Este lugar por onde estas prestes à trilhar

eu passei.

Eu passei e doeu.

Doeu e ferrou;

com toda a alma, consciência e compaixão. 

Este lugar que você me deixou

eu tive que crescer e aprender sozinha com meus erros,

chorei até não poder mais

foi uma lástima até chegar aqui. 

Eu sei que você pensa que vai morrer

 é o desejo da sua alma neste momento,

a dor te consumiu

e tudo o que eu queria que ouvisse foi o que me disse naquele lugar

” você precisa superar ”

Você vai correr atrás, vai se humilhar, vai ouvir mil discos

e dançar mil valsas no meio da noite

dançando nas lágrimas. 

Ela não vai voltar

e você vai precisar se acostumar sem poder negar

a solidão. 

A solidão como sua nova companheira.

Ela esteve comigo também

no choro, na dor, na taça e no cigarro aceso

na cinza ao chão e no vento no meu cabelo.

Você deve estar achando agora que tudo acabou e acabou também o sentido.

Calma.

Clama.

Chama.

Pede.

Cai.

Levanta.

Aceita,

ela não vai voltar

e você está condenado à ficar neste lugar 

onde eu perpetuei o silêncio

 que se rompeu na esperança de te ver voltar.

Você voltou

 e eu precisei sair 

daquele lugar que não cabe dois.

Não cabemos nós. 

Foi eu, era eu, estava eu e agora tu

que chora e chama

ecoa no sopro o grito da dor.

Eu sei como é, eu estive lá

e agora estou à te olhar percorrendo o caminho que eu fiz 

e sei, não devia abrir os olhos pra te ver passar

mas eu conheço aquele lugar e dessa vez eu vou te falar

”Seja forte e supera. Ela não vai voltar”

Esse texto não é dedicado à você, e sim à mim que superei e voltei pra te contar.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Outro dia assisti a uma aula, na qual o professor descrevia a felicidade sob a ótica da prática filosófica. Dizia ele que “felicidade é o estado de potência máxima do ser” – nós só somos felizes de fato naqueles momentos que não queremos que acabem. E isso fez muito sentido para mim, pois, ao olhar para trás, notei que os momentos que não quis que acabassem foram também os momentos mais intensos que experimentei.

Quando digo intenso, me refiro a prazer, relaxamento e até dor. Sim, dor! A vida não existiria sem dor. A dor é aquele professor ranzinza que nos ensina e nos força a fazer o que quer que seja necessário para chegarmos a um lugar melhor, fazermos algo melhor e sermos alguém melhor, mais flexível e com mais recursos. Só o desconforto nos move e sem ele, morreríamos de inanição – muita gente morre assim!

A mente jovem não racionaliza; não abre mão do desejo para sentir segurança; não se afunda na rotina porque ‘a aventura dá trabalho’; e pouco importa o caminho mais seguro, porque o foco está na emoção.

Uma mente jovem não escolhe seus relacionamentos pela lista de virtudes e defeitos do pretendente. Jovens querem se provar, se testar, e, para tanto, encaram qualquer desafio, se atiram no que querem, fazem o que precisa ser feito e até mais! Às vezes caem, mas se levantam, sentem dor, mas se curam, erram, mas aprendem… A mente jovem pode até se dar mal, mas jamais admitirá isso por um simples fato: ela está exatamente onde queria estar e, se está lá, está no lugar certo!

A mente jovem está sempre certa, o mundo é que tem que mudar! Tentar mudar o mundo é a grande graça da vida e arrisco até dizer ‘O SENTIDO DA VIDA’.

Só uma mente jovem tem a capacidade de ser feliz de verdade!

Cássio C. Nogueira – Belo Urbano, psicanalista, coaching, marqueteiro, curioso, apaixonado pela vida e na potência máxima, sempre!

Tudo seria diferente se eu tivesse coração.

Eu teria me fartado de amar. Teria.

Se eu tivesse coração eu teria beijado a menina da sobrancelha grossa naquela avenida movimentada dos anos iniciais da vida adulta.

Teria, talvez, trocado aquele amor cheio de frescor por aquele que, na plenitude da espera, queria acontecer. Amor que ainda serpenteia no rio grande.

