– Moça, a senhora é escritora?

A pergunta veio de duas crianças. Um garoto e uma garota.  Menino, o porta voz.

– Por que vocês acham?

– Você tá aí quietinha. Olhando e anotando. Os outros turistas estão almoçando e comprando.  Sente fome não?

Risos.

– Sinto fome sim. E que doce vocês tão vendendo?

Disseram num unísono de boca cheia: – Cacau e chocolate da terra! E é muito bom! ( espanto – a menina sabia falar).

O menino continuou:  – A outra mulher ali, aquela senhora branca que acho que é de São Paulo, só queria experimentar sem pagar. Eu disse não. Tem que  pagar pra modo de abrir o pacote. Ela pagou. Comeu e não gostou. Queria o dinheiro de volta! Falou que era direito de consumidor!

– E você deu o dinheiro de volta?

– Dei não. Ela nos devolveu o doce. Você acha que se tivesse ruim estaríamos comendo ele? Tava não!

– Acho também não.

Riram de gosto.

– E moça, você não respondeu. Você é escritora?

– Não propriamente. Na idade de vocês,  sonhava em ser. E vocês, o que sonham ser quando crescerem?

– Quero ser fuzileiro naval!

Olhei para a menina. Que de nada perguntava e pouco respondia. Tinha um pé com havaianas,  outro descalço e machucado. Espécie diferente de Emília nos sapatos trocados. Muda, como a boneca de pano antes de tomar as pílulas do Doutor Caramujo.

– E você, o que sonha em ser quando crescer?

Ela me olhou. Sorriso tímido e açucarado. Olhos verdes e pele escura. Eu e as crianças três tons frutos do projeto de eugenia brasileiro. Antes dela verbalmente se manifestar, ele recomeçou a falar.

– Moça, ela não pensa nestas coisas não. E sabia que ela magoou o pé ali na praia. Pisou numa pedra e o chinelo escapou (…).

Liliane Messias – Bela Urbana, é pagadora de profissional: bancária. Cresceu na hoje vacinada cidade de Serrana-SP. Fez Letras em Araraquara. E adora dançar.

Encarei o calendário. Ele me olhou de volta. 12 de março. É só mais um dia, nada mudou de ontem para hoje, mas não me sinto feliz. E algo me diz que a culpa é dele. Não, hoje não é uma data feliz. Vou te contar que aniversário comemoramos hoje.

Doze meses atrás, eu fui mandada embora para casa. Posso me lembrar como se fosse ontem. A incerteza. A ansiedade. Na minha memória, uma névoa paira no ar, como em um sonho ruim em que não se deseja ver os detalhes, ou até em uma lembrança modificada, em que se colocou a névoa para que os piores detalhes não possam ser recordados. Me vejo olhando para a tela do meu celular, como provavelmente já havia feito centenas de vezes naquele dia, talvez milhares. Era uma sexta-feira e eu queria que o tempo passasse. Como eu me arrependo disso! Como podia querer que aquela magia se apressasse! Aquela magia da vida! De ver e tocar os amigos. Principalmente, de não sentir medo. De não usar essa droga de máscara. De chegar perto, de rir na cara um do outro. De andar por aquele campus maravilhoso. Comer o almoço na rua.

Era um dia feliz, tão lindo, parecia que toda a natureza sabia que seria o último, estava se despedindo de nós. Só a gente não sabia. Quem será que esqueceu de nos contar? Por que não nos mandaram aproveitar mais? O que custava nos dizer: “Não se preocupem, só por hoje. Sejam crianças e brinquem na rua. Matem aula! Ou vão para a sala, e aproveitem até o último segundo. Perguntem tudo o que puderem ao professor de vocês! Esgotem-no! Não será o mesmo por muito tempo. Abracem os amigos! Toquem em tudo o que puderem, sem medo. Tirem fotos em suas mentes de cada canto que puderem salvar. Guardem, nessas imagens, as pessoas também. Demorará tanto para esses corredores serem alegres de novo! Dividam os lanches! Beijem na boca! Vocês são tão jovens, pelo amor de Deus! Vocês não merecem nada menos do que isso, todos os dias! Respirem o ar, profundamente. Mesmo com o suor, a aglomeração. Principalmente com suor e aglomeração. Aproveitem o barulho. Não sofram. A vida já vai doer demais daqui para a frente. Deixem isso de lado, só por hoje. Finjam que nada importa. Como se o futuro não fosse ser”. Porque, até aquele momento, ele realmente ainda não havia sido.

