Tinha uma mãe braba. Não é brava de brincadeirinha, dessas que a gente fica entre a chinelada e o xingo engraçado clichê. Ela era BRABA mesmo. Arrumava encrenca com vizinhos, gritava com todos que a contrariasse, perdia amigos e intimidade com parentes. Não se preocupava em entender, se fazia entender por qualquer método, até quando não havia como.

Até meus 14 anos, tudo que queria fazer deveria ser escondido. Até brincar na rua era proibido e coibido. Não tinha privacidade, tudo que tinha era vasculhado. O que eu pensava era errado e melhor eu ficar quieto. Ela era imperativa e se algo saísse do controle, alguém pagaria. Meu pai não era flor que se cheirasse, mas tinha que abaixar a cabeça, se não quisesse perdê-la.

Ela não era só essa brabeza, tinha uma ternura ali. Mas uma ternura cega e surda, que não percebia os sentimentos ao redor. Ela abraçava, mas como seu eu fosse um boneco, e não gente. Ela cuidava, como seu eu estivesse para morrer, e não com os olhares dialogais de atenção aberta e sensível ao que os filhos realmente precisavam. Me sentia, de certa forma, só em cada abraço e desamparado em cada cuidado.

Por mais que muita gente possa se identificar com esse relato, ele é triste, pois esse tipo de atitude priva os filhos de uma amizade pródiga e uma confidencialidade saudável. Sentia-me muito solitário, com baixa autoestima e com uma necessidade de autossuficiência que me prejudicaria por décadas.

E por esses arroubos de intemperança, desenvolvi um comportamento defensivo muito arraigado, principalmente com ela. Até hoje posso dizer que não abro certas coisas com ela, pois se que ela não sabe lidar e não me ajudará de fato, podendo até prejudicar.

Mas deixo claro que não são atos deliberados dela. Ela é inocente. Uma inocência infantil, delicada que não vê maldade do que faz. E faz porque acha que o que faz é o bem. É um excesso de tudo: amor, carinho, cuidado, defesa… como se ela fosse nos perder a qualquer instante.

Não vamos fugir, mas é como se estivéssemos fugindo dela. Não vamos morrer, mas é como se qualquer descuido dela, morrêssemos. Não estamos sob perigo, mas é como se o mundo fosse uma ameaça letal, que precisa ser combatido com gritos e violência. É um exagero de boas intenções, com ações inocentemente desastrosas.

Aos poucos, ano após ano, fui descobrindo minha mãe. Descobrindo em meus traumas, meus traços, nos traços da minha irmã e no meu pai. Fui descobrindo essa mulher castrada moralmente por uma geração conservadora, por um marido puritano, por uma sociedade opressora e por uma série de medos e inseguranças que, ao redor dela, não recebia a devida atenção. E por não ter tido atenção, como ela iria aprender a ter atenção com os outros?

Viver uma adolescência nos anos de chumbo dos 70, uma juventude na década perdida na década de 80 e uma menopausa nos 90 pode ter impactado. A frustração de um casamento falido, de uma carreira interrompida, de não ter sonhos de consumo e experiência realizados também. Minha mãe é uma mulher que sofre, que é apagada. E que grita para existir.

Me incomoda ver ela agindo dessa forma hoje? Sim. Me dói e me faz falta a mãe que sempre projetei. Mas quem gosta de projeto é arquiteto, engenheiro (que sabem bem o que fazer com eles) eu não sei o que fazer com projeções.

Minha mãe é essa e rio quando consigo, para lidar com aquela mãe que grita por pouco, que dá vexame e que é a mãe mais particularmente amorosa do mundo. E esse amor particular, por mais que me fez sofrer a vida toda, me fez enxergar as formas de amor mais estranha e fora do padrão hollywoodianos possível. E a isso sou grato. Grato por ver amor onde ele se esconde.

Me dói essa descoberta tardia dos excessos dela. Me alegra que ainda tenho algum tempo para descobrir e amar em excesso. Assim espero.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Excluindo relações tóxicas, violentas e outras que rasgam páginas e fogem ao que deveria se considerar saudável, os encontros humanos talvez possam ser comparados ao encontro entre dois cadernos com lápis nas mãos. Explico:

Eu sou um caderno com um lápis na mão indo ao encontro de outro caderno com seu respectivo lápis na mão. Irei escrever minha história no outro caderno, e ele irá escrever sua história em meu caderno. Simples assim.

