Que Deus cuide e proteja os pais. Todos. Sem exceção.

Proteja os pais que ajudam as mães a cuidar dos filhos uma ou duas vezes por semana, porque estes não entendem nada do papel de um pai.

Cuide daqueles que colocam os filhos no mundo e que às vezes aparecem anos depois sem nenhuma explicação, porque estes não podem reconhecer a si mesmos como homens, o que dirá como pais.

Cuide e proteja os pais separados que dão uma força pra mãe de vez em quando desde, que não atrapalhe o futebol ou a cerveja com os amigos. Que pagam a pensão de um salário mínimo em dia, mesmo que isso não dê conta das despesas dos filhos. Afinal, já estão fazendo mais do que a mãe das crianças merece. Estes meu Deus, não conseguem enxergar muito além ao redor dos seus umbigos. Logo, não sabem o que é ser homem, nem tão pouco o que é ser um pai de verdade.

Cuide e proteja todos esses pais e tantos outros que abandonam seus filhos de infinitas maneiras, estando perto ou longe.

Mas Deus, observa com cuidado aqueles outros pais que levantam antes das seis da manhã para preparar o lanche, acordar as crianças e deixar todos na escola antes do trabalho. Que levam os filhos ao médico, que preparam o almoço, o jantar, que fazem festa no banho, que jogam cinco ou seis partidas de futebol por dia com seu filho, mesmo que já não tenha mais idade pra isso. Que brinca de boneca com sua filha depois de um dia exaustivo de trabalho. Que anda de bicicleta num domingo de tarde, que arruma um cachorro grande pra seus filhos mesmo morando num apartamento pequeno. Que sai mais cedo do trabalho nos dias quentes só pra poder brincar com os filhos antes de escurecer. Que inventa histórias antes de dormir. Que orienta as tarefas da escola, que dá bronca, que repreende, que educa. Que viaja sozinho com os filhos e se diverte com isso. Que se emociona ao ver os filhos dormirem abraçados a ele. Que é capaz de olhar nos olhos da sua companheira ou companheiro e ver que são pais e mães, mães e mães, pais e pais, sabendo que as alegrias e as dores fazem parte da vida e que a construção de uma vida é mais leve quando se faz junta aparando um ao outro. Que é capaz de construir a mesma vida junta, mesmo quando são separados.  Pais e mães são para sempre. Esse pai sabe disso meu Deus. Esse pai sabe disso e de tantas coisas. Esse pai tem um sexto sentido, igual ao da mãe.

Ah Deus! Estes pais não precisam de cuidado nem proteção. Com eles você não precisa se preocupar. Sim, eu sei. Eles são incríveis. São homens. São pais de verdade. São pais felizes de ser pai. Mas Deus, eles não fazem nada além da sua obrigação.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é ator e fotógrafo. É um flaneur que faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio.  

O dia das mães foi ontem, o dia de comemorá-lo, mas mãe, uma vez mãe, é mãe em tempo integral.

Tem gente que diz que mulher é frágil, mas que mãe é muito forte. Não concordo exatamente com isso, mulheres são fortes e também são frágeis e mães são fortes sim, muito fortes quando ser MÃE está na sua essência. Ter filhos é fácil, mas ser mãe não é só ter.

Hoje, pós dia das mães, meu dia começou com um imprevisto. A escola da minha filha me ligou porque ela estava com muita dor de ouvido. Eu estava indo para uma consulta médica agendada há mais de dois meses. A médica que agendei, tem a agenda lotada, difícil conseguir consulta a curto prazo, mas é claro que desmarquei e fui com minha filha para o pronto socorro. Ficamos praticamente a manhã toda e saímos de lá para a farmácia comprar remédios, aliás, uma observação, como remédios em nosso país são caros.  Conclusão, uma otite que já sendo tratada pela mãe.

Outro dia uma amiga me disse: – Adriana os filhos são da mãe.

Nunca tinha ouvido aquilo, mas faz sentido, os filhos são da mãe na maioria dos casos, conheço algumas exceções, mas na maioria, os filhos são da mãe mesmo. É a mãe o porto seguro, emocional e muitas vezes o financeiro. Tenho três filhos, descobri o que é ser mãe com o primeiro, que hoje tem 19 anos. Filho não tem manual de instrução e mesmo no terceiro, no meu caso, na terceira, cada um é um, e com cada um, aprendo e ensino sempre algo novo.

