(Só leia esse texto se você for vítima da sociedade padronizada ou já tiverem te mandado sentar como Mocinha)

Estou farta, arrotando pelos cantos. Vítima da sociedade. 
Por quanto tempo mais terei que aguentar o dedo do jovem branco apontando pro meu cabelo afro? Quantas vezes vou ter que ouvir que eu ”não sou tão negra assim”? Quantas lojas eu vou ter que entrar para ser tratada como cliente e não como funcionária?
Estou farta! E não é pouco. Arrotando pelos cantos.
Cansada de ouvir que eu tenho que me desdobrar ao quintos pois sou mãe solteira. Tendo que conviver com a opinião de quem não me sustenta, dizendo que a responsabilidade da mãe é maior do que a do pai (oi?).
Por quantas vezes mais vou ter que me calar pra não ofender o outro? Quantas vezes vou ter que engolir seco a cantada de quem esta ali só para comer sexualmente o outro como um predador?
Quantas vezes vou ter que ouvir da mídia, do homem e da sociedade que meu quadril largo é ótimo pra procriar mas não constituir família?
Quantas vezes mais vou ter que ouvir do policial e do confidente qual era roupa que eu estava usando quando fui estuprada?
Até quando vou ter que aguentar ouvir que apanhei do namorado por que ele perdeu o controle e se exaltou, mas não foi por querer?
Por quanto tempo vou ter que levar meu filho no colo em pé no transporte pra não ser hostilizada por quem trabalhou o dia inteiro e está sentado no banco prioritário?
Quantas vezes vão me mandar sentar igual mocinha e ter a força de um bruto?
Quantos ‘Nãos’ eu vou ter que ouvir nas entrevistas de emprego por ter tatuagem, por ter filho, por ser solteira, por ser gorda, por ser mulher?
Tá doendo?
Em mim não dói nada. Não mais!
A sociedade me deixou assim, o soco na face me deixou assim. Aquele grupo de brancos me chamando de macaca, aqueles homens que eu atendia no restaurante insinuando sexo oral, aquele cara que me forçou pra ir além, aquela mulher que me olhou da cabeça aos pés e disse que eu não tinha o perfil, aquela empresa que preferiu um homem ou uma mulher sem filhos, aquela revista que disse que o manequim tinha que ser 38, aquele fora da família do namorado branco, aquela pessoa que eu achei que estava tendo um papo legal e logo já me mandou fotos obscenas, me deixaram assim.
Eu sou a Gi, eu sou a Mãe do Noah, eu sou aquela que escreve legal e os amigos gostam.
Eu sou a estatística, eu sou o vácuo, o grito abafado da dor, o sorriso amarelo, o “está tudo bem” disfarçado.
Eu sou mulher, eu sou filha, sou mãe, sou preta, sou gorda, sou tatuada, sou gente e não me calo.
Porque estou farta.
Farta e arrotando pelos cantos.
Digerindo o teu ódio e vomitando poder pra quem quiser ver.
Mandando nudes da alma pra quem pedir.
Essa sou eu.
Só mais um número na multidão.
Farta de toda pressão que aos poucos está me mutilando.
Farta e arrotando pelos cantos.

 

Gi Gonçalves – Bela Urbana, mãe, mulher e profissional. Acredita na igualdade social e luta por um mundo onde as mulheres conheçam o seu próprio valor. 

Este texto, assim como vários outros, não é para te dar uma conclusão fechada. É simplesmente para expor um assunto tão em voga e que nesta semana fez parte da discussão com os amigos nesta semana. Somos todos bem instruídos (pelo menos é isso que se espera de uma faculdade), leitores ávidos, cheios de opinião… por natureza e por profissão (jornalista costuma querer saber de tudo, entender tudo e “pitacar” sobre tudo). Vamos lá: a palavra da vez é ASSÉDIO SEXUAL!!!

Nada muito inédito, mas sempre comentado, principalmente quando é escancarado pela mídia pelo assediador (a) e vítima serem “famosos”. Mas quantos não famosos sofrem isso diariamente em casa, na rua, no trabalho até mesmo em seus relacionamentos. A gente tem a falsa impressão de que o assédio ocorre apenas em casos de maior hierarquia e que o assediador é sempre um homem. ERRADO. Tudo bem que acredito que nós mulheres somos muito mais assediadas do que os homens, mas mulheres têm assediado cada vez mais (conheço pelo menos três casos e um deles foi cometido por uma subalterna).

Mas voltando à discussão com os amigos: como definir e caracterizar o que é ou não assédio. Eu sou muito brincalhona, cumprimento todos com beijos e abraços. Um beijo e um abraço podem ser assédio? A resposta veio com exatidão de um dos meninos: Depende de quem recebe. Se gostar, não é. Se não gostar, é. Mas como assim? Outra resposta básica: se o cara ou a mulher te cantam e você tem pré-disposição, você jamais veria isso como assédio, e sim como flerte. Agora, se você não tem interesse por qualquer motivo, você vê como assédio e denuncia (se tiver coragem).