Ainda ecoa a voz do meu professor perguntando se todos haviam visto suas caixas de correio eletrônico, dizendo que seria o último dia de aulas. Pensávamos que seria por 2 semanas, no máximo! Na realidade, tínhamos certeza disso. Olha aí você de novo, calendário! Por que nos enganou tão descaradamente?! Nem estávamos tão tristes quanto deveríamos. Talvez tenha sido até para melhor. De qualquer maneira, com certeza nunca me esquecerei do que esse professor disse a seguir: “Bem, vou dispensar vocês. Não há por que ter mais 2 horas de aula para não voltar mais pelas 2 próximas semanas”. Que erro fatal! Que tristeza pensar nisso agora! Se eu pudesse ter aproveitado mais 2 horas de liberdade… 2 segundos até… o que eu não daria! O que não daria para olhar para esse maldito calendário e constatar que tempo algum se passou! Eu faria qualquer coisa, nesse ponto, para viver mais um pouco antes de tudo que veio. Antes de me arrepender de tudo que poderia ter aproveitado mais.

Fomos todos embora, fazer o que. Pelo menos, ainda fomos juntos. Rostos livres. Levemente sorridentes com empolgação por parecer que fazíamos parte de um filme ou um livro que apenas se lê e imagina, já que nunca se pensa que se poderia viver algo remotamente parecido. Felizes como adolescentes que tiveram luz verde para matar aula. Por que eu queria estar longe daquele lugar, hoje não posso explicar.

Ele estava correto, é claro. Não fazia sentido esperar mais, aglomerados ainda. Nem se tinha álcool gel para passar incessantemente nas mãos, como se faz hoje em dia. Não é como se o vírus fosse nos dar um tempo para ir para casa em segurança mais tarde. Ou como se fosse acordar apenas no sábado, permitindo que aproveitássemos a sexta. Não sabia e nem acreditaria se me contassem, naquele dia, que não veria aquelas pessoas ou aquele lugar de novo nem 365 dias depois. Mesmo que eu vá lá, não é o mesmo lugar. Um lugar só é tão bom quanto as pessoas que o frequentam. E agora, vendo aquela faculdade fantasma, cheia de vazio, apenas preenchida por ecos do passado, meu coração dói. Não é o mesmo lugar. E não será por muito tempo.

E a culpa é toda sua. Por que diabos nos foi dada a opção de escolher onde nos encontramos, mas não quando? Todos os lugares hoje são ruins, mas esse lugar um ano atrás era feliz. Era bom. É tudo o que posso pedir agora. Se eu não pudesse voltar para aquele dia, eu iria para o dia 12 de março de 2022. Quem sabe ele não é melhor? Ou pelo menos quem sabe não seja parecido com aquele dia de 2020, mas ainda mais mágico, porque dessa vez eu vou saber. Vou saber olhar. Vou saber guardar. Eu aprendi a minha lição, eu juro. Calendário, por favor. Por favor, pule para frente e me deixe aproveitar cada segundo, como deveria ter feito naquele dia.

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU

Meu primeiro amor tinha o cabelo castanho lisinho, olhos castanhos e era um pouquinho maior que eu. Provavelmente devia ser alguns meses mais velho, já que eu era uma das mais novas daquela classe. Eu amava! Sentia uma emoção que nem sei descrever, mas lembro sim que a sentia.

Uma vez ouvi algum adulto, uma mulher, que falou para mim: – Criança não ama! – eu fiquei muito brava e me lembro de protestar: – EU AMO! – disse em alto e bom som. – Amo sim, e amo o Rogério!

Não me lembro quem era a adulta, talvez minha mãe, talvez minha tia Marta… Eu era bem pequena, tinha só quatro anos. Sim, você entendeu bem, tinha quatro aninhos! Estudava no jardim da infância e minha professora, que eu achava linda, se chamava Regina. Para seus alunos, Tia Regina.

