E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

“A criança cala por medo. A criança cala por vergonha. A criança cala por não ter voz…”

Difícil pensar em tudo que uma menina de dez anos, submetida a estupros desde os seis pelas pessoas que deveriam cuidar dela, grávida e julgada pela hipocrisia da sociedade sofreu e ainda vai sofrer como consequência disso tudo. Mas uma questão que foi levantada por muitos “cidadãos de bem” tem me incomodado: Por que a criança não falou para ninguém?

Aos 10 anos de idade mais ou menos eu era uma menina muito curiosa. Os meninos da escola estavam naquela fase de começar a descobrir a sexualidade, sabe? Viviam desenhando “pintos” para tudo que é lado e eu achava aquilo bem engraçado, mas não entendia muito o que era aquele desenho feito a exaustão e sempre seguido de um risonho pelos amigos do sexo oposto. Dito isso, saibam que eu era a artista da turma.

Bom, para contextualizar deixa eu contar um pouquinho da minha minha infância. Meu pai (meu herói e ídolo) morreu quando eu tinha cinco anos e meio de idade. Minha mãe nunca mais se casou, mas eu bem que gostaria. Tinha sede por uma figura masculina na minha vida. Embora ela não tenha casado, tinha amigos de infância que frequentavam nossa casa e que também frequentávamos.

Um deles, que vou chamar de João, era tapeceiro de mão cheia e eu, a artistinha da casa tinha verdadeiro fascínio por tudo que tinha a ver com trabalhos manuais. Nem preciso dizer que ele era meu ser humano, do sexo oposto, de preferência! Ele era casado com a Rosa, uma moça aparentemente mais velha e muito doce que eu amava de paixão também.

Não nos víamos muito, porque a oficina ficava num bairro mais afastado, mas sempre que possível estávamos um na casa dos outros para um café, para mim era um Nescau mesmo, um bolo… os adultos conversavam e eu ficava maravilhada por orbitar esse universo. O João sempre me encantou mais porque era o que me dava atenção, me tratava quase como uma igual.

Pois bem, a oficina mudou para perto da minha casa. Na verdade no caminho entre minha casa e a escola e imagine minha felicidade porque agora eu podia parar para “tomar um café” sempre que estivesse passando por lá.

João estava prosperando e tinha uns três funcionários no seu pequeno paraíso (paraíso é por minha conta, porque era assim que eu enxergava aquela portinha cheia de tecidos, móveis desmontados e fedendo a curtume… coisas de criança) e todos eles me tratavam como uma mascote.

Um dia, eu passei por lá e João estava só. Entrei para nosso café com bolo usual e nossas conversas que até então era pra que serve essas taxinhas?, o que é um capitonê?, etc e tal...mas como eu disse, ele estava sozinho e, como eu disse lá em cima, eu andava sendo bombardeada pelos desenhos de “pinto” sem saber muito bem o que eram. A gente sentou nas banquetas em frente a bancada de trabalho. Eles tinham o hábito de rabiscar os projetos nas grandes pranchas de madeira e sempre tinha um lápis por ali. Eu, curiosa, perguntei por que aquele lápis tinha um formato diferente dos meus da escola (ele era quadrado, bem maior e escuro), João explicou e me deu o lápis na mão apontando a prancha de madeira e dizendo que eu podia testar. Lógico que desenhei um “pinto”! Na verdade algo bem rudimentar como duas bolinhas e um palito. Ele olhou e perguntou se eu sabia o que era aquilo. Eu balancei a cabeça e disse que achava que sim, mas não tinha certeza… foi nesse momento que meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ele pegou minha mão, uma mãozinha de uma menina mirrada de 10 anos de idade (vocês não imaginam o quanto eu era miúda nessa época, magrinha mesmo, uma varinha, nada que pudesse ter um apelo sexual) e colocou no pau dele. Um membro totalmente rígido. Puxei minha mão na hora num misto de medo, vergonha e sei lá o que. Ele ainda insistiu que eu poderia tocá- lo para saber como era um homem de verdade? Homem de verdade? Oi? Eu queria desaparecer dali, virar pó, ser engolida pelo chão, mas não consegui simplesmente sair correndo. Lembro de agradecer polidamente e dar uma desculpa para ir embora.

