Tem dias que não queremos que acabem. Dias que sorrimos à toa, a tudo. Dias assim são especiais.  Ah, se as pessoas soubessem o que torna um dia especial estariam mais abertas para as pequenas coisas que nos atropelam na rotina. No bom senso da razão achariam piegas, mas querem saber? Que se dane, é piegas, sim, e ela, a moça chamada Juli, sabia e adorou.

O dia já começou com alterações, ela não gostava, metódica, qualquer mudança na agenda a incomodava. É óbvio que se irritou primeiro, ficou mal-humorada, mas foi só abrir seu e-mail que foi atropelada por uma surpresa, lá estava o motivo do seu sorriso do dia inteiro.

Sabe aquela sensação de flutuar, em que os olhos brilham muito? Sabe aquela vontade de continuar a conversa, mas com calma, sem pressa, saboreando? Então… mas ali, naquele momento, não dava, então preferiu só curtir aquela sensação de quero mais, bem devagarinho, como aquele doce que você tanto deseja, como o mais gostoso dos pastéis – aquele que vende na feira.

Juli perdeu a hora do almoço, não sentiu fome, aquela sensação a libertava e preenchia. Lidou com os afazeres do trabalho, como sempre fazia. Não foi definitivamente o dia mais produtivo, não foi rápida, nem queria. Guardou só para ela aquela sensação de uma forma pensadamente egoísta, apesar de nada ser egoísta, ela era de dividir tudo, comida, dinheiro, roupas, joias, bolsas, sapatos, palavras, mas nesse dia não, guardou aquilo só para si, a sete chaves no seu coração.

Coração que pulava e pulsava cheio de vida e de vontades. Aquela sensação era só dela, não queria compartilhar e ser julgada, talvez condenada. Chega, a vida já é dura na rotina, nas asperezas das dificuldades e problemas. Receber e sentir aquilo àquela altura era um presente maravilhoso.

Mesmo sabendo que ia passar porque é efêmera essa sensação, naquele momento, fazia a vida ser claramente entendida, aquilo era o verdadeiro sentido de tudo e estava ali, naquele sentimento, sem palavras para explicar.

Piegas? Não importa, ela estava feliz.

Comeu bem mais tarde, um lanchinho no jantar, ouviu sua música do momento preferida, mandou – sem culpa e “numa boa” – um que se dane para um cliente chato do seu trabalho e no mais desejou amor para todos, até para os desafetos.

Com todo seu coração, desejou só amor para todos, porque nesse dia de sorrisos ela amava, a sensação, apesar de conhecida, era novamente nova e era tão grande e boa que podia acolher e abraçar o mundo.

Foi dormir com esse sorriso e pensou: “Ainda sou uma garotinha”, como diz a música, mesmo faltando só um mês para sua aposentadoria.

Não fez planos, dormiu feliz, dormiu bem.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

Sempre dirigia, dirigia para cima e para baixo, cada hora era uma coisa. Levava os filhos, supermercado, trabalho, médicos, banco. Dirigia e dirigia, o carro era bom ainda, não era tão cansativo dirigir. Herança dos tempos gordos.

Hoje os tempos são magros, magrinhos, ela envelheceu dez anos em um. Estava quase irreconhecível por fora e por dentro, mais por fora que por dentro. A dureza do dia a dia, tiraram sua alegria.

Sempre no trânsito, parada nesses congestionamentos das grandes cidades, e sua cidade era muito grande. Pensava no que ia comprar, pensava na sequencia da agenda e pensava que se pudesse voltar no tempo, voltar, voltar, ela encontraria de novo com ele. Ela teria seguido com ele. Ela teria dito o que sentia.

Ela e ele estariam juntos hoje e provavelmente felizes fazendo compras no supermercado ou cozinhando juntos ou mesmo em uma dessas festas de família, juntos. Os filhos não seriam os dela e os dele. Seriam os nossos. Teríamos sobrevivido juntos ao tempo? Essa pergunta ficava na sua cabeça assim, mas tinha certeza da resposta, sim teriam sobrevivido juntos e felizes. Ele que não saia da sua cabeça. Cabeça branca, cabeça quente, cabeça rodando.

Rodou, rodou e rodou tanto que foi parar lá atrás de onde nunca tinha saído. Estava na casa de amigos, risadas altas, comes e bebes, conversas engraçadas, alguém sem noção e ele. Ele ali. Ela também. Mas como? Ela pensava, como assim? Como estou aqui? Não conseguia se ver, só sentir. Um fantasma dela mesma.

Preciso dizer. Ele precisa saber. Mas…. eu não sei o que dizer. O que eu não sei dizer? O quê? O quê?

Existe uma teoria que tudo acontece ao mesmo tempo em todos os tempos, que existem universos paralelos de nós mesmos. Ela conseguiu atravessar isso, sabe lá como fez isso. Estava tendo uma nova chance.

– Uau, esse roteiro é fantástico, é disso que preciso. Pensava Carla, a atriz, empolgada. Ela precisava de um bom papel urgente para dar um “up” na sua carreira.

Pensava Carla, no meio do trânsito, assim como a personagem. Pensava: “o que eu não sei dizer?”