Tia Regina me deu uma grande alegria. Os pares da festa junina para a dança da quadrilha eram escolhidos por ela. Quem vocês acham que ela escolheu para ser o meu par? Ninguém menos que o Rogério. Meu coração pulou de alegria, e me lembro da emoção e também de querer disfarçar que estava tão feliz. Fico hoje me perguntando, por que algumas vezes temos vergonha e queremos disfarçar nossa felicidade?

Como eu me lembro de tudo isso? Eu simplesmente me lembro… E, mesmo hoje (melhor nem contar quantos anos já se passaram daquele junho, algumas décadas), ao lembrar, consigo recordar da emoção sentida.

Dançamos aquela quadrilha e foi lindo! Aliás, essa foi até hoje a quadrilha que mais gostei de dançar na minha vida.

Dizem que somos feitos de emoção. Eu acredito nisso. Acho que emoção nos molda. As boas nos moldam para sermos mais doces, para algo interno que nos resgata e conforta nos momentos difíceis da vida. Até hoje eu discordo da adulta que me disse que criança não ama. Eu sei hoje que ela se referia a um amor romântico, mas mesmo assim, eu discordo mesmo, porque eu amava o Rogério, do meu jeitinho, de uma menininha de quatro aninhos, da forma mais pura e autêntica que é o amor. Simplesmente o querer bem, o encantamento e a vontade de estar do lado.

Saí da escola no ano seguinte, como eu disse, era das mais novas e a lei tinha mudado. No outro ano, quando voltei, nunca mais o vi. Acho que mudou de escola.

Se sofri por que amava? Não. Se fiquei pensando no Rogério? Não. Eu brincava, e brincava muito, e isso também era feito de amor.

Brinco com essa história a vida inteira. Outro dia peguei as fotos da quadrilha e mostrei para meus filhos. Eles riram, e ficamos perguntando na mesa: – Cadê o Rogério? Inventamos mil destinos para ele e jantamos dando boas risadas.

Desejo do fundo do meu coração que o Rogério tenha sido um menino feliz, assim como eu fui, e desejo que onde quer que esteja, que esteja bem.

Como disse Drummond: “Amar se aprende amando”.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.

Uma quinta-feira quente e as meninas estão brincando fora da quadra. Pode parecer uma grande bobagem, mas não é. Sendo a quadra de cimento uma só, elas nem tentam ocupá-la, elas nem tentam brincar com a única bola, elas nem tentam usar o espaço da quadra… Elas brincam “pelas beiradas”, na grama, na escada…

Decido sugerir delicadamente que os meninos abram espaço para elas. Faço o convite e elas prontamente correm em direção a bola, um misto de entusiasmo e alegria toma conta do cimento. Rapidamente elas organizam uma queimada.

Três minutos depois meninas e meninos se misturam. Alguns outros minutos depois e começo a perceber nessa mistura, qual é a voz mais forte? Quem eu escuto tentando organizar a brincadeira? Quem fica com a bola mais tempo? Não são elas. E não por falta de habilidade, elas são ótimas! Não pela amplitude no tom da voz, as suas vozes são potentes! Mas…

Coisas que podem parecer tão bobas para uma professora que tem tantas coisas para pensar, mas não são. Muitas de nós cresceram assim, “existindo pelas beiradas”, tentando e muitas vezes não conseguindo ocupar espaços, tentando colocar a sua voz no mundo, algumas vezes nem tendo a coragem de tentar, brincando com brinquedos e brincadeiras “de menina”, tendo que ficar feliz e satisfeitas com o “cor de rosa”, com o desenho da princesa, mesmo que quisesse muito o do homem aranha, duvidando da nossa habilidade, da nossa potência, ou mesmo do nosso simples desejo de brincar de outras coisas, de subir numa árvore, de brincar com uma bola.

Isso não é pouco, isso vai nos dizendo como nos comportar no mundo. Isso vai nos mostrando qual o lugar que acham que podemos ocupar.

Quem vai mostrar a possibilidade de existir de outra forma? Qual a importância de dar voz a elas? Qual a importância de prestar atenção em como as tratamos, em que lugar as colocamos, nos julgamentos que fazemos com relação ao tamanho do short de uma criança e não dos olhares que meninos são ensinados a ter desde pequenos (meninos também crianças, mas essa é uma outra discussão).

