Ele morreu ontem. Não chegou aos 60. Morreu com 55 anos. Era jovem na sua essência. Cheio de planos. Cheio de sonhos. É certo que, como qualquer artista, sentia o mundo mais colorido e também mais dolorido. Se existia uma pessoa que tinha borogodó, essa pessoa era ele. Dividia opiniões, mas isso não foi motivo para impedi-lo de chegar a todos os lugares que quis ir. E foi, e onde foi conseguiu aplausos. Seu talento não era só nato, era também fruto de um esforço de quem sempre quis fazer o melhor.

Foi ator, foi cantor, foi produtor, foi diretor, foi autor de músicas lindas e de textos sensacionais. Alguém plural, mas, ao mesmo tempo, tão singular que se tornou raro.

Na vida pessoal era o que podemos chamar de gente; aquela expressão que diz “gente como a gente” era bem ele. Real. Tinha medos, tomava remédio, cuidava da família, que incluía o gato Mica, as filhas, a mulher e até a ex-mulher. Gostava de ter amigos em volta de uma boa mesa, principalmente no seu sítio. A vida era vivida em festa, e quando a festa acabava, ficava quieto, fugindo dos medos das perguntas que não sabia responder.

Foi-se de repente, bestamente. Morte besta para morrer. Um susto. Mas como poderia ser diferente para alguém que sempre foi fora da curva da estrada convencional. Muitas homenagens, muito choro, muito inconformismo até de seus desafetos como Antônio, ou Tony, como era conhecido.

Amigo de velhos tempos, amigo de muitos anos, amigo que tentava sempre estar onde ele estava, mas era só mais um que tentava e não emplacava. Mais um invejoso. Mais um sanguessuga. Mais um que não suportava ver seu olhar brilhar. Tony até tentou se conter, não transparecer, mas inveja legítima não se aguenta e um dia explode. Jogou a amizade para o fundo do poço com palavras perversas, mostrando toda sua raiva e
inveja latente, à flor da pele. Foi tão feio que foi assim até o fim.

Quando soube da notícia se fez de chocado. Chorou. Bebeu. Vomitou e escreveu publicamente sobre a dor da falta daquela amizade. Pareceu sincero. Recebeu muitos pêsames. Apareceu como nunca nas redes sociais. Afinal, a dor comove. Ele conseguiu os aplausos que sempre quis, nunca nenhum de seus posts alcançou e foi curtido por tantos.

Conseguiu ser o seu melhor, um grande oportunista.

A família, que sabia de tudo, calou-se. Nem uma palavra, nada.

Afinal, vampiro de morto, morto está.


Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa . 
Foto: @gilguzzo @ofotografico
 

DITADURA… DITAR… DITADO… DITO!

Ditar muitas vezes é uma reação de impotência…

Ditar muitas vezes é o medo de acovardar…

Ditar muitas vezes é a incoerência do pensar…

Ditar muitas vezes é a mecanização do compactuar…

Ditar muitas vezes é a justificativa do poder…

A frase famosa do Tenho dito!

É a maior explicação de que o ditado marca desejos egocêntricos incontroláveis de emoções…

E provoca reações determinantes que podem ser a desobediência como o maior conflito…

Que vai gerar grandes turbulências.

Está escrito! Olhe ai outra frase bem famosa!

Quais as lembranças de seus ditados escolares?

Fazendo uma analogia hoje sobre estes momentos causídicos na sala, realmente qual a equivalência hoje sobre este evento?

Os objetivos do ditador do ditado variam na medida do apreço às suas ideias e, principalmente ao seu ideal convicto que a Ordem depende do Grito! E cada um tem seu Ipiranga contabilizado e descrito no dentro de suas loucuras, diante de seu próprio infinito!

O ditador é duro na queda nós podemos observar a história… E também julgar o dito pelo não dito que nos cabe na vivência diária, em todos os aspectos e situações vivenciadas.

O ditar rompe barreiras, mas a descida das palavras age como uma piracema ao contrário do poema!


Joana D’arc de Paula – Bela Urbana, educadora infantil aposentada depois de 42 anos seguidos em uma mesma escola, não consegue aposenta-se da do calor e a da textura do observar a natureza arredor. Neste vai e vem de melodias entre pautas e simetrias, seu único interesse é tocar com seus toques grafitados pela emoção.

A hora é de fazer diferente, fazer junto e fazer melhor:
Se controlam pela crise: nos enxergamos que não há crise.
Se controlam pelo medo, mostraremos coragem inabalável.
Se governam para poucos, somo a grande união dos pequenos.
Se governam com o ódio, mostraremos amor e partilha.
Se governam pelo dinheiro, seremos os valores impagáveis.
Se governam com elites, mostraremos os dons da plebe rude.

