“Anunciaram que você morreu,

Meus olhos, meus ouvidos testemunham:

A alma profunda, não.

Por isso não sinto agora a sua falta.

Sei bem que ela virá

(Pela força persuasiva do tempo).

Virá súbito um dia,

Inadvertida para os demais…

Mas agora não sinto a sua falta.

(É sempre assim quando o ausente

Partiu sem se despedir:

Você não se despediu.)

Você não morreu: ausentou-se.

Direi: Faz tempo que ele não escreve.

Irei a São Paulo: você não virá ao meu hotel.

Imaginarei: Está na chacrinha de São Roque.

Saberei que não, você ausentou-se. Para outra vida?

A vida é uma só. A sua continua

Na vida que você viveu.

Por isso não sinto agora a sua falta.”

(Trechos do poema -A Mario de Andrade Ausente, Manuel Bandeira).

Letícia, minha menina querida!

          Tarde de primavera que ameaça chover,

Ao olhar para o céu vejo nuvens escuras carregadas querendo despencar.

Sabe, Lê, o céu desde pequena me inquieta…

Acreditava que com uma escada gigante, como aquela de bombeiros, alcançaria o seu topo, tocaria nas nuvens e finalmente descobriria quem lá habitava:

Seriam os anjos? São Pedro? As pessoas que quando morrem vão para o céu? Só os bons conseguem uma vaguinha? Se tivermos muito pecado não vamos para lá?

Afinal, o que acontece neste lugar?

Sabia que “… o céu ficava em cima do chão. O céu que continua. Em cima do céu há mais céu. E depois do céu do céu há mais céu. E depois de depois do céu do céu nenhum planeta, nenhum cometa, nenhum meteorito. Só o céu e céu e céu sem fim nem infinito”.(Arnaldo Antunes).

Nessa tarde que sento ao computador para escrever a você carregada de céu, retornam a minha memória fragmentos de um outro dia que percebi que como a mim, o céu, também te provocava um desassossego.

 Você, Lelê, sentada no colo de sua avó bem próxima à janela olhando para o alto. Olha para sua vó Luiza e pergunta:

“O vô Agapito está no céu?” No seu rostinho paira muitas dúvidas, algo estranho povoa seus pensamentos,

 Silêncio! “Ah! Minha filha, o seu avô está no céu!”

 Letícia pára, olha se perguntando, estranhando um pouco quem sabe,

Afinal, o céu sempre parece tão distante de nós e seu avô é uma figura tão presente no seu dia-a-dia:

nas diversas histórias que contamos a respeito de seus gostos e manias quando nos reunimos;

nas situações diárias que faz com que muitas vezes entre nós imaginemos como ele agiria, o que diria;

nas fotografias das nossas viagens para o sítio na Bahia que emitem sinais fortes, poderosos de sua presença;

nas coisas velhas, de um outro tempo que guardam o seu jeitinho;

nas perguntas que muitas vezes lançamos querendo ainda suas respostas;

nas idas ao cemitério para colorir seu jazigo e ali você corre de um lado para outro, menina travessa, trazendo água para encher os vasos com flores de cores fortes e vibrantes, suas preferidas!

Saiba que seu avô adorava comprar tecidos e vasos de flores alaranjados, roxos, lilases, amarelados, compondo uma “dinâmica botânica de cores!” (Zélia Duncan). Agora quem sabe, me dou conta das suas preferências nas minhas, nas cores que colorem minhas roupas, meus colares!

Nas lembranças das tardes de sábado que saíamos eu, seu pai, sua avó e seu avô, andando pelas ruas do centro de São Paulo, da Consolação a Sete de Abril, de lá até a 24 de Maio, atravessando o Vale do Anhangabaú, de mãos dadas, caminhando e ouvindo as lembranças do tempo quando chegou nessa cidade e como se encantou pelo letreiro iluminado do Hotel Jaraguá que trazia as últimas notícias. E hoje seu pai, Alexandre, caminha com você por essas mesmas ruas, contando às histórias que ouviu e quem sabe, inventando tantas outras…

Então, algo parece não combinar…Tão perto e ao mesmo tão longe?!Tão longe e ao mesmo tempo tão perto!? É possível?

Depois de um tempo, Lê responde: “O céu está tão longe, mas o meu avô está bem perto, né vó!?”

Sorrisos emocionados inundam a tarde. E de fato, como diz o poeta a sua vida, a do vô Agapito, continua na nossa vida. Por isso, quem sabe nos pareça tão perto! Acho que a sua sensação é similar a do poeta, seu avô apenas ausentou-se! Mesmo não o conhecendo você tem uma familiaridade com ele que não permite tamanha distância.

E a partir dessa lembrança que resolvi contar para você um pouco mais sobre o vô Agapito,

Nome esquisito, ao longo dos anos escutei as mais diferentes versões sobre seu nome, lembro-me com nitidez dele soletrando seu nome A-GA-PI-TO, muitas vezes ao telefone,

Para as pessoas que não entendiam quando ouviam o que ele dizia, soava estrangeiro.        

E de fato é estrangeiro, seu nome era uma homenagem a São Agapito, santo italiano que sua bisavó retirou de um calendário.

E quem sabe, todo migrante quando chega a essa cidade sente-se um pouco estrangeiro.