Montsserat Moreno escreveu um livro que se chama “Como se ensina a ser menina na escola” e ela nos diz que “Para cada um só é possível o que pode imaginar, só é real o que pensa que existe e só é certo aquilo que acredita” e justamente por isso cada vez mais acredito ser impossível estar no mundo e principalmente na escola e não prestar atenção em como nos posicionamos em relação a situações como essas.

A escola, para além do espaço no qual acontece a formação intelectual e social das crianças, ela pode e precisa ser também o espaço no qual se questione, se crie alternativas, se busque novas maneiras de interpretar o mundo que nos cerca e também de criar outras formas de estar nele e organizá-lo.

Olhando para elas, agora dentro da quadra, penso que nem imaginam que eu estou aprendendo tanto ainda… Como professora e também como mulher.

Michelle Felippe – Bela Urbana, professora por convicção e teimosa. Apaixonada por doces, cinema, poesia urbana e astrologia. Acredita que ainda vai aprender a levar a vida com a mesma leveza e impetuosidade das crianças.

Os professores te veem
Mas não te chamam para dar respostas
Porque não acreditam que você as tenha

Seus colegas não te levam tão a sério
Uma menina não é tão engenheira
Quanto um menino

Não te contratam
Porque meninos dão menos trabalho
Não engravidam
Não prestam queixa de assédio
É menos despesa
E menos dor de cabeça

Desde pequena
Seus próprios pais não acreditavam em você
Ao te dar uma boneca ao invés de
Carros ou blocos de montar

Até o motorista do Uber!
Ele não acredita quando você diz
Que é engenheira
Como se não soubesse que existia
Uma raça exótica assim

Mas nada disso nos abala!
Não somos uma
Somos várias
E estamos unidas

Na classe de 2018
Somos 15 de 150
Estamos ocupando espaço
Mas ainda não é o suficiente

Somos as maiores notas sempre
Somos as mais estudiosas e dedicadas
Porque a triste verdade é que
Toda menina engenheira sabe
Que precisa se esforçar
Duas?
Cinco?
Dez?
Vezes mais que um menino
Pelas mesmas oportunidades
Mas tudo bem
Isso só nos fortalece

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU

Em relação ao carnaval, nesse ano, o desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro passava por grandes mudanças, entre elas a inauguração do Sambódromo na Sapucaí. Já quanto à infância, eu com apenas 11 anos e meus primos com idades entre 6 e 14 anos, não estávamos interessados no principal acontecimento do carnaval do Rio de Janeiro, ou seja, que o samba deixaria de acontecer no asfalto de grandes avenidas e passaria a ter a sua própria casa.

Naquela época, a chegada do feriado do Carnaval era muito esperada pelas famílias que viviam no interior de São Paulo, principalmente pelas crianças. Um feriado prolongado nos dava a possibilidade de viajar e a torcida era para que pudéssemos sempre ir à praia. O que aconteceu por vários anos consecutivos…

Tínhamos um tio muito querido que adora viajar e sempre convidava a família toda… Digo tínhamos porque esse meu tio nos deixou ainda muito jovem, com apenas 35 anos de idade, vítima de um aneurisma cerebral.

Não quero falar de tristeza, porque meu tio era pura alegria, e falar desse ano, especificamente, me faz homenageá-lo ao lembrar de algumas situações engraçadas que vivenciamos na cidade de Itanhaém, município da Baixada Santista, e que ficaram marcadas para sempre.

A aventura começou já na descida ao litoral, pois como íamos em várias pessoas e, naquela época, os lugares para compras de alimentos eram escassos, tínhamos que levar muita comida para dar conta da fome do povo todo, e para ter espaço para outras coisas que levávamos, meu tio acoplava ao carro uma carretinha.

Saímos de casa de madrugada, e quando estávamos na Marginal Pinheiros, um dos pneus da carretinha se soltou e correu na estrada. Eram só crianças gritando e adultos correndo em direção ao local da parada do pneu. Graças a Deus, a pista estava tranquila (acredito que pelo fato de estar muito cedo) e nenhum acidente foi provocado.

