Que Deus cuide e proteja os pais. Todos. Sem exceção.

Proteja os pais que ajudam as mães a cuidar dos filhos uma ou duas vezes por semana, porque estes não entendem nada do papel de um pai.

Cuide daqueles que colocam os filhos no mundo e que às vezes aparecem anos depois sem nenhuma explicação, porque estes não podem reconhecer a si mesmos como homens, o que dirá como pais.

Cuide e proteja os pais separados que dão uma força pra mãe de vez em quando desde, que não atrapalhe o futebol ou a cerveja com os amigos. Que pagam a pensão de um salário mínimo em dia, mesmo que isso não dê conta das despesas dos filhos. Afinal, já estão fazendo mais do que a mãe das crianças merece. Estes meu Deus, não conseguem enxergar muito além ao redor dos seus umbigos. Logo, não sabem o que é ser homem, nem tão pouco o que é ser um pai de verdade.

Cuide e proteja todos esses pais e tantos outros que abandonam seus filhos de infinitas maneiras, estando perto ou longe.

Mas Deus, observa com cuidado aqueles outros pais que levantam antes das seis da manhã para preparar o lanche, acordar as crianças e deixar todos na escola antes do trabalho. Que levam os filhos ao médico, que preparam o almoço, o jantar, que fazem festa no banho, que jogam cinco ou seis partidas de futebol por dia com seu filho, mesmo que já não tenha mais idade pra isso. Que brinca de boneca com sua filha depois de um dia exaustivo de trabalho. Que anda de bicicleta num domingo de tarde, que arruma um cachorro grande pra seus filhos mesmo morando num apartamento pequeno. Que sai mais cedo do trabalho nos dias quentes só pra poder brincar com os filhos antes de escurecer. Que inventa histórias antes de dormir. Que orienta as tarefas da escola, que dá bronca, que repreende, que educa. Que viaja sozinho com os filhos e se diverte com isso. Que se emociona ao ver os filhos dormirem abraçados a ele. Que é capaz de olhar nos olhos da sua companheira ou companheiro e ver que são pais e mães, mães e mães, pais e pais, sabendo que as alegrias e as dores fazem parte da vida e que a construção de uma vida é mais leve quando se faz junta aparando um ao outro. Que é capaz de construir a mesma vida junta, mesmo quando são separados.  Pais e mães são para sempre. Esse pai sabe disso meu Deus. Esse pai sabe disso e de tantas coisas. Esse pai tem um sexto sentido, igual ao da mãe.

Ah Deus! Estes pais não precisam de cuidado nem proteção. Com eles você não precisa se preocupar. Sim, eu sei. Eles são incríveis. São homens. São pais de verdade. São pais felizes de ser pai. Mas Deus, eles não fazem nada além da sua obrigação.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é ator e fotógrafo. É um flaneur que faz da rua, das pessoas e da vida nas grandes cidades sua maior inspiração. Trabalha com fotografia de arte, documental e fotojornalismo. É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio.  

A morte dói. Dói para quem fica. Dói quando vem inesperada. Dói quando é esperada também. Dói em qualquer idade.

A morte é um soco na alma de quem fica. É ruína. É um presta atenção, uma reflexão de quem fica sobre quem vai. Não importa mais para quem vai quando já foi.

O tal do “nunca mais” é tempo demais. A certeza da eternidade da alma que vai, não temos. Podemos ter fé, crença, certeza não.

Certeza temos do que fica por aqui. A alma que vai, deixa. Deixa sua história, seus pensamentos, legados. Deixa saudades, alegrias, tristezas, ensinamentos, lamentos, raiva, amor, amizade. Continua viva na lembrança de quem a conheceu.

Quando pensamos na morte, pensamos na vida, na nossa vida e aí vem todos esses questionamentos. Quem é você para cada vida que convive? Para algumas vidas está entre os personagens principais. Para outros pode ser um personagem menor. Em outros casos pode ainda ter aquela participação especial. Para bilhões de vidas, um nada.

Vem a tona a questão: Será que exerço o meu melhor papel em cada vida que convivo? Não importa o tamanho, a questão é: exerço esse papel com a minha coerência ou sou um blefe de mim mesmo?

Não escolhemos o papel, mas escolhemos como vivê-lo. Como aqui estamos falando da vida de verdade, estamos falando de nós mesmos. Vivo como quero? Faço o que acredito?

Muitas pessoas passam pela nossa vida das mais diversas formas. Nunca seremos iguais para todos, e acredite, tem que ser assim.

Alguns vão te amar, te admirar, vão querer ser como você, alguns vão gostar da sua companhia, outros vão estar loucos para te ver longe, te chamarão de pedante, te acharão engraçado, falso, depressivo, coração mole, firme, trabalhador, sonhador, chato, alegre.

A única coisa que importa é ser quem se quer ser. A tal da coerência com você mesmo. Se o outro vai entender não é certeza, mas as chances para isso são muito maiores e consequentemente as relações são verdadeiras e intensas.

Pessoas blefe não vivem bem e não sobrevivem por muito tempo na memória de ninguém.

Já que a vida é finita, como você escolhe viver os seus papéis?

Eu escolho as ruínas da minha memória. Eu escolho ser de verdade.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

FOTO – @gilguzzo do arcervo do O FOTOGRAFICO  www.ofotografico.com.br © Gil Guzzo – Proibida qualquer tipo de reprodução das imagens sem autorização. Imagens protegidas pela Lei do Direito Autoral Nº 9.610 de 19/02/19

 

 

 

Pastor Conceição era uma daquelas figuras que possuem um magnetismo pessoal impressionante. Bastava entrar no vagão e imediatamente os olhares de todos se voltavam em sua direção. Sempre subia no último carro e sempre na estação Conceição do metrô – motivo pelo qual todos assim o chamavam, já que ninguém o conhecia pessoalmente e não se fazia idéia do seu nome verdadeiro. Não me lembro ao certo quando o conheci. Na verdade nunca me apresentei, nem tão pouco troquei mais do uma ou duas palavras com ele. O fato é que esse homem mudou a minha vida desde a primeira vez. Prefiro não revelar minha identidade por motivos que vocês poderão saber mais adiante.

Hoje, no meu retorno a cidade após três anos, oito meses e dezenove dias, entrei num ônibus no Guarujá rumo a São Paulo. No terminal Jabaquara, peguei o metrô em direção ao centro e a todas as minhas memórias que brotaram pelo caminho. A primeira delas, e a mais marcante de todas, chegou com a estação Conceição. Nem me dei conta que estava no último vagão. Só me dei conta quando chegamos ma plataforma. Eu podia vê-lo nitidamente entrando triunfal pela porta, com seu terno alinhado, o cabelo todo penteado para trás, cuidadosamente empastado com um gel fortíssimo e brilhante, que alguns antigos chamavam de glostora. E claro, com a sua infalível bíblia negra na mão direita, mãe de todos os seus discursos apaixonados e da minha conseqüente glória. Essa lembrança tão límpida distorceu meus lábios num velho sorriso maroto ao qual já estava desacostumado. Bons tempos aqueles em que havia sido iluminado pela palavra daquele homem. Enquanto ele falava trechos e mais trechos do Apocalipse – Parece que sentia um prazer mórbido ao ler esses trechos – Eu o ficava olhando e tentava adivinhar o que havia de especial em seu jeito. Todos prestavam atenção em suas palavras, mesmo àqueles que já o conheciam de muitas e muitas viagens. Era um troço impressionante. Tão impressionante que recebi uma luz divina. Eu não tinha que procurar nada nele que pudesse copiar e reproduzir. A mudança estava em mim. E estava. Agradecia todos os dias antes de sair de casa, com uma ave maria e um pai nosso a graça alcançada: a possibilidade de que eu poderia aproveitar aquele momento de entorpecimento coletivo para promover alguns pequenos furtos em bolsas e carteiras tão distraídas quanto seus proprietários.

Que fique claro que sempre fui honesto. Nunca roubei nada de ninguém, nem pão de queijo frio em balcão de padaria. Trabalhava feito um burro de carga como ajudante de cozinha numa lanchonete no calçadão da rua XV de novembro. Mas aquilo era diferente. Era como se tivesse recebido uma benção divina e a proteção dos quatro cavaleiros do Apocalipse, personificados na figura do Pastor Conceição. Continuei com meu emprego, mas pode se dizer que melhorei minhas condições. Botei roupa nova, passeava com minha namorada pelo shopping, comprei uma televisão de tela grande para minha santa mãezinha ver a novela, não perdia um jogo do tricolor no estádio e vez por outra alugava uma casinha na praia grande pra passar um fim de semana. Aniversário, carnaval, páscoa, dia das mães, dia dos pais, natal, nada mais passava em branco. É como dizem aqueles executivos da bolsa que freqüentavam a lanchonete: “O fulano de tal tá bem. Teve um ganho em qualidade de vida”. Foi exatamente isso que aconteceu comigo. Virei orgulho da família, xodó das tias e um partidão lá no meu bairro.

Apesar das especulações e das más línguas, ninguém fazia idéia de onde vinha o meu dinheiro. Do salário minguado do meu emprego é que não poderia ser, mas não entrava muito em detalhes. Desconversava toda vez que alguém vinha me perguntar de onde vinha o dinheiro, se eu tinha mudado de emprego, essas coisas. Teve até um travesti que morava nos fundos da lanchonete que uma vez me disse: “Tô sacando tudo bofe. Tu anda saindo com um velho, viado e rico”. “Ora, faça me um favor. Eu tenho cara de quem come bicha velha”. Respondi logo de imediato.