Ser mãe de bebê para mim é o mais fácil, uma outra vez uma prima me disse: – Se sempre fossem bebês eu teria uns dez.

Uau, dez eu acho muito, mas bebês são fáceis de cuidar, o trabalho basicamente é físico. A medida que os filhos crescem, outras e outras questões vão surgindo e nem sempre tudo é tranquilo, quase nunca é, mas como mãe, vamos descobrindo caminhos, nos informando, conversando com outras mães, buscando ajuda de profissionais. Enfim, toda mãe só quer mesmo ver ser filho bem e feliz.

É simples na verdade, mas chegar nessa simplicidade é que não é nada simples… ou talvez seja, nós mães que talvez sejamos mais complicadas do que deveríamos ser, talvez nossa lente de proteger os filhos seja de aumento.

Eu hoje só sei de fato uma coisa, que só sabemos o que fazer em uma determinada situação quando a vivemos. O resto é especulação. Então se alguém falar: “se fosse…”, “se tivesse…”, eu faria de tal jeito. Esqueça, isso não existe.

Com meus filhos o meu SER HUMANO é mais forte, é crítico, aprende, ensina, perde a paciência, chora, ri, aplaude, não desiste, luta, briga, incentiva, se diverte, ama, com todas as dores e as delícias.

Depois que me tornei mãe tenho a clara sensação que um filho é grande chance de sermos seres humanos melhores. Agradeço muito as minhas três grandes chances, espero estar fazendo certinho a lição de casa.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

 

 

Fiz a mamografia e já senti que a médica ficou encafifada. Uma semana depois, recebo o laudo sugerindo uma mamotomia (que é um exame que parece uma punção). Fiz este também, com muito medo e ainda ouvindo da enfermeira insensível que seria muito difícil fazê-lo em mim porque eu tinha uma mama muito pequena. Até hoje sinto orgulho de mim por ter conseguido, naquele momento tão adverso responder ironicamente: “Sinto muito por ter mamas tão pequenas, eu te garanto que eu também adoraria que elas fossem maiores!!”
Quando recebi o laudo, mais um baque: “CARCINOMA DUCTAL IN SITU”.

Achei que aquilo era meu atestado de morte!! Senti muito medo, chorei muito, mas também fui valente o quanto pude. Tive todo apoio e amor que eu precisei. Ao levar o exame para a mastologista, ouvi que eu tinha dado uma sorte imensa, que era só retirar aquele pedaço da minha mama e que, caso não descobrissem mais nada no pós-operatório, eu “só” teria que fazer radioterapia e tomar um medicamento por 5 anos.

Naquela hora, tudo era assustador! Como assim retirar um pedaço da mama? Como assim radioterapia?? Como assim um remédio com mil efeitos colaterais por 5 anos? Hoje, consigo pensar que passei por tudo isso de uma forma tranquila. Operei na quinta e na segunda estava trabalhando como se nada tivesse acontecido. Fiz as 30 sessões de radioterapia e há 6 meses estou tomando o remédio que não me trouxe quase nenhum dos muitos efeitos colaterais ameaçados na bula. Agora estou em acompanhamento, fazendo os exames de rotina pra garantir que continuo bem!! O que eu consigo pensar de tudo isso é o seguinte: Não achei justo eu ter esta doença, mas seria justo com alguém?? Claro que não!! Agradeço todos os dias por ter descoberto tudo em momento tão precoce. É muito assustador passar por isso, mas hoje as possibilidades de cura são muito, muito grandes!!

O amor recebido nesta hora também faz toda a diferença!!

Por isso, meninas de 40, façam o exame, ele pode sim salvar sua vida!!

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Nadia Vilela – Bela Urbana, fonoaudióloga que fala pelos cotovelos, mas aprendeu também a ouvir!!! Mãe de dois adolescentes lindos por dentro e por fora. Tem sempre um sorriso sobrando no rosto e a certeza de que não veio pro mundo a passeio!