Imigrante nordestino, semi-analfabeto, saído de um vilarejo chamado São Felipe, aproximadamente 250 quilômetros de Salvador, que veio para São Paulo há 45 anos pela busca e pelo sonho de alcançar condições melhores de vida. E que nas suas práticas cotidianas, criou múltiplas táticas de sobrevivência, especialmente na arte de obedecer, lutar e driblar em meio a situações mais adversas para garantir a mim e aos seus tios (Aguinaldo, Antônio Carlos, Arinaldo) e ao seu pai, Alexandre, possibilidade de fazer uma história diferente: para seu avô uma história diferente começaria por garantir o acesso e permanência dos filhos na escola.

Era seu avô, que toda manhã levava-nos, eu e um dos seus tios até o ponto de ônibus, já morávamos no Centro e íamos até a Freguesia do Ó, estudar num colégio particular, de freiras.

Ainda estava escuro quando saíamos de casa, de mãos dadas, a passos largos e quando chegava no ponto seu avô, sempre tirava do seu bolso um punhado de balas.

Balas: essa guloseima feita de açúcar ou essência de frutas, leite para adoçar nosso trajeto.

Esse homem de poucas letras e de poucas palavras, mas de muita sensibilidade adorava deixar bilhetinhos nas datas especiais, tais como, aniversário, Natal, junto com seus presentinhos … aonde escrevia pouco, mas não deixava de dizer que nos amava. Isso me lembra um poema que gosto muito, da Adélia Prado, que diz assim: “…Minha mãe acha estudo/ A coisa mais fina do mundo./Não é/ A coisa mais fina do mundo é o sentimento./Aquele dia de noite, o pai fazendo serão, ela falou comigo:/ “Coitado, até essa hora no serviço pesado.”/Arrumou pão e café, deixou tacho no fogo com água quente./Nem falou em amor. Essa palavra de luxo.”

Sua avó guarda como relíquia alguns postais enviados por seu avô de quando ainda namoravam, coloridos e assim escritos: “… Ofereço A minha queridinha Luiza França com amor. Hagapito Santos”.

Sabe Lê, nesses cartões seu avô escreve seu nome de duas maneiras, algumas vezes com H outras sem; a mesma confusão, que muitas pessoas faziam quando escreviam seu nome. (Risos emocionados de saudades!).

Seu avô tinha dificuldades com o mundo das palavras, ou melhor, quem sabe “corrompesse o silêncio das palavras, não gostava de palavra acostumada” como bem diz, Manuel de Barros. Porém, tinha muita facilidade com o mundo dos números. Mais ou menos na sua idade, era ele que me ajudava a fazer as listas intermináveis de problemas de matemática. Aí, não havia dificuldade de compreensão e sim, muitas facilidades! Nunca precisou de calculadoras, no supermercado fazia de “cabeça” as contas e me espantava ao ver que o valor calculado estava muito próximo do que foi gasto: seu avô era o nosso “homem que calculava.”

Das balas aos números, dos números as letras, das letras aos livros…

Uma grande paixão de seu avô que também se tornou minha: nunca deixou de comprar as enciclopédias (Conhecer, Trópico, Os Bichos…), dicionários, gramáticas, as revistas, os jornais e quando nasci comprou a Coleção de Monteiro Lobato: sem dúvida era a forma de trazer para dentro de casa a cultura letrada que ele tanto admirava, mas não teve a oportunidade de usufruir e que sempre ocuparam lugar de destaque na estante e ele dizia: “Não é só para ver, é para tocar, pesquisar!” Usufruíamos do seu desejo, mexíamos por ele…

Quando seu avô morreu, descobrimos um fato revelador remexendo nos seus arquivos pessoais, organizados nas noites de domingo quando eu ficava por perto para ganhar papéis para brincar e para ajudá-lo a rasgar o que não servia.

Nos deparamos com uma preciosidade: uma pequena hemeroteca, sabe o que é isso?

É a sessão da biblioteca onde estão jornais e revistas. Seu avô organizou a sua guardando artigos de jornais e revistas que narravam os estudos sobre a diabete (vovô era diabético a mais de vinte anos) sonhava que os avanços da medicina propiciassem a tão esperada cura e o abandono da insulina. Montou sua pequena hemeroteca sem nunca ter entrado em uma biblioteca!

Então, minha menina, posso dizer que dele herdei a paixão pelos livros, pelas revistas e a mania de guardar artigos e suplementos de jornais que sempre acredito que um dia vou usar e não é que às vezes acabo usando mesmo!?! E, agora escrevendo para você dou-me conta o que fez com que anos mais tarde eu optasse por ser bolsista na Unicamp do Arquivo Edgard Leuroth, no IFCH. Trabalhava com recortes de jornais da década de 20 sobre a origem da Coluna Prestes e a vida de Miguel Costa, já ouviu falar sobre isso?

É uma parte muito importante da nossa história e qualquer hora conto um pouco para você.

Mas, nessa época uniam-se muitas vontades da sua tia: a primeira era a tentativa de me aproximar da História, afinal, era minha primeira opção no vestibular da Unicamp e outra para mexer, vasculhar, organizar documentos antigos, as marcas de meu pai em mim!

Lelê, num dia há vida. Vovô seguia um dia após o outro, sonhando apenas com a vida que se estendia a sua frente, com a chegada da tão desejada aposentadoria, depois de anos, muitos anos de árduo trabalho, fazendo muito serão para garantir a sobrevivência de sua família. Com a aposentadoria desejava retornar para sua terra, apesar da paixão pela cidade aonde criou seus filhos, sentia-se aqui, um pouco estrangeiro e sonhava retornar para o seu sítio, para cultivar a terra, reencontrar suas raízes, suas marcas. Porém, a vida nos aprontou uma surpresa, de repente aconteceu sua morte.