Ela tinha clara a resposta, mas ainda não tinha coragem. A coragem ela deixava para dar vida a personagem, que literalmente seria a sua salvação. Coincidência ou não, olhou para o lado e viu alguém que não via há muito tempo e teve aquela sensação de já ter vivido aquilo.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

Ela olhou para ele e sorriu… Um sorriso muito mais de súplica do que de felicidade. Era como se ele lhe sugasse o ar e toda a sua vida dependesse daquele instante, daquele sorriso.

Ele mais uma vez não correspondeu. A indiferença não atendeu à súplica dela e lhe causou infelicidade. Era como se para ele estar ali fosse um sacrifício.

Ela pensou em cada palavra que falou, ele não ouviu nenhuma delas.

Ela se irritou, gesticulou, chorou. Ele seguiu indiferente.

Até que num ímpeto desesperado, ela foi beijá-lo e ele lhe deu a face.

Magoada, ela levantou do banco e virou de costas. Ele, seguro de si, lhe deu literalmente as costas e embarcou no primeiro ônibus que partiu.

E eu fiquei ali no meu lugar, vendo essa cena toda e com vontade de me aproximar e dizer àquela moça: hei, relaxa, sei que agora dói, mas tudo passa. E de abordar aquele rapaz e “praguejar”: hei, não relaxa, sei que agora você se sente por cima, mas tudo passa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

24-12-08-2-olho-dri

Dia de chuva em São Paulo é um verdadeiro caos. A cidade parece que vira do avesso e o trânsito simplesmente pára, não anda para um lado nem para o outro.

Com esse breve raciocínio Antonio resolveu optar pelo metrô no lugar de usar o seu carro naquela sexta-feira, o quinto dia consecutivo de uma chuva intermitente a encharcar os ânimos dos paulistanos. Toda sexta, das nove ao meio dia, dirigia um grupo de teatro amador na zona leste. Para evitar o trânsito surreal daquele dia chuvoso, empreendeu uma epopéia por debaixo da terra. Saiu cedo, por volta das 7h30 da casa de uma ex-namorada que visitava com freqüência. Uma atriz com tendências suicidas no palco e na vida. Começou a viagem pela estação Parada Inglesa, na zona norte. Desceu na Sé e pegou a linha vermelha no sentido Corinthians-Itaquera. De guarda-chuva na mão, saltou na estação Patriarca, andou uns 15 minutos a pé e chegou quase todo molhado. A cabeça e os ombros respingados aqui e ali pelos furos irregulares e assimétricos no tecido puído e amarelado do seu guarda-chuva. E dos joelhos pra baixo era uma molhadura só, incluindo sapatos e meias – Ele sempre usava dois pares de meia em dias de chuva. Não era superstição, era medo de ficar resfriado – Tudo correu bem como de costume, a não ser pelo certo nervosismo que tomava conta dos seus 13 filhos adolescentes, como ele assim os chamava. No dia seguinte, sábado, seria a estréia daquele grupo na sede da associação de moradores do bairro. Ele tinha um carinho especial por aquela turma de jovens cheios de vida e vontade de vencer as dificuldades de viver na periferia. Dificuldades que todos aqueles que, assim como ele, que viveram ou vivem à margem da zona central da cidade, sabem muito bem o seu tamanho. Era o primeiro diretor e o responsável direto pelos primeiros passos na formação desses promissores futuros artistas. Alguns, tinha certeza, seriam grandes atores e atrizes, outros tinha lá suas dúvidas, mas todos eram como se fossem seus filhos de verdade. Tudo estava pronto e o último ensaio foi ótimo, fato esse muito diferente do que se está acostumado a ver no teatro profissional. O ensaio antes da estréia é sempre uma catástrofe. Acertou os últimos detalhes com os atores, afinou a luz, deu retoques no figurino e repassou o som. Ao término do ensaio, que se estendeu um pouco além das três horas habituais, foi abordado pelo presidente da associação de moradores, que havia chegado pouco antes do fim dos ensaios.

– Professor, estamos todos muito felizes com o seu trabalho por aqui. Nunca poderemos pagar pelo que o senhor fez pelos nossos jovens. Seremos eternamente gratos por isso.

– Deixa de bobagem homem.

– O senhor está com pressa?

– Não. Por quê.

– É que preparamos uma pequena surpresa pro senhor, e como amanhã vai ser uma confusão por aqui, queremos fazer isso hoje. Vamos até a sede?

– Claro que sim.

Lá se foram os dois. Antonio tentando preservar o que ainda não tinha sido molhado pela chuva. Sebastião, o presidente da associação, foi andando pela chuva mesmo. Estava de camiseta, bermuda e chinelo de dedos. Não era costume dele, andar vestido assim, em pleno dia de semana, mas estava de folga do restaurante. Era um homem alto e um pouco gordo, cuja barriga se pronunciava para além da camiseta, pelo menos dois números menores.

– Não tá com frio não Sebastião? Eu tô gelado.

– Nada Antonio. Tenho gordura de sobra aqui e ela me protege. Disse isso batendo na pança enquanto desviava de uma poça enlameada.

Na sede da associação foi recebido por mães, tias, avós e primas, fãs incondicionais daqueles atores estreantes. Pra surpresa de Antonio, ele era esperado com uma suculenta feijoada. Não era quarta nem sábado, dias sagrados dessa iguaria tipicamente nacional, mas a feijoada estava lá, completa, com tudo que ele tinha direito. Antes mesmo de dizer qualquer coisa em agradecimento, sentiu sua boca se encher lentamente de água. Era a reação física e mais sincera que alguém poderia ter diante do seu prato preferido e que exalava um aroma inigualável. Abriu um largo sorriso.

