Preciso ler minha poesias vazias, notícias de jornal, revista de fofocas, livros de suspense e ver novelas na TV.

Preciso fazer as unhas do pé, tirar fora o esmalte velho e deixar aparecer a cor que se é.

Não dar importância para os ruídos nas portas, pingos do chuveiros que teimam em não parar e carros que correm na avenida.

Jogar fora tudo que não me deixa DEIXAR e RELAXAR.

14 de novembro – Gisa Luiza – 32 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Foto Adriana: Gilguzzo/Ofotografico.

Olhinhos grandes. Ela tinha. Os olhos bem grandes mesmo sendo pequenininha. Era arteira. Os olhos grandes brilhavam quando viam brigadeiros, pudim, sorvete, chocolate. A boca salivava, as mãos escondidas escorregavam para perto dos doces. A casa era pequena, mas aos olhos dela era grande, chique e cheirava doce.

A mãe e a vó eram doceiras, tiravam o sustento do dia a dia dos doces. Ela tinha razão, a casa cheirava baunilha misturada com açúcar. Não era só uma sensação, era real.

Se pudesse teria sentido só o doce da vida, mas sabemos que isso é sonho, e não o que vende na padaria.

Sentiu sabores amargos, outros salgados como mar, que brotavam dos olhos grandes com a lágrima que caia. Gostava desse sabor, que a acalmava quando se dirigia para boca e ia virando brincadeira.

Simples como todos os melhores sabores, assim que ela sempre foi e assim como tinha sido sua Vó e sua mãe, talvez a sua filha também seguisse nessa linha, mas o que ela hoje sabia, é que a filha tinha a mesma mão. Mão para doce.

Seus olhos continuam grandes. Grandes para doces, mas a balança implora que se controle, assim como seu médico quando leva os exames de sangue. Ela, continua arteira e sua resposta vem com uma bomba. De chocolate. Não é o esperado, ela sabe, mas com a frase feita que uma amiga sempre dizia “de amarga já basta a vida”, ela não se continha e comia.

Memórias afetivas e coração quente, é assim que ela vai enfrentando os dissabores da vida e assim, seus olhos continuam grandes e brilhantes.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza. Entre uma fruta e um doce, prefere a fruta. Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :).

 

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Escrever sobre o que se quer não é tarefa fácil, faz pensar nos meus sonhos e trazê-los para um lugar mais concreto, faz pensar também no meu dia a dia,  o que me incomoda e quero mudar, o que preciso consertar, onde preciso estar mais. Me faz pensar também nas minhas relações, com quem preciso estar mais, ser mais presente, saber falar com os amigos, mas saber ouvir também, compartilhar a vida com quem nos ama, nos faz feliz, nos impulsiona pra frente. Tudo isso é a grande reflexão desse ano, onde pensei em janeiro e tentarei trazer isso tudo para o concreto.

29 de janeiro – Gisa Luiza – 43 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

 

Todas as manhãs tem café naquela casa. Muitas vezes toma sozinha. Algumas vezes acompanhada.

Café quente, pão na chapa. As vezes café com leite.

Feito na cafeteira elétrica. Uma quantidade generosa. Toma sempre três xícaras ou mais.

Café forte. Forte como devemos ser.

Nem doce, nem amargo.

Só que naquela manhã, o café, acabou.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Entre uma fruta e um doce, escolhe a fruta. Divide seu tempo entre as consultorias de comunicação e marketing e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :).

 

Na faculdade, na saída, L fez cara de coitada e disse que queria conversar comigo, mas quem falou tudo fui eu. Ela ficou com cara de tonta olhando para mim. O problema pra ela é o social, como é que ia ficar? Pode? Ficou fazendo gênero de sofrimento, detesto pessoa assim, sinceramente essa menina não merece a mínima, não merece de jeito nenhum minha amizade. To com raiva de toda essa falsidade. Passa, porque eu não sou de ficar com raiva de ninguém por muito tempo. “Chega de passar a mão na cabeça de quem te sacaneia”.

….

Fomos para a festa. Lá, muitas pessoas da classe e de fora, ignorei os ignorados, alguns paqueras, inclusive o M que conheci ontem, ele pegou meu telefone. Alguns correios-elegantes, gostei! Expliquei, ou melhor, respondi o correio para o Z, falando que eu gosto dele, mas que ele é só meu amigo. Fomos para outra festa, muita gente conhecida, festa na rua e dentro… vinho, não deu para resistir, bom, já foi o dia que eu tinha direito de beber, tava engraçado eu e  o F bebendo vinho de graça, numa festa esquisita, demos muitas risadas. Fiquei altamente tonta, levei  a G e fui pra casa, bateu bode, chorei. Cheguei em casa, guardei o carro, me tranquei no banheiro e chorei, me veio algumas pessoas na cabeça, fui dormir, chorei, altamente neném.