Mas, a vida tem nos ensinado que vovô ausentou-se e o que “a memória amou fica eterno”(Adélia Prado).

Direi: Faz tempo que não andamos de mãos dadas.

Irei ao centro da cidade: E na volta pararei em frente ao letreiro do Hotel Jaraguá.

Imaginarei: Está no sítio consertando a cerca e lá vem ele caminhando a passos largos, assoviando e anunciando sua chegada.

Um abraço apertado, com amor.

Tia Déia.

Andreia dos Santos de Jesus – Bela Urbana. Paulistana, pedagoga formada pela Faculdade de Educação da Unicamp. Uma mulher negra que escolheu a escola como morada. É nesse terreiro que honra meus ancestrais, travando batalhas e criando possibilidades poéticas de reexistir. È a orgulhosa Mãe de Marina, a menina que veio do mar, e que traz na sua pele a cor da mestiçagem brasileira.

Sem muita pretensão, uma bela amiga me mostrou um texto, que li e achei o máximo.

Eu nunca escrevi, ou melhor, não sei escrever, “malemá” receitas de bolo, um tanto quanto malfeitas, mas ela estava ali, bela, escritora, sorridente, mostrando através das linhas que escrevia o que se passava dentro dela.

O texto que ela havia escrito estava publicado em um site, belasurbanas.com.br, o nome do site já me atraiu, há uma certa poesia neste nome, talvez um pouco nostálgica, mas poesia. Ao ler este nome, imaginei um espaço onde mulheres, belas, deixassem ali  seus pensamentos e histórias, então “bora” olhar essas mulheres, olhá-las por dentro delas.

Chegando lá encontrei Marina, Simara, Crido, Gil, Maria, Adriana e muitas outras pessoas, não só mulheres, homens também escreviam lá, descreviam os seus dias e ideias, seus pensamentos e sentimentos.

Pessoas que, a partir de seus textos, nos convidam a participar de alguma forma de seus mundos, que contribuem com histórias, emoções e pensamentos só delas, nos convidando a entrarmos em suas casa e conhecermos um pouco sobre elas.

Fugimos fortemente das matérias de televisão, onde a tragédia é ponto presente. Aqui, no Belas Urbanas, encontramos emoção, histórias para rir e histórias para chorar.

Pensei: Que legal a atitude dessas pessoas, como elas conseguem escrever assim? Eu jamais conseguiria, elas são artistas em sua alma, é apenas expressão, um pouco, desta arte aqui, mas não eu (risos), distante demais da qualidade delas.

Mas será que se pegasse uma caneta, hoje em dia um teclado, sentasse à beira do sofá, preferencialmente no chão, eu também não seria capaz de produzir alguma coisa nesse sentido? Talvez, não na qualidade do que elas, estas belas pessoas escreveram, mas algumas ideias poderiam sair.

Então me deparei com a primeira problemática, sobre o que escrever, já sentado no chão, caneta na mão, um belo Jazz tocando na vitrola (lembra o que é vitrola, né?) e uma taça de vinho descansando sobre o móvel, me propus a  escrever, então vamos lá, vai ser moleza.

Alguns minutos se passaram, a taça de vinho já havia acabado, o Jazz já era outro, e adivinha, nada de ideias (risos), não era fácil, mas não sou homem de desistir, se ao menos tivesse as qualidades de Marina seria fácil, já estaria pronto, se fosse eu Maria, ou quem sabe Crido, este texto já estaria até publicado, mas não sou, sou um amador tentando fazer algo que os profissionais fazem com facilidade.

Mas o que eles fazem de verdade se não expressar o que se passa dentro deles? E o que se passa dentro deles também pode existir em mim, então, achei que seria legal escrever sobre como me sinto ao ler o que eles escrevem.

Escrevi que me sinto bem quando leio o que escrevem, que viajo para dentro de seus mundos e vivo as suas histórias, que sites como estes fazem pessoas alheias como eu viverem muitas outras vidas.

Que tenhamos pensamentos diferentes de como agir em muitas determinadas situações, e que, de alguma forma, aprendamos com as histórias de outras pessoas.

Este é o texto Belas Urbanas, nascido depois de uma garrafa de vinho e muito boa música!

André Araújo – Belo Urbano. Homem em construção. Romântico por natureza e apaixonado por Belas Urbanas. Formado em Sistemas, mas que tem a poesia no coração. 46 anos de idade, com um sorriso de menino. Sempre irá encher os olhos de água ao ver uma Bela Mulher sorrindo.

Ela andava pelas ruas. Era madrugada, estava só.

A noite tinha sido uma sucessão de desencontros. Primeiro com os amigos, o que ela entendeu não foi o que eles entenderam e ela foi parar em outro bar com o mesmo nome.

Gente estranha tinha por lá. Esperou, tomou uma cerveja, nada de chegarem, olhou o relógio, nada ainda, mais uma cerveja. Como era fraca para bebidas, já no final da segunda estava meio zonza, resolveu ir para a terceira, começou a rir de tudo que observava por ali.

Chegou um carinha na sua mesa, com uma dessas cantadas baratas e abobadas, mas como ela estava só, aceitou a cantada e que ele sentasse na mesa. Falaram do Japão, nenhum era japonês, e o lugar mais distante que ela conhecia era bem perto, mas atrevida que era, não se fez de rogada e do Japão falava sem parar e ria, porque quem bebe um pouco além da conta ri.

Lembrou da turma de amigos que nunca chegava. Pensou no celular, mas como de costume, sem bateria. Xingou as velhas gerações por não ter comprado aquele carregador que pode carregar em qualquer lugar, mas sabe como é, grana curta.