Euforia total nos carros, começava ali o nosso carnaval… muitas risadas, gritos e correria para sairmos da pista o mais rápido possível.

Ao chegarmos na praia, outra situação atípica… Como era a primeira vez que meu tio tinha alugado aquela casa, estávamos acostumados a ir em outro imóvel, demoramos um pouco para encontrá-la. O lugar era distante e com poucas construções, o que deixava o local um pouco sombrio. Os adultos, imediatamente, começaram a comentar o quão difícil ia ser sair dali para ir ver o carnaval de rua, e as crianças mais velhas começaram a falar dos perigos da noite para os pequenos. Muitas risadas e choros.

Meu tio quis alugar uma casa maior para acomodar melhor a família toda, mas também queria nos fazer uma surpresa: na casa tinha piscina com escorregador, o que era uma novidade para todos e acabou causando muito contentamento, principalmente para as crianças, e os choros de minutos atrás se transformaram em muita alegria e euforia.

Durante os dias, as crianças ficavam divididas entre ir à praia ou ficar na piscina. E o carnaval de rua durante a noite? Ah, esta é outra história!

Vou contar aqui o que aconteceu em um dos dias, com duas situações engraçadíssimas…

A família toda foi assistir ao desfile de rua e, chegando lá, havia um público bastante animado. Pessoas desfilando em trajes engraçados e uma considerada plateia acompanhando, dançando, cantando… até que em certo momento, um grupo que estava desfilando começou a jogar no público algumas coisas, o que me lembro eram casca de banana, tomate, farinha, fubá, ovos, entre outros. Minha família toda aglomerada, isso em 1984, certo? Não sabia o que fazer.

Os adultos queriam correr, mas tinham as crianças que para enxergar melhor estavam um pouco distanciadas. Como era carnaval, o público entrou na brincadeira e não era mais possível saber de onde vinham as coisas que estavam sendo atiradas. 

O carnaval acabou cedo para a minha família, tivemos que voltar para casa porque muitos foram atingidos naquela brincadeira, até ovos estavam espalhados pelas roupas. Chegando em casa, foi aquela correria para o banheiro, os atingidos queriam se livrar das roupas e tomar banho.

Lembro que uma das minhas tias teve a ideia de ir usar o banheiro de fora da casa, que era um pouco afastado, e algumas crianças, inclusive eu, resolvemos ir com ela. Afinal, aquele seria um local mais tranquilo, uma vez que a casa estava bastante agitada.

Minha tia entrou correndo porque estava com vontade de fazer “xixi”, mas ela mal entrou e começou a gritar desesperadamente. Nós, crianças, não sabíamos o que fazer e fomos chamar os adultos da casa. Depois de algum tempo, minha tia abriu a porta e mostrou a perereca que se encontrava em um canto do banheiro, tão assustada quanto ela. De acordo com minha tia, assim que ela abaixou o short e foi sentar, viu a perereca… O que aconteceu não preciso contar. Que noite!

Os dias transcorreram e a pauta das conversas era só a perereca no vaso, todos se esqueceram do que aconteceu no desfile, e nem de volta às nossas casas a perereca nos deixou.

São muitas lembranças do carnaval de 1984! Minha família se lembra até hoje dessa viagem, enquanto, certamente, a comunidade da Portela deve se lembrar do título do Carnaval do Rio de Janeiro (conquistado na primeira noite dos desfiles), assim como a escola verde e rosa (Mangueira) também deve trazer nas lembranças a conquista do título na segunda noite e a premiação da campeã das campeãs.

Enfim, enquanto minha família foi surpreendida com arremessos de coisas pelos foliões em plena avenida, os mangueirenses surpreenderam ao dar meia-volta no final da passarela e cruzar a Sapucaí “na contramão”, encantando os presentes.

Pensando neste ano, 2021, em que estaremos isolados, sem comemorações e viagens, vamos ficar em casa e contar histórias. Acredito que assim como eu e minha família, muitas pessoas da minha época, e que viviam no interior, devem ter muitas histórias engraçadas experienciadas no carnaval. Resgatar as memórias da infância é vivê-las um pouco no presente!

Experimente, a festa familiar pode ser muito animada!

