Parece loucura mas já parou para pensar que a festa mais importante de fevereiro só é um reflexo do que acontece nos tantos outros dias do ano?

Todos os dias acordamos, nos espreguiçamos, meia volta no quarto, dente escovado e a máscara na cara que é para manter o humor escolhido para o dia. 

Ao longo do tempo troca-se as personagens e no descanso do lar é onde as fantasias perdem formas. 

Todos os anos a mesma rotina, as promessas quase que impossíveis desejadas no novo ano que se inicia e lá estamos nós aguardando ansiosamente pelos novos enredos, novas histórias.

Seria cômico se não fosse trágico a semelhança gritante com que a nossa vida se parece com um verdadeiro carnaval invertido e basta observar.

Todos os dias são dias de carnaval. 

Da alegoria ao passista, na pista a rainha de bateria dá um verdadeiro show. A máscara de riso esconde o choro de luta de quem sabe que não pode fraquejar. 

Aqui fora da avenida os fanfarrões não sabem brincar. O confete é bala e a púrpurina é dor.

Aqui fora da avenida todos os dias são  dias de carnaval, e nem de longe lembra a alegria das crianças.

Aqui é selvageria, carnaval na raça, só sobrevive quem dança conforme o dança. 

E por isso não dá para desafinar, é preciso ter samba no pé e gingado.

É preciso ter molejo e sacudir a poeira.

Na avenida da vida saber passar e chegar sem perder o ritmo.

Ir para avenida, desfilar, carnavalizar. Pois todos os dias são dias de carnaval.

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

É o tempo de se vestir com uma fantasia engraçada.
Que cobre o corpo todo. Ou não.
É tempo de se divertir.
Tempo de ir pra rua, de fazer farra.
De passar tempo com quem se ama.
De viajar.
De dançar até o chão sem julgamento.
De vestir o que quiser.
De festa.
De celebrar a diversidade.
O exótico. O país. A beleza.
De enlouquecer.

Das mulheres se sentirem empoderadas.
Bonitas, sexys, confiantes.
Glamurosas, brilhantes.
Pra que elas dancem sem medo.
Mulher alguma vez fica sem medo?

Tempo de as pessoas serem quem quiserem.
Tempo de não julgar.
De brilhar e de vestir a roupa que teve medo de vestir o ano todo.
Tempo de a comunidade LGBTQIA+ se expressar. Sem medo.
Eles também alguma vez não sentem medo?

Ou de ficar em casa.
Vendo o desfile na TV.
Ou vendo um filme qualquer e fingindo que o Carnaval nem está aí.
De olhar a rua da janela.
De torcer pela sua escola.
Ou não.
De por o sono em dia.
Ou os estudos.
Do que for mais confortável.
Mais alegre.
Ou prioridade?
Mais seguro?

Porque é isso que o Carnaval é.
Tempo de escolher ser e fazer o que quiser.

Giulia Giacomello Pompilio – Bela Urbana, estudante de engenharia mecânica da UNICAMP, participa de grupos ativistas e feministas da faculdade, como o Engenheiras que Resistem. Fluente em 4 idiomas. Gosta de escrever poemas, contos e textos curtos, jogar tênis, aprender novos instrumentos e dançar sapateado. Foi premiada em olimpíadas e concursos nacionais e internacionais de matemática, programação, astronomia e física, além de ter um prêmio em uma simulação oficial da ONU.