O carinha que só falava do Japão lá estava a falar sem parar e aquilo parecia uma boca nervosa que precisa ser calada e acalmada; sem pensar lascou-lhe um beijo. Há dois anos atrás ela jamais faria aquilo, mas agora, as águas rolaram e era só um beijo em uma noite de verão, em um alguém, sabe-se lá quem.

Ele ficou boquiaberto e ela foi embora, deixando a mesa e a conta para ele. Foi embora a pé, rodando aqueles bares, sem celular, cabeça acelerada, fala lenta.

Pensava nele, tinha saudades dele, do beijo dele. Não, não era do carinha de cinco minutos atrás não, aquilo era nada, era do outro, do antigo, do que grudava na sua pele, mas que estava longe, do que tinha a melhor pegada, pele a pele.

E esses amigos onde estão? Cabeça ia, vinha, voltava e vinham risadas, ânsia de vômito. Ela era fraca para beber, ficava engraçada, mas assim na madrugada, sozinha na multidão, com quem podia compartilhar?

Podia passar uma cantada e usar o celular de alguém, mas não adiantaria porque não sabia ‘de cór’ nenhum número. Eram quase três horas da manhã, resolveu andar e ir para a praça perto da faculdade, não tinha combinado de dormir na casa de ninguém, e não queria voltar para a casa da mãe porque garantiu que dormiria na casa das amigas.

Então, foi para a praça esperar o nascer do sol, a vista era linda! Já tinha feito aquilo uma vez com ele (ele de novo nos seus pensamentos), ela ria e tinha vontade de dançar, melhor não, estava zonza mas não totalmente sem juízo, dançar na rua era um sonho de infância, mas sem companhia não teria graça.

Na praça, sentou no mirante. Ela, o céu e um celular que tocou. Sim, tocou um celular que estava perto, ninguém ali, só ela, o céu e o celular.

Não atendeu. Tocou de novo. Atendeu: – Alô, não, não é ela. Não, não é ela que está falando. O quê? Como assim? Não, não sou. Ah, por favor, não sou, ligue depois.

Desligou, esperou e o sol começou a clarear o dia, assim como a mente clareava para seu estado normal.

Adriana Chebabi  – Bela Urbana, idealizadora do blog Belas Urbanas onde faz curadoria dos textos e também escreve. Publicitária. Curiosa por natureza.  Divide seu tempo entre seu trabalho de comunicação e mkt e as diversas funções que toda mulher contemporânea tem que conciliar, especialmente quando tem filhos. É do signo de Leão, ascendente em Virgem e no horóscopo chinês Macaco. Isso explica muita coisa. 

Fui sua inquilina durante 6 meses. Aluguei um quarto em sua casa. Excelente casa, confortável, clara e muito bem localizada. Falávamos pouco. Desde o começo falei que era ruim o meu inglês. Isso não nos impediu de trocarmos mensagens. Com o meu jeito de transformar os lugares onde moro, arrumei o jardim, recuperei o tampo de duas belas mesas. Ele ficou muito admirado e agradecido.

Pega de surpresa quando me comunicou a venda da casa, fiquei sem saber o que fazer e como tinha uma passagem já comprada para Portugal, resolvi mudar os planos, já que tentar alugar outro quarto na cidade onde estava era muito difícil.

Resolvi ajudar a desmontar algumas coisas na casa e ele mais uma vez se mostrou feliz com a parceria. O tempo que passamos na casa organizando a mudança, nos aproximou. Fiquei sabendo ser divorciado, dois filhos, dois netos. Vegetariano o que foi uma grata surpresa. Nos despedimos com um forte abraço.

Chegando a Portugal mantivemos contato e a cada cidade nova, mandava fotos e pequenas mensagens. Prometi que quando retornasse a Girvan faria um quiche para ele, depois de ter mandado uma foto de um projeto que não vingou.

O tempo me trouxe uma nova mudança de planos. Resolvi adiantar o meu retorno a Girvan para ficar mais tempo com os netos já que não queria turistar mais. Pouco dinheiro, saudades, solidão.

Quinze dias depois de estar ao lado da família, o que me recuperou as energias cem por cento, resolvi faZer o quiche e mandar mensagem a ele para cumprir a promessa. Não sabia se tinha alguém. Só o via sozinho. Fiquei na expectativa e joguei para o universo.

Ele pronto respondeu e disse que passaria a tarde para me rever e receber o presente.

Batidas na porta, sabia ser ele, nos abraçamos, senti que estava feliz em me rever. Fui pegar o quiche perguntei se queria entrar e ele diz que estava voltando do trabalho, outra hora entraria. Me perguntou se eu queria ir conhecer a casa nova. Como eu já tinha essa expectativa, tinha até me arrumado, aceitei o convite.

Fomos conversando o caminho de vinte minutos de estrada, chegamos a sua nova casa. Lindo lugar de frente ao mar, fazia frio como sempre, mas hoje sem chuva. Entramos, me mostrou toda a casa e pediu licença para tomar um banho. Fiquei observando tudo e excitada como uma adolescente.

Chegou mais confortável, me ofereceu um vinho e foi acender a lareira. O clima na Escócia e bem propício ao romance: frio, lareira, vinho e por último um jazz para ouvir. Montado o cenário. Resolvi contar histórias da viagem e mostrar fotos. Rimos do meu inglês precário e bem perto um do outro nos esbarrávamos, meio na brincadeira e por fim o olho a olho. O calor transbordou nossos corpos e nos beijamos com calma e deliciosamente. Gosto de vinho. Sua barba macia me aquecia ao toque das mãos. Ali ficamos meio sem jeito. Eu percebi o quanto era tímido.