Se usam linguagem truncada, confusa, exagerada e má,
falaremos de forma simples como o povo fala e entende.
Se fecham a cara, abrimos o sorriso maroto.
Se são ignorantes, somos um rincão de sapiência.
Onde gritam, sussurramos com afagos.
Se estão em uma bolha, estaremos em todo ar.
Se prezam pelo império, seremos a cidadela fortificada.

Pois se tudo que querem é poder e dinheiro,
Queremos uns aos outros, a felicidade.
Queremos mais e melhor, como nunca na história!

E sabemos, não precisamos deles para tal,
Pois entre nós teremos tudo que precisamos.
Se precisam do arrocho, temos a partilha abundante.
Onde criam inimigos, vemos amigos, vemos os iguais.
Se dão respostas duras, faremos cada vez mais perguntas
E perguntando, saberemos que suas respostas divergem
E divergindo, racharão, cairão, abrirão espaço para quem as responda.

Crido Santos – Belo urbano, designer e professor. Acredita que o saber e o sorriso são como um mel mágico que se multiplica ao se dividir, que adoça os sentidos e a vida. Adora a liberdade, a amizade, a gentileza, as viagens, os sabores, a música e o novo. Autor do blog Os Piores Poemas do Mundo e co-autor do livro O Corrosivo Coletivo.

Foto Crido: Gilguzzo/Ofotografico

 

 

 

Ele perdeu a noção do tempo. Não sabia qual era o dia da semana, o mês, o horário. Tudo isso deixou em uma outra vida, em um certo dia.

O dia que uma dor tão profunda apertou seu peito, maior do que todas as outras que já tinha sentido. Ele sempre sentiu dores fortes, desde criança. A dor de um vazio, como se fosse a queda em um buraco, ele sempre se sentia caindo. As vezes parava e se agarrava em algo, mas não conseguia segurar por muito tempo, logo caia de novo.

Em cada queda a dor aumentava, foi ficando tão grande, mas tão grande, assim como o vazio que sentia. Vazio infinito. Dor crescente.

Tinha sorte, mas não a percebia. Perdia, sempre perdia, não pela falta de sorte, mas pela confusão mental que o VAZIO lhe causava.

Tentou o suicídio três vezes em épocas diferentes, mas não morreu, foi salvo.

Salvo? Ele nunca viu assim, preferia ter ido, mas se achava incompetente até para isso.

Em uma tarde de inverno resolver largar tudo, a madrasta, a namorada, a irmã, o cachorro. Saiu pela porta, não deixou bilhete, não levou roupas, não levou comidas, não levou telefone, nem carteira, nem cartões, nada. Foi embora somente com o VAZIO.

Quanto tempo faz? Ele não sabe, Não sabe mais quem era. Sabe quem é, sabe que vive nas ruas, sabe que mendiga, nem sabe se está na sua cidade ou em outras, já andou tanto, que não sabe nem se já voltou.

A dor acalmou, se sente anestesiado. Nunca mais amou, amar machucava. Nunca mais quis se matar. Nunca mais quis nada. Não sentia nem dor, nem amor.

Uma noite bem tarde, ruas vazias, estava na frente de uma uma loja, com televisores que começaram a acender e mostravam um show de rock de uma banda que ele ouvia e gostava.

Uma lágrima escorreu de seus olhos. Ficou olhando aquilo. Lembrou da dor, lembrou do amor. Lembrou de si. Do vazio. Da queda. Fechou os olhos, pediu perdão. Foi embora, era melhor ser invisível. Não queria ascender.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

 

Nada se constrói,  tudo se copia

Sete mil anos de vida tem o natal, sabia…

No solstício de inverno, o dia não amanhecia

E a noite prevalecia

Festas, fartura e alegria

Comemorando a luz, a benevolência e a sabedoria

Viva Mitra, um deus nascia

Mas, há pouco mais de dois mil anos, era Jesus quem nascia

Será que a história alguém de fato, no futuro, saberia

Então, na dúvida,  “se copia”

Da vida Jesus e dos homens nasce a história

Mas, são as mãos dos homens que a escrevem, segundo seus interesses e perspectivas

Mas, que mal teria

Se a data que o maior de todos os homens nasceu, ninguém sabia

Ter em sua história

A imperfeição das mãos do homem que ela escreveria

O pricipal da história é o pecado e o sacrifício que nos salvaria

Pois, sua honra e sua glória, ninguém mudaria

E sua linda história se perpetuaria

Faça então o seu o Natal com sabedoria

E comemore não aquele que seria

Não aquele que queria

Não aquele que morreria

Comemore aquele que RENASCE todo dia

E que nos mostra que sem ele,  cada um de nós, nada seria

FELIZ NATAL

Jorge Luis de Souza – Belo Urbano, artista plástico, pedagogo e empresário. Como todo bom leonino é muito dedicado a tudo que faz. Não resiste a um chocolate. Ama escrever e ama sua família.