Tenho certeza de que a linha de divisão entre um flerte, uma brincadeira e assédio é muito tênue e fácil de ultrapassar. E ainda estamos aqui, pensando, sem ter uma opinião clara de um código de condutas que defina o que é ou não assédio sexual. É claro que excluímos dessas dúvidas ações explícitas como toques inapropriados, em partes íntimas por exemplo, ou abuso de poder mesmo, com palavras, na lei do toma lá, dá cá. A dúvida é mesmo nas ações mais sutis: olhares, abraços mais demorados, carinhos no cabelo, brincadeiras…

Segundo o Aurélio, assédio é “pôr assédio, cerco a; perseguir com insistência, e/ou importunar com tentativas de contato ou relacionamento sexual”. Ok, nós aqui estamos no caminho certo… Mas por que é tão difícil discriminar as ações quando elas não são explícitas? Seria tudo uma questão de percepção?

Essa discussão é sem fim. A única certeza que tenho é que, mais uma vez, como quase todos os problemas do país, a solução está no respeito ao próximo e na educação social. Muitos de nós, enquanto sociedade, temos que parar cultuar assediadores. Não são raros os casos de famosos ou pseudos famosos nacionais e internacionais que são acusados de agredir suas companheiras e que continuam a ser admirados pelo público.

Sonhadora que sou, espero que não tenhamos mais que nos deparar com outras Su Tonanis e Zé Mayers num futuro bem próximo. Mas essa é a parte do sonho e dos meus eternos óculos cor de rosa.

Marina Prado – Bela Urbana, jornalista por formação, inquieta por natureza. 30 e poucos anos de risada e drama, como boa gemiana. Sobre ela só uma certeza: ou frio ou quente. Nunca morno!

shutterstock_180764270 mulher

Algumas histórias simplesmente acontecem e nunca são contadas, ou são contadas para poucos e se tornam segredos… O assédio sexual é particularmente torturante por colocar a vítima no papel de culpada, algumas histórias foram contadas a mim no decorrer de anos e eu coloco aqui alguns casos:

  1. Aos doze anos, corpo de moça formado, mas criança ainda, ela um dia acompanhou a mãe ao médico. Em um momento sozinha com o médico, este lhe pediu que se aproximasse e, não vendo maldade, ela se levantou e foi até ele. Para sua surpresa ele a abraçou de modo constrangedor e deu um beijo em seu seio pré-adolescente por sobre a blusa… Ela não soube o que fazer, sentiu vergonha, ficou imaginando se tinha entendido errado aquele gesto desconfortável e só queria sair de lá… Mais de trinta anos se passaram e um dia o médico foi preso por assediar uma paciente de 15 anos durante um exame, mas a testemunha, secretária do médico, foi desacreditada por ter trabalhado como recepcionista em uma casa noturna e a justiça determinou que o exame do médico exigia mesmo umas apalpadas sem-vergonha… Ela acompanhou tudo pelo jornal imaginando se era hora de se manifestar, mas nada fez.
  2. No dia de seu casamento, o dia mais feliz de sua vida, radiante, ela levou uma cantada desagradável de um sujeito que ela acreditava ser amigo, não havia nenhum engano e foi desumano… Ela não soube o que fazer e nada contou.
  3. Quando começou a trabalhar, um colega perguntou, do nada, se ela toparia ter um caso… Era seu segundo dia no trabalho. Ela não soube o que fazer, será que ela tinha provocado a situação sem perceber?
  4. O noivo da melhor amiga lhe lançava olhares desconcertantes… Ela não soube o que fazer e nada contou. Anos mais tarde, sua sobrinha lhe disse que o mesmo sujeito a olhava de maneira estranha e desconcertante, mas a sobrinha temia estar fazendo mal juízo dele. Então ela disse para a sobrinha o que fazer. Acredite sempre na sua intuição!
  5. No dia do vestibular, a amiga foi ao banheiro sozinha… Sabe-se que mulheres vão ao banheiro em bando, é piada, o que elas fazem? Fofocam? Mas a amiga foi sozinha, o banheiro do Campus estava vazio exceto por alguém… Nesse dia a amiga foi estuprada e morta antes de prestar vestibular. O assassino nunca foi preso.

Não, amiga, garanto, você não é responsável pelo assédio que sofre, o culpado é quem assedia. Você não está fazendo mal juízo de alguém. Se você tem motivo para desconfiar, tenha certeza! Uma pessoa de bom caráter saberá te conquistar, o mau caráter só quer te agredir para dar prazer a si mesmo.

Um último conselho: Continue indo para o banheiro com as amigas, vocês colocam o papo em dia e se protegem, deve haver uma razão histórica para esse nosso ato.

IMG_0514 foto nova Synnove

Synnöve Dahlström Hilkner É artista visual, cartunista e ilustradora. Nasceu na Finlândia e mora no Brasil desde pequena. Formada em Comunicação Social/Publicidade e Propaganda pela PUCC. Desde 1992, atua nas áreas de marketing e comunicação, tendo trabalhado também como tradutora e professora de inglês. Participa de exposições individuais e coletivas, como artista e curadora, além de salões de humor, especialmente o Salão de Humor de Piracicaba, também faz ilustrações para livros. É do signo de Touro, no horóscopo chinês é do signo do Coelho e não acredita em horóscopo.  