Ah, na primeira festa o A me deu um abraço e disse que tá com saudades de mim, deu saudades de mim também, de verdade.

8 de julho – Gisa Luiza – 20 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

 

Que chuva é essa? Esqueci esses óculos, ah, minha mãe vai me dar a maior bronca. Sim, ela sempre me dá essa bronca, mesmo com essa minha idade nada infantil. Eu sei, isso é coisa infantil e irresponsável esquecer os óculos para dirigir, ainda mais sendo míope, mas está tudo sob controle, eu juro, juro, mas Deus por favor, me proteja e me faça chegar logo. Podia ao menos ter um posto por aqui, um posto e paro.

Ah, quero chorar, mas se chorar a vista embaça mais. Vista embaçada só gosto quando tomo vinho. Sim, vinho com você, isso sim é uma delícia. Mas vinho e depois dirigir não. Vinho, dirigir sem óculos e com chuva, nunca. Hoje, só a chuva e sem óculos, isso aqui ta perigoso. Meu Deus, não me deixa na mão. Eu sei que você sempre olha com carinho para mim, sei que me da esses sustos, esses “presta atenção”, mas sei que me olha com doçura que cuida bem de mim. É,  sei que somos parceiros, somos amigos.

Desligo a música, não consigo dirigir com música e chuva, ainda mais essa chuva. E você onde está agora? Se eu te contar que to nessa fria, vai brigar comigo, mais bronca não. Não quero bronca, quero outra coisa.

Talvez isso seja a liberdade do caminho? Só eu para pensar nisso agora, me lembrei de uma outra estrada, me lembrei de um outro óculos que tinha, aros pretos e eu com cara de professora, cara de inteligente, servia bem para algumas reuniões que eu queria me esconder atrás daqueles óculos para aquele chato do Luizão não me incomodar com suas cantadas baratas, como era chato aquele cara. Mas onde estará Luizão? Só rindo pra eu pensar nisso, Deus me livre sempre do Luizão, o sem noção, aquele que só olhava para meus peitos em todas as reuniões. Cada vez eu aparecia mais feia e me escondia nessas reuniões, literalmente me enfeiava. Isso não é liberdade do caminho? Graças a Deus ele foi mandado embora e mudou para bem longe, ufa. É Deus, por essas e por outras sei que somos parceiros.

Agora a chuva, chove, chega, chove, chega. Preciso mesmo achar meus óculos e essa meu Deus, fica só entre eu e você.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

 

 

 

 

 

Vida de médico não é fácil. Vida de enfermeira também. Principalmente quando se tem mais de um emprego e se trabalha doze horas em cada um deles. Faço 24 horas direto, dia sim dia não, sete dias por semana. Minha rotina é cansativa, mas adoro o que faço. São dois hospitais, duas UTIs, muitas vidas e uma quantidade considerável de mortes. Algumas doloridas. Esse é o meu trabalho e ainda consigo sorrir no fim do dia. Mas esse não é o caso. Só fiz essa breve introdução para que vocês entendam um pouco o meu estado físico e emocional depois de uma jornada dupla de trabalho. Era quinta-feira e voltava pra casa com um nó no peito. Naquele dia havíamos perdido uma paciente muito querida. É assim que falamos quando não conseguidos salvar os pacientes.

Desci as escadas da estação Clínicas. A plataforma, quase sempre vazia naquela hora, era ocupada apenas por algumas pessoas, na maioria, vestidas de branco como eu. Tomada pelo cansaço e um pouco angustiada, sentei-me. Abaixei a cabeça e quase cochilei. Quando senti aquele vento morno nas pernas, que sempre precede a chegada do trem, levantei a cabeça. Algo me chamou a atenção do outro lado da plataforma. Parada, em pé, olhando fixamente pra mim, estava uma mulher toda vestida de preto dos pés a cabeça. Ela usava um chapéu preto também. Aparentava ter uns 20 e poucos anos e era muito branca. Um tanto quanto pálida. Foi isso o que pude perceber no curto espaço de tempo entre a chegada do trem na plataforma e o sumiço imediato dela após a parada da composição.

Fiquei intrigada com aquela mulher, mas resolvi não pensar muito. Na verdade não tinha forças nem pra pensar. No dia seguinte, não sei porque, a imagem me veio à cabeça mais de uma vez. Não o suficiente pra que eu perdesse meu precioso tempo em tentar entender o que fazia aquela mulher olhando pra mim daquele jeito. Mal sabia eu que aquela história só estava começando.

Ao final da minha jornada seguinte, como fazia habitualmente, desci as escadas da estação Clínica. Igualmente cansada, só que dessa vez  sem nó no peito. Fui pro meu banco, sentei-me e abaixei a cabeça. Quando veio o ventinho do trem, levantei-me e tomei um susto. Lá estava ela. Olhando pra mim de novo. Resolvi olhar nos seus olhos. A distância que nos separava era de uns três metros. Vi uma tristeza serena como nunca vi antes. Gelei. O trem chegou e ela sumiu novamente. Na vez seguinte a mesma coisa. E na outra também. A imagem daquela mulher parada olhando com tristeza pra mim estava me atormentando. Perguntei pra todo mundo que eu conhecia se alguma vez a tinham visto na estação ou por ali. Nada. Ninguém nunca tinha visto uma mulher com aquelas características. Senti medo de estar vendo coisas.  O cansaço, a dupla jornada, o trabalho pesado de uma UTI, poderia estar desviando a minha consciência para o plano do imaginário. Em outras palavras, ou estava com um nível absurdo de estresse ou estava ficando louca mesma. Mas não era possível. A mulher era real demais. A única coisa esquisita era ela sempre estar com a mesma roupa preta e de chapéu. O que faria uma mulher de chapéu naquela hora da noite numa estação de metrô? Quanto mais eu pensava menos entendia o que estava acontecendo. Não me restava outra opção. Na próxima vez eu iria tentar falar com ela ou iria ao seu encontro. Me enchi de coragem. Estava com medo. Ela poderia ser real e poderia querer me assaltar ou me fazer algum mal. A gente nunca conhece as pessoas que cruzam nosso caminho. E se talvez ela não fosse real, fosse um fantasma. O que um fantasma poderia querer comigo? Tinha decidido. Iria enfrentar a situação. Não queria viver atormentada com aquela dúvida.

Meu coração quase pulava do peito quando desci as escadas. Tinha chegado a hora de descobrir a verdade. Ao chegar na plataforma nem pensei em ir pro meu banco habitual. Meu olhar se projetou para o outro lado da plataforma. Lá estava ela. Do mesmo jeito. Devolvi o olhar em sua direção. Ela me abriu um sorriso, ao qual retribui um tanto quanto sem jeito. Num impulso, virei-me e subi correndo as escadas. A única coisa que eu queria era chegar do outro lado antes da chegada do trem e do seu desaparecimento instantâneo. Quase sem fôlego e parecendo uma doida entrei na plataforma. Olhei de um lado a outro e não vi nada. Nenhuma alma viva ou morta. Eu a havia perdido mais uma vez. Nessa hora senti um cheiro forte de rosas misturado a um perfume doce. Olhei pro outro lado, onde eu deveria estar, e vi um homem sentado no meu banco. Aproximou-se uma senhora e sentou-se ao seu lado. Ele anunciou o assalto. A mulher reagiu. O homem tirou a pistola do bolso, deu dois tiros na mulher e subiu as escadas correndo. Senti uma forte tontura e caí. Ao acordar, no ambulatório do hospital que eu trabalhava e que fica em frente à estação do metrô, fui informada de que o homem que atirou estava drogado e foi capturado na porta da estação. E que a mulher, infelizmente havia morrido.

Tomei um táxi e fui pra casa. Era tarde demais e já tinha perdido o último trem. Não consegui pregar os olhos. Aquilo tudo não saía da minha cabeça. A mulher, o assassinato e o cheiro de rosas. Fiz mil suposições, todas racionais e não encontrava respostas. Parti então para o outro lado dos fatos. Fiz um esforço danado pra aceitar a suposição que me invadiu a cabeça, instantes antes de eu desmaiar na estação: a mulher que eu havia visto até então era um espírito que veio ali só pra me salvar. Era claro. Se eu não a tivesse visto, ficada intrigada e tentado ir ao encontro dela do outro lado, estaria sentada no mesmo banco de sempre e seria eu a vítima do homem drogado. Tentei resistir o quanto pude, mas nada, absolutamente nada fazia sentido. A única história que encaixava parte por parte era essa. Definitivamente, uma coisa do outro mundo. É claro que não disse isso a ninguém. Poderiam rir de mim. Eu mesma iria rir de alguém que me contasse uma coisa dessas.

Em silêncio comecei a fazer conjecturas. Logo de cara veio a inevitável pergunta: Por que eu? E quem era essa mulher?

Eu já tinha ouvido muitas histórias da estação Clínicas. Não sei se todos sabem, mas essa estação fica ao lado do cemitério do Araçá. Dizem que na época da construção, durante as escavações, muitos operários tinham visões assustadoras lá embaixo. Falavam que os espíritos apareciam frequentemente e que continuam aparecendo até hoje, principalmente depois do pôr do sol. Um homem disse uma vez que os espíritos não conseguiam descansar com o vai e vem dos trens.

Quero deixar uma coisa bem clara aqui: sou atéia e não acredito em nada disso. Nunca vi nada também. Pelo menos não até esse momento.

Contudo, o que tinha visto era real e tudo levava a crer que poderia ser um espírito. Foi nisso ao que me agarrei pra tentar desvendar esse mistério e acreditar que eu ainda estava lúcida, apesar de tudo. Se fui ajudada por um espírito, deveria ao menos saber quem era e agradecer o que tinha feito por mim.