Cheguei em casa me sentindo suja, mal, nas não conseguia elaborar o que tinha acontecido. Eu sabia que era errado, mas eu tinha provocado aquilo! Não podia contar para minha mãe, porque, na minha cabeça, ela ia se zangar comigo, afinal, fui eu que fiz o desenho que levou aquela situação. Não podia contar pra Rosa, porque ela ia ficar triste e eu não queria que ela ficasse triste por algo que eu tinha causado.

A partir daquele dia, sempre que era para ir na casa deles eu inventa uma desculpa e sempre que eles iam em casa eu não mais queria participar ou, se participava, era grudada na minha mãe ou na Rosa. Minha mãe chegou a me perguntar por que eu não ia mais na tapeçaria, algo que ela só sabia porque o João tinha falado para ela que eu andava sumida. Eu não me lembro o que respondi, mas sei que a partir daí não fui mais questionada. Só sei que nunca contei e eles seguiram amigos até o fim da vida… se viam menos, eu, cheguei num momento que nunca mais os vi, mas essa história ficou pra mim. E para o abusador do João.

Por que eu não contei? Porque eu tinha vergonha… Porque eu achava que a culpa era minha… Porque eu não queria magoar os adultos… Porque eu queria proteger a Rosa… Porque eu só tinha 10 anos…

Porque não se falava dessas coisas…

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia

Como em um conto de Charles Dickens, uma pequena órfã foi abusada por adultos. Na
Inglaterra Vitoriana, com leitores formados pela Revolução Industrial, as obras Dickensianas
causavam certa revolta por mostrar a exploração de vulneráveis por outros seres humanos.
Eram textos sombrios, mas que mesclavam uma dose de humor no estilo, mas não poupavam
o leitor, que sofria com a morte de personagens pelas quais se afeiçoavam. Um mundo cruel
esse dos livros de Charles Dickens.
Bom, estamos no Brasil de 2020. Enclausurados – ou não – de maneira surreal devido a uma
doença que faria sentido em outro século. E temos a história de um pequena órfã para contar.
A menina é órfã de mãe, o pai está preso. Mas é da periferia de algum lugar do país.
Essa pequena órfã, aos 10 anos, com dor de barriga, chega ao hospital. Está grávida! Agarrada
a um bichinho de pelúcia, ela grita, desesperada. Ela está amparada pela lei que, em caso de
estupro, determina que um procedimento de aborto seja realizado. Simples assim.
Mas a série de abusos está apenas começando. Abusos cometidos por adultos. Adultos que
deveriam protegê-la. Um tio que a estuprava desde os 6 anos. Uma família de tios e avós
adultos que nada percebia. Professores que nada viam de estranho no comportamento da
menina. Ainda assim, dá para dizer que o único adulto responsável pelo abuso era o tio. Até
aqui.
O hospital, constatada a gestação, lava suas mãos e, usando um subterfúgio qualquer, recusa-
se a cumprir a lei e interromper a gravidez, causada por estupro, em uma criança de 10 anos.
Uma criança que não tem corpo para gerir uma criança, um gravidez que coloca em claro risco
a sua vida.
O pedófilo estuprador, a essa altura, sumiu no mundo.
A menina precisa, então, ser levada para um hospital, bem longe, em outro estado, onde
médicos se propõem a cumprir o que a lei determina. E seguem-se outros abusos a essa
criança que só quer ser criança.
Os dados dessa menina, de alguma forma, são vazados e uma criminosa, cumprindo prisão
domiciliar de tornozeleira eletrônica, com acesso ao governo e a redes sociais, divulga nome
completo da criança, para onde foi levada, quem são os médicos que realizarão o aborto,
enfim, o inimaginável. Não se sabe como ela conseguiu essas informações, mas o que não se
sabe, é possível imaginar. São dados confidenciais.
Uma turba ensandecida, contra a ideia de aborto e dizendo-se cristã, irrompe na porta do
hospital, impede a passagem de médicos, que, só com a ajuda da polícia, consegue entrar no
hospital. Enquanto isso, a criança entra, escondida em um porta-malas, pelo estacionamento,
como se fosse ela a criminosa. Aos gritos de “assassina”, ela é internada. Aos gritos de
“assassinos”, os médicos se preparam para atendê-la.
Enquanto isso, o pedófilo está solto em algum lugar.
Nesse circo do absurdo, duas pessoas, não se sabe como, conseguem acesso à menina dentro
do hospital e, mais uma vez, ela é constrangida, cobrando-se dela que mantenha a gravidez.
Ela, agarrada ao seu brinquedo, mais uma vez recusa, chorando.