– É o meu prato preferido.

– E nós não sabemos, seu Antonio. Foi a Juju quem contou, disse dona Chica.

Juju era uma das atrizes que ele apostava todas as fichas. Uma menina talentosa e que quando sorria, lembrava uma grande amiga sua, também atriz, que sempre sorria com os olhos. Ela, a amiga, que ele não via há anos, tinha deixado o Brasil em busca de aperfeiçoamento em suas pesquisas no trabalho do ator. Essa era a última notícia que teve dela uns cinco anos antes daquela data.

– Ela disse que o senhor comentou isso num dos ensaios.

– É verdade. Disse isso enquanto tentava se lembrar de quando foi que tinha falado que adorava feijoada. Antes mesmos de puxar a cadeira e sentar-se ao lado de Sebastião, a imagem do tal dia brotou cristalina da sua memória. Ele havia proposto aos seus atores que representassem em dez movimentos, por meio de uma ação, o ato de comer o prato preferido de cada um. Lógico que no final do ensaio todos queriam saber qual era o seu prato preferido.

– E o seu professor, qual o seu prato preferido?

– Feijoada, Juju. Feijoada.

Comeu e comungou com aquelas pessoas da comida e de conversas o aproximaram ainda mais daquela gente. Em muitos momentos, a sua história de vida se confundia com um pouco da vida de cada um ali. Neide, que era a cara de uma prima sua e que ajudara Dona Chica na preparação do prato, não deixava nada passar em branco.

– Professor, acho que se o senhor andar sem o seu guarda-chuva vai ficar menos molhado. Parece uma peneira.

O riso foi geral na mesa. Deixa comigo que dou uns pontos e resolve o problema, disse isso Dona Matilde, levantando da mesa indo buscar a sobremesa. Sim, o cardápio era completo. Tinha até sobremesa. Uma torta de chocolate como poucas que tinha comido até então. Depois do café, olhando bem nos olhos daquelas pessoas simples e cheias de amor no coração, sentiu seus olhos encherem de lágrimas. E antes que todos caíssem no choro, Neide emendou:

– Não vem que não tem professor. Já tem água demais por aqui. Engole esse choro.

Abraçou um por um com um abraço longo e silencioso. Antes de ir embora, abriu um sorriso e disse:

– Tô pensando em começar a ensaiar com eles todos os dias. O riso estrondoso de todos mais uma vez competiu com o barulho insistente da chuva lá fora. Despediu-se e tomou o rumo da estação do metrô. A chuva, que teimava em não dar tréguas, completou o seu serviço. Antonio, pelas suas contas, estava aproximadamente noventa e três por cento molhado. Alguns pedaços da camisa, da calça e a sua cueca ainda estavam secos. Apesar da situação aparentemente diversa daquela sexta-feira, tudo tinha saído bem. A chuva, a roupa molhada, o sapato empapado de água e barro e o seu pé congelado apesar dos dois pares de meia, tinham pouca ou quase nenhuma importância. Estava feliz, e isso era o que importava. Com as mãos molhadas e os dedos duros de frio, segurou com cuidado o bilhete, que mesmo dentro do bolso da camisa, foi incapaz de resistir à chuva. Estava umedecido em uma de suas pontas, bem próximo à fita magnética. O bilhete passou pela catraca e saiu quase ileso do outro lado, apenas um pouco borrado, com sua tinta azul e preta misturada uma na outra. Antonio olhou para ele e pensou que a água havia provocado um efeito de aquarela no bilhete ao diluir a tinta impressa. Guardou o bilhete. Um dia pensaria naquilo com mais calma. Quem sabe não poderia tentar vender um projeto pro metrô, intitulado talvez de Arte no bilhete. O nome ocorrido ali, naquele momento, lhe parecia bom e o artista já sabia quem seria, o seu amigo Tarifa. Desceu as escadas, era momento de focar em outra coisa: ir pra casa e tomar um banho quente.