Tudo andava bem na minha vida. Tinha uma rotina que em nada me deixava triste. Saía de casa as cinco e trinta, pegava um ônibus até o metrô, esperava o pastor chegar, entrava no vagão com ele, assaltava de oito a dez passageiros por viagem – Um dia passei dos limites, assaltei dezenove de uma vez – descia na sé, colocava na caixa de achados e perdidos as carteiras que não conseguia devolver e ia contente pro meu dia de trabalho. Foi assim, sem interrupção, durante um ano e meio. Algumas noites, antes de dormir, sentia um frio na espinha. Principalmente quando lembrava de uma frase do pastor que disse um dia e que tive a impressão de que era dita diretamente pra mim.

A frase era mais ou menos assim: “As portas do paraíso sempre estão abertas para os bons e os justos”. Eu era bom e justo, mas era ladrão também. E ele nunca disse nada sobre os ladrões. Se teriam perdão ou algo parecido. Eu fazia tudo certo. Era bom moço, funcionário, filho, amigo e tudo o mais. Meu único desvio eram esses pequenos roubos. Mesmo assim era extremamente cuidadoso. Só roubava dinheiro vivo e quando tinha certeza que a pessoa não ia perceber. Assim ela nem se assustava. Eu pretendia parar com aquilo em algum momento. Não sabia ainda quando. Mas o roubo era a minha cachaça. Um vício que eu adorava. Além do mais eu tinha um grande projeto para aquele ano: comprar minha casa própria. Foi por causa disso que eu coloquei tudo a perder.

Fiz as contas. Faturava com essa atividade extra em torno de R$ 200,00 por dia. No final do mês, em 22 dias úteis, contabilizava R$ 4.400,00. Metade desse dinheiro ia direto pra poupança. A outra metade gastava com as coisas que vocês já sabem. Em um ano e meio, já tinha R$ 36.0000,00, fora os juros e correções. Nesse ritmo, precisaria de pelo menos mais 3 anos para poder juntar em torno de R$ 120.000,00. Dinheiro suficiente para comprar dois apartamentos de dois dormitórios ao lado da estação Bresser do metrô. Um pra mim e outro pra minha mãe. Ou então usaria todo esse dinheiro e compraria um apartamento maior e mais bem localizado e colocaria todo mundo junto. Um amigo meu disse que ali na Vila Mariana, pertinho da estação Santa Cruz, tinha um três dormitórios por uns R$ 110.000,00. Talvez valesse a pena.

O fato é não queria esperar os três anos arrumar esse dinheiro. O jeito era trabalhar mais para antecipar a entrada do capital. Em vez de faturar R$ 200,00 por dia, me esforçava para garantir pelo menos uns R$ 500,00. Foi aí que entrei pelo cano. Enquanto ficava apenas em pequenos furtos, eu era um número quase nulo na estatística de roubos ao metrô. No fundo, quase não davam conta por mim. Contudo, quando expandi meus negócios engrossei os números. Virei notícia. Mas ninguém sabia quem eu era. Ainda.

Saiu numa manchete do Metro News: Roubos ao metrô aumentam vertiginosamente no último mês. O problema foi essa palavra “vertiginosamente”. A partir daquele dia a polícia estava atrás de alguém. Precisava achar um culpado. E esse culpado era eu.

Não levou muito tempo para o metrô ficar infestado de policiais à paisana. Não demorou muito para colocarem as mãos em mim. E pasmem, com a ajuda do Pastor Conceição. Ele havia dito aos policiais que sabia quem praticava os roubos e que me entregaria imediatamente.

Naquele dia chovia muito. Saí de casa com um certo aperto no peito. Não dei muita bola. Achei que era o dia cinzento que me provocara aquela sensação. No fundo fiquei com uma pulga atrás da orelha. Tudo corria normalmente, mesmo eu sabendo que estavam atrás de mim, resolvi que não deveria parar. Queria cumprir minha meta. Depois disso poderia parar. Antes não.

Durante a viagem fiz o que tinha que fazer enquanto o pastor falava. Só que dessa vez, quase no fim das suas habituais palavras, ele colocou os olhos em mim e caminhou na minha direção. Parou frente a frente comigo, olhou bem nos meus olhos, colocou a mão na minha cabeça e disse: “O diabo é um mestre com muitas faces. Com uma mão ele dá, com a outra ele tira”. Esse foi o código combinado com os policias. Fui preso em flagrante, com os bolsos cheios de dinheiro. Justo no dia em que eu tinha tido um faturamento recorde: R$ 639,00. O que se passou daí em diante vocês podem imaginar, inclusive o que estava fazendo no Guarujá nos últimos três anos, oito meses e dezenove dias. Muitas vezes, na cadeia, cheguei a pensar que se tivesse dividido a grana com o pastor, talvez ele não me entregasse. Logo abandonava esses pensamentos. Não faziam sentido naquela altura dos acontecimentos.

O trem já estava chegando à estação Tiradentes quando acordei dessa memória que me trouxe muito prazer, me fez sonhar, ter planos, e que também me deu o gosto amargo da falta de liberdade. Desci e andei meio sem rumo até parar no parque da Luz. Fiquei sentado num banco por horas. Vi casais de namorados, pais com filhos, idosos e suas enfermeiras a tira colo. Vi a vida seguir seu curso no parque perdido na imensidão rude de concreto.

Até hoje não tive o perdão da família ou dos amigos. Isso me preocupou um tempo, hoje não mais. A gente aprende a conviver com tudo, até com a culpa.

Comprei um algodão doce e pensei no futuro. Tenho uma vida pela frente e perto de R$ 45.000,00 no banco. Acho que vou abrir uma lanchonete na Vila Esperança. Tenho experiência no ramo. Alguns amigos que moram lá dizem que logo o metrô chega por aquelas bandas e vai se chamar Guilhermina-Esperança.. Se eu der sorte consigo abrir bem ao lado da futura estação e aí o faturamento será bem maior.

Levantei-me e fui em direção a saída. No caminho, tentei acertar o lixo com o palito do algodão doce. Errei. Dei mais dois passos e parei. Voltei e coloquei o palito dentro do cesto de lixo. Pode parecer bobagem, mas senti uma enorme satisfação nesse ato. Tinha decidido. Não faria mais nada errado. Pelo menos até a vida me provar o contrário.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é um flaneur que escreve e fotografa tudo por aí.  A rua, as pessoas e a vida nas grandes cidades tem sido sua maior inspiração. Em 2015 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. No cinema, foi vencedor de melhor roteiro por dois anos consecutivos (2011 e 2012) no edital da Cinemateca Catarinense. Atualmente trabalha com fotografia de arte, fotojornalismo e fotografia documental.  É fundador do [O]FOTOGRÁFICO (Coletivo de arte contemporânea que desenvolve projetos autorais e documentais de fotografia). E o melhor de tudo: é pai da Bia e do Antônio.  

 

Vida de médico não é fácil. Vida de enfermeira também. Principalmente quando se tem mais de um emprego e se trabalha doze horas em cada um deles. Faço 24 horas direto, dia sim dia não, sete dias por semana. Minha rotina é cansativa, mas adoro o que faço. São dois hospitais, duas UTIs, muitas vidas e uma quantidade considerável de mortes. Algumas doloridas. Esse é o meu trabalho e ainda consigo sorrir no fim do dia. Mas esse não é o caso. Só fiz essa breve introdução para que vocês entendam um pouco o meu estado físico e emocional depois de uma jornada dupla de trabalho. Era quinta-feira e voltava pra casa com um nó no peito. Naquele dia havíamos perdido uma paciente muito querida. É assim que falamos quando não conseguidos salvar os pacientes.

Desci as escadas da estação Clínicas. A plataforma, quase sempre vazia naquela hora, era ocupada apenas por algumas pessoas, na maioria, vestidas de branco como eu. Tomada pelo cansaço e um pouco angustiada, sentei-me. Abaixei a cabeça e quase cochilei. Quando senti aquele vento morno nas pernas, que sempre precede a chegada do trem, levantei a cabeça. Algo me chamou a atenção do outro lado da plataforma. Parada, em pé, olhando fixamente pra mim, estava uma mulher toda vestida de preto dos pés a cabeça. Ela usava um chapéu preto também. Aparentava ter uns 20 e poucos anos e era muito branca. Um tanto quanto pálida. Foi isso o que pude perceber no curto espaço de tempo entre a chegada do trem na plataforma e o sumiço imediato dela após a parada da composição.

Fiquei intrigada com aquela mulher, mas resolvi não pensar muito. Na verdade não tinha forças nem pra pensar. No dia seguinte, não sei porque, a imagem me veio à cabeça mais de uma vez. Não o suficiente pra que eu perdesse meu precioso tempo em tentar entender o que fazia aquela mulher olhando pra mim daquele jeito. Mal sabia eu que aquela história só estava começando.