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Ela tem 12 anos… mudou-se há pouco para a cidade junto com a família, mãe, duas irmãs e uma agregada, nos idos dos anos 70. Era a mais nova delas, e entrando na adolescência, já tinha seus sonhos bem infantis de romances, mas brincar era mais legal! As irmãs já estavam na idade de trazer amigos, e sempre algum lhe despertava a infantil atenção.

Um belo dia, um deles rouba-lhe um selinho no portão. Aquelas brincadeiras bobas de virar a cara na hora do beijinho no rosto de despedida… ela surpresa, pergunta: ‘O que é isso?!” E ele responde: ‘Um beijo’, faz carinha de inocente e vai embora com o amigo dando-lhe uma bronca: ‘Ela é uma criança!!!’.

Ela se casa, tem dois filhos lindos, dos quais se orgulha. Eles crescem, ela decide sonhar novos sonhos, estudar, buscar uma profissão e nela se realizar. Estranhamente foi duramente cobrada por isso, e acabou por custar-lhe o casamento.

Ele tem 17 anos. É convidado por amigos a conhecer umas meninas novas na cidade. Uma delas lhe agrada, mas justamente essa namora seu amigo. Ela tem uma irmã mais nova bem bonitinha. Mas é muito nova, uma criança!

Um dia, ao despedir-se, rouba-lhe um beijo no portão. E ao ver a surpresa dela perguntando ‘O que é isso?’, ele marotamente responde: ‘Um beijo!’. E vai embora, levando bronca do seu amigo: ‘Ela é uma criança!’.

Ele aparece tempos depois com uma namorada. Terminam… ele some, a namorada fica na ‘família’ por um bom tempo. Ela aparece com outro namorado. Que fica na ‘família’ por um bom tempo também. Aquela roda-viva da adolescência! E o contato se perde entre estudos, trabalhos e casamentos…

Ele se muda para a praia para estudar, junto com um amigo, depois de um tempo volta, se casa, tem duas filhas lindas. A trabalho, muda-se para outras cidades, conhece outras culturas, faz muitos amigos. O que ele mais tem, são amigos! E amigos são o que valem naquele momento, anos depois, em que se descobre que o casamento não está mais funcionando… e que vale a pena tentar ser feliz!

Ela tem 48 anos. Um dia, recém saída de um relacionamento, ela está no facebook, e uma foto chama a atenção na página de uma amiga, aquela que era namorada daquele menino do beijo roubado… rsrs. Naquela época do ano em que todo mundo põe foto com carinha de criança, ela vê uma e pensa ‘conheço esse menino!’. Adicionam-se e começam a descobrir que tem muito em comum, além da lembrança de um beijo roubado no portão.

Mas moram longe! Mas o que é longe em tempos de internet banda-larga, celular e vôos baratos que podem ser comprados com milhas? Encontram-se um dia m que ele visitava parentes na cidade, apenas para lembrar dos bons tempos e contar que rumos haviam tomado. Incrível como é possível resumir a vida em poucas horas de conversa… falaram de seus pais e de seus filhos, de suas carreiras, suas viagens e suas vidas. E descobrem muitas afinidades.

A vida segue em conversas por chat, como foi o seu dia, como está a sua vida. Até que um dia, em função daquela carreira que ela teimou em perseguir, foi convidada a palestrar na empresa dele. Ele, muito gentil, a ciceroneou pela cidade, e riram muito lembrando de um beijo roubado no portão, entre outras coisas, como fotos comprometedoras, amigos eternamente zoados, etc.. Dali saíram com a sensação de que nunca é tarde! Pra ser feliz, pra se apaixonar, pra se dar uma chance!

Passam um bom tempo em namoro por chat, vídeo, e ponte aérea. Passam por cirurgias, doenças, e outras pequenas crises. Mas permanecem firmes, com a certeza que a vida lhes sorriu com algo especial, quando por volta dos 50 anos, nenhum dos dois esperava mais por isso.

Enfim, ele consegue uma transferência de volta à cidade natal, onde tudo começou. E a vida os tem brindado continuamente com novas oportunidades de serem felizes juntos! E a sensação boa de que estão só começando…

Quem disse que nostalgia e tecnologia não são aliadas?

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Tove Dahlström – Belas Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

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Mulher, 44 anos, solteira, com um filho de 15 anos, estudou duas faculdades, investiu em uma especialização, atua em uma fundação do terceiro setor!

