Carnaval de 1997. Era uma viagem de uma turma de amigos recém-formados. Éramos em doze no total, enfiados em um apartamento de um quarto em Caraguatatuba. Havia gente dormindo até na cozinha.

Na terceira noite eu fiquei com um dos colegas. Romance improvável, não fosse o clima de carnaval. Graças a Deus na manhã seguinte já era dia de eu ir embora. Precisava voltar mais cedo pois havia levado uma prima minha, que não era da turma da faculdade e já trabalhava e tinha que retornar a São Paulo. Hoje em dia ninguém se importa mais. Mas na época era estranho ficar com colega de faculdade, depois de tantos anos sendo apenas colega de faculdade.

Algumas semanas depois, como de costume, a turma se reencontrou em mais uma baladinha. O constrangimento inicial não durou muito. Ficamos novamente. Nesse dia, já fomos embora de mãos dadas.

Depois da nossa segunda “ficada”, combinamos de sair para jantar e pela primeira vez após tantos anos, estaríamos somente nós dois. E nesse dia, ele me disse que precisava falar algo muito importante, que seria melhor falar antes que eu soubesse por terceiros. Diga-se terceiros, todos os demais colegas da turma.

Pois ele me revelou que no carnaval ficou comigo porque havia feito uma aposta com os amigos. O choque foi tão grande que francamente eu não sabia se ria ou chorava. Ele se desculpou, disse que não queria que tivesse começado dessa forma e eu meio desconcertada dei um sorriso amarelo e fingi ter achado engraçado.

Isso passou. Às vezes durante algumas brigas eu ainda escavava essa história, mas com o tempo isso deixou de ser importante. Após cinco anos esse romance gerou um casamento, que após mais dois anos gerou uma filha e um ano depois, gerou a nossa empresa. Foi um relacionamento de 17 anos. Hoje já estamos separados há 6 anos.      

O casamento acabou, mas a filha ficou, a empresa ficou e a amizade ficou.

O que teríamos feito das nossas vidas se não fosse o carnaval de 1997?

Impossível saber.

Noemia Watanabe – Bela Urbana, mãe da Larissa e química por formação. Há tempos não trabalha mais com química e hoje começa aos poucos se encantar com a alquimia da culinária. Dedica-se às relações comerciais em meios empresariais, mas sonha um dia atuar diretamente com público. Não é escritora nem filósofa. Apenas gosta de contemplar os surpreendentes caminhos da vida.

Carnaval de 2021…não teremos…ficaremos em casa…JÁ FOI ASSIM NA MINHA CIDADE!

Apesar de hoje não sairmos de casa por causa da pandemia, em 1984 o motivo para ficarmos em casa era outro: a desigualdade entre meninos e meninas.

Minha mãe, era diferente, me deixava sair e eu era uma das mais animadas. O que eu não me conformava, era com alguns pais de amigas minhas. Minhas amigas não podiam quase sair de casa nesse período.

Argumentos dos pais não faltavam:

– Pessoas bêbadas pelas ruas.

– Pessoas bêbadas dirigindo e os carros perdem o controle.

– Pessoas mal-intencionadas oferecendo drogas, “lança perfume”.

– Amigas que podem beber e te levar pelo mau caminho.

– Danças eróticas.

– Músicas e danças insinuantes.

Afff, eram desculpas mais desculpas.

Mas, eu tive a sorte de ter uma mãe que confiava em mim e sempre dizia que eu é quem sabia qual o caminho a seguir e que eu é quem tomava conta da minha vida.

A única coisa que ficou gravada foi: cuidado, não desgrude do seu copo. Se for ao banheiro, jogue fora sua bebida e pegue outra depois que sair. Eles podem colocar “bolinhas“ e aí, vão abusar de você. Morria de medo.

A estratégia funcionou. Nunca experimentei droga, pulava a noite toda sem parar, ria tanto e me divertia tanto que até hoje ainda penso que muitas das mães que me viam dançando, duvidam da fonte de tanta animação.

E claro, para encerrar a noite, todo mundo ia para a padaria do meu pai comer pão quentinho saindo do forno. E eu? Ia para trás do balcão ajudar a vender, mas ficava atenta, quando meu paquera aparecia… eu não saia do banheiro de vergonha! 

Hoje, com 50 anos, rio das lembranças e vejo que ensinar e confiar é a melhor solução. Prender e proibir, só aumenta a curiosidade. No fim, o diálogo, a confiança e o “olho do vizinho que vai no baile, as perguntas mais descabidas da mãe no dia seguinte e cheirar a roupa da filha todinha escondida…” ainda está valendo!