 

shutterstock_260224184 (1) mulher em pose de luta

Outro dia, numa conversa sobre feminismo, me disseram que se eu não julgo que sou inferiorizada por ser mulher é porque fui programada por uma sociedade machista e sou uma vítima de minha própria história.

Desculpa, mas tenho que discordar. Não vou dizer que somos tratadas como iguais em muitas circunstâncias, mas jamais vou me considerar ou agir como vítima. Já passei por algumas situações constrangedoras por ser mulher e talvez alguns desavisados me considerarem frágil e se atreverem a um avanço não solicitado, mas acho que o que nos faz mais vítima de uma situação é a forma como lidamos com ela.

Sou uma pessoa muito expansiva e carinhosa com àqueles que conheço e muitas vezes isso foi confundido. Muitas vezes tive que “desenhar” para amigos ou colegas o tipo de relação que tínhamos… desagradável, sim, mas sempre fui muito clara com as pessoas e isso sempre deu certo.

Há alguns anos passei por uma situação um pouco mais delicada. Eu trabalhava com uma amiga e tinha uma ótima relação com a família dela. O marido e o pai dela sempre me davam carona ou me levavam o que comer quando ficava presa no trabalho. Um dia, como estávamos com os horários muito apertados, ela pediu para o pai me levar em casa para ser mais rápido. Pois bem, no meio do caminho ele simplesmente enfiou a mão com toda força nas minhas pernas. Levei um susto enorme e na hora falei um monte para ele. Deixei bem claro que ele não tinha o direito de fazer aquilo e confesso que nunca mais troquei uma palavra com ele. Não contei para minha amiga. Não por vergonha, mas por saber que àquilo machucaria mais a ela do que a mim.

Fui vítima?! Talvez da ignorância e do machismo dele,um homem bronco que talvez achasse que podia tornar para si tudo que queria. Mas não me considero vítima no sentido estrito da palavra, pois reagi na hora e disse para ele tudo o que eu achei que ele precisava escutar.

Não temos os mesmos direitos ainda. Trabalhamos muito mais para provar que somos competentes, mas antes de sermos vítimas, somos guerreiras! Não preciso que ninguém me diga o que posso ser ou não, como devo ou não me sentir, sejam machistas ou feministas.

Tenho direito de não me sentir oprimida e de ser responsável por cada vitória minha! Rótulos não me servem!

Que me desculpem as feministas.

11153459_418305808342065_1335618606_o - foto Adriana Rebouças

Adriana Rebouças – Formada em Publicidade. Cursou gastronomia no IGA – São José dos Campos Publicitária de formação e Chef por paixão. Sócia do restaurante chama EnRaizAr e fica dentro de um espaço de yoga e terapias que se chama Manipura em São José do Campos – SP.

shutterstock_323363765 painel homem e mulher

Estava nos primeiros dias do ano letivo. Casa nova, colégio novo.
Por volta de 6h30min descendo a avenida Ângelo Simões em Campinas, fumando um cigarro ( sem motivo algum pra me ‘aparecer’, não tinha uma alma viva na rua), 16 anos, segunda série do ensino médio.
Um cara de meia idade surge, pergunta as horas e respondo não ter relógio. Ele pede um cigarro, me viro pra retirar um da bolsa, quando fui surpreendida por um “abraço”, onde seu braço envolvia minha cintura e sua mão fechada me forçava a costela esquerda.
Desesperada, tremendo, tentando manter a calma e olhando ao redor, procurando qualquer outro ser humano, recebo a primeira frase:
– Se der algum sinal, te mato!

Entre súplicas e pedidos para que ele me deixasse ir, um carro passa lentamente, ele sorri e o carro segue adiante.
Chegamos em um balão, ele se vira, ainda na posição onde me prendia pela cintura e aponta para um matagal, onde pronuncia sua segunda frase:
– Nós vamos ali.
Desisto de manter a calma, caio no choro e começo a implorar freneticamente pra que me solte. Ele ri e pronuncia sua terceira e última frase:
– Ta chorando por quê? Fica quietinha…
Ao atravessar a rua, o braço dele se cansa, e ao tentar retomar a força, consigo me soltar e corro como nunca corri na vida, chego em uma padaria e não consigo explicar nada, é um misto de choro com um enjoo que não passaria tão cedo.

Esse foi o ‘primeiro’ assédio que me marcou.

Não que eu nunca tenha sido desrespeitada antes.
Não que algum cara nunca tenha me mostrado sua genitália.
Não que um (s) cara (s) nunca tenha (m) me encoxado no transporte público e certa vez até iniciado uma masturbação, sim, no transporte público e lotado.
…. As histórias são muitas.
Eu tive sorte na primeira vez, se é que posso dizer isso.
Aprendi que não devemos nos calar.

Mulheres, se ajudem, não se calem, a culpa nunca é da vítima.

7_2053_31414ft foto Karla

karla Ferreira – Escorpiana, de personalidade forte, não gosta de nada que não seja intenso, tem preguiça de pessoas insossas. Para ela cada dia é uma batalha, vive profundamente e tem horror ao tédio.