Namora… ou não! Ela não sabe dizer, pois não sabe se a relação que ela tem segue os protocolos para caracterizar o que “rola” como namoro, mas isso não diminui o encanto dessa história.

Simples no modo de agir, complexa no modo de pensar.

Se sente livre por não servir a partidos políticos, por não ter que responder a limites acadêmicos e ainda, por não ter que responder as expectativas duvidosas que encontra nos espaços.

Gosta de gente, bichos e plantas, especialmente as árvores. Gosta tanto, mas tanto, que respeita a relação destes com sue habitat! Vai entender essa mulher!

Ah, e tem mais, gostar de animais não a impede de comer carne! Embora passe muito tempo sem ter essa necessidade.

Acha zoológico e espaços de confinamento de bichos para apreciação do ser humano, esquizofrênicos! Mas não pensa em lutar por essa causa.

Gosta de ler, principalmente livros de filosofia, mas se delicia e sente prazer quando uma charge anuncia o seu pensamento, ou mesmo, ilumina-a em um posicionamento.

Acredita na política!

Entre as crenças que cultua, vejamos… pode-se afirmar que:

– a incompletude é o que dá sentido a vida;

– que se constitui nas relações que vive;

– que a dúvida é sábia e necessária;

– quem quer fazer o bem, deve primeiro fazer para quem está a sua volta;

– quem faz mal feito, faz várias vezes;

Algumas ela aprendeu com sua mãe. Admira muito a sua família!

Ter amigos irmãos e irmãos amigos, a deixa mais segura e confortável em sua trajetória. E ela faz questão de dizer isso a eles.

Sorriso largo, não economiza afeto… Mas não pensem que gosta de gente pegajosa e com afagos superficiais. Ela entende afeto, de um modo muito peculiar!

Acorda bem humorada!

Diz que gosta de beber!

Quando escuta música, sua alma dança delicia e maravilhosamente. Ninguém imagina o que ela faz e como ela faz.

Gosta de dirigir e fazer baliza! Sério mesmo!

Sarcástica, se diverte cotidianamente com o que vê.

De imaginação prodigiosa, sempre tem um texto e uma ação teatral no seu imaginário. Acha muito mais fácil viver assim!!!!

Já foi mais ou mesmo! Hoje é mais e de vez em quando é menos!

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Claudia Chebabi Andrade – Bela Urbana, pedagoga, bacharel em direito, especialista e psicopedagogia e gestão de projetos. Do signo de touro, caçula da família. Marca registrada: Sorriso largo e verdadeiro sempre 🙂 

 

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Ela 16, ele 17.

Amor à primeira vista? Depende da vista…

Ela num momento deprê, sem ver sentido em continuar… Resolveu encontrar a irmã numa festa, mas com uma atitude foda-se a vida, que, por algum motivo, passou  por… Autoconfiante a menina! Ele adorou aquela menina super decidida, pena que ela não queria papo com ninguém…

A campainha da casa toca, a irmã pede para ela ver quem é. Ele estava no portão, junto com o primo, para fazer um trabalho com a irmã. Ela, num momento mais animado com a vida, viu-o pela primeira vez…

Meses se passaram, os dois adolescentes, ele finalmente a pediu em namoro… Ela: “até que enfim”

Casaram, criaram os filhos, vieram os netos…

Hoje ela olha para ele e sabe que o que eles tem é especial… Passaram por tanto nessa jornada, mas a vontade de estar junto e a capacidade de se re apaixonar foi definitivo naquele primeiro olhar, no amor à primeira vista, que nunca saberemos exatamente quando foi.

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Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.

 

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Capítulo 1 – ROSANA

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Era uma noite fria…
Eu estava completamente só. Pelo vidro embaçado via tudo branquinho. Eu gosto de neve. Os pedacinhos caindo lenta e levemente, forrando o chão, clareando a paisagem. Não cai como lágrima, chuva ou confete colorido. Cai como neve. Silenciosa, branca, branca, branca.