Durante todo o caminho da volta pra casa, fez o caminho inverso em sua cabeça. De trás pra frente, repassou sua vida até aquele momento. Apesar das dificuldades do dia-a-dia, a arte e o teatro sempre lhe proporcionaram momentos únicos, como o trabalho com aqueles jovens da periferia e feijoadas como a de Dona Chica. É não tinha o que reclamar, talvez não lhe faltasse nada, a não ser aquele grande amor que um dia fugiu pelo vão dos seus dedos. Não estava pensando numa mulher, estava pensando em todas aquelas que, em maior ou menor grau, poderiam ter sido companheiras para a vida toda. Mas assim como um heterônimo de Fernando Pessoa, não sabia se sentia demais ou de menos. Na dúvida, na eterna incerteza não agiu. Deixou a vida passar. Distraído em seus pensamentos, quase não desceu na Sé. Só conseguiu, porque naquela hora o trem anda vazio sempre. Era como se o metrô, no início da tarde, vivesse um verdadeiro buraco negro de passageiros. Frequentado apenas por mães com seus filhos, donas de casa, aposentados, vendedores ambulantes e trabalhadores, que como ele, têm horários flexíveis. Resumindo. Entre duas e quatro da tarde, o metrô era frequentado por todo tipo de gente, excluindo, é claro, a população economicamente ativa com emprego formal. Pelo menos a grosso modo, concluía Antonio calado, enquanto esperava o outro trem com destino ao Paraíso. Dentro do trem, resolveu que desceria na Ana Rosa. Era sempre mais tranqüilo pegar o trem na Ana Rosa. Não havia aquela afobação costumeira da estação Paraíso, mesmo naquele horário. O vagão não estava cheio. Conseguiu um lugar pra sentar. Na Brigadeiro, o carro ficou quase vazio. Bem a sua frente, sentada no lado oposto do vagão, estava uma mulher jovem. Não dava pra ver o seu rosto – O seu cabelo preto e longo cobria o seu rosto, enfiado num jornal – mas certamente ela tinha menos de 30 anos, a julgar pelo que o seu corpo revelava. O caderno era o de classificados e ela carregava uma caneta vermelha na mão direita. Olhou-a de cima a baixo. Vestia-se como uma bailarina. Sim, ela deve ser bailarina. Contudo, seu jeito de cruzar as pernas revelava outra coisa. Antonio tinha uma teoria: só as atrizes são capazes de cruzar as pernas de um jeito enlouquecedor. Ela era uma atriz. Nenhuma outra mulher é capaz de cruzar as pernas daquele jeito, só uma atriz. Ficou olhando por mais um tempo. Viajou em seus pensamentos naquela tarde fria. Será ela a mulher da minha vida, aquele amor que ainda não vivi? Mas como. Nem a conhecia, sequer viu o seu rosto. Como ela poderia ser o seu grande amor? Tentou desviar o olhar e o pensamento. Impossível. Tudo o que queria naquele momento era arrumar um jeito de chegar até ela, descobrir o seu rosto e conhecer aquela mulher. Ao chegar à estação Sumaré, a luz do dia, apesar de nublado, iluminou o vagão. Ela, num instante mágico, levantou a cabeça para saber de onde vinha aquela luz. Ele, petrificado pela surpresa, só pode dizer: Elisa. Ela olhou na direção dele imediatamente.

– Não acredito! Antonio é você?

– Nem eu.

Com o coração quase saindo pela boca, não dissemos mais nada. Nos enlaçamos num longo abraço. O trem saiu e quase caímos. Sem se desgrudar sentou ao lado dela.

– O que você ta fazendo aqui? Você não estava….

– …..não tô mais. Cheguei faz um mês.

– Vai ficar?

Mostrou-me o jornal.

– Sim. Em São Paulo. Resolvi aceitar o conselho de um velho amigo que dizia que meu lugar era aqui, onde as coisas acontecem.

– Seja muito bem-vinda.

– Curti minha família esse mês que passou. Cheguei ontem e estou na casa de uma amiga lá na Praça da Árvore.

– Você tá indo pra onde agora?

– Ver apartamentos pra alugar. Disseram-me que a Vila Madalena é um lugar legal.

– Muito. Eu moro lá.

Riram como duas crianças. O trem chegou à estação final. Como dois adolescentes, subiram as escadas atropelando os degraus, quase correndo e de mãos dadas.

– Lembra daquela cena que tivemos que sair correndo feito dois loucos?

– Lembro sim, mas ando meio fora de forma.

Esbaforidos, estancaram na porta da estação. A chuva continuava forte lá fora. Se esconderam na marquise ao lado da porta. O espaço diminuto os obrigou a ficar bem próximos. Frente a frente, podiam sentir a respiração do outro e o hálito quente apaixonado que escapava dos lábios de ambos. Olharam-se em silêncio por quase um minuto. Eles sempre tinham o hábito de ficar olhando diretamente um no olho do outro. Isso desde quando se conheceram, anos atrás. Ela tremia. Um pouco de frio e um pouco talvez pelo nervoso sutil do encontro inesperado. Aquele não era um encontro qualquer. Era possível ser um desfecho ou o início de uma nova história. Seus olhos diziam isso e brilhavam como nunca.

– O que você vai fazer agora?

– Procurar apartamento com você.

Ela sorriu quase à toa e apertou a mão de Antonio.

– Você continua sorrindo com os olhos, disse Antonio.

– É você que sorri com os olhos. Olha aí.

Estavam tão próximos que um beijo seria inevitável. Sabiam que tinha chegado o momento. Sem dizer palavras concordaram em esperar. Queriam curtir um pouco mais o desejo incontrolável do real primeiro beijo. Antonio abriu o seu guarda-chuva, passou a mão pela cintura de Elisa e abraçados começaram a descer a rua desviando de algumas poças de água.

– Hoje tem a estréia de um amigo. Você quer ir comigo?

– Claro que eu quero.

– Onde é a rua do apartamento?

– Aspicuelta. É isso né?

– É sim. E eu moro na Girassol, que corta essa rua.

– Quem sabe não seremos vizinhos.

– Depois do teatro podemos jantar. O que você acha?

– Pode ser comida italiana? Tô com saudades de comer uma massa, beber um vinho.

– Ah! Amanhã tem a estréia de um grupo de adolescentes que eu dirijo lá na Zona Leste. Se você puder…..

– Puxa…. eu quero ir sim. Ai meus deus…já tô me convidando.

– Acho que tá na hora de eu trocar de guarda-chuva. Tô pensando em comprar um maior.

– Eu vou achar ótimo. Disse isso e aninhou sua cabeça no ombro de Antonio.