Roberta Corsi – Bela Urbana.
Fundadora e coordenadora do
Movimento Gentileza Sim,
que tem por objetivo “unir pessoas que acreditam na gentileza” e incansavelmente positiva. Mãe da Gabi e do Gui. Gosta muito de reunir a família ao redor de uma boa mesa
.

Sempre teve um tom de dificuldade

Até porque sempre fomos tão diferentes e com ideias tão distantes

Se uma era o vermelho,  a outra tinha que preferir os azuis

Distâncias de dedos e até dos enfrentamentos, cada um deles

Enfim, fui crescendo e te busquei quase a vida inteira. A vida inteira te busquei

Há pouco te vi cada vez mais longe,

através das grades do portão…

Quase um ano inteiro assim.  Que loucura!

Foi como não te encontrar mais nem nos meus próprios medos

Um dia desses fui te ver com uma máscara toda colorida, era tão visível

E foi o dia em que você menos me viu ou mais me viu tão nua

Foi o dia em que a lágrima escorreu

Escorreu pela falta, pela insensatez do momento

Escorreu pela vida que insiste em passar tão estranha

E algumas vezes tão violenta

Escorreu em tom de saudade, mesmo.

Siomara Carlson – Bela urbana. Arte Educadora e Assistente Social. Pós-graduada em Arteterapia e Políticas Públicas. Ama cachorros, poesia e chocolate. @poesia.de.si





Sempre penso: “Será que existe o outro lado?”. Me pergunto isso desde pequena, desde aquela aula de religião que a freira nos levou para a capela e nos mostrou onde Deus estava.

Conheci Deus através do olhar dela. Era pequeno e estava preso em uma caixa quadrada no altar. Eu tinha 7 anos e olhava aquela caixa com temor. Vai que Deus fugisse dali? Melhor Deus preso ali dentro e seguro… Mas como ele podia nos ver estando preso e fechado? Será que estava esmagado? Será que sentia dor? Será que Deus soltava pum?

Até os dias de hoje, 55 anos depois, algumas dessas perguntas me perseguem. Sou católica, mas não praticante. Minha filha casou na igreja, me lembro tão bem do dia. Ela linda, entrando na Igreja com o pai. Eu no altar e Deus também, na sua caixinha. Eu olhava de canto de olho para Deus para ter certeza que estava ali. Eu rezava para ele estar de bom-humor nesse dia e abençoar os noivos. Porque cá entre nós, viver apertado tira o bom-humor.

O susto do cigarro foi uns meses antes desse dia. Parei. Larguei. Deixei na memória, mas fujo dela o tempo todo, porque se pensar, tenho vontade de me entregar ao vício. Mas sei, como sei, que esse vício pode me matar mais rápido que a genética determina, resisto, mas não é fácil! “Só por hoje”, penso.

Quando olho para os lados e alguém está fumando, sinto vontade de acender um, de me entregar àquela sensação que nem sei descrever. Sinto até inveja do fumante, me vem a lembrança que sentia ao tragar, como um arrepio na alma, mas na hora a memória me leva para Deus na sua caixinha e penso que Ele deve estar muito apertado vivendo naquele cubículo e, por isso, precisa também nos causar o mesmo incômodo que sente. Será que Deus é sádico?

Sou uma idosa, já consigo ter direito a ser atendida prioritariamente nas filas especiais, há outras vantagens também de ter mais de 60 anos (tenho 62), mas não me sinto diferente em nada do que era quando tinha 52, 42, 32… Sou a mesma e não sou velha! Gosto do que querem que as idosas não gostem, mas eu ainda gosto. Se sempre vou gostar, não sei. Deus deve saber.

Hoje, no banco de trás do carro, quando o motorista parou naquele demorado farol, olhei para o lado. Por que olhei? Tinha um homem tomando banho na praça, usando a pia pública, pia de lavar as mãos, e ele tomando banho de caneca. Usava shorts, passava algum sabão… Olhei demoradamente aquela cena, era como um ímã, mas era um tapa na cara. Deus de novo me fazendo me sentir incomodada, eu no ar-condicionado, voltando do salão de beleza, que fiquei 4 horas, fazendo as unhas das mãos, dos pés, tingindo o cabelo, hidratando, lavando, escovando, tomando chá e café… 4 horas, e alguém se banhando no meio da rua… Ah, Deus, saia dessa caixinha, saia desse aperto logo e para com essa coisa sádica de me fazer sofrer pelo incômodo do banho do mendigo, pelo cigarro que renuncio.

Queria ter a indiferença de alguns que conheço… isso seria tão mais fácil! Se eu te soltar da caixinha, podemos fazer um trato? E essa freira que me apresentou você, onde será que está? Do outro lado? Melhor mesmo eu continuar longe do cigarro!

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Foto Adriana: @gilguzzo_photography


Carnaval de rua dos anos 50, quase 60! Época do corso? Não, não sou tão velha assim…

Respeito é bom e eu Joana, gosto!

Uma história que em minha família ficou para um sempre. Apesar de ser uma história de vibração sexual.

Então, carnaval e estávamos vendo com a alegria carnavalesca, eu, minha amiga Neidinha que minha mãe costurava roupas iguaizinhas, parecíamos gêmeas… Pândego! E claro que onde eu ia, ela era convidada para acompanhar, num sempre gostoso, pois eu, filha única precisava de companhia.

Amava Neide Silva, vizinha e um ano mais velha que eu a Joaninha. Voltando à rua Barão de Jaguara/Campinas/SP anos 60/Carnaval de rua, chovia um pouco e minha mãe Zilda, levou sua inseparável SOMBRINHA, faça chuva ou faça sol ela estava sempre armada com ela.

E os blocos descendo a Barão de Jaguara, e nós defronte o Eden Bar, estávamos felizes e ficamos à frente de dona Zilda, minha mãe… Só que, de repente estávamos uns dois personagens adiante dela, com o brilho das fantasias dos blocos e a alegria, eu e Neidinha nos distanciamos do corpo, mas não d’alma de Mãe observadora!

E eis que, de repente ouvímos um gemido, dentro daquele aperto, olhamos para trás e vimos um homem gemendo, parecia de dor, e saiu correndo, e minha mãe gritando: O bloco passando, a música tocando, as pessoas cantando e o homem tentando se esfregar nas meninas que estavam na sua frente…

E foi sua infelicidade sobre o olhar de dona Zilda, minha mãe… Que na hora que viu a cena prazerosa, pegou a SOMBRINHA dela que estava fechada naquele momento, e desceu o sarrafo…

Entre aquele membro teso e sem vergonha e nós, duas meninas carnavalescas, com 10/11 aninhos. Virou uma história de família, e hoje quando tudo acontece, em que machos vivem à sombra e continuam se esfregando, minha mãe falecida diria: “Filhas levem alfinetes, para circular em veículos que transitam num leve e traz apertado”.

Pois, nem sempre usamos SOMBRINHAS de antigamente… Agora elas são tão curtas, algumas vezes do tamanho do membro teso!

Valeu…

SOS – 180…

Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

“A criança cala por medo. A criança cala por vergonha. A criança cala por não ter voz…”

Difícil pensar em tudo que uma menina de dez anos, submetida a estupros desde os seis pelas pessoas que deveriam cuidar dela, grávida e julgada pela hipocrisia da sociedade sofreu e ainda vai sofrer como consequência disso tudo. Mas uma questão que foi levantada por muitos “cidadãos de bem” tem me incomodado: Por que a criança não falou para ninguém?

Aos 10 anos de idade mais ou menos eu era uma menina muito curiosa. Os meninos da escola estavam naquela fase de começar a descobrir a sexualidade, sabe? Viviam desenhando “pintos” para tudo que é lado e eu achava aquilo bem engraçado, mas não entendia muito o que era aquele desenho feito a exaustão e sempre seguido de um risonho pelos amigos do sexo oposto. Dito isso, saibam que eu era a artista da turma.

Bom, para contextualizar deixa eu contar um pouquinho da minha minha infância. Meu pai (meu herói e ídolo) morreu quando eu tinha cinco anos e meio de idade. Minha mãe nunca mais se casou, mas eu bem que gostaria. Tinha sede por uma figura masculina na minha vida. Embora ela não tenha casado, tinha amigos de infância que frequentavam nossa casa e que também frequentávamos.

Um deles, que vou chamar de João, era tapeceiro de mão cheia e eu, a artistinha da casa tinha verdadeiro fascínio por tudo que tinha a ver com trabalhos manuais. Nem preciso dizer que ele era meu ser humano, do sexo oposto, de preferência! Ele era casado com a Rosa, uma moça aparentemente mais velha e muito doce que eu amava de paixão também.

Não nos víamos muito, porque a oficina ficava num bairro mais afastado, mas sempre que possível estávamos um na casa dos outros para um café, para mim era um Nescau mesmo, um bolo… os adultos conversavam e eu ficava maravilhada por orbitar esse universo. O João sempre me encantou mais porque era o que me dava atenção, me tratava quase como uma igual.

Pois bem, a oficina mudou para perto da minha casa. Na verdade no caminho entre minha casa e a escola e imagine minha felicidade porque agora eu podia parar para “tomar um café” sempre que estivesse passando por lá.

João estava prosperando e tinha uns três funcionários no seu pequeno paraíso (paraíso é por minha conta, porque era assim que eu enxergava aquela portinha cheia de tecidos, móveis desmontados e fedendo a curtume… coisas de criança) e todos eles me tratavam como uma mascote.

Um dia, eu passei por lá e João estava só. Entrei para nosso café com bolo usual e nossas conversas que até então era pra que serve essas taxinhas?, o que é um capitonê?, etc e tal...mas como eu disse, ele estava sozinho e, como eu disse lá em cima, eu andava sendo bombardeada pelos desenhos de “pinto” sem saber muito bem o que eram. A gente sentou nas banquetas em frente a bancada de trabalho. Eles tinham o hábito de rabiscar os projetos nas grandes pranchas de madeira e sempre tinha um lápis por ali. Eu, curiosa, perguntei por que aquele lápis tinha um formato diferente dos meus da escola (ele era quadrado, bem maior e escuro), João explicou e me deu o lápis na mão apontando a prancha de madeira e dizendo que eu podia testar. Lógico que desenhei um “pinto”! Na verdade algo bem rudimentar como duas bolinhas e um palito. Ele olhou e perguntou se eu sabia o que era aquilo. Eu balancei a cabeça e disse que achava que sim, mas não tinha certeza… foi nesse momento que meu mundo virou de cabeça pra baixo. Ele pegou minha mão, uma mãozinha de uma menina mirrada de 10 anos de idade (vocês não imaginam o quanto eu era miúda nessa época, magrinha mesmo, uma varinha, nada que pudesse ter um apelo sexual) e colocou no pau dele. Um membro totalmente rígido. Puxei minha mão na hora num misto de medo, vergonha e sei lá o que. Ele ainda insistiu que eu poderia tocá- lo para saber como era um homem de verdade? Homem de verdade? Oi? Eu queria desaparecer dali, virar pó, ser engolida pelo chão, mas não consegui simplesmente sair correndo. Lembro de agradecer polidamente e dar uma desculpa para ir embora.

Cheguei em casa me sentindo suja, mal, nas não conseguia elaborar o que tinha acontecido. Eu sabia que era errado, mas eu tinha provocado aquilo! Não podia contar para minha mãe, porque, na minha cabeça, ela ia se zangar comigo, afinal, fui eu que fiz o desenho que levou aquela situação. Não podia contar pra Rosa, porque ela ia ficar triste e eu não queria que ela ficasse triste por algo que eu tinha causado.

A partir daquele dia, sempre que era para ir na casa deles eu inventa uma desculpa e sempre que eles iam em casa eu não mais queria participar ou, se participava, era grudada na minha mãe ou na Rosa. Minha mãe chegou a me perguntar por que eu não ia mais na tapeçaria, algo que ela só sabia porque o João tinha falado para ela que eu andava sumida. Eu não me lembro o que respondi, mas sei que a partir daí não fui mais questionada. Só sei que nunca contei e eles seguiram amigos até o fim da vida… se viam menos, eu, cheguei num momento que nunca mais os vi, mas essa história ficou pra mim. E para o abusador do João.

Por que eu não contei? Porque eu tinha vergonha… Porque eu achava que a culpa era minha… Porque eu não queria magoar os adultos… Porque eu queria proteger a Rosa… Porque eu só tinha 10 anos…

Porque não se falava dessas coisas…

Adriana Rebouças – Bela Urbana, formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos. Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante EnRaizAr em São José do Campos – SP.

Fotos Taine Cardoso Fotografia

Se deparar com o silêncio é enlouquecedor. O apartamento era chique, tudo milimetricamente no lugar.

Nos últimos dias ela estava só. Ninguém podia entrar. Dispensou a empregada doméstica e o personal trainer, a contragosto, mas no condomínio o pedido foi explícito: Liberem seus funcionários pelo bem de todos, precisamos controlar as entradas, temos 06 casos suspeitos aqui.

Solidão pesa, ainda mais para quem se engana. A filha mora em Brasília com o marido, se falam bem pouco. O ex casou faz 10 anos com uma jovenzinha, como ela diz, e até hoje não conversam.

Solidão pesa. Você tem que se olhar, quando tudo que te sobra é você mesmo. Sentir isso era uma facada no peito. Não tinha amigos para ligar, sempre implicava com todos. Era chata. Impecavelmente chata.

As pessoas se afastam de quem só enxerga problemas, só critica.

Sandra, esse era seu nome, mas ela nem se lembrava. A vida inteira foi Sazinhah, que ela escrevia com o H no final desde menina. Achava chique como os copos de cristais que ganhou no casamento há 35 anos e que continuam intactos, sem uso.

Sua vida foi cuidar da casa, mas sempre com ajuda de empregada doméstica. Cada ano uma. Ninguém durou muito ali. Ela implicava. Não era rica, mas tinha uma boa condição. Classe média-alta, casou bem. Fez um acordo no divórcio de uma boa pensão, afinal, ele tinha condição.

Hoje o incomodo foi enorme quando o som alto do vizinho chegou aos seus ouvidos, a música falava rezadeira…. ela se irritou, como sempre aliás. Ligou na portaria para pedir para abaixarem. O som vinha do vizinho, que ela nem sabia quem era. Evitava entrar no elevador com outras pessoas, odiava sentir outros perfumes além do dela. Era chata até o infinito.

A música não parava e se repetia. A portaria retornou e disse que ninguém atendia. Ela poderia bater no vizinho e pedir para abaixar, mas só de pensar sua mão gelava.

Engoliu seco, e foi deixando aquele som diferente entrar na sua mente, no seu corpo. Foi até o espelho, olhou uma mulher com a expressão dura, parada, pensou: deve ser o botox.., os vários preenchimentos. Nunca tinha percebido sua falta de expressão. Doeu, assim como doeu olhar para a cristaleira com aqueles copos de cristais esperando a melhor ocasião. Esperando há 35 anos!

Foi para a varanda, a música que falava benzedeira não parava. De irritada começou a se movimentar, olhava para as áreas do condomínio, todas vazias. Super irritada, começou a se soltar e a dançar. Devo estar louca, pensou. Jogou as almofadas no chão. Foi fazendo um striptease até ficar nua. Nua e só.

Nua e com os cristais. Nua dançando ao som do vizinho. Resolveu beber, por sorte tinha um vinho bom. Presente da dermatologista pelo aniversário, afinal, gastou um bom dinheiro com ela. Não gostou, nunca gostava de nada. Chata.

Nua, abriu o vinho, fez uso da taça de cristal, até que enfim, a ocasião. Dançou na varanda, nua, com o copo na mão ao som do vizinho. Bebeu a garrafa inteira.

Lembrou-se de quando era uma criança e de tudo que NÃO vivera até ali. Lembrou a pandemia. Lembrou da dor da solidão. Dançou até o último gole e jurou que se saísse viva daquilo, mudaria tudo, começaria convidando os vizinhos para um vinho e decidiu que todos os dias da sua vida usaria seu jogo de copos de cristal, até para beber água. 

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 

Foto: @gilguzzo @ofotografico

Viajandão…

Com minha cara de hippie, meus cabelos longos, sempre vestindo jeans e camiseta, a vida toda me chamaram de maconheiro e viajandão.

O cara que vive viajando.

Pois acordei pensando nisso hoje. Pago um pau pra quem não tem medo do novo, do lugar novo, do desconhecido. Quem viaja sem destino ou sem grana, ou ainda as duas coisas juntas.

Sem falar outra língua, conhecer pessoas do lugar, ruas, casas, onde vai dormir, comer, essas coisas triviais.

Logo pensei na minha filha Nina, que saiu de casa aos 20 anos, foi morar sozinha, começou trabalhar numa grande empresa. Por essa empresa viajava pelo Brasil sem parar. Pegou até um avião da TAM num domingo e ele caiu logo na terça.

Depois de 3 anos mudou pra São Paulo, outra nova empresa, um novo lugar, sem conhecer nada nem ninguém por lá…

Assustador!?!

Passou 7 anos naquela cidade, foi promovida e veio a proposta: se mudar para a Holanda pela mesma empresa e com um ótimo cargo. Foi correndo, ou melhor, voando!

Ela mora lá há mais de 4 anos, trabalha na mesma empresa e viaja loucamente por todos os países da Europa, o tempo todo. Diz que é perto um do outro, pra ela normal, nem aventura é mais, ou será nunca foi.

Admiro ela e outras pessoas que fazem isso, conheço mais algumas que pior que minha filha, foram com a força e a coragem, sem destino e sem grana alguma. Como disse acima, dou o maior valor.

Eu tenho medo! Sempre que vou a algum lugar novo vou tremendo, tentando planejar cada passo, nada pode dar errado!

Daí você me pergunta “como crio”? Como pinto imagens novas o tempo todo com tanto medo?

E te respondo com clareza e coragem: a imaginação é minha casa, meus papéis, telas e tintas minhas viagens, nasci com o passaporte da criatividade. Nelas me sinto seguro, sempre!

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

Sempre é para ela. E creio que será assim “até que a morte nos separe” e cá entre nós, espero que esse dia demore muito. Sabe paixão? Pois é, dizem que a paixão acaba logo e depois, aí sim, vem o verdadeiro amor, mas no meu caso, sinto que essa paixão vai longe. Não é que já não haja amor – sim, existe muito amor há tempos, mas com ela, eu vivo as loucuras de um eterno apaixonado. Seja pelo jeito cativante dela, seja pela sua alegria, sua espontaneidade e porque não, pelos seus beijos carinhosos.  Por ela, eu literalmente perco a razão, abro mão de dormir mais cedo, faço coisas que não gosto e outras tantas que adoro fazer só ao lado dela. Ela rouba o meu estoque de beijos. Ela me faz ter vontade de beijar, até porque, as amarguras da vida, vão lentamente, nos fazendo beijar cada vez menos – ainda bem que ela está aqui pra me ajudar a trazer à tona o melhor de mim. Obrigado filha. O próximo beijo sempre é, e sempre será pra você. “Beija eu.”

Vinícius Eugenio – Belo Urbano46 anos, publicitário, redator, atua com criação há mais de 25 anos, mas sem dúvida, a sua melhor criação, feita em dupla com a Leila, foi a Valentina. Espirituoso, prático e pragmático, gosta tudo de preto no branco, até por isso, é corintiano razoavelmente apaixonado. Saudosista confesso, colecionador de objetos antigos e admirador nato de Fuscas antigos. 

Fiz a mamografia e já senti que a médica ficou encafifada. Uma semana depois, recebo o laudo sugerindo uma mamotomia (que é um exame que parece uma punção). Fiz este também, com muito medo e ainda ouvindo da enfermeira insensível que seria muito difícil fazê-lo em mim porque eu tinha uma mama muito pequena. Até hoje sinto orgulho de mim por ter conseguido, naquele momento tão adverso responder ironicamente: “Sinto muito por ter mamas tão pequenas, eu te garanto que eu também adoraria que elas fossem maiores!!”
Quando recebi o laudo, mais um baque: “CARCINOMA DUCTAL IN SITU”.

Achei que aquilo era meu atestado de morte!! Senti muito medo, chorei muito, mas também fui valente o quanto pude. Tive todo apoio e amor que eu precisei. Ao levar o exame para a mastologista, ouvi que eu tinha dado uma sorte imensa, que era só retirar aquele pedaço da minha mama e que, caso não descobrissem mais nada no pós-operatório, eu “só” teria que fazer radioterapia e tomar um medicamento por 5 anos.

Naquela hora, tudo era assustador! Como assim retirar um pedaço da mama? Como assim radioterapia?? Como assim um remédio com mil efeitos colaterais por 5 anos? Hoje, consigo pensar que passei por tudo isso de uma forma tranquila. Operei na quinta e na segunda estava trabalhando como se nada tivesse acontecido. Fiz as 30 sessões de radioterapia e há 6 meses estou tomando o remédio que não me trouxe quase nenhum dos muitos efeitos colaterais ameaçados na bula. Agora estou em acompanhamento, fazendo os exames de rotina pra garantir que continuo bem!! O que eu consigo pensar de tudo isso é o seguinte: Não achei justo eu ter esta doença, mas seria justo com alguém?? Claro que não!! Agradeço todos os dias por ter descoberto tudo em momento tão precoce. É muito assustador passar por isso, mas hoje as possibilidades de cura são muito, muito grandes!!

O amor recebido nesta hora também faz toda a diferença!!

Por isso, meninas de 40, façam o exame, ele pode sim salvar sua vida!!

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Nadia Vilela – Bela Urbana, fonoaudióloga que fala pelos cotovelos, mas aprendeu também a ouvir!!! Mãe de dois adolescentes lindos por dentro e por fora. Tem sempre um sorriso sobrando no rosto e a certeza de que não veio pro mundo a passeio!