Ao final da minha jornada seguinte, como fazia habitualmente, desci as escadas da estação Clínica. Igualmente cansada, só que dessa vez  sem nó no peito. Fui pro meu banco, sentei-me e abaixei a cabeça. Quando veio o ventinho do trem, levantei-me e tomei um susto. Lá estava ela. Olhando pra mim de novo. Resolvi olhar nos seus olhos. A distância que nos separava era de uns três metros. Vi uma tristeza serena como nunca vi antes. Gelei. O trem chegou e ela sumiu novamente. Na vez seguinte a mesma coisa. E na outra também. A imagem daquela mulher parada olhando com tristeza pra mim estava me atormentando. Perguntei pra todo mundo que eu conhecia se alguma vez a tinham visto na estação ou por ali. Nada. Ninguém nunca tinha visto uma mulher com aquelas características. Senti medo de estar vendo coisas.  O cansaço, a dupla jornada, o trabalho pesado de uma UTI, poderia estar desviando a minha consciência para o plano do imaginário. Em outras palavras, ou estava com um nível absurdo de estresse ou estava ficando louca mesma. Mas não era possível. A mulher era real demais. A única coisa esquisita era ela sempre estar com a mesma roupa preta e de chapéu. O que faria uma mulher de chapéu naquela hora da noite numa estação de metrô? Quanto mais eu pensava menos entendia o que estava acontecendo. Não me restava outra opção. Na próxima vez eu iria tentar falar com ela ou iria ao seu encontro. Me enchi de coragem. Estava com medo. Ela poderia ser real e poderia querer me assaltar ou me fazer algum mal. A gente nunca conhece as pessoas que cruzam nosso caminho. E se talvez ela não fosse real, fosse um fantasma. O que um fantasma poderia querer comigo? Tinha decidido. Iria enfrentar a situação. Não queria viver atormentada com aquela dúvida.

Meu coração quase pulava do peito quando desci as escadas. Tinha chegado a hora de descobrir a verdade. Ao chegar na plataforma nem pensei em ir pro meu banco habitual. Meu olhar se projetou para o outro lado da plataforma. Lá estava ela. Do mesmo jeito. Devolvi o olhar em sua direção. Ela me abriu um sorriso, ao qual retribui um tanto quanto sem jeito. Num impulso, virei-me e subi correndo as escadas. A única coisa que eu queria era chegar do outro lado antes da chegada do trem e do seu desaparecimento instantâneo. Quase sem fôlego e parecendo uma doida entrei na plataforma. Olhei de um lado a outro e não vi nada. Nenhuma alma viva ou morta. Eu a havia perdido mais uma vez. Nessa hora senti um cheiro forte de rosas misturado a um perfume doce. Olhei pro outro lado, onde eu deveria estar, e vi um homem sentado no meu banco. Aproximou-se uma senhora e sentou-se ao seu lado. Ele anunciou o assalto. A mulher reagiu. O homem tirou a pistola do bolso, deu dois tiros na mulher e subiu as escadas correndo. Senti uma forte tontura e caí. Ao acordar, no ambulatório do hospital que eu trabalhava e que fica em frente à estação do metrô, fui informada de que o homem que atirou estava drogado e foi capturado na porta da estação. E que a mulher, infelizmente havia morrido.

Tomei um táxi e fui pra casa. Era tarde demais e já tinha perdido o último trem. Não consegui pregar os olhos. Aquilo tudo não saía da minha cabeça. A mulher, o assassinato e o cheiro de rosas. Fiz mil suposições, todas racionais e não encontrava respostas. Parti então para o outro lado dos fatos. Fiz um esforço danado pra aceitar a suposição que me invadiu a cabeça, instantes antes de eu desmaiar na estação: a mulher que eu havia visto até então era um espírito que veio ali só pra me salvar. Era claro. Se eu não a tivesse visto, ficada intrigada e tentado ir ao encontro dela do outro lado, estaria sentada no mesmo banco de sempre e seria eu a vítima do homem drogado. Tentei resistir o quanto pude, mas nada, absolutamente nada fazia sentido. A única história que encaixava parte por parte era essa. Definitivamente, uma coisa do outro mundo. É claro que não disse isso a ninguém. Poderiam rir de mim. Eu mesma iria rir de alguém que me contasse uma coisa dessas.

Em silêncio comecei a fazer conjecturas. Logo de cara veio a inevitável pergunta: Por que eu? E quem era essa mulher?

Eu já tinha ouvido muitas histórias da estação Clínicas. Não sei se todos sabem, mas essa estação fica ao lado do cemitério do Araçá. Dizem que na época da construção, durante as escavações, muitos operários tinham visões assustadoras lá embaixo. Falavam que os espíritos apareciam frequentemente e que continuam aparecendo até hoje, principalmente depois do pôr do sol. Um homem disse uma vez que os espíritos não conseguiam descansar com o vai e vem dos trens.

Quero deixar uma coisa bem clara aqui: sou atéia e não acredito em nada disso. Nunca vi nada também. Pelo menos não até esse momento.

Contudo, o que tinha visto era real e tudo levava a crer que poderia ser um espírito. Foi nisso ao que me agarrei pra tentar desvendar esse mistério e acreditar que eu ainda estava lúcida, apesar de tudo. Se fui ajudada por um espírito, deveria ao menos saber quem era e agradecer o que tinha feito por mim.

Reservei meu sábado de folga para começar a minha busca. Não sabia quem eu procurava. Tinha uma imagem na cabeça e um roteiro a seguir. A primeira etapa era o cemitério do Araçá. Era uma manhã quente de primavera. Fiquei abismada com a beleza e paz daquele lugar. Muitas árvores e verdadeiras construções em homenagem aos mortos. Muitas delas adornadas com esculturas magistrais de Victor Brecheret. Não que passasse a freqüentar cemitérios dalí pra frente. Não era meu estilo, mas era um lugar bonito de se ver. Deve ser por isso que os góticos adoram cemitérios.

Depois da minha entrada triunfal pela alameda principal e das minhas descobertas iniciais, comecei a olhar túmulo por túmulo, nome por nome, foto por foto. A busca poderia durar um dia inteiro. Um dia não, semanas. Até meses lá dentro. E se ela não tivesse enterrada ali? Se tivesse em outro cemitério?

Parei por um instante e respirei fundo. Estava me achando uma doida varrida e morrendo de medo de algum conhecido me ver. Tudo bem que estava toda vestida de preto e de óculos escuros. Pensei nesse disfarce e numa boa explicação caso um amigo me encontrasse ali.

Já passava do meio dia e nada. Não sabia mais por onde tinha passado e a fome começou a apertar. Saí do cemitério e fui até um bar que fica do outro lado da Avenida Dr Arnaldo. Poderia encontrar alguém do hospital, mas estava cansada e com fome e não queria andar dois quarteirões abaixo na Teodoro Sampaio. Comi um queijo quente, tomei um suco de laranja e retomei novamente minhas buscas.

A tarde começava a despedir-se do dia e eu estava exausta. Mesmo assim resolvi parar embaixo de uma árvore e assistir ao pôr do sol que se deitava pelos lados do Sumaré. Acendi um cigarro. Não costumo fumar sempre, apenas em situações especiais. E essa situação, convenhamos, era mais do que especial. Valeria aquele cigarro e aquele breve descanso para minhas pernas. Dei algumas tragadas. Meu olhar vagava perdido, sem achar um ponto fixo. Assim como minhas convicções sobre tudo naquele momento, inclusive sobre minha sanidade. Puxei fundo e dei a última tragada no cigarro. Como se atraída por uma força olhei pra frente. Ela estava ali, olhando pra mim. Não como das outras vezes. Era a sua foto estampada numa sepultura de mármore preta. O mesmo olhar triste e o sorriso enigmático. Fui chegando perto, quase que tropeçando nas minhas próprias lágrimas. Mais uma vez ela me ajudou. Agora a encontrar ela mesma.

Tirei uma caneta da bolsa e anotei seu nome, data de nascimento e data de morte. Chaamava-se Maria Georgete Gomes. Tinha nascido em 06 de junho de 1933 e morta em 29 de outubro de 1957. Corri até a administração do cemitério e lá fui informada, que a pedido da família, nenhuma informação poderia ser dada. Diante da minha cara de decepção, o funcionário me disse: “Minha senhora, não posso entrar em detalhes, mas essa moça teve um fim trágico”.

Fui para casa atordoada, cansada, cada vez mais confusa e com uma certeza absoluta: vi um espírito e ele se comunicou comigo.

Passei o fim de semana juntando mais peças do meu quebra-cabeças e cheguei a mais uma conclusão. Ela talvez tenha me ajudado para que eu também não tivesse tido um fim trágico como ela. Mas com isso aquela senhora teve um fim trágico. Por que ela me escolheu? Será que não era a minha hora e sempre dão um jeitinho de nos avisar? E que ela era apenas uma mensageira disso?

É claro que não me contentei com esse desfecho. Eu precisava saber mais.

Na segunda-feira pedi licença de uma semana dos dois hospitais. Aleguei estresse. Aceitaram rapidamente. A minha cara não deveria ser das melhores depois de ter passado o fim de semana praticamente em claro.

Três dias de pesquisas e nada. Internet, arquivo público, biblioteca, cartório e mais uma dezena de lugares que se possa imaginar. Cheguei a voltar no cemitério e implorar na administração, mas é claro, saí e lá sem nada. De repente, numa dessas idas e vindas entre um lugar e outro, me deu um estalo. Se ela teve um fim trágico, ela pode ter sido assassinada. Não tive dúvidas. Fui direto ao museu do crime da polícia civil. Lá chegando foi relativamente fácil. Expliquei a situação, o que estava procurando e dei o nome dela. Em menos de dois minutos o atendente simpático voltou com uma pasta e colocou na minha frente. Estava tudo ali. A mulher era uma jovem enfermeira que foi brutalmente assassinada ao sair do hospital depois de um dia de trabalho. O hospital que ela trabalhava era um antigo hospital que deu lugar ao que é hoje o maior complexo hospitalar da cidade e onde, por acaso, eu trabalho. E a rua onde foi assassinada é a rua onde passo todos os dias quando vou para a estação do metrô Clínicas.

Um calor aqueceu meu coração. Meu choro se misturava a um riso tímido e orgulhoso. Minha busca havia chegado ao fim e algo de muito diferente estava se processando dentro de mim.