Viraram à direita. Estavam tão abraçados que pareciam ser um só.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

 

 

 

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Ela havia chegado há pouco a São Paulo. Pelo menos foi isso que o porteiro do prédio me disse. Apaixonei-me por ela logo no primeiro dia em que a vi. Sou um homem sensível e tenho uma vocação danada por me apaixonar subitamente por boa parte das mulheres que cruzam o meu caminho. Da mesma forma, e sem explicação aparente, todas essas paixões se dissolvem no ar em poucos dias. Vou da felicidade à desilusão amorosa num curto espaço de alguns dias. Mas o fato é que com Nandinha foi diferente. Era assim que eu carinhosamente a chamava depois que a conheci de verdade naquele fatídico dia. Fernanda, a minha Nandinha, era atriz, tinha vinte e três anos e um corpo trabalhado pela dança. Seu rosto tinha a graça e a delicadeza de uma menina e seu olhar a força de uma mulher. Seu cabelo preto e comprido repousava suavemente pelo seu dorso de um lado e se perdia pelas costas do outro. Sua roupa moderninha, numa mistura de atriz e bailarina, era o toque final. Foi o golpe que faltava. Era como se todas as qualidades de mulher se resumissem ali diante dos meus olhos. Não me contive. Me precipitei no corredor e abri a porta do elevador. Ela me sorriu meio sem jeito e entrou. Entrei atrás dela e num impulso fui logo me apresentando. Bom dia, eu sou o João. Ela só me disse: “Eu sou a Fernanda”. Percebi, nesse momento, um certo ar de nervosismo em seu olhar. Logo imaginei: “Claro, ela também se apaixonou por mim. Ai meu deus…encontrei a mulher dos meus sonhos”. Ao chegar no térreo, ela saiu do elevador sem dizer nenhuma palavra. E eu fui direto no porteiro que me deu a informação que a Nandinha, por enquanto Fernanda pra mim, era nova na cidade. Nem precisa dizer que daquele instante pra frente, resolvi investir naquela nova paixão. Todos os dias, pela manhã, planejava cuidadosamente para que o acaso me fizesse encontrá-la na porta do elevador. Eu repetia o mesmo ritual de sempre. Abria a porta, lhe dava bom dia e ela me respondia com aquele sorriso enigmático e algo de tensão estava sempre presente em seu olhar. Passaram-se dias e aquela cena se repetia. Tempo suficiente para que eu, na minha santa inocência, achasse que aquele algo mais, aquela tensão em seu olhar e a pressa latente em seu jeito, eram indicadores fortíssimos de que alguma coisa existia entre nós. De fato existia, mas ainda não era entre nós.

