Essa semana aconteceu algo que me fez pensar sobre ser professor… me deparei com uma foto com algumas professoras que me deram aula na adolescência, alguns daqueles rostos me causaram tristes lembranças… professor deveria ser aquele que acolhe e ensina seus alunos a lutarem em meio a suas dificuldades. Eu era essa aluna com dificuldades de aprendizagem, mas nem sempre no meu caminho escolar encontrei professores com essas preocupações. Infelizmente foram professores que se alegravam em trabalhar com alunos ditos inteligentes, aqueles que nem precisam do professor para aprender. Então questiono, qual a importância desse professor? Professor deveria se alegrar em ensinar independente a quem! Como um médico que cura o doente… mas estar nas mãos de um professor que não se sensibiliza com a necessidade de seu aluno é doloroso, causa danos e muitas vezes podem ser permanentes. Um professor deve sempre ser lembrado que terá em mãos seres humanos em formação, daí tamanha responsabilidade dessa profissão, que é linda!
Mas nesse mesmo caminho tortuoso apareceram outros professores maravilhosos que me entenderam e me levaram a escolher ser professora, e de forma inconsciente naquele momento ( mas consciente mais tarde), escolhi essa profissão exatamente para levar o meu olhar e minha sofrida experiência, para ajudar aqueles pequenos que encontrei em meu caminho com dificuldades muito parecidas com as que tive.
O magistério foi uma escolha que mudou minha vida escolar, me reaprendi, tive professores de olhares sensíveis que me ensinaram a superar-me e a mudar a minha história. Me superei quando fui fazer pedagogia na Unicamp, encontrei novos desafios e novos professores mas nesse momento eu já era outra pessoa, bem mais forte e acreditando em mim, isso era o fruto dos professores competentes que encontrei nessa caminhada!
Quando me tornei professora, já muito diferente e mais madura daquela adolescente que deixou para trás aqueles professores opressores, voltei para trabalhar na mesma escola da adolescência, nesse momento me redefini enquanto pessoa, pois encontrei um novo lugar, de olhar sensível ao aluno e pude colocar o meu amor ali!
O olhar sensível do professor é uma das ferramentas mais importantes para exercer essa profissão. É esse olhar que percebe a dificuldade, que busca caminhos para instrumentalizar o aluno, para que ele possa se superar.
Enfim, esse emaranhado de sentimentos me fez constatar algo que já sabia, o quanto o professor é importante na vida de seus alunos, e quanto ser sensível às dificuldades deles é urgente!
Veja bem, após 30 anos, ao ver a foto com algumas pessoas q me ignoraram nas minhas necessidades (sim é forte dizer isso, mas é verdadeiramente doído) senti indignação!!!!
E então me lembrei de uma reportagem que dizia que somente 2,4% dos jovens hoje escolhem ser professor, eu reflito, diante dos diversos motivos óbvios (falta de reconhecimento, salários baixos, condições de trabalho ruins etc) para os jovens não escolherem essa profissão, também devemos incluir a possível experiência de se depararem com a falta de sensibilidade de alguns professores que não deveriam estar onde estão! Essa falta de identificação com esse profissional também afasta os jovens dessa escolha.
No meu caso consegui usar a experiência negativa para buscar uma mudança para melhor, mas imagino que muitos que desistiram de seus sonhos tenham tido professores insensíveis que colaboraram com o fracasso escolar!

Viviani Raimundo Viégas Barreira –  Bela Urbana, psicopedagoga. Muitos alunos passaram em seu caminho, foram 20 anos de magistério e mais alguns de professora de seus filhos. Sempre teve como objetivo encorajar na dificuldade., buscou ao longo da trajetória o olhar sensível. Hoje é mãe em tempo integral de João Vitor e Milena, continua se sensibilizando e encorajando-os a enfrentarem os obstáculos.

 

Tem dias em que o ‘dia’ na escola não é muito simples…

Não dá pra dizer que o dia é pesado porque dentro desse mesmo dia coexistem situações de ‘desespero’ e esperança… então é desnecessário rotular assim.

Estar entre as crianças é uma das coisas que mais fazem sentido pra mim. Com e apesar de todas as questões que enfrentamos. Com e por todos os momentos especiais que vivenciamos.

Muitas profissões são difíceis, complicadas, dolorosas, talvez seja aquela velha história do ônus e do bônus de todas as situações. Que fique claro que respeito e admiro todas elas.

Mas hoje, eu queria deixar mais claro ainda o quando eu admiro as minhas colegas professoras (‘os’ também, mas somos a maioria garotas!). O quanto eu admiro e o quanto estar lá também faz sentido por elas existirem, por estar lá também com elas. O quanto eu admiro a maneira como a gente pode olhar uma pra outra com respeito e compreensão… o quanto eu admiro a maneira como a gente pode perceber a dor, ou o desespero, ou a angústia, ou que seja um simples nó e de alguma maneira ‘tornar’ aquele nó também nosso.

Porque nesse momento, em que essa angústia é partilhada, de alguma forma a esperança se refaz, ainda que por vezes, nem se vislumbre solução. Nesse momento, em que a gente divide o que está pesado, de alguma forma talvez a gente se lembre dos outros momentos que fazem tanto sentido, dos outros momentos que sustentam o nosso fazer diário, a nossa crença diante de condições tão delicadas e muitas vezes desfavoráveis.

E aí que a gente talvez perceba a nossa humanidade da forma mais concreta, junto com toda limitação, mas também com toda a nossa força.

Michelle Felippe – Bela Urbana, professora por convicção e teimosa. Apaixonada por doces, cinema, poesia urbana e astrologia. Acredita que ainda vai aprender a levar a vida com a mesma leveza e impetuosidade das crianças.