Fomos comer o tão esperado quiche e bebemos mais um pouco. Lembro que há tempos falamos a respeito de bebidas e éramos iguais; uma ou duas taças de vinho, não mais. E assim foi.

Sentamos no chão no tapete em frente a lareira. Ele pegou a manta do sofá e nos envolvemos. Deitamos e fomos nos descobrindo no nosso tempo. Mas velhos como somos, já não rasgamos roupa ou as tiramos em desespero. Carinho, movimentos mais apreciados e ali realizamos nossa primeira noite juntos.

Na verdade não podia dormir naquela noite ali e mais tarde pedi que me levasse a casa. Já não sabia muito como agir. Pedir que ligasse, convidá-lo a jantar?

Nos despedimos com um carinho imenso. Me sentia enebreada de desejo, amor. Tudo junto e claro ansiedade.

No dia seguinte envie mensagem, logo cedo, agradecendo a noite e manifestando a vontade de estar com ele de novo. Não perdi tempo tentando achar o certo e o errado.

Novo encontro se deu num jantar preparado pela filha e o genro. Noite memorável, muitas histórias que ele nos contou por ser um eterno viajante. Nos despedimos de forma rápida e calorosa. Não iria para casa dele naquela noite.

Combinamos de fazer umas caminhadas no final de semana e assim foi. filha, genro e netos. Levamos um grande lanche e fomos por longos caminhos pelas matas da linda Escócia. Paramos por várias vezes por conta das crianças, mas dessa vez o inusitado do passeio era que eu tinha um companheiro, visto que sempre estava só.

Já tarde, retornamos e dessa vez os filhos foram e eu fiquei em sua casa. Banho tomado e cansados demais, apenas dormimos lado a lado. Eu vivia um sonho, agora acordada. Café da manhã, preguiça no corpo e um dia pela frente para relaxar e brincar de casal.

Nos identificávamos em muitas coisas e aprendíamos com nossas diferenças. Comecei a ficar mais tempo em sua casa. Os dias em que trabalhava a noite eu dormia na casa da filha.

O tempo passou rápido. Logo voltará ao Brasil para rever a filha, família e amigos. O que não esperava era sentir a saudade que me tomou por inteiro. Falávamos todos os dias e quando podia nos víamos por vídeo.

Já fazia planos de logo voltar quando fui surpreendida por um pedido! Depois de frases em um inglês escocês quase inaudível, entendi por fim que me pedia em casamento. Não acreditei e fiquei rindo, rindo e rindo. E disse yes, yes, yes!

Era Real? Jamais tinha imaginado isso, claro que o coração de uma eterna sonhadora, nunca descansa. Mas era sempre nos sonhos acordada que inventava belas histórias com finais felizes.

Agora era real. Eu já imaginava tudo; a festa, família, comidas, música e alegria. Mas o mais importante era pensar na cumplicidade de nos dois, já com uma estrada menor para percorrer, agora não mais sozinhos!

Maria Nazareth Dias Coelho – Bela Urbana. Jornalista de formação. Mãe e avó. É chef de cozinha e faz diários, escreve crônicas. Divide seu tempo morando um pouco no Brasil e na Escócia. Viaja pra outros lugares quando consigo e sempre com pouca grana e caminhar e limpar os lugares e uma das suas missões.

Como você é linda!
Foi assim que o relacionamento começou.
Já se passaram meses, e como ele é carinhoso!
Mig estava nas nuvens. Que homem incrível havia encontrado. Fiel, trabalhador, um eterno
romântico, sempre a elogiando, presenteando com chocolates e buquês de rosas vermelhas.
“A verdade é que ele a amava. Era intenso.”
Não demorou para as promessas de casamento começarem a lhe cobrir de esperanças, afinal,
Mig realizaria o sonho de constituir uma linda família, pois filhos também já tinham sido
cogitados.
Combinaram de sair, e Mig comprou um belo vestido, arrumando-se toda para agradar seu
amado. Pena ele não ter gostado tanto assim da sua produção, pedindo-lhe com todo carinho
que colocasse algo mais apropriado. “Que mal faria ela trocar sua roupa?” Jamais iria
contrariar seu agora quase noivo com uma bobagem dessa.
O tempo passou, e como ele se recusava a usar métodos contraceptivos (Mig entendia as
razões dele), não custou para que o primeiro filho chegasse.
“O casamento podia esperar”, disse ele.
Foram morar juntos.
Uma pena ele ser tão ocupado! Chegava todos os dias tarde, cansado sempre, não cuidava do
bebê, nem tampouco da casa.
Mig se desdobrava entre os afazares, o trabalho e a faculdade à noite, quando contava com a
ajuda de sua mãe e algumas amigas.
Mas essa situação ficou insustentável e, segundo ele, a faculdade podia esperar. Mig viu que
ele tinha razão. Trancou sua matrícula.
Outro ponto foi manter sua mãe e as amigas mais distantes, pois “viviam dando palpites e eles
acabavam sempre discutindo por isso”. Mig ficou triste, mas entendia as razões dele.
Estranho que ele andava nervoso, mas Mig sabia que era por conta do cansaço.
Passados alguns dias, todo carinhoso, sugeriu então que Mig largasse o emprego, pois assim
teria mais tempo e condições de cuidar dele e do bebê. Ela entendeu que ele estava fazendo
isso para o bem da família. E assim, pediu demissão.
Mas parecia que nada o agradava.
Até que um dia, sem mais nem menos, deu-lhe um tapa na cara, alegando que a comida não
estava quente. Ela chorou muito, mas não quis brigar.
Na manhã seguinte, ele pediu desculpas, chorou, implorou para que ela esquecesse aquele
triste momento. “Ele a amava e não faria de novo”. Claro que ela o perdoou.
Os episódios passaram a ser constantes… Descaso, humilhação, cobranças absurdas e muita
agressão física.