Quando os irmãos lumière apresentaram ao mundo o cinema em 1895 muitos apostaram que seria uma brisa passageira, porém, os quadros em movimento povoaram o imaginário das pessoas. E aí está!

As pessoas: esse universo no qual a psicanálise embarca há tempos tentando entender você, eu, tu e eles. Com a chegada da televisão não foi diferente, o que mudou foi somente a forma e a linguagem, ainda que, pessoalmente, eu prefira a tela de projeção, tudo bem dinâmico e associado fizeram de novelas e hoje séries um verdadeiro vício pelo próximo capítulo ou episódio. Tudo por uma história bem contada, um enredo, uma trama, um roteiro adaptado para a vida.

As pipocas só aumentaram seu consumo e o consumo só aumentou mais fãs. Hoje com as mídias sociais, podemos ser mais belos, mais magros, inteligentes e interessantes, quase sem defeitos, orbitando uns aos olhos do outro.

Contatos, relações, profundas ou não, é bom lembrar que tudo fica fascinante quando você acha que domina seu perfil, mas aí está de novo. Por que? Porque todos só querem mesmo ser amados e aceitos ainda que de forma virtual ou “cinematográfica”. Fazendo uma ponte com um dos musicais mais lindos que vi por essa tempos, “la la land”, acho que na trama deliciosamente bem dirigida você mergulha em universos paralelos onde afetos e horizontes ainda que divergentes contam sobre um amor e um encontro quase juvenil que desabrocham em música, dança e interpretação das boas, é bom que se diga, e emoções projetadas. E aí está novamente! É delicioso!

Os dois lados da mesma moeda: um mundo dinâmico, fantasioso e colorido mas que acompanham os indivíduos e sua trajetória pessoal onde um não existe sem o outro. Um verdadeiro encontro entre a tela e o espectador que também dançam juntos mas que terminam sozinhos quando as luzes acendem.

Vivamos com sabedoria esses tempos líquidos e que acima de tudo a gente se divirta pelo preço do ingresso, da pipoca e da companhia.

Meg Lovato – Bela Urbana, formada em comunicação social, coreógrafa e mestra de sapateado americano e dança para musicais. Tem dois filhos lindos. É chocolatra e do signo de touro. Não acredita em horóscopo mas sempre da uma olhadela na previsão do tempo.

Ela olhou para ele e sorriu… Um sorriso muito mais de súplica do que de felicidade. Era como se ele lhe sugasse o ar e toda a sua vida dependesse daquele instante, daquele sorriso.

Ele mais uma vez não correspondeu. A indiferença não atendeu à súplica dela e lhe causou infelicidade. Era como se para ele estar ali fosse um sacrifício.

Ela pensou em cada palavra que falou, ele não ouviu nenhuma delas.

Ela se irritou, gesticulou, chorou. Ele seguiu indiferente.

Até que num ímpeto desesperado, ela foi beijá-lo e ele lhe deu a face.

Magoada, ela levantou do banco e virou de costas. Ele, seguro de si, lhe deu literalmente as costas e embarcou no primeiro ônibus que partiu.

E eu fiquei ali no meu lugar, vendo essa cena toda e com vontade de me aproximar e dizer àquela moça: hei, relaxa, sei que agora dói, mas tudo passa. E de abordar aquele rapaz e “praguejar”: hei, não relaxa, sei que agora você se sente por cima, mas tudo passa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

shutterstock_285109217-maos-dadas

Acordei com sono ou era um sonho? Meio da madrugada, pelada, quarto escuro, meus olhos não abriam, uma confusão, que sensação horrível essa de querer abrir os olhos e não conseguir.

Só tive forças pra empurrar o braço até o criado mudo e pegar o copo com água. Não estava gelada, mas mesmo assim, a garganta seca pedia água. Sentei, bebi aquele copo inteiro em um único gole. De madrugada faz frio, me enrolei com o edredom.