Lembro-me bem daquele dia. O dia em que decidi ser mais incisivo com ela. Aquela manhã no elevador meu coração batia tão forte que tive medo que ela ouvisse ele pulando dentro do peito. Chegamos ao térreo e eu não tive coragem de fazer nada. Resolvi então segui-la. Nós morávamos em um prédio que ficava em cima da estação Vila Madalena. Ela saiu pelo portão da frente e logo desceu as escadas do metrô. Fui atrás dela. Eu sentia que tinha que ser naquele dia. Iria me declarar no vagão lotado se sentisse que seria o momento. Ela percebeu que eu a seguia. Olhou pra trás num momento e sorriu. Entramos no mesmo vagão, mas cuidei pra não ficar excessivamente próximo. Apenas o suficiente para que nossos olhares se alcançassem. Percebia a cada instante que seu olhar se transformando. Mas comecei a achar que aquilo tudo não era fruto de uma paixão que ela supostamente sentia por mim. Tinha algo de pavor em seu olhar. Na estação Sumaré, com a luz do dia, vi que ela estava um tanto quanto pálida. Deve ser alguma coisa que ela comeu no café da manhã, eu pensei. Não demorou muito. Na verdade nem um minuto para eu descobrir o que estava por trás daquela palidez e nervosismo. Saímos da estação Sumaré e mergulhamos na escuridão dos túneis. Um pouco antes de chegar a estação Clínicas, o trem parou. Imediatamente nos olhamos e o seu semblante era de pânico total. Sem entender nada comecei a caminhar em sua direção. Nesse exato momento, o sistema de auto-falantes do metrô nos informou que havia ocorrido uma pane elétrica e que ficaríamos parados ali por, pelo menos, 10 minutos. Nem bem havíamos recebido a notícia e, já sentindo calor pelo ar condicionado insuficiente, as luzes se apagaram. Continuei caminhando. Eu sabia a quantos passos estava dela. De repente sinto o seu corpo encontrando o meu. Senti o seu abraço. Retribui imediatamente. Só ouvia o meu coração bater e o coração dela vibrar junto ao meu peito. Ela começou a tremer e a chorar baixinho. Sem entender nada, continuei firme no meu abraço acolhedor. Ela chegou com a boca próxima ao meu ouvido e baixinho me disse: “Não me deixe só”. Voltou a me abraçar apertado e não disse mais nada daquele momento em diante. Minha cabeça começou a rodar. Sentia que era a pessoa mais importante do mundo pra ela naquele momento. Mas isso não tinha nada a ver com as histórias e fantasias de amor e paixão que viviam invadindo meus pensamentos até aquele dia. Resolvi também não dizer nada. Meu sexto sentido – eu sou um homem que tem sexto sentido – me disse pra ficar quietinho. Foi o que fiz. Quando a luz acendeu e o trem voltou a andar, nos afastamos e nos olhamos profundamente em silêncio. O trem parou na estação Consolação. Ela soltou dos meus braços e desceu. Fui para o trabalho em silêncio. Naquele dia fiquei muito calado. Algo tinha de muito importante tinha se passado comigo e eu não entendia o que. Na volta pra casa, ao abrir a porta do apartamento, encontrei um bilhete no chão. “Tem algo a meu respeito que você precisa saber. Venha até meu apartamento. Te espero hoje”. Tremi de nervoso e ansiedade. Não sabia se era mais a paixão que em movia. Talvez fosse esse mistério. Tomei banho, passei meu melhor perfume e fui até o apartamento dela, que era o 210. Toquei a campainha. Ela abriu a porta. Seu cabelo molhado revelava que ela também havia saído do banho há pouco. E seu vestido descompromissado e pés no chão eram sinais claros de que ela estava á vontade comigo. Seu apartamento tinha poucos móveis, mas tudo o que havia era muito colorido. Muitas fotos de teatro espalhadas pela parede e um forte cheiro de incenso no ar. Ela abriu uma garrafa de vinho, colocou Ella Fitzgerald pra tocar. Tomamos o vinho em silêncio, apenas nos olhando. O seu olhar, agora, era diferente do olhar de todos os dias. O meu sentimento, agora, era o mais confuso de todos os tempos. Nem bem acabamos a primeira taça, ela se aproximou de mim e me deu um longo beijo. Mais tarde ela me disse que aquele beijo era só um agradecimento por eu tê-la salvado naquela manhã. A verdade é que pouco me importou se o beijo era ou não um ato de gratidão. Sua boca era macia e doce como nenhuma outra. Em silêncio nos amamos. Quanto mais o tempo passava, mais confuso eu ficava. No jantar, ainda naquela noite, foi tudo esclarecido. Ela me contou sorrindo, depois de eu dizer todos os sinais de estar apaixonada que ela havia me dado nos dias anteriores, que na verdade tudo aquilo que eu via era claustrofobia. Sim, ela tinha um trauma de infância por ter ficada trancada dois dias no porão da sua casa. Por isso, o seu olhar tenso no elevador e o desespero quando o metrô parou. Meio passado, perguntei então porque ela não descia de escada e andava de ônibus. Ela riu mais uma vez e explicou que descia de escada sim, mas que ficou sem jeito quando eu corri e abri a porta do elevador para ela entrar. E que como eu fazia todo dia a mesma coisa e ela não queria ser indelicada, ela pegava o elevador todos os dias. Desconsertado perguntei: “E o metrô?” “O metrô”, disse ela. “É mais rápido que o ônibus. Não vou ficar perdendo tempo só porque tenho medo”. Depois daquela noite continuei descobrindo coisas preciosas da Nandinha. Pela manhã, descíamos juntos escada abaixo e vez por outra combinávamos um ou outro jantar. Um dia eu preparava a comida. No outro ela fazia dança do ventre. Eu lia um poema, ela fazia cafuné. Eu mordia o seu pescoço, ela dormia abraçada ao meu peito. Éramos felizes de verdade. O meu relacionamento mais longo e o único que eu não entendia, apenas sentia. Freqüentamos todos os cinemas e exposições da cidade. Fui ver muitas de suas peças. Namoramos durante dois anos. Ela no apartamento dela e eu no meu. Mas por mais intimidade que tínhamos um com o outro, jamais chegamos ao sublime daquele dia no metrô. Talvez ela não consiga isso com nenhum outro e comigo a mesma coisa. Tive certeza disso numa noite fria de julho. Cheguei em casa com duas garrafas de vinho e a esperança de uma grande noite entre nós. No entanto, por debaixo da porta um bilhete. Gelei. Algo me dizia que a notícia não deveria ser boa. Abri o papel e estava escrito. “Tive que fazer uma viagem às pressas pro exterior. Eu volto. Não me deixe só”. Bebi todo o vinho aquela noite. Fiquei em silêncio. Nada de perguntas. Foi assim que começou e é assim que deve ser agora. Sabia que a nossa história havia sido única. Nunca a esqueceria. Ela nunca voltaria e eu nunca a deixaria só. Mas como disse, sou um homem sensível. Saí de casa sem rumo na manhã seguinte. Logo na primeira esquina, uma nova paixão. A bunda mais perfeita que eu já vi. Mas essa é outra história.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

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Alberto era um homem alto, magro e beirava os quarenta e tantos anos. Quarenta e tantos porque já havia passado dos quarenta e cinco, como ele mesmo disse numa festa de fim de ano do banco. Era um homem discreto, de poucas palavras e vida social praticamente inexistente. Seu contato com o mundo exterior quase que se resumia ao trajeto que fazia diariamente de casa para o banco e do banco pra casa. Tarefa que ele exercia com a obstinação de um monge e um olhar perdido de felicidade que pairava entre as seis estações que separavam seus dois grandes amores. Marieta, com quem era casado há 25 anos e o banco, com quem era casado há 21 anos. Alberto nunca reclamava de nada, a não ser da dificuldade de achar sapato número 46. Ele era muito alto e tinha um pé enorme. Fato que o incomodava muito e que talvez tenha moldado a sua personalidade discreta, quase invisível. Um homem de quase dois metros de altura e feio assim chama a atenção demais. Nesse caso o melhor a fazer é ficar calado para não aumentar o estardalhaço da minha presença. Foi exatamente isso que ele me respondeu um dia que perguntei a ele porque ele era tão quieto. Mas havia algo mais do que isso. Parecia que ele carregava um peso maior. Tudo bem, o sujeito pode ter vergonha da altura, da feiúra, mas nenhum sorriso é tão triste à toa. E isso eu era testemunha. Nunca vi alegria em seu olhar. Decidi investigar. Coloquei em prática o curso de detetive a distância que havia feito. Primeira lição: siga o investigado com descrição. Foi isso que fiz. Todos os dias, às seis da tarde, ele saía do banco e eu ia atrás. Descia a ladeira Porto Geral e entrava na estação São Bento. Pegava o trem no sentido do Tucuruvi e eu atrás, discretíssimo. Descia na estação Santana e caminhava até a sua casa. Entrava, fechava a porta e a partir daquele momento era uma incógnita. Por vezes eu fiquei até tarde esperando gritos, briga, tiros ou que fosse. E nada. Nada acontecia. Não é possível, eu pensava. Tem alguma coisa errada nisso. Como pode um sujeito que teoricamente tem um bom casamento, um bom emprego, uma vida pacata, ter tanta tristeza estampada no rosto? Não era cabível que fosse só por causa da sua altura e de sua suposta feiúra. Mas eu estava longe de desistir. Cada dia que passava minha curiosidade aumentava mais e mais. Agora já era questão de honra. Iria, custe o que custar, descobrir o que se passava com Alberto. Comecei convidá-lo pra almoçar todos os dias. Quem sabe a intimidade o faria revelar algum segredo. Nada. Absolutamente nada. Ele falava da Marieta, do trabalho e até de futebol, sempre com comedimento. Mas revelações? Nenhuma. Ele era impenetrável. Mas um dia minha busca teve um lampejo de luz no fim do túnel. Num dos nossos almoços, ele estava sentado de costas pra rua. Tudo transcorria normalmente, como todos os dias, até que um sujeito desconhecido passou pela porta do restaurante e ao ver um amigo, entrou e logo disse: Rapaz, quase morri hoje. Um carro quase passou em cima de mim. Se eu tivesse meio metro pro lado, tinha sido atropelado. Naquele instante, querendo romper o silêncio habitual, surgiu a primeira grande pista. O rosto de Alberto ruborizou e seus olhos encheram-se de uma tristeza ímpar. Algo naquelas palavras aparentemente sem importância, pelo menos pra ele, o colocava em contato com alguma coisa amarga. Era como se tivesse trazido à tona alguma lembrança do passado. Tive o ímpeto de perguntar, mas achei melhor me conter. Alberto estava num momento sublime. Sem dizer nenhuma palavra, levantou-se e saiu desnorteado pela Rua Boa Vista de volta ao banco. Daquele momento até o final do expediente, o silêncio de Alberto chegava a arrepiar. A hora não passava. Estava ansioso demais em segui-lo. Seria o grande momento. Me enchi de expectativas e fantasias. As seis em ponto tomei meu rumo atrás dele. O que será que havia naquela frase? O que seria motivo suficiente pra tanta tristeza? Pra detonar o ar sombrio daquela tarde? As palavras seriam a chave pra o que eu tanto procurava? Eu estava zonzo. Quanto mais eu tentava juntar os cacos mínimos, menos fazia sentido aquilo. Eu já não sabia se fazia sentido eu querer achar sentido naquilo tudo. Mas era tarde. Estava envolvido e queria ir até o fim. Fiz o meu trajeto discreto como todos os dias. Quando cheguei a casa dele resolvi ir adiante. Depois que ele entrou, pulei o muro em silêncio. Fui até a janela e sem pestanejar estiquei o pescoço e olhei pro lado de dentro. Mais do que ver, senti. Mais do que sorrir pela descoberta, chorei. Mais do que ficar extasiado, fiquei estarrecido. Pela janela, contemplei um homem de quase dois metros de altura, sentado no degrau da escada, chorando copiosamente e conversando com uma foto em um porta-retrato. As palavras escorriam quentes pelos meus ouvidos. Marieta  – dizia ele -, que vida poderíamos ter tido. Jantares românticos, passeios no fim da tarde no jardim da luz, noites de amor. Cinema, teatro, filhos. Juntos, não fazer nada, sentados no banquinho do quintal a escolher estrelas e dar a cada uma o nome de um sonho. Sonhos não realizados, sonhos vãos, sonhos com cheiro de morte. Naquele dia faríamos um ano de casados. Era um domingo abafado de calor. Saímos de mãos dadas, distraídos pelo amor e pelo picolé, que de tanto calor, derretia e escorria por entre os dedos. Lembro-me como se fosse hoje. Você com um sorriso de menina, lambendo os dedos sem querer desperdiçar nada. Você adorava picolé de chocolate. Eu de abacaxi. Caminhávamos ao local do nosso primeiro beijo. Ao passar ao lado das obras da nova estação do metrô, vi uma árvore. Uma sobrevivente da natureza perdida naquele emaranhado de concreto a se enraizar sob nós. Afastei-me de você por um instante e fui buscar aquela flor perdida num galho mais alto. Quando virei, vi o chão sumir sob seus pés. Um acidente, foi o que disseram. Junto com você, mais três pessoas foram engolidas pela cratera que se abriu. Atônito e agarrado a árvore, vi o mundo desabar sobre a minha cabeça. Chorei, desesperei. Quis morrer. Todos os dias me lamento. Poderia ter ido com você escolher de perto as estrelas. Meio metro. Foi a distância que nos separou. E eu só queria te dar uma flor. Desejo todos os dias te encontrar de novo. Há mais de 20 anos anseio por alguma tragédia. Não tenho coragem de me suicidar. Mas hoje, especialmente hoje, tudo me veio a mente de um jeito arrebatador. Como eu queria ser aquele desconhecido, como eu queria estar a meio metro dele na frente daquele carro. Como eu queria uma vez mais ouvir tua voz. – Por um instante Alberto calou-se. Apenas chorou. E eu com a garganta seca, quase sem respirar, fiquei paralisado. Aquele era o motivo da sua tristeza. Uma tristeza que ele alimentava diariamente durante anos. Para todos do banco, Alberto era muito bem casado. Sim, era muito bem casado com suas lembranças e uma vida inteira de tristeza. Esse era o ponto. Esse era o segredo. De repente Alberto levantou-se, enxugou as lágrimas, colocou o porta retrato em cima do piano e saiu. Mais que depressa o segui. Ele foi até a estação e entrou no trem como se estivesse indo ao banco. Ele passou pela estação São Bento e não desceu. Eu resolvi descer na Sé e ele se foi. Tomei o trem sentido Paraíso. Era quase meia noite. No silêncio do vagão quase vazio em enchia de pensamentos contraditórios. Estava satisfeito com a descoberta, mas tinha um nó na garganta difícil de desatar. Tentei imaginar pra onde teria ido Alberto aquela hora. Não importa. Fosse onde fosse ele tinha suas razões. Tinha o direito de estar só. De ir ao encontro de Marieta se assim o quisesse. Ao chegar em casa, desmaiei de sono e cansaço.