O pedido de perdão, com lágrimas e lamentos, tornou-se recorrente.
Mig não estava mais dando conta. Mas não tinha coragem nem força para tomar uma atitude,
inclusive porque não sabia o que fazer.
Mas o tempo a fez perceber que precisava terminar com ele, pois temia por seu filho também.
Foi aí que a tragédia aconteceu.
Por conta de não aceitar o fim do relacionamento, ele planejou o pior.
Esperou Mig dormir, jogou álcool sobre ela e ateou fogo.
Ela acordou em chamas. Com seus gritos de dor, uma vizinha conseguiu arrombar a porta e
socorrê-la.
Ele havia fugido para sempre.
Mig teve 80% do corpo queimado, seu rosto desfigurado e marcas psicológicas para sempre.
Precisou lutar pela vida.
Sobreviveu com garra! Hoje luta pela causa, para ajudar outras mulheres a não passarem pelo
que passou.


*Dados do DeltaFolha afirmam que “o Brasil registra 1 caso de agressão à mulher a cada 4
minutos.”
*Segundo a ONU (Organização das Nações Unidas), “7 em cada 10 mulheres no planeta foram
ou serão violentadas em algum momento da vida”.
*Segundo o Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos, “a quantidade de
denúncias de violência contra as mulheres recebidas no canal 180 cresceu quase 40%
comparando o mês de abril de 2020 e 2019”. (saude.abril.com.br)

Disque 180. Denuncie. Vá até a Delegacia da Mulher (ou delegacia mais próxima) e preste
queixa.
Disque 190 – Polícia Militar para atuação emergencial.


Simara Bussiol Manfrinatti Bittar – Bela Urbana, pedagoga, revisora, escritora e conselheira de direitos humanos. Ama o universo da leitura e escrita. Comida japonesa faz parte dos seus melhores momentos gastronômicos. Aventuras nas alturas são as suas preferidas, mas o melhor são as boas risadas com os filhos, família e amigos.

E assim começou: declaração da pandemia, quarentenas, bagunça geral.

Histórias parecidas no mundo todo, não importa onde vá, seja rico ou seja pobre, more na Suíça ou na Índia, o assunto da moda é sempre o mesmo. Distância social, máscara, lave a mão, não toque o rosto, use álcool, não tem álcool, e agora? Tem vacina? Não. Quanto tempo demora? Especulação.  

Teorias de conspiração chegam rápido. Acusam os chineses, CIA, Bill Gates, indústria farmacêutica. Até rede de celular 5G entrou na lista de culpados.  Muitos se ocupam debatendo o que não importa. Ajuda a passar o tempo.

Nossos líderes, eleitos democraticamente, mostram para que vieram.  Seja Trump, seja Bolsonaro, parece que só muda o endereço. Arrogância, discórdia, guerra de egos, desunião.  Trump chama o vírus de “inimigo invisível”, mas esquece esse não recua com ameaça, embargos nem bomba atômica.

Penso que o buraco é muito mais embaixo. Penso que a crise de liderança reflete uma crise de valores e pode ser tão devastadora quanto o vírus.

Também penso nas consequências de longo prazo dessa crise.  Nos Estados Unidos uma das principais causas de mortalidade de jovens e adultos de meia idade inclui uso de drogas e suicídio. Chama-se “Deaths of Despair” (mortes do desespero). Acho que um dos efeitos colaterais da quarentena será um agravamento dessa situação. 

Penso nas crianças de rua, ou crianças com pais alcoólatras ou narcóticos, agora juntos, debaixo do mesmo teto, 24 horas por dia. Antes da pandemia muitas dessas crianças iam a escola onde encontravam um ambiente estável. Hoje não é possível. Mais um efeito colateral da quarentena. Acho que estamos vivendo algo que assistiremos em filmes daqui alguns anos. Fico pensando se no final das contas teremos mais gente em hospitais psiquiátricos do que nas UTIs. Mas essas estatísticas não dão muito ibope. Além do mais, esses efeitos colaterais chegam mais tarde, depois das eleições. 

Ao mesmo tempo, penso no lado positivo. Somos seis bilhões de pessoas lutando contra o mesmo vírus, passando pelos mesmos problemas. Que oportunidade melhor do que essa para enxergarmos que temos muito mais em comum do que diferenças?

Não temos controle nem sabemos que rumo que essa pandemia vai tomar. Mas uma coisa é certa, temos total controle das nossas atitudes. Penso que nas horas difíceis, de crise, é que temos a oportunidade de aprender (na marra). Temos a oportunidade de ver o mundo (e a nós mesmos) com outra perspectiva. Quem sabe nos tornarmos pessoas melhores.

No final das contas, não precisamos fazer nada grande ou tentar mudar o mundo. Posso fazer coisas pequenas, todo dia, que não custam nada e contribuem para um mundo melhor. Sorrir para o vizinho, porteiro, ou desconhecido na rua, usar palavras gentis, praticar empatia, não julgar, não tentar mudar o que é imutável, aceitar a situação, por pior que seja, e usá-la para algo bom.