Nunca contei essa história a ninguém, nunca mais a vi e também nunca vi nenhum outro espírito. Aquele encontro foi único e agradeço todos os dias por tê-lo tido. Minha vida voltou ao normal. Tudo continua como antes, a não ser por um detalhe: todo dia 12 de maio, dia da enfermeira, vou até o cemitério e coloco flores em seu túmulo. É como se eu dissesse: “Parabéns pelo dia de hoje minha amiga”.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

As vezes é melhor calar. Calar quando se quer gritar. Gritar só pra fazer barulho. Barulho que não sai da cabeça. Cabeça cheia de pensamentos. Pensamentos sobre tudo. Tudo que existe. Existe hoje no mundo real e no imaginário. Imaginário que cutuca e você não sabe se tem sentido ou não. Não, por favor, não. Não, isso enlouquece. Calar, gritar, barulho, cabeça, pensamentos, tudo, existe, imaginário, não. NÃO.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

FOTO – @gilguzzo

 

Ontem teus olhos não lembravam em nada o azul do céu

Nem um dia nublado

Estavam diferentes

Não olhavam para lugar algum, nem mesmo para você

Eram de um brilho áspero

Espalhando tristeza e rigidez pelo teu corpo

Nada a fazer

Bati em silêncio a última porta

A porta da memória

Antes de partir, no retrovisor

Um pôr-do-sol caminhava para o nunca mais da noite

Um outro, sem saber, iria nascer infinitamente em outros lugares.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

Fotografia – ©gilguzzo

Miguel morava numa travessa da rua Emília Marengo, na divisa entre o Tatuapé e o Jardim Anália Franco. A sua casa ficava entre as estações Tatuapé e Carrão do metrô. Não sabia qual delas ficava mais perto da sua casa, mas o fato é que pela manhã sempre descia a rua Apucarana em direção a estação Carrão e no final da tarde saltava invariavelmente na estação Tatuapé para bater um papo e tomar uma cerveja no bar do gaúcho, seu grande amigo.

Seus dias eram todos iguais. De casa pro trabalho, do trabalho pro bar do gaúcho e de lá pra casa. Era assim sem sustos nem novidades. Mas um dia, como sempre acontece na vida das pessoas que nunca acontecem nada na vida, algo mudou a sua trajetória. Era terça-feira. O dia ainda não sabia se iria abrir em sol ou se recolher com nuvens e possível queda de temperatura. Na dúvida, Miguel, que já tinha olhado umas cinco vezes pela janela, optou por colocar a sua camisa bege de manga comprida. Pra contrastar com seu espírito e monotonia, colocou sua calça vermelha e nos pés seu all star surrado da mesma cor. Não era possível dizer que estava esquisito com aquela roupa, mas era impossível dizer que ele estava combinando. Demorou tanto pra sair de casa, acabou se atrasando e com isso teve que apertar o passo rua abaixo. No meio do caminho o sol abriu e o suor já dava o ar de sua graça em sua camisa quando, ao passar em frente a um velho sobrado, sentiu um forte cheiro de pão queimado. Estancou imediatamente. Andava tão rápido que a súbita parada fez com que sentisse a camisa molhada grudar ao corpo e o coração pulsar em sua garganta. Aquilo seria capaz de irritá-lo, mas naquele dia não. O cheiro o envolveu tão arrebatadoramente que esqueceu de tudo ao seu redor, inclusive de ir ao trabalho. Mergulhado nessa ácida fragrância, virou a roda do tempo em sentido anti-horário e rumou, sem escalas, direto ao seu passado. Num instante estava sentado na cadeira, cotovelos apoiados na mesa e pernas balançando no ar embaixo da mesa. Era assim, todas as tardes, na casa da sua avó. Ele olhava o preparo do café com seu aroma inconfundível e depois ficava fascinado quando ela espetava um pedaço de pão no garfo e colocava direto no fogo do fogão. Quase sempre o pão queimava mais do que devia, ficava com um gosto meio amargo, mas nada disso importava. Divertia-se com aquilo, com aquele churrasco de pão como ele assim chamou uma vez, com o cheiro que tomava a casa toda e com o fato de poder dividir com ela aquele quase pedaço de carvão. Essa era a sua avó, diferente de todas. Tanto que a prova estava a sua frente, ou melhor, dentro do seu nariz. Nada de fazenda, bolo de milho quentinho, banho de rio. Era o cheiro do pão queimado que o chamava à memória, que o levava de volta à infância na casa da sua avó. Uma mulher moderna, urbana, a frente do seu tempo e que era a cara da cidade. Numa dessas tardes, ela contou que quando jovem, na época da guerra, trabalhava numa fábrica de luvas. Disse com um riso maroto que escrevia bilhetinhos de amor e colocava dentro das luvas enviadas pra guerra. Depois, ficava imaginando a cara do soldado sortudo. Miguel achava o máximo essa avó que queimava o pão no fogão e que sempre tinha histórias adequadas às suas tardes de infância paulistana. O tempo, com sua força inexorável, acabou com as tardes de pão queimado e histórias fantásticas, só não acabou com a sistemática da repetição gestual, com o ritual. As tardes foram substituídas pelo início de noite sempre as segundas e terças, dias em que Miguel saía mais cedo do trabalho e passava na casa da avó antes de ir pra faculdade. Chegava com o pão quentinho embaixo dos braços enquanto ela o esperava com café pronto no bule.

Sentavam-se à mesa. Ele tirava os sapatos e esticava os pés embaixo da mesa. Miguel tinha uma estranha sensação de alívio. Os seus pés dentro meia suada, quando tocavam o chão frio, explodiam num tímido arrepio que subia-lhe as pernas.

Ela servia o café e partia o pão com a mão – ela adorava dilacerar o pão com a mão.

– E aí, vamos falar de política?

– A senhora não tem jeito mesmo, heim?

Riam divertidamente e chamavam para a cozinha o avô que estava na sala com a TV ligada no jornal e no último volume.

Definitivamente aquele tempo não voltava mais. Seus avós não mais existiam, a casa havia sido vendida e ele beirava os quarenta anos. Mas ali, parado na calçada, se deu contas de três coisas importantes: o calor estava insuportável, já tinha perdido o horário do trabalho e estava cansado de fazer tudo igual todos os dias. O cheiro do pão queimado e a lembrança das tardes na casa da sua avó, eram a prova de que era possível fazer as mesmas coisas de formas diferentes. E que ele mesmo tinha sido capaz, num tempo esquecido em sua memória, de viver sempre o mesmo ritual com o frescor de uma primeira vez. Enxugou o suor que corria em sua testa e subiu a rua de volta para sua casa. O seu semblante, para quem cruzava com ele em sentido contrário, revelava um homem decidido. Ele mesmo ainda não sabia o que tinha decidido.

Abriu a porta da sala, pegou o jornal embaixo da porta – ele sempre saía antes do jornal chegar, fato que o obrigava a ler notícia praticamente velha depois do jantar. Foi direto pra cozinha e preparou o coador de café. Enquanto a água fervia, foi até o quarto colocar a bermuda, o chinelo e uma camiseta velha. Calmamente leu o jornal de cabo a rabo, lavou a louça da noite anterior, varreu o quintal, cortou a grama. Fez tudo como se estivesse de férias, sem rumo, sem hora pra nada. Tomou um banho demorado. Ligou pro trabalho dizendo que não iria trabalhar naquele dia e que também na iria no dia seguinte, nem no outro. Não iria o resto da semana.Não iria nunca mais. Estava decidido e não voltaria atrás. Tentou a explicar a mesma coisa para a sua esposa que, atônita, queria saber o que estava acontecendo.

– Tá Miguel, você arrumou outro emprego?

– Não.

– Como a gente vai pagar a prestação da casa?

– Não sei.

– Você ta louco?

– Não. Completamente lúcido.

– Eu preciso trabalhar. Em casa, de noite, você vai me explicar essa história direitinho. E como vai.

Miguel sabia que teria uma tarefa difícil naquela noite. Não seria fácil explicar pra sua mulher o que nem ele mesmo sabia ao certo que estava acontecendo. Apenas não queria mais fazer as mesmas coisas todos os dias. Estava cansado da sua rotina no escritório de contabilidade do seu tio. Ele era responsável pela emissão, controle e baixa nas guias de GPS de todos os clientes do escritório. O salário não era lá animador, mas entrava uns extras na época da declaração de Imposto de Renda, quando ajudava o seu tio com a declaração dos clientes. Aquele não era o sonho profissional de Miguel. Talvez não fosse o de ninguém, mas era o que pagava as contas no final do mês.

Era mais de meio dia quando saiu novamente de casa. Caminhava pelas ruas do bairro com uma enorme sensação de leveza. Foi direto pro bar do gaúcho. Iria almoçar lá e ele seria o primeiro a saber a novidade. Conversou bastante com o amigo, que como sua esposa, queria saber o que ele faria da vida.

– Talvez eu procure um outro emprego. Talvez eu mude de profissão.