Gostando ou não, está cedo demais para estender esse carpete de luz fria, é estranho ver tanta neve em Nova York no início de novembro. Também não existe nenhuma razão para eu não conseguir dormir, o Furacão Sandy já está bem longe, a temperatura aqui dentro marca perto de 26o Celsius e me sinto cansada, o que na teoria facilitaria o sono.
Reli a imensa lista de presentes de Natal que ainda tenho que comprar, são mais de vinte. Este ano vou ficar aqui e receber minha irmã e meu sobrinho mais velho. O Eduardo é meu grande amor, um menino reservado, diferente, uma fera com programas de computador. No dia de Natal ele vai fazer 18 anos e diz que virá morar comigo. Eu e a Roberta gostamos da ideia, mas vamos esperar para ver como vai ser em relação ao Doutor Klaus, o pai com quem ele mora desde pequeno.
‘Quase quatro e meia da manhã e eu aqui fazendo chazinho’ pensei enquanto me servia de um chá japonês chamado ‘Camellia Sinensis’, presente da Kristin. Nós saímos juntas algumas vezes nos últimos dois ou três meses, mas sabemos que não temos e nem teremos um relacionamento. Ela de fato é uma mulher interessante, eu é que não consigo passar da primeira pele, sou sempre muito superficial. Meu único mérito é reconhecer isso.
Peguei a xícara, o maço de cigarros e escolhi ouvir aleatoriamente o álbum de clássicos para ver se relaxava. A música sorteada não poderia ser mais linda ou triste, era a ‘Suite número 3 de Bach’.
Em uma explosão de TOC, alinhei em fila os meus quatro livros publicados com ensaios fotográficos e arrumei a Yashica FX-3/50mm que foi a primeira máquina da minha vida, eles ficam em cima de um baú de madeira maciça lotado de passado. Também endireitei a moldura vertical pendurada entre as janelas da sala com dez ‘selfies’ mal tiradas. Com as pernas empurrei o
divã de retalhos coloridos para perto de uma das janelas, acendi um cigarro e deitei confortavelmente olhando a neve cair, esperando o sono chegar.

Depois de quase vinte anos em Nova York eu posso me considerar uma pessoa realizada profissionalmente, estudei nos melhores institutos, ganhei dinheiro, fiz alguns trabalhos bárbaros, outros medíocres. Fotografei as modelos mais bem pagas, lindas e chatas do mundo até chegar aqui.
Meu único luxo é o apartamento onde moro no Soho. Amplo, tem o pé direito alto com quatro imensas janelas de vidro que vão do chão ao teto deixando à mostra as escadas de ferro externas. No andar de baixo fica o ‘Estúdio CaVVeg’ que divido com Alejandro Vega, fotógrafo espanhol que faz grande sucesso com ensaios de corpos nus.
Há mais ou menos dez anos ele chegou aos Estados Unidos com um visto de estudante. Bateu na porta do meu antigo estúdio em um dia de muita chuva dizendo que era meu fã.
– Você quer o que?
– Quero fotografar como você.
– Você quer me fotografar?
– Não! Quero aprender! – gritou tremendo de frio, com os olhos cheios de água da chuva e de choro. Tinha vinte aninhos o moleque.
Trazia na bolsa uma fotografia premiada num importantíssimo concurso internacional em Los Angeles no início dos anos 2000, era uma foto em preto e branco parte de um ensaio homoerótico que fiz para uma revista francesa. Um case consagrado em diversos países que ganhou destaque também na imprensa brasileira por meio de uma revista paulista que fez um encarte bárbaro e de certa forma apresentou o meu trabalho ao Brasil.
Naquele dia o Alejandro entrou no ateliê e nunca mais saiu da minha vida. Além de me auxiliar nas fotos, arrumou bicos em uma produtora de vídeos e aos domingos passou a utilizar o estúdio para fazer os seus sonhados ensaios nus.
Eu demorei a me acostumar com aquele entra e sai de gente pelada, mas ele mostrou que estava no caminho certo e o seu trabalho chamou a atenção ganhando prêmios de menor expressão. Fechou bons contratos, passou a andar com as próprias pernas e três anos depois de bater na minha porta não dependia mais de mim. Virou um grande fotógrafo, meu sócio e melhor amigo.
O engraçado neste ‘mundo redondo’ é que fiz pelo Alejandro exatamente o que um dia fizeram por mim, só que eu cruzei o caminho do polêmico Christopher Miller, fotógrafo nova-iorquino, hoje com quase sessenta anos. Na
época ele era um dos grandes nomes em fotografia de moda, amigo de Oliviero Toscani, participava das polêmicas campanhas da Benetton.
Encontrar o Miller foi como achar uma pérola no oceano. Eu o conheci por acaso pouco tempo depois de chegar em Nova York. Pisei no Aeroporto John F. Kennedy puxando duas malas imensas no dia 1o de janeiro. Saí do Brasil em 1993 e cheguei aos Estados Unidos em 1994 para uma nova vida, a outra tinha ‘acabado de acabar’. Naquele primeiro dia do ano eu vi neve pela primeira vez e a Rosana Nazaré Cavalcante deu lugar a Rose Caval.
O Miller foi meu professor de fotografia na Academia e ofereceu a oportunidade da minha vida. Contava pra todo mundo que tinha me contratado como estagiária por um simples e absurdo motivo: eu era morena e brasileira como a Sônia Braga. Dizia que conheceu sua musa anos antes, mas eu nunca soube se isso era verdade ou não.
Vinte e três anos, naturalmente morena com cabelos cacheados e longos, recém-saída do dourado verão baiano para contrastar com as caras brancas e pálidas do inverno nova-iorquino. Foi essa ‘Dona Flor’ que o Miller enxergou em mim, uma imagem bastante distorcida que acabou virando o meu Greencard.
Eu não desperdicei as chances que tive, andei ao lado do Miller e depois segui em frente, exatamente como aconteceu com o Alejandro. Por sorte, os dois se tornaram minha família.

