, nem bonita, nem feia. Os dentes, também não eram bonitos, média 04.

A entrevistadora olhou tudo, a vaga exigia boa aparência, elegância, simpatia, pró-atividade, não exigia formação, então o segundo grau dela, estava dentro, só isso estava na média, todo o restante média baixa.

Foi tudo rápido e tudo percebido. Difícil para as duas. Dizer não, não é fácil, veio em dose homeopática, “amanhã dou a resposta”. Não, de novo o não, outro não, depois de outro, outro e outros.

Difícil manter o sorriso no rosto, a tal pró-atividade que pedem, a maquiagem para esconder as olheiras das noites sem sono e logo mais, nem o esmalte para as unhas feitas em casa serão possíveis.

Talvez aquele subemprego de 12 horas de pé por dia, sem registro na carteira, sem vale refeição e transporte, seja sim sua única saída ou então o abismo da ponte que se encontrava a sua frente.

Parou.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.