O que fazer não era a sua principal preocupação. O que não queria era fazer tudo igual como sempre fez. Despediu-se do amigo dizendo que naquela tarde não voltaria pra

cerveja. Pegou o metrô na estação Tatuapé e foi direto até a estação Palmeiras-Barra Funda. Andou com a animação de um menino de 8 anos até o Parque da Água Branca. Um lugar freqüentado quase que diariamente em boa parte da sua infância. Aquele era um dia de lembranças, de voltar ao passado. Sentado à sombra de uma árvore, fechou os olhos. O som dos carros e ônibus da Av Francisco Matarazzo contrastava e entrava em sintonia mágica com o som dos pássaros e da vida que passava lentamente dentro do parque. Aproveitou aquele momento de não pensar em nada apenas pra sentir a sua cidade. Com a certeza de que caminhamos inconscientemente rumo ao nosso destino, lembrou de uma vez que ali no parque, quando ainda tinha 11 anos, de ter feito uma oficina de panificação nas suas férias. Tinha achado o máximo aquilo. Tanto que durante um bom tempo ficou dizendo pra todo mundo que quando crescesse queria trabalhar fazendo pão. Era isso, aquela terça-feira era o dia de Miguel encontrar com os eu passado e com o seu futuro. Foi preciso voltar no tempo para seguir em frente. Pela segunda vez no dia estava decidido: iria fazer um curso de panificação ou de cozinha. Ele sempre teve habilidades culinárias e esse era o momento. Saiu correndo do parque ao lembrar que ali ao lado havia uma unidade do Senac, que oferecia cursos na área de gastronomia. Inscreveu-se num curso de cozinheiro chef interncional, cujo programa oferecia disciplinas na área de cozinha, panificação e confeitaria. A euforia era tanta que quase não se deu conta que tinha arrumado mais um problema. Além de explicar pra sua esposa – que tinha o justo nome de Maria Prudência e era funcionária pública do tribunal de contas da união, o porquê havia largado o trabalho, ainda tinha que arrumar uma boa desculpa pelo curso de gastronomia no qual acabara de se matricular. Era preciso ter calma e pensar numa estratégia segura para não causar um trauma muito grande em Maria. Na volta pra casa, resolveu então, que faria um belo jantar pra esposa e que esperaria o momento certo pra começar o rol de explicações que certamente ela exigiria. Não levou mais do que duas estações para que resolvesse o cardápio da noite. Só precisaria fazer uma parada rápida no meio do caminho para comprar alguns ingredientes. Era só descer na estação Pedro II e caminhar um pouco até o mercado municipal. Nem precisaria fazer baldeação. Comprou coisas para salada, petiscos pra entrada, um pão italiano, batatas e salmão fresco. Quase na estação, lembrou que poderia ter comprado um espumante. Resolveu que iria pegar o trem e descer duas estações depois, na Bresser-Moóca. Conhecia uma adega ótima de vinhos a dois quarteirões da estação. Enquanto esperava na plataforma chegou a conclusão que era um homem de sorte. Podia fazer tudo de metrô. Ir ao trabalho, desistir do trabalho, visitar amigos e até fazer um jantar pra sua esposa. O metrô faz parte da vida de todos, basta escolher a estação.

– Já pensou se essa cidade fosse igual a Paris ou Londres, cheia de linhas de metrô, que beleza que não seria?

– O senhor ta falando comigo?

Perguntou tímida a senhora que estava ao seu lado. Ele, absorto em pensamentos continuou.

– Um dia vou levar a Maria para Paris.

– Ei, moço? Tudo bem?

– Oi nada não. Essa é minha estação.

Com três sacolas plásticas na mão desceu correndo as escadas e ganhou a rua. Na adega escolheu um espumante que a tempos não saboreava. Em casa, a primeira coisa que fez foi colocar a bebida pra gelar. Depois arrumou a mesa e fez o cartão para deixar ao lado do buquê de rosas que comprou numa floricultura que fica ao lado da estação Carrão. Foi para a cozinhar começar o jantar.

Maria, que acima de tudo era uma mulher prudente, achou melhor não questionar o marido logo que chegou em casa. As flores, a mesa posta, o cheiro do seu incenso preferido e o aroma inebriante que vinha da cozinha aqueceram o seu coração. Havia um motivo para aquilo tudo. Um motivo especial certamente. Afinal Miguel não fazia isso a tempos. A vida em casa há muito era uma chata rotina, sem surpresas.

Foi até a cozinha, deu um beijo no marido e foi para o banho. Lá pelas tantas, na mesa, olhando nos olhos vívidos e acesos de Miguel, e com a garrafa do espumante um pouco abaixo da metade, serviu uma taça pra ela e outra pra ele. Feliz e curiosa, achou que era o momento de finalmente entrar no assunto.

– Obrigada. Você sempre arruma um jeito de me surpreender.

Hoje foi um dia cheio de surpresas.

– É…um pouco.

– Antes que você me diga o que aconteceu hoje, porque o senhor vai me explicar tudo, tim tim por tim tim, quero te dizer uma coisa. A última vez que vi teus olhos brilharem assim foi no nosso casamento. Sabe, durante o jantar andei pensando umas coisas aqui. Você bem que poderia ser um chef de cozinha. Que tal você cozinhar pra mim todos os  dias? O que você ganha com seu tio é uma mixaria. Sinto tanta falta dessas coisas, como hoje.

– Fechado. Já saí do escritório. Agora só falta virar cozinheiro profissional.

– Você é impossível mesmo.

Miguel tocou a mão de Maria. Quase tinha esquecido como eram macias. Esticou-se por sobre os pratos e beijou-a. Foi até a geladeira e pegou mais um espumante. Não sabia se a mulher estava falando sério, mas era tudo que queria ouvir. Aquele dia foi perfeito e sabia que os outros não seriam assim. Não queria dizer mais nada, nem era o momento para isso. No dia seguinte, no café da manhã continuariam a conversa. Colocou uma música, diminuiu a luz. Dançaram lentamente. Um pouco tonto, fechou os olhos e viu o mundo girar. O mesmo mundo que o levou de volta a infância, que o lançou pro futuro, que fez de uma terça-feira qualquer uma data importante, única.

– Você está sentindo esse cheiro Miguel?

– Sim.

É dama da noite, disse ela. Ele apertou-a junto ao peito num gesto de concordância. Fosse o que fosse não discordaria dela. Era de fato dama da noite, mas para ele, aquela terça terá sempre cheiro de pão queimado.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

24-12-08-2-olho-dri

Dia de chuva em São Paulo é um verdadeiro caos. A cidade parece que vira do avesso e o trânsito simplesmente pára, não anda para um lado nem para o outro.

Com esse breve raciocínio Antonio resolveu optar pelo metrô no lugar de usar o seu carro naquela sexta-feira, o quinto dia consecutivo de uma chuva intermitente a encharcar os ânimos dos paulistanos. Toda sexta, das nove ao meio dia, dirigia um grupo de teatro amador na zona leste. Para evitar o trânsito surreal daquele dia chuvoso, empreendeu uma epopéia por debaixo da terra. Saiu cedo, por volta das 7h30 da casa de uma ex-namorada que visitava com freqüência. Uma atriz com tendências suicidas no palco e na vida. Começou a viagem pela estação Parada Inglesa, na zona norte. Desceu na Sé e pegou a linha vermelha no sentido Corinthians-Itaquera. De guarda-chuva na mão, saltou na estação Patriarca, andou uns 15 minutos a pé e chegou quase todo molhado. A cabeça e os ombros respingados aqui e ali pelos furos irregulares e assimétricos no tecido puído e amarelado do seu guarda-chuva. E dos joelhos pra baixo era uma molhadura só, incluindo sapatos e meias – Ele sempre usava dois pares de meia em dias de chuva. Não era superstição, era medo de ficar resfriado – Tudo correu bem como de costume, a não ser pelo certo nervosismo que tomava conta dos seus 13 filhos adolescentes, como ele assim os chamava. No dia seguinte, sábado, seria a estréia daquele grupo na sede da associação de moradores do bairro. Ele tinha um carinho especial por aquela turma de jovens cheios de vida e vontade de vencer as dificuldades de viver na periferia. Dificuldades que todos aqueles que, assim como ele, que viveram ou vivem à margem da zona central da cidade, sabem muito bem o seu tamanho. Era o primeiro diretor e o responsável direto pelos primeiros passos na formação desses promissores futuros artistas. Alguns, tinha certeza, seriam grandes atores e atrizes, outros tinha lá suas dúvidas, mas todos eram como se fossem seus filhos de verdade. Tudo estava pronto e o último ensaio foi ótimo, fato esse muito diferente do que se está acostumado a ver no teatro profissional. O ensaio antes da estréia é sempre uma catástrofe. Acertou os últimos detalhes com os atores, afinou a luz, deu retoques no figurino e repassou o som. Ao término do ensaio, que se estendeu um pouco além das três horas habituais, foi abordado pelo presidente da associação de moradores, que havia chegado pouco antes do fim dos ensaios.

– Professor, estamos todos muito felizes com o seu trabalho por aqui. Nunca poderemos pagar pelo que o senhor fez pelos nossos jovens. Seremos eternamente gratos por isso.

– Deixa de bobagem homem.

– O senhor está com pressa?

– Não. Por quê.

– É que preparamos uma pequena surpresa pro senhor, e como amanhã vai ser uma confusão por aqui, queremos fazer isso hoje. Vamos até a sede?

– Claro que sim.

Lá se foram os dois. Antonio tentando preservar o que ainda não tinha sido molhado pela chuva. Sebastião, o presidente da associação, foi andando pela chuva mesmo. Estava de camiseta, bermuda e chinelo de dedos. Não era costume dele, andar vestido assim, em pleno dia de semana, mas estava de folga do restaurante. Era um homem alto e um pouco gordo, cuja barriga se pronunciava para além da camiseta, pelo menos dois números menores.

– Não tá com frio não Sebastião? Eu tô gelado.

– Nada Antonio. Tenho gordura de sobra aqui e ela me protege. Disse isso batendo na pança enquanto desviava de uma poça enlameada.

Na sede da associação foi recebido por mães, tias, avós e primas, fãs incondicionais daqueles atores estreantes. Pra surpresa de Antonio, ele era esperado com uma suculenta feijoada. Não era quarta nem sábado, dias sagrados dessa iguaria tipicamente nacional, mas a feijoada estava lá, completa, com tudo que ele tinha direito. Antes mesmo de dizer qualquer coisa em agradecimento, sentiu sua boca se encher lentamente de água. Era a reação física e mais sincera que alguém poderia ter diante do seu prato preferido e que exalava um aroma inigualável. Abriu um largo sorriso.

– É o meu prato preferido.

– E nós não sabemos, seu Antonio. Foi a Juju quem contou, disse dona Chica.

Juju era uma das atrizes que ele apostava todas as fichas. Uma menina talentosa e que quando sorria, lembrava uma grande amiga sua, também atriz, que sempre sorria com os olhos. Ela, a amiga, que ele não via há anos, tinha deixado o Brasil em busca de aperfeiçoamento em suas pesquisas no trabalho do ator. Essa era a última notícia que teve dela uns cinco anos antes daquela data.

– Ela disse que o senhor comentou isso num dos ensaios.

– É verdade. Disse isso enquanto tentava se lembrar de quando foi que tinha falado que adorava feijoada. Antes mesmos de puxar a cadeira e sentar-se ao lado de Sebastião, a imagem do tal dia brotou cristalina da sua memória. Ele havia proposto aos seus atores que representassem em dez movimentos, por meio de uma ação, o ato de comer o prato preferido de cada um. Lógico que no final do ensaio todos queriam saber qual era o seu prato preferido.

– E o seu professor, qual o seu prato preferido?

– Feijoada, Juju. Feijoada.

Comeu e comungou com aquelas pessoas da comida e de conversas o aproximaram ainda mais daquela gente. Em muitos momentos, a sua história de vida se confundia com um pouco da vida de cada um ali. Neide, que era a cara de uma prima sua e que ajudara Dona Chica na preparação do prato, não deixava nada passar em branco.

– Professor, acho que se o senhor andar sem o seu guarda-chuva vai ficar menos molhado. Parece uma peneira.

O riso foi geral na mesa. Deixa comigo que dou uns pontos e resolve o problema, disse isso Dona Matilde, levantando da mesa indo buscar a sobremesa. Sim, o cardápio era completo. Tinha até sobremesa. Uma torta de chocolate como poucas que tinha comido até então. Depois do café, olhando bem nos olhos daquelas pessoas simples e cheias de amor no coração, sentiu seus olhos encherem de lágrimas. E antes que todos caíssem no choro, Neide emendou:

– Não vem que não tem professor. Já tem água demais por aqui. Engole esse choro.

Abraçou um por um com um abraço longo e silencioso. Antes de ir embora, abriu um sorriso e disse:

– Tô pensando em começar a ensaiar com eles todos os dias. O riso estrondoso de todos mais uma vez competiu com o barulho insistente da chuva lá fora. Despediu-se e tomou o rumo da estação do metrô. A chuva, que teimava em não dar tréguas, completou o seu serviço. Antonio, pelas suas contas, estava aproximadamente noventa e três por cento molhado. Alguns pedaços da camisa, da calça e a sua cueca ainda estavam secos. Apesar da situação aparentemente diversa daquela sexta-feira, tudo tinha saído bem. A chuva, a roupa molhada, o sapato empapado de água e barro e o seu pé congelado apesar dos dois pares de meia, tinham pouca ou quase nenhuma importância. Estava feliz, e isso era o que importava. Com as mãos molhadas e os dedos duros de frio, segurou com cuidado o bilhete, que mesmo dentro do bolso da camisa, foi incapaz de resistir à chuva. Estava umedecido em uma de suas pontas, bem próximo à fita magnética. O bilhete passou pela catraca e saiu quase ileso do outro lado, apenas um pouco borrado, com sua tinta azul e preta misturada uma na outra. Antonio olhou para ele e pensou que a água havia provocado um efeito de aquarela no bilhete ao diluir a tinta impressa. Guardou o bilhete. Um dia pensaria naquilo com mais calma. Quem sabe não poderia tentar vender um projeto pro metrô, intitulado talvez de Arte no bilhete. O nome ocorrido ali, naquele momento, lhe parecia bom e o artista já sabia quem seria, o seu amigo Tarifa. Desceu as escadas, era momento de focar em outra coisa: ir pra casa e tomar um banho quente.

Durante todo o caminho da volta pra casa, fez o caminho inverso em sua cabeça. De trás pra frente, repassou sua vida até aquele momento. Apesar das dificuldades do dia-a-dia, a arte e o teatro sempre lhe proporcionaram momentos únicos, como o trabalho com aqueles jovens da periferia e feijoadas como a de Dona Chica. É não tinha o que reclamar, talvez não lhe faltasse nada, a não ser aquele grande amor que um dia fugiu pelo vão dos seus dedos. Não estava pensando numa mulher, estava pensando em todas aquelas que, em maior ou menor grau, poderiam ter sido companheiras para a vida toda. Mas assim como um heterônimo de Fernando Pessoa, não sabia se sentia demais ou de menos. Na dúvida, na eterna incerteza não agiu. Deixou a vida passar. Distraído em seus pensamentos, quase não desceu na Sé. Só conseguiu, porque naquela hora o trem anda vazio sempre. Era como se o metrô, no início da tarde, vivesse um verdadeiro buraco negro de passageiros. Frequentado apenas por mães com seus filhos, donas de casa, aposentados, vendedores ambulantes e trabalhadores, que como ele, têm horários flexíveis. Resumindo. Entre duas e quatro da tarde, o metrô era frequentado por todo tipo de gente, excluindo, é claro, a população economicamente ativa com emprego formal. Pelo menos a grosso modo, concluía Antonio calado, enquanto esperava o outro trem com destino ao Paraíso. Dentro do trem, resolveu que desceria na Ana Rosa. Era sempre mais tranqüilo pegar o trem na Ana Rosa. Não havia aquela afobação costumeira da estação Paraíso, mesmo naquele horário. O vagão não estava cheio. Conseguiu um lugar pra sentar. Na Brigadeiro, o carro ficou quase vazio. Bem a sua frente, sentada no lado oposto do vagão, estava uma mulher jovem. Não dava pra ver o seu rosto – O seu cabelo preto e longo cobria o seu rosto, enfiado num jornal – mas certamente ela tinha menos de 30 anos, a julgar pelo que o seu corpo revelava. O caderno era o de classificados e ela carregava uma caneta vermelha na mão direita. Olhou-a de cima a baixo. Vestia-se como uma bailarina. Sim, ela deve ser bailarina. Contudo, seu jeito de cruzar as pernas revelava outra coisa. Antonio tinha uma teoria: só as atrizes são capazes de cruzar as pernas de um jeito enlouquecedor. Ela era uma atriz. Nenhuma outra mulher é capaz de cruzar as pernas daquele jeito, só uma atriz. Ficou olhando por mais um tempo. Viajou em seus pensamentos naquela tarde fria. Será ela a mulher da minha vida, aquele amor que ainda não vivi? Mas como. Nem a conhecia, sequer viu o seu rosto. Como ela poderia ser o seu grande amor? Tentou desviar o olhar e o pensamento. Impossível. Tudo o que queria naquele momento era arrumar um jeito de chegar até ela, descobrir o seu rosto e conhecer aquela mulher. Ao chegar à estação Sumaré, a luz do dia, apesar de nublado, iluminou o vagão. Ela, num instante mágico, levantou a cabeça para saber de onde vinha aquela luz. Ele, petrificado pela surpresa, só pode dizer: Elisa. Ela olhou na direção dele imediatamente.

– Não acredito! Antonio é você?

– Nem eu.

Com o coração quase saindo pela boca, não dissemos mais nada. Nos enlaçamos num longo abraço. O trem saiu e quase caímos. Sem se desgrudar sentou ao lado dela.

– O que você ta fazendo aqui? Você não estava….

– …..não tô mais. Cheguei faz um mês.

– Vai ficar?

Mostrou-me o jornal.

– Sim. Em São Paulo. Resolvi aceitar o conselho de um velho amigo que dizia que meu lugar era aqui, onde as coisas acontecem.

– Seja muito bem-vinda.

– Curti minha família esse mês que passou. Cheguei ontem e estou na casa de uma amiga lá na Praça da Árvore.

– Você tá indo pra onde agora?

– Ver apartamentos pra alugar. Disseram-me que a Vila Madalena é um lugar legal.

– Muito. Eu moro lá.

Riram como duas crianças. O trem chegou à estação final. Como dois adolescentes, subiram as escadas atropelando os degraus, quase correndo e de mãos dadas.

– Lembra daquela cena que tivemos que sair correndo feito dois loucos?

– Lembro sim, mas ando meio fora de forma.

Esbaforidos, estancaram na porta da estação. A chuva continuava forte lá fora. Se esconderam na marquise ao lado da porta. O espaço diminuto os obrigou a ficar bem próximos. Frente a frente, podiam sentir a respiração do outro e o hálito quente apaixonado que escapava dos lábios de ambos. Olharam-se em silêncio por quase um minuto. Eles sempre tinham o hábito de ficar olhando diretamente um no olho do outro. Isso desde quando se conheceram, anos atrás. Ela tremia. Um pouco de frio e um pouco talvez pelo nervoso sutil do encontro inesperado. Aquele não era um encontro qualquer. Era possível ser um desfecho ou o início de uma nova história. Seus olhos diziam isso e brilhavam como nunca.

– O que você vai fazer agora?

– Procurar apartamento com você.

Ela sorriu quase à toa e apertou a mão de Antonio.

– Você continua sorrindo com os olhos, disse Antonio.

– É você que sorri com os olhos. Olha aí.

Estavam tão próximos que um beijo seria inevitável. Sabiam que tinha chegado o momento. Sem dizer palavras concordaram em esperar. Queriam curtir um pouco mais o desejo incontrolável do real primeiro beijo. Antonio abriu o seu guarda-chuva, passou a mão pela cintura de Elisa e abraçados começaram a descer a rua desviando de algumas poças de água.

– Hoje tem a estréia de um amigo. Você quer ir comigo?

– Claro que eu quero.

– Onde é a rua do apartamento?

– Aspicuelta. É isso né?

– É sim. E eu moro na Girassol, que corta essa rua.

– Quem sabe não seremos vizinhos.

– Depois do teatro podemos jantar. O que você acha?

– Pode ser comida italiana? Tô com saudades de comer uma massa, beber um vinho.

– Ah! Amanhã tem a estréia de um grupo de adolescentes que eu dirijo lá na Zona Leste. Se você puder…..

– Puxa…. eu quero ir sim. Ai meus deus…já tô me convidando.

– Acho que tá na hora de eu trocar de guarda-chuva. Tô pensando em comprar um maior.

– Eu vou achar ótimo. Disse isso e aninhou sua cabeça no ombro de Antonio.

Viraram à direita. Estavam tão abraçados que pareciam ser um só.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

 

 

 

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Ela havia chegado há pouco a São Paulo. Pelo menos foi isso que o porteiro do prédio me disse. Apaixonei-me por ela logo no primeiro dia em que a vi. Sou um homem sensível e tenho uma vocação danada por me apaixonar subitamente por boa parte das mulheres que cruzam o meu caminho. Da mesma forma, e sem explicação aparente, todas essas paixões se dissolvem no ar em poucos dias. Vou da felicidade à desilusão amorosa num curto espaço de alguns dias. Mas o fato é que com Nandinha foi diferente. Era assim que eu carinhosamente a chamava depois que a conheci de verdade naquele fatídico dia. Fernanda, a minha Nandinha, era atriz, tinha vinte e três anos e um corpo trabalhado pela dança. Seu rosto tinha a graça e a delicadeza de uma menina e seu olhar a força de uma mulher. Seu cabelo preto e comprido repousava suavemente pelo seu dorso de um lado e se perdia pelas costas do outro. Sua roupa moderninha, numa mistura de atriz e bailarina, era o toque final. Foi o golpe que faltava. Era como se todas as qualidades de mulher se resumissem ali diante dos meus olhos. Não me contive. Me precipitei no corredor e abri a porta do elevador. Ela me sorriu meio sem jeito e entrou. Entrei atrás dela e num impulso fui logo me apresentando. Bom dia, eu sou o João. Ela só me disse: “Eu sou a Fernanda”. Percebi, nesse momento, um certo ar de nervosismo em seu olhar. Logo imaginei: “Claro, ela também se apaixonou por mim. Ai meu deus…encontrei a mulher dos meus sonhos”. Ao chegar no térreo, ela saiu do elevador sem dizer nenhuma palavra. E eu fui direto no porteiro que me deu a informação que a Nandinha, por enquanto Fernanda pra mim, era nova na cidade. Nem precisa dizer que daquele instante pra frente, resolvi investir naquela nova paixão. Todos os dias, pela manhã, planejava cuidadosamente para que o acaso me fizesse encontrá-la na porta do elevador. Eu repetia o mesmo ritual de sempre. Abria a porta, lhe dava bom dia e ela me respondia com aquele sorriso enigmático e algo de tensão estava sempre presente em seu olhar. Passaram-se dias e aquela cena se repetia. Tempo suficiente para que eu, na minha santa inocência, achasse que aquele algo mais, aquela tensão em seu olhar e a pressa latente em seu jeito, eram indicadores fortíssimos de que alguma coisa existia entre nós. De fato existia, mas ainda não era entre nós.

Lembro-me bem daquele dia. O dia em que decidi ser mais incisivo com ela. Aquela manhã no elevador meu coração batia tão forte que tive medo que ela ouvisse ele pulando dentro do peito. Chegamos ao térreo e eu não tive coragem de fazer nada. Resolvi então segui-la. Nós morávamos em um prédio que ficava em cima da estação Vila Madalena. Ela saiu pelo portão da frente e logo desceu as escadas do metrô. Fui atrás dela. Eu sentia que tinha que ser naquele dia. Iria me declarar no vagão lotado se sentisse que seria o momento. Ela percebeu que eu a seguia. Olhou pra trás num momento e sorriu. Entramos no mesmo vagão, mas cuidei pra não ficar excessivamente próximo. Apenas o suficiente para que nossos olhares se alcançassem. Percebia a cada instante que seu olhar se transformando. Mas comecei a achar que aquilo tudo não era fruto de uma paixão que ela supostamente sentia por mim. Tinha algo de pavor em seu olhar. Na estação Sumaré, com a luz do dia, vi que ela estava um tanto quanto pálida. Deve ser alguma coisa que ela comeu no café da manhã, eu pensei. Não demorou muito. Na verdade nem um minuto para eu descobrir o que estava por trás daquela palidez e nervosismo. Saímos da estação Sumaré e mergulhamos na escuridão dos túneis. Um pouco antes de chegar a estação Clínicas, o trem parou. Imediatamente nos olhamos e o seu semblante era de pânico total. Sem entender nada comecei a caminhar em sua direção. Nesse exato momento, o sistema de auto-falantes do metrô nos informou que havia ocorrido uma pane elétrica e que ficaríamos parados ali por, pelo menos, 10 minutos. Nem bem havíamos recebido a notícia e, já sentindo calor pelo ar condicionado insuficiente, as luzes se apagaram. Continuei caminhando. Eu sabia a quantos passos estava dela. De repente sinto o seu corpo encontrando o meu. Senti o seu abraço. Retribui imediatamente. Só ouvia o meu coração bater e o coração dela vibrar junto ao meu peito. Ela começou a tremer e a chorar baixinho. Sem entender nada, continuei firme no meu abraço acolhedor. Ela chegou com a boca próxima ao meu ouvido e baixinho me disse: “Não me deixe só”. Voltou a me abraçar apertado e não disse mais nada daquele momento em diante. Minha cabeça começou a rodar. Sentia que era a pessoa mais importante do mundo pra ela naquele momento. Mas isso não tinha nada a ver com as histórias e fantasias de amor e paixão que viviam invadindo meus pensamentos até aquele dia. Resolvi também não dizer nada. Meu sexto sentido – eu sou um homem que tem sexto sentido – me disse pra ficar quietinho. Foi o que fiz. Quando a luz acendeu e o trem voltou a andar, nos afastamos e nos olhamos profundamente em silêncio. O trem parou na estação Consolação. Ela soltou dos meus braços e desceu. Fui para o trabalho em silêncio. Naquele dia fiquei muito calado. Algo tinha de muito importante tinha se passado comigo e eu não entendia o que. Na volta pra casa, ao abrir a porta do apartamento, encontrei um bilhete no chão. “Tem algo a meu respeito que você precisa saber. Venha até meu apartamento. Te espero hoje”. Tremi de nervoso e ansiedade. Não sabia se era mais a paixão que em movia. Talvez fosse esse mistério. Tomei banho, passei meu melhor perfume e fui até o apartamento dela, que era o 210. Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Seu cabelo molhado revelava que ela também havia saído do banho há pouco. E seu vestido descompromissado e pés no chão eram sinais claros de que ela estava á vontade comigo. Seu apartamento tinha poucos móveis, mas tudo o que havia era muito colorido. Muitas fotos de teatro espalhadas pela parede e um forte cheiro de incenso no ar. Ela abriu uma garrafa de vinho, colocou Ella Fitzgerald pra tocar. Tomamos o vinho em silêncio, apenas nos olhando. O seu olhar, agora, era diferente do olhar de todos os dias. O meu sentimento, agora, era o mais confuso de todos os tempos. Nem bem acabamos a primeira taça, ela se aproximou de mim e me deu um longo beijo. Mais tarde ela me disse que aquele beijo era só um agradecimento por eu tê-la salvado naquela manhã. A verdade é que pouco me importou se o beijo era ou não um ato de gratidão. Sua boca era macia e doce como nenhuma outra. Em silêncio nos amamos. Quanto mais o tempo passava, mais confuso eu ficava. No jantar, ainda naquela noite, foi tudo esclarecido. Ela me contou sorrindo, depois de eu dizer todos os sinais de estar apaixonada que ela havia me dado nos dias anteriores, que na verdade tudo aquilo que eu via era claustrofobia. Sim, ela tinha um trauma de infância por ter ficada trancada dois dias no porão da sua casa. Por isso, o seu olhar tenso no elevador e o desespero quando o metrô parou. Meio passado, perguntei então porque ela não descia de escada e andava de ônibus. Ela riu mais uma vez e explicou que descia de escada sim, mas que ficou sem jeito quando eu corri e abri a porta do elevador para ela entrar. E que como eu fazia todo dia a mesma coisa e ela não queria ser indelicada, ela pegava o elevador todos os dias. Desconsertado perguntei: “E o metrô?” “O metrô”, disse ela. “É mais rápido que o ônibus. Não vou ficar perdendo tempo só porque tenho medo”. Depois daquela noite continuei descobrindo coisas preciosas da Nandinha. Pela manhã, descíamos juntos escada abaixo e vez por outra combinávamos um ou outro jantar. Um dia eu preparava a comida. No outro ela fazia dança do ventre. Eu lia um poema, ela fazia cafuné. Eu mordia o seu pescoço, ela dormia abraçada ao meu peito. Éramos felizes de verdade. O meu relacionamento mais longo e o único que eu não entendia, apenas sentia. Freqüentamos todos os cinemas e exposições da cidade. Fui ver muitas de suas peças. Namoramos durante dois anos. Ela no apartamento dela e eu no meu. Mas por mais intimidade que tínhamos um com o outro, jamais chegamos ao sublime daquele dia no metrô. Talvez ela não consiga isso com nenhum outro e comigo a mesma coisa. Tive certeza disso numa noite fria de julho. Cheguei em casa com duas garrafas de vinho e a esperança de uma grande noite entre nós. No entanto, por debaixo da porta um bilhete. Gelei. Algo me dizia que a notícia não deveria ser boa. Abri o papel e estava escrito. “Tive que fazer uma viagem às pressas pro exterior. Eu volto. Não me deixe só”. Bebi todo o vinho aquela noite. Fiquei em silêncio. Nada de perguntas. Foi assim que começou e é assim que deve ser agora. Sabia que a nossa história havia sido única. Nunca a esqueceria. Ela nunca voltaria e eu nunca a deixaria só. Mas como disse, sou um homem sensível. Saí de casa sem rumo na manhã seguinte. Logo na primeira esquina, uma nova paixão. A bunda mais perfeita que eu já vi. Mas essa é outra história.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

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Alberto era um homem alto, magro e beirava os quarenta e tantos anos. Quarenta e tantos porque já havia passado dos quarenta e cinco, como ele mesmo disse numa festa de fim de ano do banco. Era um homem discreto, de poucas palavras e vida social praticamente inexistente. Seu contato com o mundo exterior quase que se resumia ao trajeto que fazia diariamente de casa para o banco e do banco pra casa. Tarefa que ele exercia com a obstinação de um monge e um olhar perdido de felicidade que pairava entre as seis estações que separavam seus dois grandes amores. Marieta, com quem era casado há 25 anos e o banco, com quem era casado há 21 anos. Alberto nunca reclamava de nada, a não ser da dificuldade de achar sapato número 46. Ele era muito alto e tinha um pé enorme. Fato que o incomodava muito e que talvez tenha moldado a sua personalidade discreta, quase invisível. Um homem de quase dois metros de altura e feio assim chama a atenção demais. Nesse caso o melhor a fazer é ficar calado para não aumentar o estardalhaço da minha presença. Foi exatamente isso que ele me respondeu um dia que perguntei a ele porque ele era tão quieto. Mas havia algo mais do que isso. Parecia que ele carregava um peso maior. Tudo bem, o sujeito pode ter vergonha da altura, da feiúra, mas nenhum sorriso é tão triste à toa. E isso eu era testemunha. Nunca vi alegria em seu olhar. Decidi investigar. Coloquei em prática o curso de detetive a distância que havia feito. Primeira lição: siga o investigado com descrição. Foi isso que fiz. Todos os dias, às seis da tarde, ele saía do banco e eu ia atrás. Descia a ladeira Porto Geral e entrava na estação São Bento. Pegava o trem no sentido do Tucuruvi e eu atrás, discretíssimo. Descia na estação Santana e caminhava até a sua casa. Entrava, fechava a porta e a partir daquele momento era uma incógnita. Por vezes eu fiquei até tarde esperando gritos, briga, tiros ou que fosse. E nada. Nada acontecia. Não é possível, eu pensava. Tem alguma coisa errada nisso. Como pode um sujeito que teoricamente tem um bom casamento, um bom emprego, uma vida pacata, ter tanta tristeza estampada no rosto? Não era cabível que fosse só por causa da sua altura e de sua suposta feiúra. Mas eu estava longe de desistir. Cada dia que passava minha curiosidade aumentava mais e mais. Agora já era questão de honra. Iria, custe o que custar, descobrir o que se passava com Alberto. Comecei convidá-lo pra almoçar todos os dias. Quem sabe a intimidade o faria revelar algum segredo. Nada. Absolutamente nada. Ele falava da Marieta, do trabalho e até de futebol, sempre com comedimento. Mas revelações? Nenhuma. Ele era impenetrável. Mas um dia minha busca teve um lampejo de luz no fim do túnel. Num dos nossos almoços, ele estava sentado de costas pra rua. Tudo transcorria normalmente, como todos os dias, até que um sujeito desconhecido passou pela porta do restaurante e ao ver um amigo, entrou e logo disse: Rapaz, quase morri hoje. Um carro quase passou em cima de mim. Se eu tivesse meio metro pro lado, tinha sido atropelado. Naquele instante, querendo romper o silêncio habitual, surgiu a primeira grande pista. O rosto de Alberto ruborizou e seus olhos encheram-se de uma tristeza ímpar. Algo naquelas palavras aparentemente sem importância, pelo menos pra ele, o colocava em contato com alguma coisa amarga. Era como se tivesse trazido à tona alguma lembrança do passado. Tive o ímpeto de perguntar, mas achei melhor me conter. Alberto estava num momento sublime. Sem dizer nenhuma palavra, levantou-se e saiu desnorteado pela Rua Boa Vista de volta ao banco. Daquele momento até o final do expediente, o silêncio de Alberto chegava a arrepiar. A hora não passava. Estava ansioso demais em segui-lo. Seria o grande momento. Me enchi de expectativas e fantasias. As seis em ponto tomei meu rumo atrás dele. O que será que havia naquela frase? O que seria motivo suficiente pra tanta tristeza? Pra detonar o ar sombrio daquela tarde? As palavras seriam a chave pra o que eu tanto procurava? Eu estava zonzo. Quanto mais eu tentava juntar os cacos mínimos, menos fazia sentido aquilo. Eu já não sabia se fazia sentido eu querer achar sentido naquilo tudo. Mas era tarde. Estava envolvido e queria ir até o fim. Fiz o meu trajeto discreto como todos os dias. Quando cheguei a casa dele resolvi ir adiante. Depois que ele entrou, pulei o muro em silêncio. Fui até a janela e sem pestanejar estiquei o pescoço e olhei pro lado de dentro. Mais do que ver, senti. Mais do que sorrir pela descoberta, chorei. Mais do que ficar extasiado, fiquei estarrecido. Pela janela, contemplei um homem de quase dois metros de altura, sentado no degrau da escada, chorando copiosamente e conversando com uma foto em um porta-retrato. As palavras escorriam quentes pelos meus ouvidos. Marieta  – dizia ele -, que vida poderíamos ter tido. Jantares românticos, passeios no fim da tarde no jardim da luz, noites de amor. Cinema, teatro, filhos. Juntos, não fazer nada, sentados no banquinho do quintal a escolher estrelas e dar a cada uma o nome de um sonho. Sonhos não realizados, sonhos vãos, sonhos com cheiro de morte. Naquele dia faríamos um ano de casados. Era um domingo abafado de calor. Saímos de mãos dadas, distraídos pelo amor e pelo picolé, que de tanto calor, derretia e escorria por entre os dedos. Lembro-me como se fosse hoje. Você com um sorriso de menina, lambendo os dedos sem querer desperdiçar nada. Você adorava picolé de chocolate. Eu de abacaxi. Caminhávamos ao local do nosso primeiro beijo. Ao passar ao lado das obras da nova estação do metrô, vi uma árvore. Uma sobrevivente da natureza perdida naquele emaranhado de concreto a se enraizar sob nós. Afastei-me de você por um instante e fui buscar aquela flor perdida num galho mais alto. Quando virei, vi o chão sumir sob seus pés. Um acidente, foi o que disseram. Junto com você, mais três pessoas foram engolidas pela cratera que se abriu. Atônito e agarrado a árvore, vi o mundo desabar sobre a minha cabeça. Chorei, desesperei. Quis morrer. Todos os dias me lamento. Poderia ter ido com você escolher de perto as estrelas. Meio metro. Foi a distância que nos separou. E eu só queria te dar uma flor. Desejo todos os dias te encontrar de novo. Há mais de 20 anos anseio por alguma tragédia. Não tenho coragem de me suicidar. Mas hoje, especialmente hoje, tudo me veio a mente de um jeito arrebatador. Como eu queria ser aquele desconhecido, como eu queria estar a meio metro dele na frente daquele carro. Como eu queria uma vez mais ouvir tua voz. – Por um instante Alberto calou-se. Apenas chorou. E eu com a garganta seca, quase sem respirar, fiquei paralisado. Aquele era o motivo da sua tristeza. Uma tristeza que ele alimentava diariamente durante anos. Para todos do banco, Alberto era muito bem casado. Sim, era muito bem casado com suas lembranças e uma vida inteira de tristeza. Esse era o ponto. Esse era o segredo. De repente Alberto levantou-se, enxugou as lágrimas, colocou o porta retrato em cima do piano e saiu. Mais que depressa o segui. Ele foi até a estação e entrou no trem como se estivesse indo ao banco. Ele passou pela estação São Bento e não desceu. Eu resolvi descer na Sé e ele se foi. Tomei o trem sentido Paraíso. Era quase meia noite. No silêncio do vagão quase vazio em enchia de pensamentos contraditórios. Estava satisfeito com a descoberta, mas tinha um nó na garganta difícil de desatar. Tentei imaginar pra onde teria ido Alberto aquela hora. Não importa. Fosse onde fosse ele tinha suas razões. Tinha o direito de estar só. De ir ao encontro de Marieta se assim o quisesse. Ao chegar em casa, desmaiei de sono e cansaço.

No dia seguinte, Alberto não foi trabalhar.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.