No dia seguinte, Alberto não foi trabalhar.

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Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator e diretor. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea e é Coordenador de Produção Cultural e Design do Senac Santa Catarina. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

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Neste mês completo 36 anos. Anos bem vividos, aproveitados, suados, com dias de puro êxtase e outros de tristeza dramática… Durante boa parte desses 36 anos, ouvi as histórias de amor, do tipo “foram felizes para sempre” em que a princesa necessita terminantemente ficar com o príncipe. Mas não qualquer príncipe. Ele tinha que ser o mais belo, o mais forte, o mais encantador, vir montado em um cavalo branco, fazer juras de amor eterno. Dos príncipes das histórias infantis (que menina nunca quis ser a princesa?), passamos para os príncipes mais modernos, também da ficção. Quem nunca quis um Richard Gere em Pretty Woman, ou Hugh Grant em Notting Hill??? Um sonho, não?

Nãooooooo!!! Passei anos, involuntariamente, procurando o príncipe encantado… Me apaixonei perdidamente, vivi histórias lindas, outras tensas… outras que preferia apagar. Vivi. Mas nunca o príncipe era o príncipe. Em algum momento, ele deixava o cavalo, a roupa, o charme e virava o sapo. E eu descia do sapatinho de cristal e subia nas tamancas para sair do conto de fadas e entrar na história da vida real.

Até que de repente, não mais do que de repente, aparece o sapo. Sapo mesmo. Lindo, é verdade, mas avesso a tudo o que príncipe sugere. Ele não é um ogro, é somente normal. Me faz flutuar com pequenas coisas e me estatela com a cara no chão quando me dá um choque de realidade. Há algum tempo, chamei ele de príncipe. E ele fez uma careta. Daí corrigi… Sapo… e ele me abriu aquele sorriso encantador que nem o príncipe mais lindo da Disney tem. E depois do tão esperado beijo dos contos de fada, ele seguiu um sapo. Não se transformou em estereótipo algum. Isso não é bárbaro?

O meu sapo está aí, todo santo dia, para me mostrar que a vida não é um conto de fadas e que a fada madrinha pode errar na medida do vestido. Mas ele é capaz de ficar acordado para me acalmar quando estou triste, de me fazer rir das pequenas coisas, de me enervar porque não responde na hora que eu quero as minhas mensagens, até de me mandar desencanar de algo que nem sei ainda que estou encanando. Um sapo tão doce e tão normal. Que me lembra também que eu não preciso ser a princesa a todo e qualquer momento da minha vida. Que, às vezes (no meu caso quase sempre), posso estar sem maquiagem, de rabo de cavalo e dormindo de meias.

Esses meus 36 anos me serviram para mostrar que os príncipes no cavalo branco, resgatando a princesa são mesmo coisa da Disney. E que, apesar de amar o salto, o vestido e o baile, não estou em apuros para ser socorrida. Muito pelo contrário.

Desisti do príncipe. Escolhi, conscientemente, o sapo. E que seja eterno enquanto dure esse coaxar… Hoje, ele me faz feliz em nossa lagoa e em nossa história de amor imperfeita. Se ele sair saltitando amanhã, vou chorar, como uma donzela indefesa, mas vou ter a certeza, que vivi momentos mágicos ao lado justo daquele que é sempre tão maltratado. Viva o meu sapo!

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Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!