Alice Chebabi – Bela Urbana, 38 anos, mãe, esposa, natural de Campinas, mora em Houston, Texas, onde é diretora de desenvolvimento de projetos. Adora trabalhar, jogar squash, ir ao cinema, brincar com seu filho Lucas e aprender coisas novas.

Gente, aqui na rua de casa já estávamos todos aguardando o falecimento da Dona Alba. Não era idosa ainda, beirava os 59 anos, mas já tava bem doentinha, tadinha. Tinha diabetes, pressão alta, trombose, diverticulite, gastrite, teve pancreatite, tendinite, bursite, frescurite, reumatismo, dor de dente, derrame, enfarte; fumava dois maços de cigarros por dia, era obesa, além de gostar de uma pinguinha. Bateu com as botas ontem, coitada. Nem fizeram autópsia, morreu dormindo e feliz. Foi pro céu, que Deus a tenha. Família foi pegar atestado de óbito e constava na causa mortis: Covid 19.
Todo mundo achou estranho, afinal estavam todos engaiolados há mais de 20 dias…vizinhos levando marmita… Mas acabaram ficando felizes. Na capa do jornal da pequena cidadezinha, pelo menos Dona Alba foi homenageada. Saiu até foto dela com os gatos! Tudo bem que morreu de outros “probleminhas”, já tava na sua hora, mas se não fosse o tal do “coronga”, não teria saído na capa do jornal. E esse era esse seu maior sonho: sair no jornal com foto dos seus bichanos, Frederico e Odorico.

Angela Carolina Pace – Bela Urbana, publicitária, mãe, tem como hobby estudar Leis. Possui preferência por filmes de tribunais de todas as áreas jurídicas.

Pensei em escrever sobre a quarentena, sobre o medo, sobre o amor, sobre a solidariedade, sobre um papa idoso que caminha sozinho, por uma grande praça, levando consigo a fé de milhões, sobre os números do coronavírus, que sobem e descem nos noticiários, sobre a morte…. mas, no fundo, tudo se resume à vida. Tudo o que fazemos é para mantê-la, preservá-la, esticá-la. Como não sabemos muito sobre o além morte, penso no que sabemos sobre a vida, no agora. O imenso privilégio de tê-la, seja do jeito que for:

A vida, solteira, que está presa em quarentena num apartamento na cidade grande, escuta ressabiada o silêncio das ruas e, em contrapartida, encanta-se ao ouvir as aves (elas sempre estiveram lá, mas ninguém francamente prestava atenção); como quase não há conversa, a não ser as virtuais, a vida presta mais atenção nos sons internos (do corpo e da mente) e cria uma rotina dentro do casulo em que está vivendo. Ela compartilha com seus vizinhos idosos a compra do supermercado e se espanta com todas as lojas fechadas – como se ela estivesse em um filme de ficção científica, ao vivo e a cores. Ela pisa no acelerador e volta para casa, onde se senta no sofá e vê séries variadas.

A vida, casada, faz cabaninha na sala com os filhos e vez ou outra olha para o marido com cara feia, pois é a vez dele fazer o jantar e parece que já se esqueceu disso também: assim como das toalhas molhadas em cima da cama, de lavar a louça do almoço… A vida ama sua família, mas seu dia a dia é tão corrido, que ela não presta tanta atenção assim nem em si mesma.
Agora tem opiniões formadas e duradouras sobre o homeschooling (quem inventou essa barbaridade??) e está, aos poucos e na prática, ensinando o marido quarentão que não é um favor o homem lavar a louça e dar banho nos filhos. Agora ela senta na cama e conta histórias para os filhos dormirem.

No meio do mato, na pequena casinha caiada, não há espelhos, então a vida presta atenção nos rostos das pessoas que estão ali com ela. Todos os dias, a vida persegue uma bela borboleta amarela que insiste em botar seus ovos no pequeno pé de maracujá: a vida respira e separa as lagartas das folhas, sem violência, mas desejando que busquem outro lugar para se alimentar e não aquele pezinho combalido que só tenta crescer e deitar suas flores para o céu. Todos os dias, a vida persegue uma galinha meio branca e preta – como um sorvete de flocos – porque ela insiste em atacar os canteiros recém lavrados. A galinha sempre volta, no entanto: acho que se diverte com os gritos histéricos que a vida às vezes dá. Todas as tardes, ela recebe a visita de três cães das redondezas, os quais insistem em fazer xixi nos canteiros. E a vida segue gritando com eles também, porém os danados sempre voltam, talvez em busca de mais gritinhos histéricos. A vida monta uma rede embaixo de uma velha e grande árvore e se deita, nos dias quentes, matizada pelos raios de sol que escapam por entre as folhas.

Até onde a vista alcança é verde. Verde que se refaz em certos lugares pelo mundo. O céu é azul como deveria ser em todas as cidades (e alguns cidadãos têm redescoberto suas próprias cores porque a poluição diminuiu de maneira considerável). Agora chove lá fora, uma chuva mansa, dessas que lavam e levam o ruim embora. A vida reconhece o privilégio de estar
protegida no mato ou protegida dentro de um apartamento, neste momento, e sabe que há outras vidas perdidas, sem rumo, vivendo num fio que balança. Mesmo assim, essas vidas passaram a ser olhadas para além de pastorais e de ONG´s: pessoas comuns e extraordinárias saem para as ruas e simplesmente veem a vida no meio fio e dialogam com ela: se não há
abraços, há sorrisos; o calor do corpo é substituído pelo calor da comida que chega quente, afeto que vêm de outra forma. A vida se parece com a música Adágio for Strings: seiva poderosa em raízes velhas, o vento que nunca se cansa, o momento em que achamos que não dá mais e depois nos surpreendemos porque enquanto há vida, estaremos lá, seja do jeito que
for, à disposição dela. Ela pode ser feita de vento, sol, tempestade, areia… ela existirá enquanto houver esse pulsar dentro dos corpos, essa pulsão pelo conhecimento, essa luta por quem precisa, essa preocupação com o outro, esse desejo de sair e de ver o mundo… É a vida que se reconhece através de um outro olhar e que recomeça, hoje e sempre!

Natalia kuhl – Bela Urbana. professora, leitora entusiasta de diversos tipos de escrita, amante de músicas – nem sempre clássicas. Falante e com memória seletiva. Raivosa diante da injustiça e amiga de coração aberto. Escrevo muito para mim mesma e canto no chuveiro.

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Não sei se foi o tempo nublado, a chuva fina que caía, os armários brancos e a pedra preta na cozinha ou o vento fresquinho que soprava através da cortina…. O fato é que segunda passada fui fazer um café à tarde e, de repente, por um segundo, uma fração de segundo, eu não estava aqui. Eu estava lá, no apartamento de São Paulo, na João Julião.

O tempo parou e me ofereceu seu ombro. 

Finalmente pude descansar meu coração, meus olhos, no exato momento que repousei minha cabeça em seu ombro.

Finalmente as sensações de paz, de aconchego, segurança e felicidade há muito desconhecidos. Finalmente.

Apenas uma centelha divina que o tempo me ofertou. Apenas uma saudade matada de forma deliciosa.

E essa sensação ainda me acompanha, quase uma semana depois – não posso e não quero perdê-la. 

Que abraço mais amigo que o tempo me deu!

Naquele microssegundo, minha mãe e minha tia estavam na sala, fazendo os bordados de ponto cruz, falando amenidades e esperando o meu café…

Voltei para a sala, já neste tempo e neste lugar – meu lugar – e me deliciei com o amor imenso que se apoderou de mim.

A única testemunha foi a Nina. Quietinha, mas tenho certeza que seu coraçãozinho também entendeu aquela magia que aconteceu.

Nada deveria ser acrescentado ou tirado daquela centelha divina. Foi perfeito.

E, como num delicioso passe de mágica, à noite sonhei que estava na cozinha fazendo um bolo com a mamãe.

Talvez porque tenho sentido uma vontade grande de fazer o “bolo de aniversário” que, mesmo fora de datas específicas, às vezes fazíamos. Com camadas de recheio, leite condensado cozido, creme holandês com morangos, glacê de antigamente, chocolate branco.

O fato é que este ombro tão carinhosamente me ofertado, deixou saudades. Mas saudade da boa, daquela que provoca um leve sorriso e brilho nos olhos.

Saudade da boa! 

Ruth Leekning – Bela Urbana, enfermeira alegremente aposentada, apaixonada por sons e sensações que dão paz e que ama cozinhar.  Acredita que amor e física quântica combinados são a resposta para a vida plena. Louca pela Nina  (na foto, já com 15 anos )

Sonho sonhado, vivido, compartilhado.

Sonhei então que entrava num prédio, subia as escadas, entrava num elevador daqueles antigos, todo de madeira escura, lindo.

Saia dele e entrava na redação de um jornal, mesas também de madeira escura, muitos papéis em cima, textos escritos nas máquinas de escrever antigas, pesadas e lindas, desenhos e mais desenhos pendurados, caricaturas, artes, charges, imagens do cotidiano saídas das cabeças incríveis de cartunistas famosos Glauco, Caruso, Quino, sim Quino.

Era uma mistura de Folha de São Paulo, Estadão e Correio Popular, aquele mesmo, famoso e antigo jornal da minha cidade natal, Campinas.

Jornal este muito conhecido e respeitado na região onde hoje, acabado, arrasado, desrespeitado, humilhado por muitos que vejo dizendo: “está quebrado coitado, esse já era, acabaram os jornais, hoje é só internet e olhe lá”!

E me vem aquele cheiro de papel, de tinta de impressão, de sorrisos, risadas na redação, brincadeiras mil, de gente de peso, artistas, jornalistas, repórteres, escritores, a mulher do café, a faxineira que lá trabalhava alegre, feliz ao meio de toda aquela gente maravilhosa e linda, e me vem as lágrimas agora me escorrendo pelo rosto enquanto escrevo, me vem a tristeza da alma.
Um jornal, uma época inesquecível, onde todos os dias se reuniam amigos sinceros, jornalistas, fotógrafos, publicitários que também andavam por lá, os tais vendedores de espaço, contatos, um corre corre danado, louco atrás de matérias e notícias quentes do dia…
Tudo isso se foi, acabou!
O tempo passou, levou e deixou em nossa memória.
Me vejo chegando nesse sonho de novo no jornal, na redação, cumprimento feliz um amigo cartunista, olho para o lado e pendurada num móvel junto de tantos outros desenhos lá estava eu, desenhado em minha visita anterior, minha caricatura, estampada num trabalho que ficará para sempre, enquanto o papel existir, enquanto o jornal não acabar, enquanto a janela não quebrar e o vento entrar e levar tudo para os ares, para o passado que vejo hoje distante, quase esquecido…
O tempo que leva tudo, que acaba com tudo, mas que não apaga da nossa triste e feliz memória.
Saudades restaram, apenas elas…

Mauro Soares – Belo Urbano, publicitário, diretor de arte e criação, ilustrador, fotógrafo, artista plástico e pontepretano. Ou apenas um artista há mais de 50 anos.

foto: Mauro Soares