Eu teria  dilacerado meu coração quando aquele que amava, por um instante, imaginei estar parado. O amor estancou. O coração não.

Não teria enviado tantas flores em dias felizes até que ela pedisse para parar. Foram-se os dias e as flores.

Se eu tivesse coração eu tivesse dito a ela que a desejava para além do vestido. Amor e desejo diluíram em caminhos opostos.

Talvez eu tivesse atravessado oceanos para dar aquele anel mesmo sem ela estar pronta pra ele. Anel e calor ficaram cegos no bolso.

Se eu tivesse coração?

Se eu tivesse coração eu me apaixonaria uma vez mais.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é ator e fotógrafo. É um flaneur que faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio

Será que a mentira é parecida com a verdade que, por sua vez pode ser subjetiva?

Acredito que não.

A mentira

Mesmo contada com poesia

Mesmo sendo dita com um “claro que sim”

Mesmo respondida com uma desculpa ou com uma repentina presença

Será uma mentira

A mentira pode vir acompanhada de entrega

Pode vir travestida de desejo

Mas será sempre o resultado das sobras de um banquete, ou seja, migalhas

Migalhas de sobrevida que criam as utópicas miragens das idealizações que se desfazem nos sapatos no tempo

A mentira será sempre a ausência de qualquer verdade

 

Jorge Luis de Souza – Belo Urbano, artista plástico, pedagogo e empresário. Como todo bom leonino é muito dedicado a tudo que faz. Não resiste a um chocolate. Ama escrever e ama sua família.

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Tanto silêncio não era normal, era exatamente o que podemos chamar de oposto à normalidade.

Depois de anos, talvez 10 ou 12, encontrarem-se cara a cara na recepção do pediatra era algo inesperado.

Ela vinha de dentro correndo atrás da filha pequena de cabeça baixa, ele entrou com um bebê no colo, quase bateram de frente.

– Oi – ela disse surpresa e com sorriso e ele sério e também surpreso respondeu: – Oi.

Ela pensou: – Nossa, que bebê lindo.

Ele pensou: – Ela continua bonita.

A esposa dele entrou em seguida e ambas se cumprimentaram com um oi também.

Ela pensou, admirada: – Sorriu.

A outra pensou, satisfeita: – Engordou.

O marido dela também estava por lá, naquele momento em uma conversa com o filho mais velho sobre dinossauros.

A recepção era grande, repleta de cadeiras, mas todas estavam vazias, com exceção das utilizadas pelas duas famílias com seus dois filhos. Sim, ambos têm dois filhos com idade parecida, porém invertida.

Ela teve o menino e depois a menina. Ele, a menina e depois o menino.

Crianças costumam interagir com as outras espontaneamente e rapidamente; não demorou muito e os dois mais velhos de ambas as famílias começaram a brincar juntos na varanda ao lado.

Na imensa recepção o silêncio era total e constrangedor, silêncio assim tão de propósito é só quando se quer dizer algo sem dizer nada. Um silêncio que diz tudo, todos sabem, mas fingem que não, fingem que tudo está normal. Silêncio assim nem entre estranhos.

– Que longa espera – pensava ela.

– Acho que conheço esse homem – pensava o marido dela.

Ele olhava sua filha brincar com o menino, não queria olhar muito, mas olhava de canto de olho e pensava:

– E se um dia casarem? E a voz da sua consciência o repreendia: – Pare, Gilberto, ela só tem 7 anos. Mas mesmo assim ele continuava com seus pensamentos: – Seria engraçado o casamento. Seus pensamentos continuavam: – Não quero minha filha casando com esse menino. Olhou o menino e viu nele o pai, a repulsa foi instantânea.

Ela, no outro canto, olhava a mesma cena e pensava: – Ficaram amigos… Já pensou se um dia namoram, casam e me dão netos? Olhou para a menina, que naquele momento falava dando ordens para seu filho, e pensou: – Deve ser autoritária como a mãe. Meu filho merece coisa melhor.

O silêncio continuava e de tão profundo foi possível ouvir uma abelha que se suicidou no abajur.