Mas há cadernos que não gostam do que o outro escreve, mas gosta da caligrafia. Há os que não gostam das caligrafias, mas adoram o conteúdo. Há aqueles que reclama da força do Grafiti, mas encantam com as frases. Há os que, apesar da poesia, não suportam a cor da escrita.

Há aqueles que não conseguem virar a página e se abrir para um novo texto. Há aqueles que apenas querem escrever, não recebem nada. Há os que impõe que se receba sua escrita ou o digam receber a história, sem recíproca. Há quem goste apenas de frases e quem exija ilustrações hiperrealistas e fotos bonitas, mesmo sem história alguma.

Há até a crítica das histórias alheias. Os caga-regras de lápis sem ponta. Os engenheiros da planta pronta. Há de tudo.

É assim, qualquer relação é uma escrita. Um lápis que anota no caderno do outro a história de que é capaz, e reciprocamente a recebe. Se não combinam os lápis e cadernos a busca continua. Um novo emprego, uma nova amizade, um relacionamento amoroso, uma parceria qualquer. Segue a vida em busca de boas histórias.

Afinal o saldo é um best seller que, de poucas frases a milhares de páginas, precisa orgulhar o caderno. Ao final da vida, sobra um toquinho de lápis, feliz pelo que escreveu. Se isso não houver, ainda assim, restará um tempinho para arrematar um bom enredo sem uso de borracha. Um lápis novo ou um caderno vazio é, portanto, um desperdício e o arrependimento não cabe. A riqueza é o gasto!

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Era 1979, logo após a anistia. A menina, com seus 20 anos, estava cansada daquilo tudo, daquela cidade de pedra. Junto da sua amiga, resolveram partir para viver uma vida livre e cheia de sonhos. Foram para o sul do país, num estado cheio de praias e natureza.

Lá trabalharam de tudo um pouco. Comércio, serviços gerais, indústria. O que desse algum dinheiro e tempo para viver era suficiente. A menina estudava bastante, principalmente a natureza. Estudava, lia, cantava e vivia livre, sem ter que se preocupar com todo o caos social em que o país vivia, em meio a uma ditadura irresponsável.

Nesse meio tempo, conheceu um homem trabalhando em uma editora. Ele era mais velho, maduro e estruturado. Vinha toda segunda de sua cidade natal e sexta ao final do dia para lá retornava. Ele também sonhava e queria viver de forma livre o mundo e a natureza. Era um par perfeito, se amavam e se completavam. A menina estava plena: tinha um par romântico perfeito, uma amiga inseparável, estava no local que sempre sonhou viver… o que esperar mais da vida?

Foram meses de muita alegria e completude. Conheceram toda região, frequentaram shows, liam e cantavam juntos. Era um sonho. Mas o sonho tinha prazo de validade e ele expirou quando a menina soube que ele era casado. A decepção juvenil não permitiu que as possibilidades fossem pensadas e a coragem necessária tivesse espaço. O rompimento dramático, bem típico daquela juventude veio e ela decidiu voltar a sua cidade de pedra com sua amiga fiel. Abandonaram o sonho para viver a realidade dura.

Logo conheceu um garoto e, para esquecer do homem que a machucou, decidiu seguir com ele a vida morna. Logo se casaram para provar que eram capazes, logo vieram os filhos para provar que são capazes, logo vieram as responsabilidades e dificuldades que provaram sua capacidade de deixar de ser menina e passar a ser mulher. E sendo mulher, não arredou pé de arcar com as agruras e usufruir das poucas alegrias que vinham. 

Mas o garoto não virou homem e logo vieram as traições, a violência psicológica, os abusos. Ela, mulher firme, aguentou tudo pelos filhos. Não era totalmente infeliz. Além dos filhos, tinha uma família maravilhosa e sempre que podia (e que o garoto não estava por perto), vivia essas alegrias plenamente, nunca sem esquecer do que poderia ter sido se aquela decisão precipitada de abandonar o paraíso no Sul e seu amor proibido tivesse dado certo.

Em meio a tudo isso, fez uma promessa a si mesma: assim que os filhos saíssem de casa, largaria tudo e faria como aos 20 anos. Partiria para o paraíso que conhecera e retomaria a vida de onde parou, de preferência, encontrando aquele amor pelo e impossível. A pergunta que não calava: será que consigo?

A filha se casou, o filho casou e lhe deu uma neta. Era hora de criar coragem e, mais uma vez, correr ao encontro da felicidade. Pela internet iniciou uma busca por aquele homem de outrora. Agarrou sua amiga inseparável e, escondido daquele garoto (que, apesar das rugas, mantinha a postura infantil e insegura de um menino), iniciou sua vida novamente.

Enfim, encontrou o homem do passado, que agora era um senhor. Juntou coragem e entrou em contato com ele. Surpresos, reviveram ao telefone os sonhos de outrora. Juntos, planejaram esse reencontro e a mudança daquela senhora-menina para o lugar em que a história avia abruptamente parado. Ela pediu divórcio, juntou as poucas coisas e partiu. Ele não poderia fazer o mesmo. Cuidava de uma esposa doente. Mas isso não seria impeditivo para viverem novamente uma história impossível.

Ela foi viver dos mesmos trabalhos que lhe dessem o sustento e o tempo necessário para ser feliz. Trabalhava com a natureza que havia estudado e voltou a ler e ouvir tudo que o garoto não permitia. E agora, nos poucos momentos possíveis, ao lado de seu grande amor. Mas também, a vida não seria um morango. Ela adoeceria e, pouco mais de três anos após sua libertação, viria a falecer devido a complicações de uma doença que surgira nos anos de estresse e infelicidade viveu na selva de pedras.

Poderia encerrar aqui a história de forma pessimista, já que todo leitor que se prese, espera um final feliz. O Senhor ficou triste com a partida da menina, os filhos dela também. Sua amiga inseparável também ficou inconsolável. Eu mesmo que escrevo essas linhas, no pouco tempo que a conheci, fiquei indignado com a vida ao saber de sua passagem.

Mas paremos para refletir: seria uma vida digna se ela tivesse fincado sua vida junto a moral e bons costumes, mantido um casamento infeliz, sofrente ao lado daquele velho garoto até a morte? Ou seria feliz uma vida pela metade, sustentando uma relação paralela desde a juventude com o homem que amava, mas que já tinha esposa e filhos?

Nunca saberemos. O que sabemos mesmo é que a maturidade trouxe a coragem necessária para que a vida possível fosse vivida e a sabedoria necessária para conviver com as incompletudes e impossibilidades. E tudo que foi possível viver em cada momento foi vivido de forma plena, porque a postura que aquela menina, que virou mulher e que se tornou uma sabia senhora nunca deixou de acreditar que a felicidade era possível, que os relacionamentos não são coisa perfeitas e imaculadas como nos romances hollyudeanos, e que a moral, a expectativa alheia ou mesmo as inseguranças e medos de dentro não são capazes de barrar uma alma livre, cheia de vontade de viver um amor possível, porém verdadeiro.

Esse conto é uma homenagem a uma vida que viveu e amou da forma que, não o que eu desejava escrever e nem o que desejávamos ler. Se você se identifica com a menina, com o homem, com o garoto, com a amiga inseparável, com os filhos da mulher ou mesmo com esse que vos escreve, se pergunte: que coragem me falta para viver a vida e o amor que mereço, mesmo com suas imperfeições? O que me falta fazer para ser feliz? O que preciso ser, independente da expectativa de quem lê minha vida de fora? O que me falta para ser livre?

Pense nisso.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Deitou-se na cama. O sol teimava entrar no quarto se esgueirando pela janela e cortinas fechadas. Mesmo assim encontrava uma brecha e iluminava levemente o ambiente. Com os olhos fixados nos seus pensamentos, olhava o ventilador de teto que fazia girar a sua história. Tocou em seus dedos e a marca do anel estava mais fraca. Pensou: “um pouco de sol e a marca desaparece…assim como minhas memórias”.

Saiu do quarto, do hotel, da cidade. De novo na estrada. Resolveu abrir o teto solar. Precisava do sol para queimar a marca do anel. O sol estava forte, mas era compensado pelo vento no rosto. Sentia-se sozinha e livre na estrada.

Sem saber direito o porquê, lembrou do filme Telma e Louise. Um filme antigo que agora, em sua lembrança, a fazia sentir um frio gostoso na barriga. Acelerou fundo. Estava indo para algum lugar que não sabia ao certo qual era. Sem destino, sem ninguém. Foi em frente. “Para onde vou?”. Perguntou a si mesma. Soltou um leve sorriso. Para onde ia pouco importava. Mas o filme Telma e Louise não saía da sua cabeça.

Gil Guzzo –Belo Urbano, é artista, professor e vive carregando água na peneira. É um flaneur catador de latinhas. Faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO PRESS (Agência de imagens) e professor universitário. Adora cozinhar e ficar olhando distraidamente o mar. É alguém que não se resta a menor dúvida…só não se sabe do que…. 

Bateu a desconfiança.

Pensava: – Esse homem, quem é? – Será que é mais um daqueles papos de restaurante? Quantas e inúmeras vezes ele já deve ter tido essa atitude?

Eu era mais uma dessas passarinhas… uma canarinha, não! Uma fênix, já sai da gaiola. Sou dona de mim. Pensando bem, vou viver o agora, como senão tivesse o ontem e nem o amanhã.

Acreditar? O que importa? Se for mais um daqueles, bem… não irei me fechar para uma possível possibilidade do amor. Na verdade, o amor é quase inventado na nossa mente no coração ele apenas pulsa.

O que vai dar? Um pouco de mel ou de fel?

VEJA AMANHÃ NO ÚLTIMO CAPÍTULO

A história AQUELA ESTRADA é uma história escrita por 07 autores – Liliane Messias, Macarena Lobos, André Araújo, Crido Santos, Gil Guzzo, Maria Nazareth Dias Coelho e Adriana Chebabi. O capítulo de hoje foi escrito por Macarena Lobos.

Macarena Lobos –  Bela Urbana, formada em comunicação social, fotógrafa há mais de 25 anos, já clicou muitas personalidades, trabalhos publicitários e muitas coberturas jornalísticas. Trabalha com marketing digital e gerencia o coworking Redes. De natureza apaixonada e vibrante, se arrisca e segue em frente. Uma grande paixão é sua filha

Compromisso? Que compromissos ela teria além de consigo própria.

Colocou o telefone no gancho. Foi ao espelho e seu olhou profundamente. Cada marca de expressão em seu rosto.

Ensaiou pequenos sorrisos. Viu-se menina, criança feliz das fotos emolduradas da casa de seus pais.

Onde havia se perdido? Buscou sua história na mente e veio seu maior medo: dias que se passavam sempre iguais. Se repetiam em círculos de monotonia. Se escrevesse um diário dos últimos 14 meses da sua vida, todos os dias seriam igualmente sem graça. Até o dia no qual abriu a porta de sua casa gaiola e com seu carro pássaro voou em busca da liberdade.

Seria aquele sedutor dono do restaurante uma arapuca pra passarinhas que buscam o amor?

VEJA AMANHÃ NO CAPÍTULO 6

A história AQUELA ESTRADA é uma história escrita por 07 autores – Liliane Messias, Macarena Lobos, André Araújo, Crido Santos, Gil Guzzo, Maria Nazareth Dias Coelho e Adriana Chebabi. O capítulo de hoje foi escrito por Liliane Messias.

Liliane Messias – Bela Urbana, é pagadora de profissional: bancária. Cresceu na hoje vacinada cidade de Serrana-SP. Fez Letras em Araraquara. E adora dançar.

Preferi pegar seu telefone, dar uma desculpa e não fazer nada aquele dia. Por mais que meu corpo gritasse por aquele homem, não queria apenas corpos, queria dele alma, vida, tudo!

Dei uma desculpa, dessas que convencem, mas nem tanto. Disse que teria um compromisso logo cedo e teria que voltar ao meu quarto. Ele indagou, queria saber mais, mostrou-se curioso com minha agenda repentina, mas fui firme ao despistar. Fiquei pensando o quão adolescente poderia parecer essa atitude. 

Era sim uma aposta. Ele poderia não mais querer nada. Resposta em si, não seria mais que ilusão. Mas se ainda quisesse, poderíamos iniciar algo interessante até o próximo desafio.

Agora senti que a atitude, a responsabilidade em relação ao que sentia era só minha. Aquele telefone, anotado em guardanapo estava comigo. Quando ligo? O que falo? Como contínuo nossa história?

O medo me bateu também: eu menti para interromper aquele clima, aquele momento. Mas foi em prol de uma história mais longa com ele. Mas estou tão enferrujada em relação a esse jogo do amor que não sei ao certo como agir. Minha preocupação toda agora era: e se ele perguntar sobre meu compromisso, como vou agir?

VEJA AMANHÃ NO CAPÍTULO 5

A história AQUELA ESTRADA é uma história escrita por 07 autores – Liliane Messias, Macarena Lobos, André Araújo, Crido Santos, Gil Guzzo, Maria Nazareth Dias Coelho e Adriana Chebabi. O capítulo de hoje foi escrito por Crido Santos.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

O escuro da estrada lhe trazia medo, os faróis contrários, a realidade. A vida foi passando como num filme, suspirava se enchendo de AR e de coragem.

