Este lugar por onde estas prestes à trilhar

eu passei.

Eu passei e doeu.

Doeu e ferrou;

com toda a alma, consciência e compaixão. 

Este lugar que você me deixou

eu tive que crescer e aprender sozinha com meus erros,

chorei até não poder mais

foi uma lástima até chegar aqui. 

Eu sei que você pensa que vai morrer

 é o desejo da sua alma neste momento,

a dor te consumiu

e tudo o que eu queria que ouvisse foi o que me disse naquele lugar

” você precisa superar ”

Você vai correr atrás, vai se humilhar, vai ouvir mil discos

e dançar mil valsas no meio da noite

dançando nas lágrimas. 

Ela não vai voltar

e você vai precisar se acostumar sem poder negar

a solidão. 

A solidão como sua nova companheira.

Ela esteve comigo também

no choro, na dor, na taça e no cigarro aceso

na cinza ao chão e no vento no meu cabelo.

Você deve estar achando agora que tudo acabou e acabou também o sentido.

Calma.

Clama.

Chama.

Pede.

Cai.

Levanta.

Aceita,

ela não vai voltar

e você está condenado à ficar neste lugar 

onde eu perpetuei o silêncio

 que se rompeu na esperança de te ver voltar.

Você voltou

 e eu precisei sair 

daquele lugar que não cabe dois.

Não cabemos nós. 

Foi eu, era eu, estava eu e agora tu

que chora e chama

ecoa no sopro o grito da dor.

Eu sei como é, eu estive lá

e agora estou à te olhar percorrendo o caminho que eu fiz 

e sei, não devia abrir os olhos pra te ver passar

mas eu conheço aquele lugar e dessa vez eu vou te falar

”Seja forte e supera. Ela não vai voltar”

Esse texto não é dedicado à você, e sim à mim que superei e voltei pra te contar.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Ele perdeu a noção do tempo. Não sabia qual era o dia da semana, o mês, o horário. Tudo isso deixou em uma outra vida, em um certo dia.

O dia que uma dor tão profunda apertou seu peito, maior do que todas as outras que já tinha sentido. Ele sempre sentiu dores fortes, desde criança. A dor de um vazio, como se fosse a queda em um buraco, ele sempre se sentia caindo. As vezes parava e se agarrava em algo, mas não conseguia segurar por muito tempo, logo caia de novo.

Em cada queda a dor aumentava, foi ficando tão grande, mas tão grande, assim como o vazio que sentia. Vazio infinito. Dor crescente.

Tinha sorte, mas não a percebia. Perdia, sempre perdia, não pela falta de sorte, mas pela confusão mental que o VAZIO lhe causava.

Tentou o suicídio três vezes em épocas diferentes, mas não morreu, foi salvo.

Salvo? Ele nunca viu assim, preferia ter ido, mas se achava incompetente até para isso.

Em uma tarde de inverno resolver largar tudo, a madrasta, a namorada, a irmã, o cachorro. Saiu pela porta, não deixou bilhete, não levou roupas, não levou comidas, não levou telefone, nem carteira, nem cartões, nada. Foi embora somente com o VAZIO.

Quanto tempo faz? Ele não sabe, Não sabe mais quem era. Sabe quem é, sabe que vive nas ruas, sabe que mendiga, nem sabe se está na sua cidade ou em outras, já andou tanto, que não sabe nem se já voltou.

A dor acalmou, se sente anestesiado. Nunca mais amou, amar machucava. Nunca mais quis se matar. Nunca mais quis nada. Não sentia nem dor, nem amor.

Uma noite bem tarde, ruas vazias, estava na frente de uma uma loja, com televisores que começaram a acender e mostravam um show de rock de uma banda que ele ouvia e gostava.

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Ficou olhando aquilo. Lembrou da dor, lembrou do amor. Lembrou de si. Do vazio. Da queda. Fechou os olhos, pediu perdão. Foi embora, era melhor ser invisível. Não queria ascender.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.