ii. revés

Acordei no divã toda torta, amanhecia, a chuva batia contra as vidraças com força fazendo um barulho que competia com a música alta. Novamente tocava a ‘Suite número 3 de Bach’, não sei se por coincidência ou a música tinha se repetido sem parar. Eu estava suando, o chão molhado e a xícara de chá com a asa quebrada caída perto da janela. Desliguei o som angustiante lembrando apenas de ter deitado no divã sem sono algum. Olhei para a fileira de fotos penduradas entre as janelas e senti a ‘sombra da Isabel passeando pelo meu pelo’. Eu estava completamente arrepiada.
Recolhi os pedaços da xícara quebrada e fui buscar alguma coisa para limpar o chá japonês que escorria pelo chão da minha sala. Quando abaixei senti uma forte tontura, sentei no divã tentando me manter consciente, mas não sei se consegui. Vi cenas desconexas onde a Roberta chorava, depois sorria enquanto o Eduardo, ainda garotinho, brincava abraçando a mãe, passando por
baixo das suas pernas, rindo. Aí de repente não era a Roberta, era eu e as nossas imagens me confundiam.
Apertei o pano molhado contra o rosto sentindo uma náusea incontrolável. Corri para o banheiro já vomitando e sentei dentro da banheira com a água despencando em cima de mim, nem escutei o celular que tocava sem parar na mesinha da sala. Quando finalmente atendi, vi que o Alejandro ligava pela quinta vez seguida.
– Hello moleque… – falei amorosamente misturando idiomas como sempre fazemos.
– Oi Rose, tudo bem? – perguntou sério, em inglês.
– Mais ou menos, devo ter comido alguma porcaria ontem. O que tá me preocupando é você acordado domingo cedinho – tentei rir, mas não consegui.
– Rose, eu estou chegando ai na sua casa. Tenho um assunto pra falar com você.
– Putz Ale, aconteceu alguma coisa? É de trabalho? – perguntei nervosa.
– Eu estou estacionando o carro, beijo – desligou.

Ouvi as batidas na porta enquanto vestia uma calça branca de capoeira muito velha, as listras coloridas nas laterais já bem desbotadas. O Ale estava todo molhado, pálido e não veio sozinho, o Miller entrou atrás dele. Tiraram os casacos sem olhar para mim, os dois de cabeça baixa. ‘Meu Deus, é grave’ pensei e não esperei mais nem um segundo.
– Alejandro o que aconteceu?
– Rose, eu preciso que você fique calma… – respondeu nervoso.
– O que foi Ale? Fala!
– Você vai ter que ser muito forte.
– Pelo amor de Deus Alejandro, o que tá acontecendo? – perguntei com vontade de chorar.
– Senta Rose – o Miller apertou minha mão com força e me larguei no sofá – Aconteceu um acidente lá no Brasil – começou devagar me olhando de frente.
– Meu pai? Isabel, Edu, Beta? – falei de uma única vez, em um ato falho sem tamanho e fechei os olhos para ouvir a resposta.
– Eduardo.
Meu coração parou. Senti como se estivesse caindo nesses elevadores que projetam queda livre nos parques de diversões, só que eu não parava de cair.
– O que aconteceu Alejandro? O que foi? – perguntei sentindo as lágrimas e o meu corpo despencando cada vez mais rápido.
– O Edu foi atropelado ontem no final da tarde, ele estava em uma estrada quando…
– Atropelado? Ele tá machucado? – sacudi o meu amigo pelo colarinho – Me responde Alejandro! Ele se machucou?
– Rose, foi bem grave… Se acalma! – pediu tentando fazer com que eu largasse sua camisa – Ele atravessou a tal estrada correndo, veio um desses carros grandes, um Jeep em velocidade e…
– Um Jeep? – esfreguei o rosto com as duas mãos e abri a boca tentando pegar ar – Ele está vivo, né? Alejandro pelo amor de Deus, diz que meu sobrinho tá vivo! – implorei com a voz anasalada.
– Não Rose, o acidente foi muito grave. O Eduardo morreu.
Foi como se o elevador onde eu me encontrava despencando se espatifasse no chão em mil pedaços. Soltei um grito gutural e me contorci no sofá sentindo uma dor dilacerante. Não sei quanto tempo fiquei ali sendo velada pelo Alejandro e pelo Miller.
– Meu Edu! – falei baixinho e me sentei – E a Beta? Como é que tá a minha irmã?
– Eu não sei muita coisa, quem ligou pra mim foi o Klaus – contou.
– O Klaus, por que logo ele? – levantei e comecei a andar de um lado para o outro – E o meu pai?
– Eu sei que a sua irmã está a caminho da cidade onde aconteceu o acidente, porém não falamos sobre o seu pai Rose, me desculpe.
– Quando foi o acidente? – perguntei soluçando e tentei acender um cigarro, o que era impossível de tanto que eu tremia.
– Ontem no final da tarde por lá, mais ou menos umas nove da noite – o Alejandro pegou o cigarro da minha mão e devolveu aceso.
– E por que demoraram tanto pra me avisar?
– Eles decidiram não te dar a notícia por telefone e eu também demorei pra atender porque estava em um lugar barulhento e não ouvi o celular – confessou culpado não conseguindo mais segurar o choro – Me desculpe Rose, eu sinto tanto.
Abracei o meu amigo consolando e sendo consolada, enquanto o Miller carinhosamente afagava nossas costas sem conseguir dizer uma única palavra.
Quando entramos no JFK meus olhos estavam ardendo, o Alejandro chorava e apertava a minha mão como quem deseja receber uma transfusão de
dor, o Miller continuava em silêncio. Tentei falar com a Roberta umas dez vezes e nada, a minha cabeça não parava de rodar.

Foto Carla Dias Young

Carla Dias Young – Bela Urbana,  tem 46 anos é jornalista, (tenta ser) escritora e trabalha na empresa ‘Young.comunicação Consultoria em Comunicação e Licenciamento Ambiental’. Nasceu em Santos, mora em Campinas, é casada e tem um cachorro e uma gata, todos vira-latas.

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Lembro muito de uma história da infância, onde eu e minha irmã plantamos feijão em vasinhos com algodão molhado. O meu feijão eu cuidava nos mínimos detalhes, molhava todos os dias. Minha irmã já não, nem a via molhar o tal do feijão. Porém, apesar de todo o meu cuidado, era o feijão dela que crescia mais rápido e mais forte e quando percebi, me causou um imensa insatisfação. Não me lembro ao certo o fim da história, se meu feijão morreu afogado de tanta água (por zelo) que colocava nele ou se antes disso minha mãe interferiu e me falou que eu não precisava molhá-lo todo dia (lembro-me disso), mas não me lembro em que ordem foi.

Concluindo, o que tiro é que não devemos superproteger, mas como podermos ter essa consciência que estamos superprotegendo?