Por fim, a gestação é interrompida e os médicos dizem que a pequena passa bem. Como se
fosse possível alguém, que passou por tantos abusos e um aborto pudesse estar bem.
Com a identidade revelada, ela já não pode voltar para sua casa. Então, é lhe oferecido trocar
de identidade. Ela e familiares entrariam para o Programa de Proteção a Testemunhas.
Proteção é tudo o que ela, criança, precisa.
O pedófilo estuprador é, enfim, preso.
Comentários de gente doentia, em redes sociais, demonizam os médicos, a menina, o
procedimento. Onde se encontram esses “cristãos” quando o Brasil tem tantos meninos e
meninas em situação de rua? Mendigando, vivendo em abrigos, vivendo com sua famílias, mas
totalmente desassistidos pelos poderes? Em um país que não investe em suas crianças, um
país que tem como projeto acabar com a educação?
O assunto “aborto” é questão de saúde pública. Segundo o Anuário Brasileiro de Segurança
Pública de 2019, a cada hora, 4 meninas de até 13 anos, são estupradas no país. Segundo o
SUS, por dia, acontecem em média 6 abortos em meninas de 10 a 14 anos, sendo que 66%
dessas jovens são negras.
Será que, caso a menina vivesse em um país de leis medievais ou em uma era das trevas, ela
seria, além de considerada culpada pelo próprio abuso, condenada a levar a gravidez até o fim
e apedrejada depois do parto? Aqui, no Brasil de hoje, ela SÓ sofreu o apedrejamento moral.
A pequena, enfim, teve alta, tem uma nova identidade, espera-se que ninguém vaze a
informação de sua localização. Que ela possa ser protegida, acolhida e que tenha um futuro
livre de tantos pesadelos que tantas pessoas adultas infringiram a ela. Que o final dessa
história passe longe dos finais de Charles Dickens.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

Gabriel tem 7 anos e pediu para falar comigo por chamada de vídeo.

O pai dele, Miro, enviou uma mensagem pedindo permissão e eu aceitei, claro.

O Gabriel foi meu paciente há alguns anos, quando eu ainda clinicava. Nós tínhamos um bom vínculo e no momento da alta, apesar do orgulho pelo êxito, foi difícil para nós dois.

Mas, crianças superam rápido e, em geral, nem se lembram do período de terapia. O que é muito compreensível, já que o processo terapêutico envolve a dor e a transformação.

Eu não os vi mais. Esporadicamente, recebia alguma mensagem da família, em datas especiais.

No ano passado, a mãe do Gabriel faleceu em um acidente de carro. Eu estava viajando. Enviei apenas uma mensagem solidária e nenhum novo contato foi feito.

Hoje à tarde o telefone tocou.

Era o Gabriel e eu atendi sem saber muito bem o que seria este reencontro (remoto).

Ele me olhou sorrindo. Meus cabelos, curtos e brancos, eram novidade para ele, assim como seu rostinho alongado e seu sorriso banguela eram para mim.

Depois de me contar sobre várias peripécias deste tempo de quarentena, ele mandou uma pergunta direta:

– Daniela, quantos anos você tem?

Eu sorri e respondi: – 49. Em silêncio eu vi os olhinhos dele crescerem e emendei a pergunta: Você acha muito?

Ele disse que não, o silêncio aumentou e ele tomou a palavra, sem interrupção:

– Um dia, eu pedi para mamãe para ir ao parquinho do condomínio e ela não deixou. Quis saber “Por que não?” e ela respondeu: – Você tem a idade de entender. Eu tinha 6 anos e ela 32. Ontem, eu perguntei para o papai o que era idade de entender e ele disse assim: – Sei lá, quando a gente entende, acaba!

Novo silêncio. Daqueles que atordoam.

Eu senti uma lágrima barraqueira querendo empurrar as outras. Congelei. Pela tela vi que Miro também abaixou a cabeça.

Ele não tinha como saber da conversa do Gabriel com a mãe…

Eu fiz menção de que iria falar, mas, vendo o clima tenso, o menino mesmo disse:

– Relaxa. A gente sempre tem a idade de entender, né?

– Né? – foi tudo que saiu da minha boca, numa síntese do momento que eu aprendi uma baita lição.

Essa frase não sai de mim nem por um segundo – “Idade de entender”.

Conversamos por mais vinte ou trinta minutos, sobre muitas coisas, rimos, matamos a saudade e nos despedimos.

Pai e filho são acompanhados por profissionais e eu digo isso apenas para que se poupem dos julgamentos. Não há nada no relato que mereça um apontamento porque diz respeito à vida deles e à relações humanas construídas dia após dia.

O que me motiva a compartilhar a história é a constatação de que a gente cresce mesmo é por dentro.

Dany Cais – Bela Urbana, fonoaudióloga por formação, comunicóloga por vocação e gentóloga por paixão. Colecionadora de histórias, experimenta a vida cultivando hábitos simples, flores e amigos. 

OBS.: Os nomes citados no texto são fictícios para preservar as identidades.

Aparências só enganam quem

não vê de perto.

Com filtros, tudo é lindo.

Pareciam felizes.

Sorrisos de porcelana.

É difícil perder o poder da beleza.

A outra sempre foi cisco de pessoa.

Preconceitos era o normal.

Vidas fingidas de felizes

na família tradicional brasileira.

Todos passaram, só sobraram elas.

Fla e Flu

na memória e nas histórias.

Os ausentes.

O velho tarado.

O velório estranho.

Aquele bando de mulheres na sala.

O cheiro do perfume fedido.

A criança.

A bruxa mesquinha.

As fofocas.

A solidão.

Flu foi tomada por tudo isso.

Fluzinha a raiva herdou.

Além da nostalgia,

do culto doentio pelos mortos,

das bulas de remédios,

dos copos de requeijão na coleção,

dos carrinhos afanados.

Fla tinha brilho,

mas tinha dor e amargor.

Uma ferida que não cicatrizava

e que machucava como trator

quem a incomodava.

Arrogância.

Mentiras.

Espelho distorcido.

Peitos construídos pelo cirurgião.

Tudo justificava no seu mundo

de aparências.

Os antigos se foram.

A criança permanece.

O ciclo se rompe.

Fla e Flu se fu.

Como diz Gil: “aquele abraço”.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

Foto Adriana: @gilguzzo @ofotografico

Quando a gente é criança não entende muito o que se passa na cabeça dos adultos mas fazemos um esforço danado para sermos iguais.

Quando pequena, infelizmente, tive um grande exemplo de adulto muito influente que me dizia ser muito mais legal e bonito ter o cabelo liso, olhos claros e pele alva.

Eu o idolatrava e logo passei a acreditar ser o ideal de beleza.

Quantas noites passei em claro com medo de estragar a chapinha e torcendo pra não chover no dia seguinte. Suor? Nem pensar!

Achava que tinha nascido na cor errada.

Descobri que era ‘morena’ no colégio.

Sabe a história da menina preta que vive à sombra da amiga branca?

Então…

Mesmo que ninguém assumisse era palpável o preconceito. Certa vez na escola sortearam duas vezes quem seria a noiva da festa junina, uma vez meu nome foi o primeiro à sair mas ninguém concordou porque eu não atendia os padrões. Em tempo, pois até o meu par me abandonou no dia da festa por estar com vergonha.

Antigamente nem todos assumiam sua beleza natural, hoje existe o movimento que nos fortaleceu.

Lá atrás houve muita noite de choro e frustração antes de toda essa voz preta ecoar.

Estávamos entalados, entendem?
(… pausa e um café).

Na adolescência a única mais escurinha numa certa escola.

Era proibido dizer negra. Negra não, morena. Moreninha.

E o que dizer de um ser de luz (falha) que teve a ousadia de dizer que eu deveria ter vergonha de dizer e assumir a identidade negra uma vez que eu era “queimada de sol”?

Hahaha a ignorância ainda me assusta.

Precisa dizer a preferência dos empregadores?

– Adoramos seu currículo realmente, bastante, mas ainda não se encaixa no nosso perfil.

Ao voltar na loja coincidentemente era sempre a clarinha de cabelo liso e coque-vovó quem estava ocupando a vaga.

Uma vez ouvi e nunca mais esqueci “quando se nasce preto é preciso ser duas vezes melhor” e sem problemas eu consigo mil vezes mais.

Estamos rodeados de racistas, desde a mídia até o seu vizinho.

No dia que eu realmente descobri que era negra bati de frente com uma colega de trabalho que me confrontou ao dizer “você nem escura é, você é morena. Não negra, negro é só quem já parece um carvão”.