Adriana Silva – Belas Urbana. Pedagoga de formação, apaixonada pelo poder transformador da educação e movida por desafios, propósitos e pessoas, há sete anos está no terceiro setor atuando em Programa de Primeira Infância.
Nunca pensou em escrever, mas trabalhou durante anos com crianças em processo de alfabetização e, talvez isso, tenha sido a inspiração para aceitar o convite e compartilhar uma história da sua infância
.

Um dia acordei e percebi que a cidade, o estado e o país que vivia estava diferente. Era um estado esquisito, mas melhor. Achava estranho por ser novo, diferente, até incomodo perto do que vivia, mas era bom, estranhamente bom, funcional e justo.

O estado era mais bem organizado, respeitava as pessoas. Todas elas. Por mais diferentes que fosse. Respeitava o tempo do corpo, da alma, da emoção. O trabalho, a economia não eram totens do sucesso individual, mas sim, expressão da união das pessoas em prol do seu próprio cuidado. Estavam limitados ao que era necessário, sem exigir dos indivíduos mais que o esforço necessário para atender ao necessário.

Havia um afeto coletivo genuíno. Não era sexual ou piegas, mas genuíno ao ponto de eu não saber explicar. Onde eu ia, me sentia acolhido como no útero de uma mãe. Pessoas educadas, calmas e colaborativas. As crianças eram livres, inteligentes e ouvidas. Os adultos eram sábios e ponderados, reconheciam seus erros e aprendiam. A justiça era feita na conversa, não no martelo, ou na balança cega por quem tem mais.

As ruas eram limpas, para que nenhum bicho, por mais selvagem que fosse, se contaminasse. Todos habitávamos em harmonia com as plantas que permeavam a cidade. Tudo era vida e tudo bem. Não havia concreto, mas o solo, a terra que sempre existiu, abraçando nossos pés. Esse mundo, parecido com um desenho bíblico havia se tornado real porque as pessoas simplesmente buscaram construí-lo.

Um exercício de imaginação é o princípio de um mundo novo. Convido você a imaginar esse dia, assim como imaginei para escrever essas linhas. Vem, pensa num mundo governado pelas mulheres!

Entendo se você estranhar esse depoimento, esse exercício imaginativo. Talvez nunca tenha imaginado nada sobre matriarcado ou sociedades governadas (ou mesmo geridas) a partir do etos feminino. Nem eu sou expert nisso. Mas a mulher tem outro tempo, outro espaço e outras demandas, necessidades e prioridades muito mais humanas. Homens como eu, como você talvez, temos que entender que há um mundo possível, bem diferente do que aquilo que chamamos de normal. Há algo que nunca tentamos, e não é porque o patriarcado está aí a um bom tempo que temos que conservá-lo. Às vezes, está errado a um bom tempo, temos que ter culhão para mudar urgentemente.

Uma mulher na política vai sim pensar na vida em gestação, aquela que só ela sabe como carregar em seu corpo. Vai pensar nas dificuldades que são, uma vez por mês, sangrar pela humanidade e na necessidade de pausa para sentir e refletir o momento. Vai pensar no tempo necessário para cimentar o sorriso em uma criança, até quando ela puder sorrir por si só e fazer o mundo ao redor sorrir junto. E a cada criança que sorri, a partir de políticas públicas baseadas em dilemas femininos, é um pedaço de uma sociedade mais humana e equilibrada que surge, buscando longe do trabalho ou da economia os totens de sucesso, mas sim na felicidade e na união dos povos.

Mulher no poder é necessário, assim como todas as outras identidades. Os homens precisam dar espaço e tentar o novo, por mais romântico que o texto pareça, pensar nisso é realmente necessário se quisermos superar as demandas econômicas, ecológicas, sociais e de paz do mundo. Pense nisso. 

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

-Mas é pavê ou pacomê? – Imagine aquele tio das festas de Natal podendo marcar presença em todos os momentos de seu sagrado confinamento social.

Entre grupos de família ou de amigos, de pais da escola, do condomínio, da academia e tantos outros, surge uma nova habilidade social nessa tortura do isolamento: Driblar o WhatsApp!

