Eles se conheciam desde a adolescência. Amigos inseparáveis, confidentes muitas vezes, um certo interesse no ar, mas sempre deixado de lado em prol da amizade. Ambos tinham namorados, ambos com interesses em comum, era muito bom poder se apoiarem.

Naquela época já se percebiam alguns traços de arrogância, mas chegava a ser até divertido, afinal, a arrogância era meio inerente à juventude da nossa época e vinha como uma forma de força de determinação.

O tempo passou, a vida levou cada um para seu lado. Ela mudou de cidade, casou, construiu uma família, viajou, se conectou com várias culturas… ele foi para a cidade grande, ou assim o disse, virou um “grande” empresário, estudou línguas, morou fora do País.

Vinte e cinco anos se passaram até que, por um acaso do destino se cruzaram. Que felicidade! A conversa fluiu como se não tivesse se passado um dia desde a última vez. Já maduros, ou assim se pensava na ocasião, se envolveram rapidamente.

O primeiro sinal veio logo no começo quando ele caiu em contradição e ela descobriu que a vida que ele disse que tinha era apenas uma projeção. Nunca saiu da cidadezinha que eles moravam na adolescência, tinha um negócio quase falido e ainda morava com os pais.

Esse era o momento de sair correndo, mas ela via um grande potencial nele, um homem inteligente, bem articulado e que tinha se perdido… porque nós mulheres temos o maldito hábito de achar que conseguimos “consertar” o outro?

Ele foi morar com ela e faziam mil planos. Os filhos dela o adoravam, sempre disposto a tudo, bem educado e disponível… O segundo alerta veio três meses depois, quando uma amiga precisou dela. A amiga, Ana, começou a mandar mensagens de que estava mal e pensando em se suicidar e ela passou a noite toda no celular conversando, acalmando, dissuadindo Ana de seu propósito com ele resmungando ao lado porque ela não estava dando atenção à ele.

No dia seguinte eles iam viajar e, mesmo insone, ela arrumou as coisas e lá foram eles. Quando chegaram ao destino, ela estava morrendo de dor de cabeça e pediu para ele ir comprar um remédio. Ele trouxe já de cara feia. Assim que ele chegou com o tal remédio, Ana volta a mandar mensagem e isso foi o estopim. Ele voou pra cima dela (não chegou a fazer nada) e começou a berrar que ela só tinha tempo para as amigas, que ela só estava fingindo estar com dor etc e tal… nesse momento, ela chegou a pensar que ele iria agredí-la fisicamente, mas ele fincou a parede e saiu.

Ela arrumou as coisas e tentou voltar para casa, mas claro que não rolou… mil desculpas, o pedido para não “estragar” o passeio e o ser meigo voltou a tona. E assim foi por muito tempo. Eles foram construindo algo, as vezes juntos, as vezes individualmente e os anos foram passando. O negócio dela foi prosperando e ele sempre no mesmo lugar, com as mesmas reclamações e, quanto mais sucesso ela fazia, mais demandas ele tinha. Roubou sua alegria, roubou sua fala (usava as ideias, as falas e os saberes dela como se fossem seus), se apropriou de seu espaço, mas ela não cedia tanto quanto ele gostaria. Não bastasse, invadiu sua privacidade. Clonou todos seus dispositivos e passou a criar uma vida baseada no que ele lia em seus e mails, whatsapp, Messenger. Ela desconfiava, mas ele negava a cada vez que era confrontado. A gota d’água veio quando ela descobriu uma traição.

Ela nunca olhou no celular dele, acreditava e ainda acredita que dois adultos escolhem estar juntos e que confiança é o pilar que sustenta uma relação, mas ele parece que queria ser pego. Ficou mexendo no celular ao lado dela e, toda vez que ela virava para falar com ele aparecia o mesmo nome: Marcela. Confrontado ele, como sempre, negou.

Não bastasse, voltou a gritar com ela, como se a mesma fosse louca e delirante. Saiu batendo portas, cantando o pneu do carro, um verdadeiro adolescente mimado e contrariado. Ela esperou para terem uma conversa adulta, mas não rolou.

Ela cansou…

Ele viu nas mensagens dela…

Ele queria ter a última palavra…

Vagabunda, filha da puta, você não vai pedir para eu ficar?

NÃO!

Ela se libertou.

MULHER – Bela urbana, 45 anos mais, não quis ser identificada
SOS – ligue 180

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Deu pau no computador! Tudo demorado…. Algo corrompido…. Alguém falou em desfragmentar o disco rígido…

Então resolvi eu mesma fazer um back-up no hd externo e formatar. Foram dias em que eu sentia que meu pc era quase como um bichinho virtual, precisando de atenção constante a cada 20 minutos e depois de perder e recuperar a senha, vários dias haviam se passado.

Agora era repor o que estava no back-up. E era nesse ponto que eu entendi o processo. Eu só iria colocar de volta os dados que me eram úteis ou interessantes. Nada do que já era defasado voltaria. O computador era meu e eu decidi que nenhum software que não fosse original ou que pudesse de alguma maneira interferir negativamente no meu sistema, seria baixado.

Investi em qualidade. Devolvi as imagens e documentos que me eram queridos e deixei no hd externo aqueles que não me serviriam, mas deveriam ser recordados em algum momento. Sim, o hd externo me permitiria acessar informações necessárias em alguns casos, apenas para não cometer alguns velhos erros ou me lembrar do motivo de estarem guardados como segurança. Era a simples ideia “não guardo rancores, mas guardo fatos”.

Não digo que a organização ficou 100%, mas de um modo geral ficou bom. Tudo funciona de forma mais fluída, sem tanto estresse… O hd externo está acessível para consulta, mas é o disco principal que dita a ordem do dia, as cores que pinto, as palavras que digito, as imagens que crio.

Tudo o que era obsoleto ou prejudicial foi eliminado, só permiti que o que fosse construtivo permanecesse. E mesmo me dando uma grande dor de cabeça e demorando a ponto de me fazer chorar, adorei esse processo e o resultado final.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.