Talvez aquele dia foi um dos raros em que senti tanto ódio à ponto de ficar mal o resto do dia.

Eu já tinha aprendido me amar muito, aceitar cada cabelinho crespo na minha cabeça, mas à partir daquele dia algo mudou.

Vocês sabem, nós mulheres pretas sempre ouvimos mais cedo ou mais tarde a famosa frase “neguinha metida essa daí” e talvez sejamos mesmo porque depois daquela patifaria toda eu me fortaleci.

Carreguei meu black power de argumento, ajeitei com o garfo e estou sendo feliz até hoje.

Feliz e preta.

Brincadeiras à parte, é péssimo saber que infelizmente uma geração todinha está crescendo e vai passar por isso. É lastimável criar um filho dando todas as orientações de como se proteger de alguém que deveria estar protegendo ele em caso de um enquadro.

O povo preto não está mais para brincadeiras e nem tolerando conversas banais.

Avante uma nação inteira e mista!

Acredito em um mundo inteiro de paz e harmonia entre raças, sem hierarquias entre etnias, mas para isso precisamos acordar, nos unir, apoiar o que de fato é certo, beber muita água, cuidar das plantas e fogo nos racistas!

Ainda vamos fazer ecoar no universo o nosso grito de resistência!

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Sempre #naforma elas estão… E sempre #emforma estarão.                  

E nunca #seformatarão aos insensíveis olhos e mãos dos marceneiros e, dos temperos das cozinheiras de plantão!                                                               

Observar relatos sobre crianças é muito comum, mas, observar tratos para crianças não é curtido como um barato. Principalmente aquelas que são avaliadas como não sendo de fino trato, e essas precisam estar sendo observadas com mais afeto, com mais percepção, mais toque tateado, mais empatia e menos julgamento sem poesia.                                     Todos os movimentos teóricos para exercer a educação das crianças têm validade e, é bom pensar nisso. Porém, TUDO em nossa vida tem VALIDADE!                                                                                                 

Um conto vivenciado por mim e pela minha filha Juliana pré-adolescente há alguns anos: Estávamos eu e ela dentro de um ônibus e comodamente sentadas num banco alto e, ela na janela… Ao que olhando para fora, vimos dois meninos de mais ou menos 07 anos de idade, ao lado de um adolescente que fumava um cigarro. Eis que num repente, o adolescente oferece um cigarro para cada um dos meninos, que aceitaram sem pestanejar! E eu, como Educadora nem raciocinei dizendo para a minha filha:

– Que horror eles estão fumando!

Ao que Juliana minha filha respondeu:            

– Ah, Mãe… Eles são “MENINOS de RUA”   

Eu respondi para espanto dela: 

– São realmente MENINOS de RUA Juliana minha filha, mas, são ME… NI… NOS! Ora… Ora!                                                                                                       

Já se faz tempo que ouvir as crianças perdeu-se na MAJESTADE do canto, do SABIÁ!

É preciso prestar a devida atenção, nos intensos buraquinhos teclados…   No TOQUE SILENCIOSO das emoções!

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

Ainda bem que existe criança na vida da gente, nas nossas casas, no  mundo!

– Deus, você sabe das coisas!

Imaginemos: Só adultos habitando o planeta? Todos formatados de realidade. Faltando a inocência, a pureza e a alegria de quem ainda não conhece a realidade da vida? Um mundo sem parque de diversão, sem palhaço, sem papai Noel. Sem fadas e duendes?
E sem aquela alegria, que só existe onde tem criança ?
O que seria da gente sem bebezinhos  nascendo…emocionando… nos apaixonando?
O que seria do adulto que não vira criança e da casa sem festa? 

Mas em sua sabedoria infinita, Deus nos fez criança um dia… 
Para que o mundo pudesse ser melhor e colorido. Para que pudéssemos crescer aos poucos e evoluir, mudando também as pessoas ao nosso redor.
Ainda bem que tem criança no mundo…. Para que possamos deixar para o mundo um futuro melhor. 

Uma homenagem ao meu neto Leonardo que mudou nossa rotina e trouxe muito mais colorido para nossas vidas.