Reservei meu sábado de folga para começar a minha busca. Não sabia quem eu procurava. Tinha uma imagem na cabeça e um roteiro a seguir. A primeira etapa era o cemitério do Araçá. Era uma manhã quente de primavera. Fiquei abismada com a beleza e paz daquele lugar. Muitas árvores e verdadeiras construções em homenagem aos mortos. Muitas delas adornadas com esculturas magistrais de Victor Brecheret. Não que passasse a freqüentar cemitérios dalí pra frente. Não era meu estilo, mas era um lugar bonito de se ver. Deve ser por isso que os góticos adoram cemitérios.

Depois da minha entrada triunfal pela alameda principal e das minhas descobertas iniciais, comecei a olhar túmulo por túmulo, nome por nome, foto por foto. A busca poderia durar um dia inteiro. Um dia não, semanas. Até meses lá dentro. E se ela não tivesse enterrada ali? Se tivesse em outro cemitério?

Parei por um instante e respirei fundo. Estava me achando uma doida varrida e morrendo de medo de algum conhecido me ver. Tudo bem que estava toda vestida de preto e de óculos escuros. Pensei nesse disfarce e numa boa explicação caso um amigo me encontrasse ali.

Já passava do meio dia e nada. Não sabia mais por onde tinha passado e a fome começou a apertar. Saí do cemitério e fui até um bar que fica do outro lado da Avenida Dr Arnaldo. Poderia encontrar alguém do hospital, mas estava cansada e com fome e não queria andar dois quarteirões abaixo na Teodoro Sampaio. Comi um queijo quente, tomei um suco de laranja e retomei novamente minhas buscas.

A tarde começava a despedir-se do dia e eu estava exausta. Mesmo assim resolvi parar embaixo de uma árvore e assistir ao pôr do sol que se deitava pelos lados do Sumaré. Acendi um cigarro. Não costumo fumar sempre, apenas em situações especiais. E essa situação, convenhamos, era mais do que especial. Valeria aquele cigarro e aquele breve descanso para minhas pernas. Dei algumas tragadas. Meu olhar vagava perdido, sem achar um ponto fixo. Assim como minhas convicções sobre tudo naquele momento, inclusive sobre minha sanidade. Puxei fundo e dei a última tragada no cigarro. Como se atraída por uma força olhei pra frente. Ela estava ali, olhando pra mim. Não como das outras vezes. Era a sua foto estampada numa sepultura de mármore preta. O mesmo olhar triste e o sorriso enigmático. Fui chegando perto, quase que tropeçando nas minhas próprias lágrimas. Mais uma vez ela me ajudou. Agora a encontrar ela mesma.

Tirei uma caneta da bolsa e anotei seu nome, data de nascimento e data de morte. Chaamava-se Maria Georgete Gomes. Tinha nascido em 06 de junho de 1933 e morta em 29 de outubro de 1957. Corri até a administração do cemitério e lá fui informada, que a pedido da família, nenhuma informação poderia ser dada. Diante da minha cara de decepção, o funcionário me disse: “Minha senhora, não posso entrar em detalhes, mas essa moça teve um fim trágico”.

Fui para casa atordoada, cansada, cada vez mais confusa e com uma certeza absoluta: vi um espírito e ele se comunicou comigo.

Passei o fim de semana juntando mais peças do meu quebra-cabeças e cheguei a mais uma conclusão. Ela talvez tenha me ajudado para que eu também não tivesse tido um fim trágico como ela. Mas com isso aquela senhora teve um fim trágico. Por que ela me escolheu? Será que não era a minha hora e sempre dão um jeitinho de nos avisar? E que ela era apenas uma mensageira disso?

É claro que não me contentei com esse desfecho. Eu precisava saber mais.

Na segunda-feira pedi licença de uma semana dos dois hospitais. Aleguei estresse. Aceitaram rapidamente. A minha cara não deveria ser das melhores depois de ter passado o fim de semana praticamente em claro.

Três dias de pesquisas e nada. Internet, arquivo público, biblioteca, cartório e mais uma dezena de lugares que se possa imaginar. Cheguei a voltar no cemitério e implorar na administração, mas é claro, saí e lá sem nada. De repente, numa dessas idas e vindas entre um lugar e outro, me deu um estalo. Se ela teve um fim trágico, ela pode ter sido assassinada. Não tive dúvidas. Fui direto ao museu do crime da polícia civil. Lá chegando foi relativamente fácil. Expliquei a situação, o que estava procurando e dei o nome dela. Em menos de dois minutos o atendente simpático voltou com uma pasta e colocou na minha frente. Estava tudo ali. A mulher era uma jovem enfermeira que foi brutalmente assassinada ao sair do hospital depois de um dia de trabalho. O hospital que ela trabalhava era um antigo hospital que deu lugar ao que é hoje o maior complexo hospitalar da cidade e onde, por acaso, eu trabalho. E a rua onde foi assassinada é a rua onde passo todos os dias quando vou para a estação do metrô Clínicas.

Um calor aqueceu meu coração. Meu choro se misturava a um riso tímido e orgulhoso. Minha busca havia chegado ao fim e algo de muito diferente estava se processando dentro de mim.

Nunca contei essa história a ninguém, nunca mais a vi e também nunca vi nenhum outro espírito. Aquele encontro foi único e agradeço todos os dias por tê-lo tido. Minha vida voltou ao normal. Tudo continua como antes, a não ser por um detalhe: todo dia 12 de maio, dia da enfermeira, vou até o cemitério e coloco flores em seu túmulo. É como se eu dissesse: “Parabéns pelo dia de hoje minha amiga”.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.

 

 

 

Sempre dirigia, dirigia para cima e para baixo, cada hora era uma coisa. Levava os filhos, supermercado, trabalho, médicos, banco. Dirigia e dirigia, o carro era bom ainda, não era tão cansativo dirigir. Herança dos tempos gordos.

Hoje os tempos são magros, magrinhos, ela envelheceu dez anos em um. Estava quase irreconhecível por fora e por dentro, mais por fora que por dentro. A dureza do dia a dia, tiraram sua alegria.

Sempre no trânsito, parada nesses congestionamentos das grandes cidades, e sua cidade era muito grande. Pensava no que ia comprar, pensava na sequencia da agenda e pensava que se pudesse voltar no tempo, voltar, voltar, ela encontraria de novo com ele. Ela teria seguido com ele. Ela teria dito o que sentia.

Ela e ele estariam juntos hoje e provavelmente felizes fazendo compras no supermercado ou cozinhando juntos ou mesmo em uma dessas festas de família, juntos. Os filhos não seriam os dela e os dele. Seriam os nossos. Teríamos sobrevivido juntos ao tempo? Essa pergunta ficava na sua cabeça assim, mas tinha certeza da resposta, sim teriam sobrevivido juntos e felizes. Ele que não saia da sua cabeça. Cabeça branca, cabeça quente, cabeça rodando.

Rodou, rodou e rodou tanto que foi parar lá atrás de onde nunca tinha saído. Estava na casa de amigos, risadas altas, comes e bebes, conversas engraçadas, alguém sem noção e ele. Ele ali. Ela também. Mas como? Ela pensava, como assim? Como estou aqui? Não conseguia se ver, só sentir. Um fantasma dela mesma.

Preciso dizer. Ele precisa saber. Mas…. eu não sei o que dizer. O que eu não sei dizer? O quê? O quê?

Existe uma teoria que tudo acontece ao mesmo tempo em todos os tempos, que existem universos paralelos de nós mesmos. Ela conseguiu atravessar isso, sabe lá como fez isso. Estava tendo uma nova chance.

– Uau, esse roteiro é fantástico, é disso que preciso. Pensava Carla, a atriz, empolgada. Ela precisava de um bom papel urgente para dar um “up” na sua carreira.

Pensava Carla, no meio do trânsito, assim como a personagem. Pensava: “o que eu não sei dizer?”

Ela tinha clara a resposta, mas ainda não tinha coragem. A coragem ela deixava para dar vida a personagem, que literalmente seria a sua salvação. Coincidência ou não, olhou para o lado e viu alguém que não via há muito tempo e teve aquela sensação de já ter vivido aquilo.

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :)

 

“… Sei que sou uma pessoa bem humorada, que vejo coisas boas no mundo e nas pessoas, mas fico extremamente triste com as brigas e ofensas deles. Não sei porque é assim. Não sei o que fazer de diferente. Se tem algo que consegue me colocar para baixo é isso, essas situações. Me tira a força. Me tira a paz. Faz meu copro doer. Rouba minha energia produtiva e criativa e me leva para um estado de telespectador sem iniciativa. Se tem de fato algo que nos dias de hoje eu classifico como algo que me deixa em profunda tristeza é essa falta de amorosidade…”

14 de fevereiro – Gisa Luiza – 48 anos

Adriana Chebabi – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde escreve contos, poesias e crônicas nesse blog. Publicitária e empresária. Divide seu tempo entre suas agências Modo Comunicação e Marketing  www.modo.com.br, 3bis Promoções e Eventos e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa :). A personagem Gisa Luiza do “Fragmentos de um diário” é uma homenagem a suas duas avós – Giselda e Ana Luiza

Miguel morava numa travessa da rua Emília Marengo, na divisa entre o Tatuapé e o Jardim Anália Franco. A sua casa ficava entre as estações Tatuapé e Carrão do metrô. Não sabia qual delas ficava mais perto da sua casa, mas o fato é que pela manhã sempre descia a rua Apucarana em direção a estação Carrão e no final da tarde saltava invariavelmente na estação Tatuapé para bater um papo e tomar uma cerveja no bar do gaúcho, seu grande amigo.

Seus dias eram todos iguais. De casa pro trabalho, do trabalho pro bar do gaúcho e de lá pra casa. Era assim sem sustos nem novidades. Mas um dia, como sempre acontece na vida das pessoas que nunca acontecem nada na vida, algo mudou a sua trajetória. Era terça-feira. O dia ainda não sabia se iria abrir em sol ou se recolher com nuvens e possível queda de temperatura. Na dúvida, Miguel, que já tinha olhado umas cinco vezes pela janela, optou por colocar a sua camisa bege de manga comprida. Pra contrastar com seu espírito e monotonia, colocou sua calça vermelha e nos pés seu all star surrado da mesma cor. Não era possível dizer que estava esquisito com aquela roupa, mas era impossível dizer que ele estava combinando. Demorou tanto pra sair de casa, acabou se atrasando e com isso teve que apertar o passo rua abaixo. No meio do caminho o sol abriu e o suor já dava o ar de sua graça em sua camisa quando, ao passar em frente a um velho sobrado, sentiu um forte cheiro de pão queimado. Estancou imediatamente. Andava tão rápido que a súbita parada fez com que sentisse a camisa molhada grudar ao corpo e o coração pulsar em sua garganta. Aquilo seria capaz de irritá-lo, mas naquele dia não. O cheiro o envolveu tão arrebatadoramente que esqueceu de tudo ao seu redor, inclusive de ir ao trabalho. Mergulhado nessa ácida fragrância, virou a roda do tempo em sentido anti-horário e rumou, sem escalas, direto ao seu passado. Num instante estava sentado na cadeira, cotovelos apoiados na mesa e pernas balançando no ar embaixo da mesa. Era assim, todas as tardes, na casa da sua avó. Ele olhava o preparo do café com seu aroma inconfundível e depois ficava fascinado quando ela espetava um pedaço de pão no garfo e colocava direto no fogo do fogão. Quase sempre o pão queimava mais do que devia, ficava com um gosto meio amargo, mas nada disso importava. Divertia-se com aquilo, com aquele churrasco de pão como ele assim chamou uma vez, com o cheiro que tomava a casa toda e com o fato de poder dividir com ela aquele quase pedaço de carvão. Essa era a sua avó, diferente de todas. Tanto que a prova estava a sua frente, ou melhor, dentro do seu nariz. Nada de fazenda, bolo de milho quentinho, banho de rio. Era o cheiro do pão queimado que o chamava à memória, que o levava de volta à infância na casa da sua avó. Uma mulher moderna, urbana, a frente do seu tempo e que era a cara da cidade. Numa dessas tardes, ela contou que quando jovem, na época da guerra, trabalhava numa fábrica de luvas. Disse com um riso maroto que escrevia bilhetinhos de amor e colocava dentro das luvas enviadas pra guerra. Depois, ficava imaginando a cara do soldado sortudo. Miguel achava o máximo essa avó que queimava o pão no fogão e que sempre tinha histórias adequadas às suas tardes de infância paulistana. O tempo, com sua força inexorável, acabou com as tardes de pão queimado e histórias fantásticas, só não acabou com a sistemática da repetição gestual, com o ritual. As tardes foram substituídas pelo início de noite sempre as segundas e terças, dias em que Miguel saía mais cedo do trabalho e passava na casa da avó antes de ir pra faculdade. Chegava com o pão quentinho embaixo dos braços enquanto ela o esperava com café pronto no bule.

Sentavam-se à mesa. Ele tirava os sapatos e esticava os pés embaixo da mesa. Miguel tinha uma estranha sensação de alívio. Os seus pés dentro meia suada, quando tocavam o chão frio, explodiam num tímido arrepio que subia-lhe as pernas.

Ela servia o café e partia o pão com a mão – ela adorava dilacerar o pão com a mão.

– E aí, vamos falar de política?

– A senhora não tem jeito mesmo, heim?

Riam divertidamente e chamavam para a cozinha o avô que estava na sala com a TV ligada no jornal e no último volume.

Definitivamente aquele tempo não voltava mais. Seus avós não mais existiam, a casa havia sido vendida e ele beirava os quarenta anos. Mas ali, parado na calçada, se deu contas de três coisas importantes: o calor estava insuportável, já tinha perdido o horário do trabalho e estava cansado de fazer tudo igual todos os dias. O cheiro do pão queimado e a lembrança das tardes na casa da sua avó, eram a prova de que era possível fazer as mesmas coisas de formas diferentes. E que ele mesmo tinha sido capaz, num tempo esquecido em sua memória, de viver sempre o mesmo ritual com o frescor de uma primeira vez. Enxugou o suor que corria em sua testa e subiu a rua de volta para sua casa. O seu semblante, para quem cruzava com ele em sentido contrário, revelava um homem decidido. Ele mesmo ainda não sabia o que tinha decidido.

Abriu a porta da sala, pegou o jornal embaixo da porta – ele sempre saía antes do jornal chegar, fato que o obrigava a ler notícia praticamente velha depois do jantar. Foi direto pra cozinha e preparou o coador de café. Enquanto a água fervia, foi até o quarto colocar a bermuda, o chinelo e uma camiseta velha. Calmamente leu o jornal de cabo a rabo, lavou a louça da noite anterior, varreu o quintal, cortou a grama. Fez tudo como se estivesse de férias, sem rumo, sem hora pra nada. Tomou um banho demorado. Ligou pro trabalho dizendo que não iria trabalhar naquele dia e que também na iria no dia seguinte, nem no outro. Não iria o resto da semana.Não iria nunca mais. Estava decidido e não voltaria atrás. Tentou a explicar a mesma coisa para a sua esposa que, atônita, queria saber o que estava acontecendo.

– Tá Miguel, você arrumou outro emprego?

– Não.

– Como a gente vai pagar a prestação da casa?

– Não sei.

– Você ta louco?

– Não. Completamente lúcido.

– Eu preciso trabalhar. Em casa, de noite, você vai me explicar essa história direitinho. E como vai.

Miguel sabia que teria uma tarefa difícil naquela noite. Não seria fácil explicar pra sua mulher o que nem ele mesmo sabia ao certo que estava acontecendo. Apenas não queria mais fazer as mesmas coisas todos os dias. Estava cansado da sua rotina no escritório de contabilidade do seu tio. Ele era responsável pela emissão, controle e baixa nas guias de GPS de todos os clientes do escritório. O salário não era lá animador, mas entrava uns extras na época da declaração de Imposto de Renda, quando ajudava o seu tio com a declaração dos clientes. Aquele não era o sonho profissional de Miguel. Talvez não fosse o de ninguém, mas era o que pagava as contas no final do mês.

Era mais de meio dia quando saiu novamente de casa. Caminhava pelas ruas do bairro com uma enorme sensação de leveza. Foi direto pro bar do gaúcho. Iria almoçar lá e ele seria o primeiro a saber a novidade. Conversou bastante com o amigo, que como sua esposa, queria saber o que ele faria da vida.

– Talvez eu procure um outro emprego. Talvez eu mude de profissão.

O que fazer não era a sua principal preocupação. O que não queria era fazer tudo igual como sempre fez. Despediu-se do amigo dizendo que naquela tarde não voltaria pra

cerveja. Pegou o metrô na estação Tatuapé e foi direto até a estação Palmeiras-Barra Funda. Andou com a animação de um menino de 8 anos até o Parque da Água Branca. Um lugar freqüentado quase que diariamente em boa parte da sua infância. Aquele era um dia de lembranças, de voltar ao passado. Sentado à sombra de uma árvore, fechou os olhos. O som dos carros e ônibus da Av Francisco Matarazzo contrastava e entrava em sintonia mágica com o som dos pássaros e da vida que passava lentamente dentro do parque. Aproveitou aquele momento de não pensar em nada apenas pra sentir a sua cidade. Com a certeza de que caminhamos inconscientemente rumo ao nosso destino, lembrou de uma vez que ali no parque, quando ainda tinha 11 anos, de ter feito uma oficina de panificação nas suas férias. Tinha achado o máximo aquilo. Tanto que durante um bom tempo ficou dizendo pra todo mundo que quando crescesse queria trabalhar fazendo pão. Era isso, aquela terça-feira era o dia de Miguel encontrar com os eu passado e com o seu futuro. Foi preciso voltar no tempo para seguir em frente. Pela segunda vez no dia estava decidido: iria fazer um curso de panificação ou de cozinha. Ele sempre teve habilidades culinárias e esse era o momento. Saiu correndo do parque ao lembrar que ali ao lado havia uma unidade do Senac, que oferecia cursos na área de gastronomia. Inscreveu-se num curso de cozinheiro chef interncional, cujo programa oferecia disciplinas na área de cozinha, panificação e confeitaria. A euforia era tanta que quase não se deu conta que tinha arrumado mais um problema. Além de explicar pra sua esposa – que tinha o justo nome de Maria Prudência e era funcionária pública do tribunal de contas da união, o porquê havia largado o trabalho, ainda tinha que arrumar uma boa desculpa pelo curso de gastronomia no qual acabara de se matricular. Era preciso ter calma e pensar numa estratégia segura para não causar um trauma muito grande em Maria. Na volta pra casa, resolveu então, que faria um belo jantar pra esposa e que esperaria o momento certo pra começar o rol de explicações que certamente ela exigiria. Não levou mais do que duas estações para que resolvesse o cardápio da noite. Só precisaria fazer uma parada rápida no meio do caminho para comprar alguns ingredientes. Era só descer na estação Pedro II e caminhar um pouco até o mercado municipal. Nem precisaria fazer baldeação. Comprou coisas para salada, petiscos pra entrada, um pão italiano, batatas e salmão fresco. Quase na estação, lembrou que poderia ter comprado um espumante. Resolveu que iria pegar o trem e descer duas estações depois, na Bresser-Moóca. Conhecia uma adega ótima de vinhos a dois quarteirões da estação. Enquanto esperava na plataforma chegou a conclusão que era um homem de sorte. Podia fazer tudo de metrô. Ir ao trabalho, desistir do trabalho, visitar amigos e até fazer um jantar pra sua esposa. O metrô faz parte da vida de todos, basta escolher a estação.

– Já pensou se essa cidade fosse igual a Paris ou Londres, cheia de linhas de metrô, que beleza que não seria?

– O senhor ta falando comigo?

Perguntou tímida a senhora que estava ao seu lado. Ele, absorto em pensamentos continuou.

– Um dia vou levar a Maria para Paris.

– Ei, moço? Tudo bem?

– Oi nada não. Essa é minha estação.

Com três sacolas plásticas na mão desceu correndo as escadas e ganhou a rua. Na adega escolheu um espumante que a tempos não saboreava. Em casa, a primeira coisa que fez foi colocar a bebida pra gelar. Depois arrumou a mesa e fez o cartão para deixar ao lado do buquê de rosas que comprou numa floricultura que fica ao lado da estação Carrão. Foi para a cozinhar começar o jantar.

Maria, que acima de tudo era uma mulher prudente, achou melhor não questionar o marido logo que chegou em casa. As flores, a mesa posta, o cheiro do seu incenso preferido e o aroma inebriante que vinha da cozinha aqueceram o seu coração. Havia um motivo para aquilo tudo. Um motivo especial certamente. Afinal Miguel não fazia isso a tempos. A vida em casa há muito era uma chata rotina, sem surpresas.

Foi até a cozinha, deu um beijo no marido e foi para o banho. Lá pelas tantas, na mesa, olhando nos olhos vívidos e acesos de Miguel, e com a garrafa do espumante um pouco abaixo da metade, serviu uma taça pra ela e outra pra ele. Feliz e curiosa, achou que era o momento de finalmente entrar no assunto.

– Obrigada. Você sempre arruma um jeito de me surpreender.

Hoje foi um dia cheio de surpresas.

– É…um pouco.

– Antes que você me diga o que aconteceu hoje, porque o senhor vai me explicar tudo, tim tim por tim tim, quero te dizer uma coisa. A última vez que vi teus olhos brilharem assim foi no nosso casamento. Sabe, durante o jantar andei pensando umas coisas aqui. Você bem que poderia ser um chef de cozinha. Que tal você cozinhar pra mim todos os  dias? O que você ganha com seu tio é uma mixaria. Sinto tanta falta dessas coisas, como hoje.

– Fechado. Já saí do escritório. Agora só falta virar cozinheiro profissional.

– Você é impossível mesmo.

Miguel tocou a mão de Maria. Quase tinha esquecido como eram macias. Esticou-se por sobre os pratos e beijou-a. Foi até a geladeira e pegou mais um espumante. Não sabia se a mulher estava falando sério, mas era tudo que queria ouvir. Aquele dia foi perfeito e sabia que os outros não seriam assim. Não queria dizer mais nada, nem era o momento para isso. No dia seguinte, no café da manhã continuariam a conversa. Colocou uma música, diminuiu a luz. Dançaram lentamente. Um pouco tonto, fechou os olhos e viu o mundo girar. O mesmo mundo que o levou de volta a infância, que o lançou pro futuro, que fez de uma terça-feira qualquer uma data importante, única.

– Você está sentindo esse cheiro Miguel?

– Sim.

É dama da noite, disse ela. Ele apertou-a junto ao peito num gesto de concordância. Fosse o que fosse não discordaria dela. Era de fato dama da noite, mas para ele, aquela terça terá sempre cheiro de pão queimado.

Gil Guzzo – Belo Urbano, é autor, ator, diretor e fotógrafo. Em teatro, participou de diversos festivais, entre eles, o Theater der Welt na Alemanha. Como diretor, foi premiado com o espetáculo Viandeiros, no 7º Fetacam. Vencedor do prêmio para produção de curta metragem do edital da Cinemateca Catarinense, por dois anos consecutivos (2011 e 2012), com os filmes Água Mornas e Taí…ó. Uma aventura na Lagoa, respectivamente. Em 15 anos como profissional, atuou em 16 peças, 3 longas-metragens, 6 novelas e mais de 70 filmes publicitários. Em 2014 finalizou seu quinto texto teatral e o primeiro livro de contos. É fundador e diretor artístico do Teatro do Desequilíbrio – Núcleo de Pesquisa e Produção Teatral Contemporânea. E o melhor de tudo: é o pai da Bia e do Antônio.