Começa com um “BOM DIA!” Seguido de uma imagem fofa, em seguida vem as piadas, “para alegrar o dia”, geralmente vídeos longos, sotaque carregado, nordestinês tem a preferência, mas tem também gaúchês, mineirês, caipirês, interiorês de São Paulo, qualquer um que instigue o que tem de melhor nos preconceitos. Tem piada machista, misógina, política e,
tantos mais. O que elas têm em comum? Essas piadas nunca alegram o dia. E mulher gostosa que conta piada machista então? E o tiozão completa, “mas até elas pensam assim”. Você:

-Tio, não é que elas pensem, elas estão lendo um texto para o deleite de véio babão.

Na sequência, vem a opinião de cada um do grupo, tios, primos, cunhados, sobrinhos e agregados, cada um com sua opinião e, do nada, é claro, estamos falando de política. Creio que a frase inicial é algo como:

-Então, o que vocês preferem é ver mulher feia, né? E segue:

-Feia é a mulher do Macron, por isso ele está contra o Brasil do Mito, que tem mulher bonita.

Quando você diz feia ou bonita, só para eu me encaixar na conversa, é para olhar, comer ou ter uma conversa produtiva?

-Mas você é esquerdista mesmo, não?

-Demorou para chegar nessa conclusão?

A discussão já tem conversa paralela, definição de esquerda, feminismo, feio e bonito, entra rachadinha, 89 mil e stf na feed. Entre fake news e boatos, com seus respectivos desmentidos, alguém lembra que estamos em 2020, que ano! Tomara que acabe logo. Não adianta nada dizer que o ano pode mudar, mas que, sem vacina, continuaremos em isolamento.

-Você tomaria a vacina chinesa?

-Talvez, mesmo porque gosto do nome sinovac, lembra o meu (hehehe). Mas eu não tomaria a russa, que não foi testada a ponto de se confiar nela.

-Por que não, você não é comunista?

-: /

Outra discussão está se definindo no horizonte, mas, antes que ela comece, aviso que preciso levar o cachorro para passear. Não tenho cachorro, mas preciso caminhar. Visto minha máscara e aproveito o sol da manhã. Logo, na esquina, escuto a voz de uma criança, na varanda de um prédio:

-Vai para casa sua arrombada.

E é por isso que eu fico com a pureza e a inocência das crianças.

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

E aquela menina com menos de 5 anos, morava na roça, cidade pequena, numa casinha de pau a pique, morava com os pais, uma irmã mais velha e a caçulinha.

Era uma família simples, trabalhadora.
A casa dentro de uma fazenda, afastada da casa dos patrões, o pai trabalhava na lida no curral, tirando leite, a mãe, cuidava das crianças e da casa.

Raramente recebiam visitas de parentes. Mas quando vinham, deixavam os pequenos felizes, pois, embora tivessem crianças na casa, não eram de muita interação, pelo menos a menina não se lembra. As conversas eram só nas horas de visita. Conversa não, pois ficavam só escutando as prosas e contos na beira do fogão a lenha. Criança não se entromete nas conversas de adulto, ouviam dos pais!
Tinha uma visita que era constante, ia filar uma boia ou um café com bolo da comadre Maria e do compadre Beto, como ele chamava os pais da menina (mas não era padrinho de ninguém).
Sujeito bonachão, solteirão, não tinha parentes era amigo da família e estava sempre presente e solícito. Trazia balas, doces e mimos para os pequeninos da casa.

Os pais tinham muito apreço pelo Vitão (sim, esse era o nome dele).
A pequena se lembra que sempre estava perto dele. Quando ele chegava, se sentava num banquinho de madeiras e chamava a pequena para sentar no seu colo ou ficar perto dele. Se iam na missa ele aparecia e fazia questão de carregar a menina nos ombros até a entrada da fazenda, afinal era uma caminhada longa. Todos diziam que gracinha: ela gosta tanto dele! Que carinho ele tem por ela! Que xodó! Termo muito usado pela mãe.
Nunca nem imaginavam o que acontecia ali. Nem a menina.
Não demorou muito a família mudou de cidade em busca de trabalho e melhores condições de vida. A menina cresceu e um belo dia quando falavam de abuso sexual contra crianças, veio em sua memória um desses momentos vividos por ela. Foram flashes reveladores que acenderam sua memória!