Agora ele olhava a filha pequena dela, não conseguia tirar os olhos e pensava: – Pare de olhar, vão pensar que você é um pedófilo.

Mas ele queria ver se a menina parecia com ela, e por uma dessas coincidências do destino a menininha usava uma camiseta da Minie, exatamente como a primeira vez que ele viu a mãe dela aos 15 anos de idade com uma blusa também da Minie entrando pela primeira vez na sala de aula onde eles estudaram juntos.

Lembrou da cena e do que pensou também com seus 15 anos: – Vou casar com ela.

E agora pensou de novo: – Não casei.

Ela também não conseguia tirar os olhos do bebê e pensava: – Será que seria tão bonito se fosse nosso? Perguntava-se em pensamentos e completava: – Como parece com ele!

Ele olhava e menininha e pensava: – Parece com ela.

O silêncio se quebrou, chamaram a família dela para a consulta.

– Melhor assim – tiveram os dois o mesmo pensamento.

A consulta foi detalhada como sempre, a pediatra era muito atenciosa, mas estranhou desta vez a mãe tão quieta e perguntou:

– Beatriz, está tudo bem?

– Claro, Dra. Ione, por que não estaria?

– Estranhei você tão quieta desta vez, não me fez nenhuma pergunta, até o Renato falou mais que você.

Renato, o marido, quase nunca abria a boca, era simpático, vivia sorrindo, foi a primeira coisa que a encantou naquele homem e também a primeira que a desencantou. Sorrir para tudo beira a demência…

A verdade é que Beatriz não conseguia tirar o encontro da cabeça, lidar com o inesperado é desconfortante e dá fome. Sim, uma fome repentina apareceu.

Pensava: – Mas que fome fora de hora é esta?

A fome crescia, o estômago começou a doer.

Na sala de espera a outra família continuava sozinha, o pai cuidando do filho, isso era comum quando estavam os quatro juntos, ele sempre cuidava do menino, mas hoje, ali, naquele momento na imensa recepção, sentia algo diferente, uma inquietude alegre, vontade de querer algo, de querer algo mais; uma inquietude estranha, o que fazer com aquela sensação? Uma inquietude triste, de ter claro de ser só uma vontade que vai morrer e não vai sair do lugar… foi quando sua mulher berrou bravamente:

– Gilberto, olhe direito o bebê, ele quase caiu.

Aquele berro histérico e a cara brava da esposa o trouxeram de volta a sua realidade.

Na sala da médica a consulta terminou, foi mais rápida que o normal. Ela não parava de pensar em comida, aliás, só pensava em certos doces… olho de sogra, bem-casado, olho de sogra, bem-casado. Ria sozinha, com fome, com gula e descia a escada com a filha no colo, o estômago doía, a fome aumentava, a escada lhe pareceu bem maior do que era. A cena estava sendo vivida em câmera lenta e seus pensamentos iam para o bem-casado, o olho de sogra, e como um estalo veio então a vontade incontrolável de beijinho… hum, ah, beijinho.

Chegou no pé da escada, ela olhou para o casal na recepção, ele gelou, olhou profundamente para ela, a mulher também olhou e foi logo dando tchau toda sorridente, com ar de superioridade, ela respondeu com um sorriso de forma educada, mas pensou: – Nunca foi simpática comigo…

Beatriz não entendeu que, sendo a outra a Dona do marido, a dona dos filhos daquele homem, a rival desejada por ele, e que ela sempre soube, era hoje somente um desejo que ela nem queria saber se era vivo ou morto. Desejo mesmo Beatriz tinha naquele momento por beijinho, muitos beijinhos, já Gilberto fechou os olhos, voltou no tempo e desejou o desejo do passado e passado estava Renato, sorrindo, é claro, e sem nenhum desejo naquele momento, sem nada ter percebido, nem se incomodava com o pernilongo que não parava de lhe sugar o pescoço.

Agora as crianças deram tchau sorridentes, mas crianças é outra história e essa fica para depois.

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde é a responsável pela autoria de todas os contos do projeto. Publicitária, empresária, poeta e autora de contos. Divide seu tempo entre sua agência  Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos.