Vi seus olhos brilharem de lágrimas ao ouvir uma música;
Vi o som da sua voz se alterar ao falar de política;
Vi a sua indignação ao reafirmar suas convicções ante o que acredita ser certo;
Vi sua armadura fechada, mostrar um pouco do seu coração;

Tentei entrar de muitas formas para cuidar de você;
Tentei tirar sua armadura para tratar das suas feridas;
Tentei trazer vida enchendo o seu coração de amor;
Tentei mostrar que te amaria por muitas vidas;

Mas tentar não fez você acreditar;
Mas tentar irritou você que tão acostumada a sofrer quis se distanciar;
Não entendi os teus sinais e me afastei;
Afastado, me fechei, e tentei esquecer, inútil;

Me lembro de você todos os dias, no amanhecer ao entardecer;
Acredito na cartomante por querer acreditar;
Não sofro porque não quero sofrer;
Sigo em frente porque aprendi que tudo sempre vai melhorar;

Mas na face amarela de um entardecer em algum dia vou encontrar você;
Na face amarela deste mesmo entardecer, vou beijar você;
Na noite que se inicia, sem muita explicação, sentindo o seu coração vou amar você;
Ah, com você em meus braços, em um silêncio contemplador, vou abrir meu coração e ganhar o seu amor.

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Tenho me feito de infinito

Infinitos sonhos

Infinitas possibilidades

Infinitas vontades

Infinitas formas de amar

De infinitos e infinitos

Escrevo um novo parágrafo

e amplio meu coração

para uma nova ação

Penso que assim como o infinito….

tem poesia que não sei terminar.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 


Acredito que esteja relacionado a forma como você olha;

Um certo ar de coração, profundo, de quem carrega a dor do mundo;

Este jeito meio moleca, meio menina, traz ainda mais empatia a este olhar;

Acredito que seja isso que cause nas pessoas está gigantesca vontade de estar ao seu lado;

Ou será que não é em todos e eu talvez sinta alguma coisa igual a você?;

Não dá, não tenho o seu coração, mas sou também carregado de emoção;

Hoje olhei os seus olhos e vi um certo ar de pureza nesta linda sexualidade pulsante;

Antagónico este olhar, mas completamente pertinente a quem te observa;

Significa dar sentido aos pensamentos mais profundo e depois se arrepender;

Não porque você não vale a pena, pois seria mentira, mais sim porque você parece tão frágil a ponto de quebrar;

Mas, se te quebro, junto a você, despedaço-me, fico só um caco, para depois você me montar;

Mas talvez eu já esteja em frangalhos e aí você já não parece mais tão frágil, e isso seja só uma desculpa para me aproximar;

Dentre todas as formas ou pensamentos que eu possa ter isso sempre termina do mesmo jeito;

Cacos, frangalhos, sentimentos e emoções, tudo destemperado, sentido, rasgado, apaixonado por querer-te;

Este sentido que vem de nos, de dentro de nós, meio como um trem desgovernado;

Causa o maior estrago no nosso ser, isso é quem somos, nervos expostos a sentir tudo que se possa ter;

Sentimos tanto que o nosso calor queima mais forte;

O nosso beijo beija mais profundo;

O nosso resumo conta uma longa história;

A nossa história abre espaçado para muitos vários resumos;

Então ao pegar o meu barco e navegar neste vasto oceano por mais de anos, só;

Dentre muitas tempestades, ventos, ondas, mares e saudades;

Talvez o que o marinheiro realmente queira e ancorar numa bela Marina;

Se perder neste profundo olhar, beijar até quase desmaiar e quase desmaiando só pensar em amar-te;

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Fui convidada a escrever um texto… pandemia, um ano depois.

Me estranhei com a dor muda, com o sofrimento silenciado, com a sensação de impotência e desesperança com que me deparei, ao tentar trazer em palavras minha vivência de agora.

Tantas perdas, tantas relações estremecidas, tantos momentos perdidos, tanta instabilidade material.

A principio estávamos lutando, sendo fortes, praticando resiliência frente a um inimigo imensamente maior que nós, contra o qual tínhamos poucas armas e nenhum conhecimento.

Agora estamos nos relacionando com um inimigo conhecido, antigo, com a manifestação da ignorância nos inúmeros erros de gestão. Erros que significam vidas. Erros que significam vazios. Erros que significam também nossa falta de capacidade de reagir enquanto povo brasileiro de forma organizada e assertiva.

Palavras de motivação e reflexões sobre como cada um pode lidar melhor com os fatos já não cabem mais.

Precisamos de palavras de misericórdia. Precisamos de compaixão ativa.

Precisamos transmutar essa dor muda em ação pelos mais necessitados.

Precisamos colocar nossos recursos internos e externos à disposição, para socorrer os que estão ficando pelo caminho. Para oferecer o pão, mas também a alma e o coração.

Direcionar nossa energia de indignação, dor e medo em ações de
corpo, fala e mente, na escala que nos for possível.

Etienne Janiake – Bela Urbana, psicóloga, professora de Yoga e meditação, mãe, se encanta pelo florescimento humano e pelo cultivo de relações mais lúcidas e compassivas. Nas horas vagas adora dançar e desenhar mandalas.

Caminhei olhando a rua e me peguei no tempo;
Como em um sonho, as coisas ao meu redor pareciam andar mais devagar;
Uma leve música cantarolava em meus pensamentos;
Anti a rua, o tempo e o som lembrei do seu olhar;

Sua voz doce recitava uma poesia;
Seu olhar demonstrava muita paixão;
Pensei, lembrando, quem sabe um dia…
Poderei conhecer seu coração!

Hoje conheceremos as minhas lembranças de um sonho bom;
Onde, de mãos dadas, caminhava com você;
Tinhas a rua, o som a brisa e o tempo, que ao seu lado, no meu sonho, parecia não correr;

Foi próximo ao lago, amparado pelo belo pôr do sol;
Que segurei suas mãos levemente e, com os lábios trêmulos, beijei você!
Foi um beijo leve como a brisa daquela tarde linda, sensível como uma poesia recitada por você;
E, ao final deste beijo, com um olhar um pouco sem jeito, descansou seu rosto no meu peito;

Peito este que tinha o coração palpitante de emoção, e em um turbilhão de pensamentos, não encontrei palavra nenhuma para dizer;
Passei meu braço pela sua cintura, e como em um doce que chega ao fim, caminhamos sem falar, mas ficou escrito, isso nunca mais se apagará!

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Cores, ó cores!
Onde estais?
Revela-nos se és real
Se na noite não a vemos
Oculta na penumbra
Mistério calado ao luar
É noite…

…e num giro vem o dia
Tu te mostras ao raiar
Arco colorindo os céus
Vidas cintilando tons
Cores que vem e vão
Paleta multicor no caos a criar
Partículas luminosas ao ar
Eis o espectro em nosso olhar

Mas, um eclipse nos cega
Uma sombra a nos ofuscar
Pois se não és a luz mesma
…nem os átomos
…nem as coisas
…nem nada

Se transparente tornares
Poderias revelar
O que brilha dentro de tudo
Secretamente a irradiar
Em silêncio
Para além da noite-e-dia
Vibração a nos suscitar
A espera de outra Luz
Um novo arco-íris
Para nos guiar

Espectro invisível
Que os olhos não podem ver
Cores que não podem expressar
Se não descolorir
Ascendendo
E do centro iluminar
Dentro do fogo
Fundindo-se
Incandescendo-se
Tornando-se fagulha
No coração solar

Williams Delabona – Belo urbano, artista plástico, empresário, se divide em suas múltiplas atividades, administrar a escola Criativa www.escolacriativa.com e seu trabalho como artista plástico www.williamsdelabona.com . Gosta de animais, vive perto da natureza e acredita que tudo está interligado, o micro e o macro universo. Sua paixão? Tem várias, mas viajar está entre as primeiras.
Quadro – @williamsdelabonart

X X X X X X X X X X X X ❤…– … Match!!!

–x–

Cara do Match: – Oi, nossa estamos bem perto hein?

Meu pensamento: – Mas que raios? Porque não vi isso? 4km de distância. Deus me livre se for um Serial Killer, ou pior, pode ser alguém que vai ficar me mandando mensagens a cada meia hora, perguntando onde estou…Nossa, e não tem nada a ver comigo…devia estar muito carente meia hora atrás. Melhor dar Unmatch?

Meu dedo na ação: – “unmatch”

–x–

Bom, melhor antes de mais nada explicar algumas funcionalidades dos aplicativos de relacionamentos para quem não sabe como isso funciona:

Tinder: Você monta seu perfil, colocando suas preferências: homem ou mulher, faixa de idade, etc… aí escreve uma pequena biografia (se quiser), coloca seu Instagram (se quiser), coloca músicas (se quiser). Por fim, adiciona fotos bonitas ou esquisitas, porque acho que às vezes essa é a decisão de algumas pessoas, e pronto, você pode começar a brincar.

Happn: Igual o Tinder, porém ele mapeia quem cruzou o seu caminho ou passou perto.

Nos dois apps, se você não gosta do perfil que te aparece, é só apertar o X e ele sai da sua linha do tempo. Se você gosta, manda um coração. Se ele também te mandar um coração, vocês formam um Match! Que lindo!! É aí que podem começar a conversar. Agora, se você se arrependeu do match, é só apertar unmatch, e a pessoa some da sua lista.  Foi o que eu fiz ali em cima.

Ah a decisão de apertar o X ou o Coração tem que ser imediata, nada de deixar para depois (péssimo para indecisos como eu).

Tem outros jeitos também de falar que você gostou da pessoa, mas aí você tem que pagar e isso tá fora de cogitação pra mim.

De uma forma geral, se você ainda não entendeu, imagina um catálogo da Avon, da Tupperware ou da Natura, em que no lugar de todos esses produtos que essas marcas oferecem, há homens “se oferecendo” em um catálogo online e no celular. Tipo isso.

Agora, esses aplicativos nunca foram do meu gosto, exatamente pela ideia formada em minha cabeça de estar escolhendo homem em um catálogo, algo um pouco bizarro na minha opinião. Mas vamos combinar né? Essa quarentena acabou temporariamente com o jeito tradicional de conhecer pessoas, e também acabou com a minha “lista de possíveis contatos”. No começo, lá por maio, até baixei o Happn, mas depois de poucos dias deletei. Ahh me deu preguiça e decidi respeitar meu tempo e minha necessidade de ficar sozinha. Percebi que meu coração precisava de um respiro, um tempo isolado pra terminar de se curar, pra se conhecer e finalmente se abrir a um outro alguém, fosse para compromisso sério ou não.

Depois de um término de relacionamento, cada um tem seu tempo de cura. O seu pode ser diferente do dele, dela. E traumas ficam, assim como aprendizados. Aprendizados doloridos, mas que me fizeram enxergar a necessidade de me olhar por inteira, de compreender minhas vontades e equilibrá-las entre meu orgulho e meu amor próprio.

Minha intenção é ser sincera primeiro comigo. Me entender e assim estar apta e aberta a entender o outro. Não quero mais jogos. Não quero ter que fingir desinteresse ao demorar para responder uma mensagem. Não quero ter que continuar com alguém por carência. E tem dias que não quero falar com ninguém, não quero conhecer ninguém. Tem dias que quero ficar solteira e gosto disso. Não quero me sentir obrigada a entrar em um relacionamento porque com essa idade a sociedade diz que eu devia estar namorando, noiva, casada, grávida ou com filho.

Não quero ser o padrão que a sociedade impõe. Quero criar o meu próprio padrão.

Também não vou ser hipócrita e falar que quero ficar sozinha pra sempre, ou que eu me preencho e não preciso de mais ninguém. Estou cansada desse discurso que às vezes pregam de que temos que ser exclusivamente autossuficientes. Quando que ser autossuficiente virou sinônimo de deixar de incluir um outro na nossa vida? O ser humano precisa de vínculo com outros seres humanos e ponto, e se você discorda vai dar uma lida no livro da Brené Brown, “A coragem de ser imperfeito”.

Entendo que esse tipo de discurso é pautado em nossa história, por termos sido caladas por muito tempo. Porém, se continuarmos proclamando a “Guerra dos Gêneros”, onde vamos parar?

Independente de gêneros, cada um tem suas feridas, suas ideias, seus pensamentos, suas vulnerabilidades, formando histórias únicas e particulares.

É lógico que em alguns dias minha presença será suficiente, assim como em outros dias a presença de alguém ao meu lado será importante e necessária. Não importa se ainda é só uma paquera, um casual, uma amizade com benefícios ou algo que vire por fim um relacionamento sério. Mas o que tá faltando acima de tudo é respeito. Quero oferecer respeito e ser respeitada, porque a falta dele desencoraja.

No passado deixei de tocar em meus sentimentos, deixei de me fazer entender. Não me permiti falar sobre o que me afligia, e por imaginar o que o outro estava pensando através de suas ações ou ausência destas, me confundi. Desrespeitei a mim e a ele, e vice versa. Meu orgulho e meu ego cresceram, e ao invés de antídotos, seus excessos viraram alimento para minha insegurança.

Quando consegui falar tudo que queria, já era tarde.

Eu mesma tapei meus buracos, e eu mesma estou aprendendo a lidar com os vazios deixados por outro. Não quero ser a responsável por deixar um buraco no coração de ninguém.

Dali amadureci e aprendi a não me fazer calar.

É, não imaginava que um “unmatch” ia cavar em mim labirintos. Apesar disso tudo ter saído de um pensamento cômico do meu cérebro, encontrei pelo caminho medos reais oriundos de um passado ainda presente. Medo da rejeição, do abandono e da traição. Medo de me fazer sufocar por mim mesma, e de esquecer quem eu sou.

E entre essas lembranças e pensamentos, estou aprendendo a me ler por completo. Estou aprendendo o significado da empatia. É assim que o respeito passa a ter propósito, passa a ser consciente, e é assim que a coragem de mandar aquela mensagem pra aquele alguém nasce no peito, mesmo que aquele alguém seja por agora só o match de um aplicativo.

Ariela Maier – Bela urbana. Uma empreendedora e escritora que ama viajar. Se encontra e se desencontra pelas palavras e gosta de pensar que através da escrita, ajuda almas perdidas que carecem de emoções e histórias cheias de vida. @Arielamaier

Cansada, à beira da exaustão mental, ela olhou para seu santuário na cabeceira da cama. Imagens de Santo Antônio com o Menino Jesus no colo, Nossa Senhora de Aparecida, São Jorge, São Longuinho, Nossa Senhora Fátima, Cosme e Damião, o Cristo Redentor de braços abertos, Ganesha e Ibeji! Sincretismo puro!

Nada acalmou seu coração. Tempos difíceis esses. Tempo complicado de se entender os porquês. Como Deus leva uma criança acometida por uma doença cruel? Como Ele vê as mazelas desse mundo e não faz nada? Ahhhh faz! Mulher de pouca fé!

Independentemente da sua crença, saiba que tem gente no comando da nave. Por mais que você não entenda naquele exato momento o caminho que ela está percorrendo, saiba é o melhor.

O mesmo comandante que te fez duvidar de Sua bondade, colocou em sua vida, dias depois, pessoas que vieram ensinar a perseverança, o amor e a restauração da fé na humanidade. Porque sim, em meio a tantas coisas e notícias desfavoráveis é possível se acalentar com uma história de vida, contada com lágrimas nos olhos e uma reconfortante xícara de café!

Ah, mulher de pouca fé! As imagens na cabeceira da cama estão para te lembrar o tempo todo que HÁ comando, há perdas e há vitórias! E principalmente, há porquês, por mais que você ainda não esteja pronta para entender. Então, faça sua oração, agradeça e viva, mesmo sem ter todas as respostas.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

Não dá para falar de racismo porque minha pele é branca. O privilégio me encontrou antes que eu soubesse o que isso significa.

Não dá para falar, mas ele existe e é maior do que meus olhos alcançam, muito mais violento do que minha compaixão dá conta.

Não vou escrever com métrica, nem estética, nem cronologia. Vou deixar vir à tona minha lembrança do mundo, das misturas de dentro e fora de mim.

Quando eu era bem pequena, imaginava que um dia eu seria negra, que era só questão de tempo para minha pele colorir e brilhar, como a da Tereza, amiga da minha mãe, que chegava em nossa casa e preenchia a sala de cor, com sua risada escandalosa.

Eu olhava no espelho, mas o dia não chegava. O branco não saía de mim…

Ainda menina, eu escolhi minha madrinha, uma mulher negra, linda, de olhos grandes, sorriso rasgado que me deixava fascinada. Ainda hoje eu admiro a força da minha Alice.

Minhas bonecas preferidas eram pretas e isso parecia estranho, não era comum.

O mundo do negro tinha que parecer excêntrico, pequeno, oculto.

Aos poucos, fui me deparando com a realidade bruta.

Na cidade onde nasci e cresci, havia um clube para brancos e outro para negros. Mesmo sem entender, eu nunca contrariei, nem questionei, nem protestei. Obedeci e segui a ignorância.

Não posso falar em racismo sem me enxergar como alguém que o perpetuou por inércia.

Já adulta, num estágio da faculdade em Campinas, soube de um garoto de 10 anos, filho de uma professora, que perguntou para mãe por que pobres eram pretos. Só de ouvir a hipótese levantada por esse menino senti meu peito apertar. E, mesmo depois de todos os argumentos da mãe sobre igualdade e justiça social, ele concluiu que o discurso não correspondia, pois na escola ele não via crianças negras. Ele só as via no sinal, na rua. Por vários dias, esse diálogo que eu não presenciei, ficou na minha cabeça.

Eu estudei em escola pública e na minha sala havia diversidade de etnias e de classes. Talvez, na idade dele eu não tivesse essa preocupação. Mas, a realidade estava ali e eu não vi, não soube ver, não quis ver, não aprendi a ver… Só segui.

Por fim, me lembrei de um dia que eu estava no shopping com meu filho. Nessa época ele tinha pouco menos de 3 anos e uma espontaneidade que só as crianças têm. Ele apontou para um homem e disse em voz audível que ele parecia um brigadeiro. Eu gelei dos pés a cabeça e, antes que eu formulasse um pedido de desculpas, os dois já estavam abraçados. Nunca vou me esquecer de suas palavras: “foi a coisa mais gostosa que alguém disse sobre mim”. Já se passaram mais de 20 anos e eu ainda me emociono.

Fato é que reconhecer uma injustiça não me coloca em uma posição confortável, pelo contrário, exige a responsabilidade do posicionamento e da ação. Ter amizade e afeto por negros, tratá-los com educação e respeito, ainda é muito pouco diante dos séculos de crueldade que distorceram suas identidades, disseminando a discriminação, mantendo os maus tratos, a violência, a injúria e, com isso, dificultando suas vidas e atrasando suas
histórias.

O que vem acontecendo não é diferente do que já ocorria antes.

Por mais que eu não me sinta à vontade para tomar essa causa e falar como se eu pudesse sentir essa dor, pois seria ingênuo ou leviano, eu posso ouvir, quero aprender e devo sim levantar minha voz ao menor sinal de preconceito.

Posso ser antirracista – sou e serei. Minha pele não vai colorir, em sinal de transformação, mas minha consciência pode aprender a brilhar e o meu coração a agir.

Dany Cais – Bela Urbana, fonoaudióloga por formação, comunicóloga por vocação e gentóloga por paixão. Colecionadora de histórias, experimenta a vida cultivando hábitos simples, flores e amigos. 

Diário de uma pandemia
20/3/2020
8:30
É primavera.
Há uma semana declarou-se a crise COVID 19. Sentimentos e pensamentos poderiam ser resumidos nesta semana. Ação e o coração sofrendo. Ainda trabalhamos, damos serviços mínimos, porque o governo não nos colocou na lista de empresas que precisam fechar. Mas a pressão imposta pelo sistema de saúde é para fechar.

ficaemcasa.

Minha situação mental é estressante, ainda que ativa, adrenalina para administrar esse momento. Mas também muito sobrecarregada pelo de risco para nossa saúde, nossa economia necessária para nos dar suporte e os conflitos sofridos em nossas relações de trabalho.
É como ter sofrido um choque frontal entre dois trens: a equipe de direção e a de gestão decidimos o quê precisava ser feito e as necessidades individuais da maioria dos trabalhadores.
Esse confronto foi inevitável porque qualquer decisão tomada envolvia risco ou conflito em uma área ou outra.
Agora não sabemos se tomamos a decisão certa … Tudo será esclarecido em alguns meses e, honestamente, minha visão é de uma incerteza avassaladora.
Lidamos com muitos lutos de relance, aqueles que são realmente tristes pelas as pessoas que estão caindo com o COVID. De longe, este é o mais importante de todos e o que mais nos preocupa.
Mas há outros lutos que estamos vivendo e que devemos administrar em uma marcha forçada: o luto pela perda da normalidade, por não poder encontrar pessoas queridas, familiares, amigos, colegas que nos apreciam em vários campos. O luto por ter de interromper a atividade que, em alguns casos, é a nossa motivação e nos ativa todos os dias, o luto por sacrificar as férias para poder ter o meu tempo livre neste momento difícil.
Isolamento versus ter que trabalhar em tempos de isolamento.
E acima de tudo, o medo, a COVID, o sofrimento ou o sofrimento das pessoas que amamos, até o medo da morte.
E medo de fazer coisas erradas de um lado ou do outro.

E esperamos, todos os dias, as demonstrações de solidariedade, resiliência e respostas à emergência, ações de pessoas exemplares que aplaudimos desde nossas janelas todos os dias, e pessoas que não recebem esse aplauso explícito, mas que também nos dão suporte – muito obrigada! – reconhecimento a todas elas por favor.
Esta é uma reflexão resumida do que experimentamos atualmente. Existem muitas nuances, emoções opostas e o melhor e o pior de cada um de nós vieram à luz.
Proponho que nos reconheçamos nesse melhor e pior, que aceitemos diferenças em todas as áreas e que apostemos no exercício de nos colocar no lugar dos outros, agora é hora de nos encontrarmos novamente em espaços de solidariedade e cooperação que salve a todos nós com soluções coletivas que não deixem ninguém para trás.

Nati Yesares – Bela Urbana, vive em Barcelona, é formada em ciências ambientais e atualmente é chefe da área ambiental em Solidança, empresa dedicada a economia social. É motivada por tudo que ajude a construir uma sociedade sustentável e justa para todos.

Tradução Gisela Chebabi Abramides