A menina mulher estava brigando com a família, que conversavam sobre um caso de tentativa de abuso contra a filha da vizinha, diziam inclusive que a criança houvera provocado e que estava muito saidinha, blábláblá…

Nesse momento a menina mulher em prantos grita e conta sua triste experiência:

Começou dizendo:

– Não existe essa de se provocar o abusador! São canalhas! Parem de defender o bandido!

Lembra daquele Vitão que vocês gostavam tanto?
Nunca disse nada porque não lembrava, mas me lembrei agora!

Ele se sentava no banquinho, na cozinha da casa, na beira do fogão a lenha e enquanto vocês conversavam, alheios ao que se passava, ele me punha de cócoras entre as pernas dele e seus dedos me invadiam… ninguém via, ninguém desconfiava.

Então, eu o estava provocando?

A mãe da menina mulher, emudeceu por cinco eternos minutos e lhe disse com tristeza:
Meu Deus! Você vivia grudada com ele, como eu ia imaginar? Ele sempre foi muito respeitador! Jamais desconfiei!

Maria Teresa Cruz de Moraes – Bela Urbana, negra, divorciada, mãe de duas filhas moças, totalmente apaixonada por elas, seu maior orgulho. Pedagoga, psicopedagoga, especialista em alfabetização e coordenação pedagógica. Ama estudar. Está sempre envolvida em algum grupo de estudo que discuta sobre práticas escolares e tudo que acontece no chão da escola. Ah, é ariana.

Já ouviu falar na lei 8069 de 13 de julho de 1990?

Trata-se de uma lei que tem a função de proteger de forma integral à criança e ao adolescente.

Mas por que crianças e adolescentes precisam de uma lei para protegê-las?

Essa pergunta pode parecer um tanto óbvia, mas acompanhando as manifestações nas mídias sociais, em pleno 2020, frente ao acontecimento do estupro em uma criança de 10 anos, achei que seria interessante voltarmos a origem do porquê promulgamos uma lei em 1990 para proteger crianças e adolescentes.

Crianças e adolescentes estão em processo de desenvolvimento físico, mental, moral, espiritual e social. A palavra processo nos remete a necessidade de facultar. Sim, nós adultos que vamos facultar esse processo de desenvolvimento.

Como?

Garantindo os direitos referentes à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao esporte, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária.

Agora uma pequena reflexão: Quando uma criança passa por uma experiência de violência sexual, qual direito foi violado?

De imediato, você poderia falar que sua saúde, dignidade, respeito foram violados, mas eu entendo que não são estes apenas. Estes talvez sejam os primários e estejam relacionados ao abusador, mas há outros direitos que talvez tenham sido violados no percurso de todas as pessoas que fazem parte da vida dessa criança, inclusive da vida do abusador.

Pare e pensa… o que acontece quando:

  • Apoiamos iniciativas de políticas públicas que não ensinam educação sexual;
  • Julgamos pessoas e perpetuamos barreiras que propagam a cultura do silêncio;
  • Não cultuamos em nossa sociedade a parentalidade responsiva;
  • Disseminamos informações que favorecem a violência;
  • Não tratamos as psicopatias;
  • Não falamos dos nossos sentimentos;
  • Rimos ou diminuímos os homens que falam de seus sentimentos e fragilidades;
  • Não nos opomos a erotização na infância;
  • Educamos com violência física, verbal e moral;
  • Minimizamos que há uma cultura que trata o corpo da mulher como objeto;
  • Quando pais e mães pedem ajuda, o ato é tratado como fracasso;
  • Quando banalizamos a sexualidade;
  • Quando um pai não tem direito à licença paternidade estendida;
  • Quando acreditamos que as armas nos protegem da violência;
  • Quando a escola pública e os SUS não são prioridades na agenda pública e não é defendida por todos os cidadãos.

E tantos outros quandos…
 
Ao final, uma violência esconde tantas outras violências e eu me pergunto: Com qual delas eu contribuí ou contribuo de alguma forma?

Sim, somos todos responsáveis! Como diz o provérbio africano muito repetido na área social: “é necessário uma aldeia inteira para educar uma criança” e, infelizmente, uma aldeia inteira também pode ser omissa, negligente e violenta, se não tiver um projeto coletivo de proteção integral à criança e ao adolescente.

Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre