Muitas pessoas tem a idéia equivocada de que em países desenvolvidos o abuso praticamente não existe; como se ele fosse fruto exclusivo da falta de acesso à educação e cultura.

Aproveitei o convite da Adriana Chebabi para escrever no Belas Urbanas e da minha experiência como brasileira que mora na Alemanha para ir atrás de dados e história, na tentativa de traçar o perfil da mulher alemã contemporânea e sua relação com o abuso.

De fato na Alemanha o abuso, seja ele psicológico, físico, moral, sexual acontece com menor frequência mas ainda assim ele acontece. Em 2019 uma mulher foi morta a cada 3 dias vítima de feminicídio na Alemanha (não considerando os abusos que antecedem à morte). No Brasil uma mulher é morta vítima de feminicidio a cada 2 horas.

Olhando para o passado descobri na mitologia referências às deusas germânicas, que lutavam lado a lado com homens e que eram associadas à valores guerreiros e de autossuficiência. Lenda ou não as mulheres guerreiras aparecem em diversos relatos encontrados sobre o Sacro Império Romano-Germânico na época da antiguidade.

Lembrando que os povos germânicos na época estavam espalhados pela atual Áustria, Suíça, França, Bélgica, Norte da Itália, Península Ibérica e Norte da África. As mulheres germânicas de fato influenciaram grande parte da cultura feminina européia.

É importante ressaltar que mais para frente, na Idade Média, a sociedade germânica era patriarcal, cabendo às mulheres o papel de cuidar da casa, dos filhos,  alimentar a família, prover e utilizar os medicamentos.

Passados os séculos e chegando aos dias atuais sinto que a mulher alemã é altiva, forte e se orgulha disso, entretanto essa atitude sozinha não vem sendo suficiente para evitar os casos de abusos contra elas.

Uma realidade a ser considerada nesta análise, e que passa pela cabeça de muitos é o fato da Alemanha ter sempre recebido, em maior ou menor quantidade, um grande número de imigrantes, que trazem consigo diferentes costumes. Esse caldeirão de culturas obviamente traz choques que podem nos levar a pensar que a sociedade multicultural abre brechas para tal violência e que o abusador simplesmente é o outro,  o que veio de fora. Mas muito do que fui pesquisar sobre relações abusivas me fez acreditar que não é este o caso. Explico melhor a seguir.

A construção de uma personalidade abusiva, pelo que pude perceber, não depende apenas de fatores como, país de origem e classe social. Isso pode interferir quando o abusador vem de países em que a cultura do estrupro e da inferioridade feminina ainda existem, como a Somália, India, Afeganistão, Nigéria, para citar alguns; mas ainda assim seria simplista afirmar. O que venho constatando em minhas leituras sobre o tema é que a violência depende de algo maior e mais complexo, e que na grande maioria das vezes ela acontece em relacionamentos inicialmente consensuais, ou seja, sem barreiras, sem choques ou atritos.

Fica claro que existe um período de encantamento e que conforme a relação se desenrola os primeiros sinais aparecem. Desencorajamento, controle, tortura psicológica, agressão física, estupro entre outros. Neste período a vulnerabilidade entra em jogo e ela simplesmente desconhece área geográfica.

Claramente os tempos mudaram, os “gatilhos” mudaram e o sofrimento se mantém, no mundo todo.

Hoje em dia acredita-se que os abusos ligados à violência doméstica aumentaram, e de fato os dados mostram que sim.

A pandemia da Covid-19 vem expondo às pessoas à experiências de confinamento que não estão sendo saudáveis por diversas razões. Na Alemanha logo após o término do “lockdown” as denúncias de mulheres vítimas aumentaram em 30%,  somente na capital Berlim.

Contudo, o evento mais importante está acontecendo; as vítimas estão parando de se esconder e é exatamente por isso que os números de casos subiram.

O acesso à informação, os debates e o encorajamento de mulheres é um movimento sem volta e os casos emergem, o que nunca aconteceu com tamanha força.

E tanto você, que se interessou em ler este texto, quanto eu, que fui estudar sobre o tema, estamos colocando este assunto em pauta, debatendo, denunciando, reconhecendo e divulgando canais competentes de auxílio à mulher em situação de abuso.

Sim, o abuso é mundial, assim como a luta contra ele!

Vamos seguir lutando “miteinander”,  palavra alemã que eu adoro e que quer dizer “juntos”.

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. É responsável pela área de Marketing Digital
da Push Rio Activewear. www.pushrio.com

“OOOhhhh, ele usa um brinco de argola!”

A primeira vez em que vi uma pessoa preta, devia ter uns seis anos. Isso aconteceu em um restaurante de Helsinque, a capital da Finlândia. 

Como nasci e cresci em uma cidade pequena do país, nunca tinha visto alguém nem levemente morena. Olhos castanhos então, eram algo muito estranho.

Naquele restaurante de Helsinque, do que mais lembro é da reação da minha mãe, de olhos arregalados e falando baixinho, sobre aquele homem negro. Só que, maravilhada, os seus comentários eram sobre o exotismo do que ele estava usando: Um brinco de argola grande na orelha. Não lembro de mais nada sobre ele, de suas roupas, se falava alguma língua desconhecida, com quem estava, nada. Mas passei a associar pessoas que tinham a pele de cor tão diferente da minha com o exótico e maravilhoso.