Vera Lígia Bellinazzi Peres – Bela Urbana, 54 anos, casada, mãe da Bruna e do Matheus e avó do Léo, pedagoga, professora aposentada pela Prefeitura Municipal de Campinas, atualmente diretora da creche:  Centro Educacional e de Assistência Social, ” Coração de Maria “

A criança que ficou em mim às vezes sente um cheiro qualquer e é remetida a um dia lá atrás quando a fruta era escassa, só aos domingos e era tão especial, uma maçã, como as dos contos de fadas, só que não fazia dormir, a alegria já começava no olfato, cheirava, comia, era maçã Argentina, grandona, comia tudo, com casca e tudo, tinha dó de jogar a semente fora, a criança que ficou em mim quer chorar quando minhas
filhas não querem comer fruta.
A criança que ficou em mim se maravilha com tantos livros a disposição para leitura, eram tão poucos os que ela conseguia ler e lia tudo avidamente, ainda hoje se emociona em uma biblioteca e não sabe a razão mas não se esquece daquela criança que foi, a criança que ficou em mim se lambuza de chocolate e doces e guloseimas e lembra que ficava feliz em comer bolo de banana e vitamina de abacate, e que a mãe fazia doce de banana com as bananas já por estragar, era tão bom.
A criança que ficou em mim chora a falta do pai que não a abraçava, ele não sabia, hoje ela sabe e mesmo assim como essa criança ainda sente falta daquele abraço que podia ter acontecido, a criança que ficou e mim sente falta do olhar do pai falando com ela e olhando para ela com atenção.
A criança que ficou em mim sabe que precisa abraçar essa sua criança que habita nela para ser uma adulta amorosa com as crianças dela, ela luta para amar suavemente, para deixar o rancor, a raiva contida e os julgamentos e seguir mais leve.
A criança que ficou em mim ama comer a comida da mãe dela e sabe, ah como ela sabe o valor disso, hoje ela é grata e aprecia todo carinho envolvido em fazer e oferecer uma refeição a um filho, a criança que ficou em mim sabe que já está tudo bem, que seus pais fizeram o melhor que podiam com as ferramentas que tinham quando ela era criança, que há que se desfazer do peso desnecessário ao caminhar pela vida e isso é escolha. Mas porque será que ainda dói?
A criança que há em mim se equivoca e se atropela ao educar suas crianças, entende agora que as respostas não são óbvias e o caminho por vezes é sinuoso mas ela ama ver como tudo o que viveu serviu para fazê-la enxergar tudo o que pode ser evitado na educação de suas filhas, talvez não consiga, mas tenta, faz o que pode, assim como seus pais também faziam, há evolução, o caminho vai melhorando. Ela agradece a criança que ficou nela e a ama assim como ela é: uma criança cheia de birras, resmungona, engraçada, desesperada, mas que acha a vida linda mesmo com seus gigantes desafios e tormentas. Ela agradece a vida e a alegria de ter chegado a esse momento de entendimento.

Eliane Ibrahim – Bela Urbana, administradora, professora de Inglês, mãe de duas, esposa, feminista, ama cozinhar, ler, viajar e conversar longamente e profundamente sobre a vida com os amigos do peito, apaixonada pela “Disciplina Positiva” na educação das crianças, praticante e entusiasta da Comunicação não-violenta (CNV) e do perdão.

Metal corria em suas veias a cada passo que lhe era dado.
Dado a ele por seu deus,
mesmo que não tivesse fé em nenhum.
Correr era o que fazia
enquanto sangue de ferro carbono se condensava em aço frio.
Cada passo era mais difícil,
cada respiração era mais ofegante do que a outra.
Ele odiava o que estava por vir.
A sua frente,
seu alvo,
seu objetivo.
Uma criança,
um menino com mais medo no olhar
do que a pena que ele sentia pelo pequeno garotinho.
Um passo,
uma mira seguida de um tiro.
Errei, o homem metal pensou.
Mas era um pensamento de esperança.
Pois no momento em que o chumbo foi lançado,
em uma explosão pequena com fagulhas de fogo e fumaça,
o destino do garoto foi selado.
Passos cambaleantes,
mais um garoto caído.
Era o fim.

Igor Mota – Belo Urbano, um garoto nascido em 1995, aluno de Filosofia na Puc Campinas do segundo ano. Jovem de corpo, mas velho na alma, gasta grande parte de seu tempo mais lendo do que qualquer outra coisa. Do signo de Gêmeos e ascendente em Aquário, uma péssima combinação (se é que isso importa).