25 de agosto – Gisa Luiza – 32 anos

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Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre sua agência Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :) . A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

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No final de semana antes do carnaval, resolvi ir à praia com a família.

Desta vez, nada de hotel pé na areia, piscina, sorvete à toda hora e nem a cadeirinha com guarda sol montada, já me esperando no lugar de sempre.

Desta vez uma casa com antigos amigos.

Uma casa onde fazíamos de tudo; limpávamos, cozinhávamos, cuidávamos dos filhos, jogávamos buraco e até um antigo jogo da minha infância… stop (se bem que os carros que eu falava, ninguém mais conhecia). As crianças pulavam nos colchões espalhados pela sala, davam travesseiradas uns nos outros, comiam quando queria e misturavam brigadeiro com churrasco, brigadeiro de novo e os pais? Nem ligavam. Liberdade total!

Logo cedinho acordávamos e íamos a pé (cinco quadras) para a praia carregando algumas coisas (muitas coisas) até nos instalarmos de frente “daquele marzão de Deus” como dizia meu pai.

Já sentada na cadeira, olho para o lado e vejo uma senhora tirando a saída de praia e achei que era a coordenadora de matemática da escola dos meus filhos. Uma senhora elegante, sempre bem vestida, muito inteligente que dá ate gosto de ver. Ela não para nunca, fez mestrado, Doc, pós Doc…mas naquele momento era uma pessoa comum, com corpo comum, de biquíni curtindo a família…bom, olhei direito e não era ela…ufa! Que bom, senão ela iria me ver com a mesa cheia de salgadinhos e cervejas já trazidos de casa, porção de salaminho….uma verdadeira farofa!

Foi aí que olhando várias pessoas ao meu redor, percebi que ali na praia, todos eram seres humanos normais, todos com os pés sujos de areia, passando protetor solar, rindo e curtindo tudo o que recebemos de graça…sol, mar e natureza. Relaxei.

E o Cortella? Bom, fiquei olhando todos os barbudos da praia, vai que de repente o Cortella esteja lá, bem à vontade  bebendo uma caipirinha e de sunga? Ah…mas ele estaria com uma sunga todinha salpicadas de letrinhas do alfabeto na cor cinza, descalço, com chapeuzinho, aquele bege meio clássico e lendo um livro, claro!

Enfim, descobri que na praia, não importam os títulos das pessoas, somos todos iguais. As mulheres de biquíni se achando fora de forma e os homens fazendo de tudo para disfarçar enquanto passa uma gostosona caminhando pela praia.

E o David Luiz? Ah, este eu coloquei no título só para chamar a atenção dos homens para o texto.

E você, quem gostaria de encontrar na praia? Como ele estaria vestido?

foto roberta 2014

Roberta Corsi – Bela Urbana, coordenadora do Movimento Gentileza Sim que tem como objetivo “unir pessoas que acreditam na gentileza” e incansavelmente positiva, para conhecer o movimento acesse https://www.facebook.com/movimentogentilezasim 

 

 

shutterstock_86016289 (1) café da manhã

Abro os olhos e ainda está escuro lá fora.

Levanto, ligo a cafeteira e começo a arrumar a mesa para o café. Respiro fundo, absorvendo lentamente o silêncio da manhã, o cheiro de café e a minha companhia… Aquele momento é só meu!

Um pássaro começa a cantar. A luz do vizinho acende. O motor de um carro é ligado. E o dia lentamente vai clareando.

Espreguiço e leio um pouco do meu livro, planejando meu dia.

Os filhos aparecem na cozinha, primeiro o do meio, depois o mais velho e por último o caçula. É um daqueles momentos deliciosos em que a família está reunida logo cedo. Até o marido aparece, apressado e apressando. A conversa é leve e descontraída, cheia de risos. Saboreio o momento.

Logo acaba, cada um vai para o seu lado. Nesse dia estão todos indo para as suas escolas… Mas esse momento também rapidamente passou, cada um foi para um lado, o mais velho casou e mudou, o do meio mudou e depois casou, os dois tiveram filhos… O caçula foi para a faculdade e para a república…

Tomo outro gole de café, termino um capítulo do livro, planejo a próxima exposição, escrevo um texto, deixo um recado para o marido e vou trabalhar…

FOTO PERFIL Synnove

Synnöve Dahlström Hilkner É artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.