Vieram lágrimas, palavras desconexas foram ditas em voz alta… assim como músicas cantadas aos berros.

Horas de estrada lhe trouxeram o cansaço e a realidade lhe bateu forte. Agora dona dos seus passos, se sentia livre e indecisa. Escolher um lugar para dormir, escolher o que comer, para onde ir, agora em suas mãos.

Um hotelzinho de beira de estrada com jeito simples de casa do interior, foi sua escolha.

Luz fraca, cheiro de mato. Cama limpa, água fresca. Era tudo o que precisava, amanhã pensaria o que fazer.

Acordou no susto, era real.

Sentia agora o cheiro pouco familiar de um quarto estranho, barulhos lá fora traziam algo que não queria lidar. Neste momento, nem bom dia queria dar.

Era isso então, banho gelado, roupas limpas e seguir caminho.

Resolveu no café traçar um plano, assustada que estava com suas últimas atitudes.

Teria que olhar com cuidado as novas possibilidades e o mais sensato, seria alugar um quarto e se estabelecer, talvez.

A outra possibilidade hotel em hotel, nada lhe agradava.

A busca foi cansativa, mais uma vez o medo, mas também veio junto a ousadia.

Resolvido, quarto na praia. Traçou a rota, chegou a noite.

Foi recebida pela dona da casa, senhora arrastando chinelos.

Manhã seguinte, tentou logo se inteirar do que se fazia naquela Vila.

Arriscou e perguntou a senhora dona da casa, se seria fácil arranjar algum trabalho.

Resolveu contar quase nada de sua vida.

De pronto a resposta, o restaurante da esquina precisava de gente pra trabalhar.

Então é isso que lhe espera?

VEJA AMANHÃ NO CAPÍTULO 3

A história AQUELA ESTRADA é uma história escrita por 07 autores – Liliane Messias, Macarena Lobos, André Araújo, Crido Santos, Gil Guzzo, Maria Nazareth Dias Coelho e Adriana Chebabi. O capítulo de hoje foi escrito por Maria Nazareth Dias Coelho.

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Naquele dia ela tirou o anel. Olhou no espelho, respirou fundo e puxou o anel com força do dedo. Não precisou de água nem sabão, saiu de uma vez só em uma puxada forte, mas deixou uma marca ali… uma hora essa marca sai, pensou.

Se fez bonita, bem bonita, como há muito não ousava. Tem uma música do Chico que fala isso… ” então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar…”. A música vinha na sua mente. Resolveu colocar também um vestido que estava guardado fazia tempo, lhe caia muito bem, fez isso, se sentiu bonita.

Cabelo solto, maquiagem no rosto, pele clara, sentiu falta do banho de sol que também há muito não tomava, mas mesmo assim estava bonita. Regou suas plantas, conversou com elas, falou que estava ansiosa… ela sempre fazia isso de conversar com as plantas, deu boa noite para todas, trancou a porta da sala e desceu o elevador, que antes de descer, subiu até o décimo primeiro, só porque estava ansiosa o tempo estava em descompasso com o seu tempo e sua ansiedade aumentava.

A chamada do décimo primeiro foi em vão, ninguém desceu junto, ufa, não precisava de ninguém naquele momento com ela, apesar de ser sempre simpática e receptiva com as pessoas, naquele momento, não estava dando conta dos macaquinhos no seu sótão, é assim que a expressão diz, não é?

Ufa, novamente, térreo. Acelerou o passo antes que desistisse. Nunca tinha feito aquilo. Em outros momentos chegou a julgar e condenar, mas a lição dos últimos 14 meses era justamente essa, não julgue, não condene, não seja a rainha da verdade absoluta. Essa lição já tinha vindo em sua vida em outros tempos, em vários outros tempos… mas ela, até agora, não tinha ainda aprendido, apesar de tentar todas as vezes.

Lições são assim quando não são aprendidas, voltam e voltam em um grau maior para ver se desta vez entram na alma.

E por falar em alma, naquele momento a sua flutuava, mas os pés firmes seguiram para seu carro, dirigir era uma liberdade, gostava de dirigir sozinha, gostava de dirigir a noite, gostava de dirigir em estradas e foi o que fez, pegou aquela estrada de novo.

Pra onde ía?

VEJA AMANHÃ NO CAPÍTULO 2

A história AQUELA ESTRADA é uma história escrita por 07 autores – Liliane Messias, Macarena Lobos, André Araújo, Crido Santos, Gil Guzzo, Maria Nazareth Dias Coelho e Adriana Chebabi. O capítulo de hoje foi escrito por Adriana Chebabi.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa.

Recentemente tivemos mega empresários lançando suas naves em direção ao espaço. A acumulação de capital foi capaz de tirar do estado o protagonismo no investimento em áreas de fronteira tecnológicas e, a título de explorar negócios tanto no turismo espacial quanto às patentes tecnológicas derivadas dos desenvolvimentos técnicos desse intento, enchem os bolsos desses magnatas.

Em paralelo, jovens garotos crescem unindo técnicas da psicologia social ao campo da TI, inventando redes de contato social que transferem dados comportamentais à conglomerados empresariais que, sabendo o que somos e gostamos, oferecem produtos nas redes sociais. Ambos os exemplos mostram a revolução que estamos passando na atualidade, semelhante ao que ocorreu no início do século XX, quando a eletricidade mudou o mundo.

E naquele tempo, mega empresários disputavam as fronteiras tecnológicas, econômicas, sociais e culturais para emplacar tecnologias tão distópicas para aquele tempo quando dar um rolê à gravidade zero, enquanto vê a terra (redonda) lá de cima, muito de cima. Homens super capazes, tornando-se mitos da história e enriquecendo.

Cadê as mulheres? No início do século XX, lutavam para votar. No início do século XXI, lutam para serem votadas.

Antes de ser um texto que critique o já combalido capitalismo que vivemos, esse texto evoca não a ausência das mulheres no topo do mundo, mas o lugar que colocamos ela em nosso dia a dia. Onde elas se escondem e como nós, homens a escondemos.

A ausência de mulheres na mesma proporção que homens nos postos históricos não ocorre porque nós homens, aqui embaixo, travamos seu potencial a cada momento que, empoderados da chave do carro e do cartão de crédito, os cedemos a elas como conquistas corriqueiras. Coisas que são delas por natureza passam pela nossa benção no dia a dia da casa. Quem pensa em mudar o mundo se precisa da bênção do pai ou do marido?

Toda vez que uma mulher precisa esperar um homem ser promovido para ter seu talento (bem maior na maioria dos casos) reconhecido, vai se ocupar de gastar sua energia provando que merece aquele posto. Essa energia deveria ser gasta em cálculos complexos (que ela domina bem mais inclusive) que matem a fome do mundo e lhe garantam um Nobel da paz.

Três ou quatro rodadas de Whisky e nós homens fechamos contratos milionários. Para ganhar o pão, a mulher precisa se esquivar de sofás nojentos (sejam físicos ou subjetivos…). Essa energia desperdiçada em fugir do patriarcado é, sem dúvida, um desperdício para a humanidade.  E faço um exercício de pura lógica física: Energia que se perde num circuito é energia perdida no trabalho. Pense a metáfora em escala Joule (J) e vai entender (e vá para o Google se precisar).

Então vamos criar uma lei que ordene esse comportamento e coloque essa energia toda à disposição da sociedade! Já existe, nós homens distorcemos. Então vamos prender quem o faça: os juízes homens soltam….

Você, homem que lê esse texto, observe se você não age fazendo com que a energia das mulheres ao seu redor fique represada ou desviada para exercícios hercúleos (vide 12 trabalhos de Hércules, uma bela metáfora) para provar quem são. Veja se sua postura, conservadora de privilégios sob a forma de gentilezas, não torna a mulher alguém sutilmente submissa. Começa por aí: dentro de casa, na fila do pão, no trabalho.

E mais: todas as vezes que nós, homem, lembrarmos dos romances e relacionamentos que terminaram meio que sem entendermos, saibamos que, muito provavelmente, a mulher que estava ao nosso, lado (ou pessoas de outros gêneros, diga-se de passagem), cansou de gastar energia em tentar provar quem são, não colocando nenhum Joule a mais que for nem para explicar sua decisão para nós.

E antes de julgá-la pensemos: o que será que devo mudar em mim para acolher uma igual sem roubá-la a energia que deveria ser usada para mudar o mundo? Porque se, depois de milênios de patriarcado, ainda nos deparamos com mazelas sem precedentes, é porque fracassamos com nosso falo. É hora de confiar a elas para liderar um novo mundo possível.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.