– Chuchu cadê você? Eu falei baixinho? Chuchu…

Que horas são? Porque tenho essa confusão mental, sempre quando acordo no meio da noite? O que era mesmo que estava sonhando…. Ah lembro, eu voava, voava sobre os carros. Delícia! Adoro sonhar que estou voando, mas tinham pessoas que achavam que eu era um pássaro. Eu um pássaro? Que estranho isso. Começaram a me jogar pedras, várias pessoas jogando pedras. Estilingues… Adultos jogando estilingues, em um pássaro… Que coisa feia! E o pássaro em questão era eu. Uma andorinha. Querem acabar com as andorinhas, esse era o plano. Não vão, pensava eu no corpo da andorinha. Lá embaixo, aquelas pessoas com seus estilingues, rindo, barulhentas, jogando pedras nas andorinhas que agora estavam do meu lado. Voamos. Voamos. Voamos. Que delícia! Que sensação boa! Os estilingues para trás… e nós as andorinhas, juntas, ao som do vento, no calor do sol, nas alturas, brincando, voando, dando rasantes.

Ufa!! Eita sonho bom! Meu lado caipira com esse “eita” não me deixa. Meus olhos conseguiram por fim, abrir de vez.

– Chuchu cadê você? Desta vez falei mais forte, a voz saiu.

– Fome…

– Sei, foi atacar a geladeira de novo.

Ele sempre dava dessas. Eu cúmplice, sabia de tudo.

– Ainda é bem cedo, só 2 horas da manhã… vamos dormir mais um pouco, amanhã levantamos cedo.

Nos abraçamos. Abraço quente. Pele com pele. De conchinha não temos frio e deixamos o edredom de lado. Boa noite!

Foto-0010E001 dri

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br , 3bis Promoções e Eventos www.3bis.com.br e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

 

shutterstock_124886485

Ela tem 12 anos… mudou-se há pouco para a cidade junto com a família, mãe, duas irmãs e uma agregada, nos idos dos anos 70. Era a mais nova delas, e entrando na adolescência, já tinha seus sonhos bem infantis de romances, mas brincar era mais legal! As irmãs já estavam na idade de trazer amigos, e sempre algum lhe despertava a infantil atenção.

Um belo dia, um deles rouba-lhe um selinho no portão. Aquelas brincadeiras bobas de virar a cara na hora do beijinho no rosto de despedida… ela surpresa, pergunta: ‘O que é isso?!” E ele responde: ‘Um beijo’, faz carinha de inocente e vai embora com o amigo dando-lhe uma bronca: ‘Ela é uma criança!!!’.

Ela se casa, tem dois filhos lindos, dos quais se orgulha. Eles crescem, ela decide sonhar novos sonhos, estudar, buscar uma profissão e nela se realizar. Estranhamente foi duramente cobrada por isso, e acabou por custar-lhe o casamento.

Ele tem 17 anos. É convidado por amigos a conhecer umas meninas novas na cidade. Uma delas lhe agrada, mas justamente essa namora seu amigo. Ela tem uma irmã mais nova bem bonitinha. Mas é muito nova, uma criança!

Um dia, ao despedir-se, rouba-lhe um beijo no portão. E ao ver a surpresa dela perguntando ‘O que é isso?’, ele marotamente responde: ‘Um beijo!’. E vai embora, levando bronca do seu amigo: ‘Ela é uma criança!’.

Ele aparece tempos depois com uma namorada. Terminam… ele some, a namorada fica na ‘família’ por um bom tempo. Ela aparece com outro namorado. Que fica na ‘família’ por um bom tempo também. Aquela roda-viva da adolescência! E o contato se perde entre estudos, trabalhos e casamentos…

Ele se muda para a praia para estudar, junto com um amigo, depois de um tempo volta, se casa, tem duas filhas lindas. A trabalho, muda-se para outras cidades, conhece outras culturas, faz muitos amigos. O que ele mais tem, são amigos! E amigos são o que valem naquele momento, anos depois, em que se descobre que o casamento não está mais funcionando… e que vale a pena tentar ser feliz!

Ela tem 48 anos. Um dia, recém saída de um relacionamento, ela está no facebook, e uma foto chama a atenção na página de uma amiga, aquela que era namorada daquele menino do beijo roubado… rsrs. Naquela época do ano em que todo mundo põe foto com carinha de criança, ela vê uma e pensa ‘conheço esse menino!’. Adicionam-se e começam a descobrir que tem muito em comum, além da lembrança de um beijo roubado no portão.

Mas moram longe! Mas o que é longe em tempos de internet banda-larga, celular e vôos baratos que podem ser comprados com milhas? Encontram-se um dia m que ele visitava parentes na cidade, apenas para lembrar dos bons tempos e contar que rumos haviam tomado. Incrível como é possível resumir a vida em poucas horas de conversa… falaram de seus pais e de seus filhos, de suas carreiras, suas viagens e suas vidas. E descobrem muitas afinidades.