Quando nos mudamos para o Brasil, pouco tempo depois, vivi em cidades pequenas, onde frequentava a mesma escola que as outras crianças, de todas as cores e classes sociais e brincava com elas. Era com a filha da costureira que aprendi as cantigas de roda, com a filha da lavadeira que brincava de pega-pega e com todas as outras crianças que brincava de esconde-esconde na praça da igreja. Nunca passou pela minha cabeça ou de sua mãe, criticar essas amizades por qualquer motivo.

Já adolescente, morando em uma cidade grande, descobri o preconceito. Primeiro contra mim mesma, por ser alienígena. Não havia muita tolerância ou acolhimento naqueles bons anos 70, numa Campinas provinciana. Mas tinha muita xenofobia e megalomania. Já na escola, só tinha branco. Até os funcionários. E assuntos polêmicos, como divórcio, aborto e racismo eram abordados raramente em alguma aula da área de humanas. À típica pergunta: “Você é racista?”, ela respondia que não, mas ninguém acreditava, o que, por sua vez, fazia com que ela passasse a ter dúvidas sobre suas afirmações. “Você tem amigos negros?” Não, mas qual era a minha oportunidade de encontrar negros para ter amizade?  Tolerava as piadinhas racistas, assim como as misóginas e outras preconceituosas, apenas para não ser a chata da turma, mas na verdade, nunca consegui ver graça nelas. Com o tempo, passou a contestar cada piada ridícula com outra pior, sobre alguma coisa muito sem graça. 

A pior que aconteceu, nos anos 1990, foi ir a uma festa da prima do marido, onde um dos convidados era negro e a tia dizer: “Desculpem, não tive como evitar.” Ao que eu respondi: “Desculpo não, tia! É um absurdo imaginar que a presença do colega de sua filha possa ser ofensiva!” Naquela época ela não entendeu, racismo ainda não era crime, mas eu queimei de raiva por dentro. Se eu teria amigos negros???

Eu tenho AMIGOS e nem mesmo sei a cor deles!

A maioria dos racistas brasileiros sofreria racismo na Europa, Estados Unidos e Japão! Nós somos um país de miscigenados e amo essa mistura maravilhosa que faz a pele mais morena ou não.

Passados os anos 70, 80, 90 e chegados os anos 2000, 2010, 2020. Hoje já não me calo mais, mas, por outro lado, não me isenoa também. Hoje Racismo É Crime e eu luto com meus papéis, desenhos e textos. Luto com as armas que tenho e não estou sozinha. Será que eu me considero racista? 

Eu, definitivamente, sou ANTIRRACISTA!

Synnöve Dahlström Hilkner – Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.




Estou no trem para Stuttgart. Se passarão exatos 29 minutos. Nem 1 minuto a mais ou a menos.

A indústria automobilística no Brasil não poderia jamais ter acabado com a implantação tão necessária e moderna das estradas de ferro que os ingleses vieram fazer no Brasil, entre outras coisas.

Transporte férreo é moderno, rápido, eficiente, sustentável e te faz percorrer longas distâncias com uma super agilidade.

De cara, quando vim pra Alemanha pela primeira vez em 2006, não entendi os Ss e os Us.

Se você vem a trabalho ou turismo, tenha certeza que estará no máximo à 100 m a pé de uma estação de trem ou metro. Ela vai tem conectar com a Europa inteira. Sempre me lembro da frase de uma amiga italiana, Martina, trem é vida!

Voltando para os Ss e os Us.

A maioria das cidades tem os S-bahns e U-bahns, que literalmente querem dizer trem de rua e trem de baixo. S- Bahn (trem de rua) e U- bahn (trem de baixo ou metrô).

Todos estão conectados, além dos Buses (ônibus) que estão lá bonitinhos sempre te esperando nos horários marcados.

O tíquete é invisível! Brincadeira, você tem que comprar  na estação ou pelos aplicativos de transporte. Tem mais de 10 tipos de apps! Todos autorizados e ligados à DB- Deutsche Bahn, operadora manda chuva daqui!

Ninguém vai te pedir o bilhete e você não precisa mostrar, de cara. Porém, existem milhares de controladores à paisana, que você nem imagina que trabalham para a empresa de transporte, galera com piercing, tatuada, de tailleur, shorts, até a mais inocente vovózinha. Nem tente dar o golpe, porque o dia to controle chega, ahhh e como chega!

Silvia Lima – Bela Urbana, publicitária, leonina, mãe do Gabriel e Lucas. Atua na área de moda internacional com foco em sustentabilidade. Mora em Stuttgart, adora uma viagem, só ou bem acompanhada, regada a muito vinho. Acredita no casamento, desde que não seja sempre com o mesmo marido, já que está no terceiro, que foi coletando mundo afora! É uma das sócias da Kbsa Inovação Responsável, que ajuda empresas de moda brasileiras a atuarem no mercado internacional por meio da sustentabilidade. www.kbsa.com.br