A vida segue em conversas por chat, como foi o seu dia, como está a sua vida. Até que um dia, em função daquela carreira que ela teimou em perseguir, foi convidada a palestrar na empresa dele. Ele, muito gentil, a ciceroneou pela cidade, e riram muito lembrando de um beijo roubado no portão, entre outras coisas, como fotos comprometedoras, amigos eternamente zoados, etc.. Dali saíram com a sensação de que nunca é tarde! Pra ser feliz, pra se apaixonar, pra se dar uma chance!

Passam um bom tempo em namoro por chat, vídeo, e ponte aérea. Passam por cirurgias, doenças, e outras pequenas crises. Mas permanecem firmes, com a certeza que a vida lhes sorriu com algo especial, quando por volta dos 50 anos, nenhum dos dois esperava mais por isso.

Enfim, ele consegue uma transferência de volta à cidade natal, onde tudo começou. E a vida os tem brindado continuamente com novas oportunidades de serem felizes juntos! E a sensação boa de que estão só começando…

Quem disse que nostalgia e tecnologia não são aliadas?

Foto TOVE

Tove Dahlström – Belas Urbana, é mãe, avó, namorada, ex-mulher, ex-namorada, sogra, e administradora de empresas que atua como coordenadora de marketing numa empresa de embalagens. Finlandesa, morando no Brasil desde criança, é uma menina Dahlström… o que dispensa maiores explicações. Na profissão, tem paixão pelo mundo das embalagens e dos cosméticos, e além da curiosidade sobre mercado, tendencias de consumo, etc., enfrenta os desafios mais clichês do mundo corporativo, mas só quem está passando entende.

criancas shutterstock_56148652

Naquele 1º de abril, antes de amanhecer o dia e já acordada, ela se dá conta da mudança que ela enfrentará naquele mês. Seria impossível terminar abril como começava…

Olhando-se no espelho depois de lavar o rosto, ela avalia quem está lá olhando para ela. Os mesmos olhos, a pele meio marcada do travesseiro… No geral, gosta do que vê, não resiste e sopra um beijo ligeiro.

Enquanto o aroma de café inunda a cozinha, pensa e pensa, não veria o jornal da manhã na tv hoje e do jornal impresso, só olharia a charge do Dálcio e talvez a página de Cultura. O mundo dela se agitava e o mundo se agitava. Desafios que ela enfrentaria seriam bem-vindos, mesmo sendo fontes de grande ansiedade. O que tivesse que ser seria e ela faria o seu melhor para que o resultado fosse positivo, seja lá qual fosse. Seria Bom.

Mas o mundo lá fora estava dividido entre nós e eles, com articuladores criando discórdia… Aquilo certamente levaria a algum extremo que nem era bom pensar. Aliás, pensar era algo complicado em épocas de ânimos acirrados e turbas descontroladas. Faltava bom-senso e sobravam rótulos.

No caminho para o trabalho, ela se indaga quando aquilo ferveria de fato. Mas, por algum motivo estranho, o que seus olhos veem são outras coisas.

Um carro quebra, atrapalhando o trânsito. Ninguém xinga. Um moço, de bicicleta, para e ajuda a tirar o carro da via, alguém pode ser elite, alguém pode ser plebe, mas naquele momento são amigos desconhecidos, ajudando-se, apertando as mãos e sorrindo. Ela sorri também.

Mais adiante, uma filha tenta atravessar a rua com seu pai idoso, alguns carros param e esperam pacientemente aquele senhor, de pernas frágeis, alcançar a calçada do outro lado. Ninguém buzina nem faz cara feia. Alguns devem ser coxinhas, outros esquerdopatas, nunca saberia.

A moça lhe entrega o jornal Metro no semáforo, sorri e lhe deseja bom-dia.

Alguém segura o elevador, alguém dá licença, ninguém espera nada em troca. Pessoas que se organizam para tornar as suas vidas e as dos outros mais fluída… Independente de idade, cor, religião, visão política, gênero ou orientação sexual. Gentileza gerando gentileza num círculo sem fim.

Só que teria fim e seria antes do fim de abril. Aquelas mesmas pessoas urgiam por mudanças e se enfrentariam, xingariam e rotulariam uns aos outros, independente do desdobrar dos acontecimentos.

Mas hoje é 1º de abril e ela escolhe viver a verdade daquele momento bom, início de um novo ciclo.

IMG_0514 (2)

Synnöve Dahlström Hilkner Bela Urbana, é artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.